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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a03img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="3">ANTROPOLOGIA</FONT></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a03img02.gif"></p>     <p><FONT size="4"><b>Mito ou identidade cultural da pregui&ccedil;a </b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="3">A imagem de pregui&ccedil;oso que o baiano tem, seja na literatura    ou no imagin&aacute;rio popular, foi constru&iacute;da ao longo da hist&oacute;ria.    Foi este o ponto de partida da pesquisa da antrop&oacute;loga Elisete Zanlorenzi,    em sua tese de doutorado defendida em 1998, na USP, sobre "O mito da pregui&ccedil;a    baiana", que deve transformar-se em livro este ano. O interesse pelo tema come&ccedil;ou    quando Elisete morava em Salvador, entre 1980 e 1984, e acompanhou uma campanha    difamat&oacute;ria comandada pela m&iacute;dia local sobre o movimento do bairro    Calabar, criado a partir de uma ocupa&ccedil;&atilde;o na d&eacute;cada de 1940    em uma regi&atilde;o nobre da capital baiana. "Os moradores batalharam e conseguiram    &aacute;gua, esgoto e luz para Calabar. Mas a imprensa mantinha a imagem de    que eram vagabundos, pregui&ccedil;osos e criminosos", lembra Elisete, que focou    seu trabalho na representa&ccedil;&atilde;o do trabalho e do tempo. </FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a05fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="3"><b>DISCURSO DA ELITE</b> A pregui&ccedil;a baiana foi um perfil    constru&iacute;do historicamente e refor&ccedil;ado pela m&iacute;dia, que reproduz    os interesses da elite. Desde o s&eacute;culo XVI, a elite local depreciava    os negros escravos, descritos como desorganizados e sujos, depois como analfabetos    e sem conhecimento, e, finalmente, como pregui&ccedil;osos. A famosa Ladeira    da Pregui&ccedil;a, em Salvador, ganhou este nome por ter sido a via de acesso    de mercadorias vindas do porto para a cidade, levadas em carret&otilde;es puxados    a boi e empurrados por escravos. Do alto de seus casar&otilde;es, ao verem os    escravos tomando f&ocirc;lego para subir com sacos de 60 quilos nas costas,    as elites gritavam: "sobe, pregui&ccedil;a! sobe, pregui&ccedil;a!". </font></p>     <p><FONT size="3"> Essa foi uma forma de interioriza&ccedil;&atilde;o da domina&ccedil;&atilde;o,    no per&iacute;odo da escravid&atilde;o. Depois, a deprecia&ccedil;&atilde;o    assumiu a forma da exclus&atilde;o. O mesmo aconteceu com negros, &iacute;ndios    e imigrantes nordestinos, nas regi&otilde;es Sul e Sudeste, quando, a partir    da d&eacute;cada de 1950, intensificou-se a imigra&ccedil;&atilde;o. A imagem    de pregui&ccedil;oso espalhou-se. Chamados genericamente de "baianos", os imigrantes    eram, em sua maioria, mesti&ccedil;os, afro-descendentes, oriundos de fazendas    afetadas pela seca e sem qualifica&ccedil;&atilde;o profissional. O nordestino    foi responsabilizado por todo o caos urbano sem, ao mesmo tempo, ser lembrado    em nenhum projeto de inclus&atilde;o social. </FONT></p>     <p><FONT size="3">"Depreciar era uma forma de justificar baixos sal&aacute;rios    e falta de investimento", esclarece Elisete. O soci&oacute;logo Octavio Ianni    (1925-2004), um dos examinadores da banca de doutorado da antrop&oacute;loga,    destacou que a tese mostrava a forma sutil de racismo a negros e nordestinos.    "Quando se folcloriza, o discurso se desloca da realidade e ganha vida pr&oacute;pria,    criando uma for&ccedil;a at&eacute; maior em rela&ccedil;&atilde;o ao discurso    inicial", explica Elisete, professora da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais    da PUC-Campinas. </FONT></p>     <p><FONT size="3"><b>RITUAIS RELIGIOSOS</b> No candombl&eacute;, ela identificou    outra raiz dessa imagem, pois &eacute; "uma cultura onde o trabalho n&atilde;o    se contrap&otilde;e ao tempo livre, nem &eacute; uma obriga&ccedil;&atilde;o,    como no capitalismo", explica. No candombl&eacute;, o trabalho &eacute; s&oacute;    um dos aspectos da vida, al&eacute;m do lazer, da fam&iacute;lia e dos amigos.    Na sociedade capitalista chama-se de pregui&ccedil;a o trabalho que n&atilde;o    acumula capital. Por esse mesmo motivo, o &iacute;ndio, que produz para a subsist&ecirc;ncia,    tamb&eacute;m carrega o mesmo estigma de pregui&ccedil;oso, diz. </font></p>     <p><FONT size="3"><b>IMAGEM NA M&Iacute;DIA</b> Elisete verificou que a pregui&ccedil;a    foi associada ao migrante nordestino que, com a constru&ccedil;&atilde;o da    rodovia Rio-Bahia, passou a integrar o cen&aacute;rio das grandes cidades do    Sul-Sudeste do pa&iacute;s. Tr&ecirc;s grandes jornais da &eacute;poca, ela    constata, reproduziam o discurso social mais amplo, refor&ccedil;ando a imagem    da pregui&ccedil;a associada a nordestinos. Outra constata&ccedil;&atilde;o    foi que a m&iacute;dia passou a repercutir o discurso tur&iacute;stico, quando    nos anos 1960 o pr&oacute;prio governo baiano passou a explorar a imagem da    pregui&ccedil;a. Nessa &eacute;poca, a ind&uacute;stria do turismo investiu    no slogan da Bahia paradis&iacute;aca, para onde deve ir quem n&atilde;o quer    trabalhar, onde a festa nunca acaba e ningu&eacute;m usa rel&oacute;gio. </font></p>     <p><FONT size="3"> "A pregui&ccedil;a &eacute; quase um arqu&eacute;tipo da civiliza&ccedil;&atilde;o    brasileira", define o professor Marcos Costa Lima, da Universidade Federal de    Pernambuco (UFPE). Em S&eacute;rgio Buarque de Holanda, essa caracter&iacute;stica    vem de fontes ib&eacute;ricas. </FONT></p>     <p><FONT size="3">Na literatura, M&aacute;rio de Andrade personificou tudo isso    em <i>Macuna&iacute;ma</i>. Chico Buarque enxergou os mesmos tra&ccedil;os no    malandro carioca, avesso ao trabalho. Lima lembra ainda de Jo&atilde;o Ubaldo    Ribeiro, em <i>Viva o povo brasileiro</i>, que tamb&eacute;m fala do nosso perfil    pregui&ccedil;oso. Ariano Suassuna criou personagens avessos ao trabalho em    <i>O auto da compadecida</i>. "Esse mito &eacute; muito forte, sob o qual vivemos    &agrave; sombra. &Eacute; o discurso do colonizador", conclui o professor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="right"><FONT size="3"><i>Adriana Menezes</i></FONT></p>      ]]></body>
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