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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>F&Iacute;SICA E HIST&Oacute;RIA</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Roberto de Andrade Martins</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font size=5>A</font></b> f&iacute;sica, como todas as    ci&ecirc;ncias, desenvolve-se gradualmente ao longo do tempo, passando por crises,    avan&ccedil;os e retrocessos, fracassos e sucessos. A hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia    procura conhecer e compreender as transforma&ccedil;&otilde;es pelas quais a    f&iacute;sica passa ao longo do tempo. A vers&atilde;o mais ing&ecirc;nua da    hist&oacute;ria da f&iacute;sica &eacute; a de que, em certos momentos, aparecem    grandes g&ecirc;nios que v&ecirc;em aquilo que outros n&atilde;o haviam visto,    prop&otilde;em grandes teorias e mudam o desenvolvimento do pensamento humano.    Essa &eacute; uma vis&atilde;o simplista e equivocada, com importantes conseq&uuml;&ecirc;ncias    (negativas) para a compreens&atilde;o da pr&oacute;pria natureza da ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="3">Este artigo vai utilizar o caso da cria&ccedil;&atilde;o da    teoria da relatividade especial como exemplo para tornar patente o equ&iacute;voco    de tal vis&atilde;o simplista. Popularmente, atribui-se a Albert Einstein todo    o m&eacute;rito pela cria&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade. A maior    parte das pessoas parece acreditar que foi necess&aacute;rio e suficiente o    nascimento desse indiv&iacute;duo para que brotassem de seu c&eacute;rebro diversos    trabalhos revolucion&aacute;rios. </font></p>     <p><font size="3">O presente trabalho mostrar&aacute; que a contribui&ccedil;&atilde;o    de Einstein foi um passo dentro de uma fase de complexa evolu&ccedil;&atilde;o    da f&iacute;sica, que dependeu dos trabalhos de muitos pesquisadores e que tinha    atingido um amadurecimento, em 1905, que permitiu o surgimento do trabalho de    Einstein. Vinte anos antes disso, nem Einstein nem qualquer outra pessoa poderia    ter produzido uma proposta como a dele. Se Einstein tivesse nascido em 1850,    por exemplo, ele poderia ter criado outras teorias, em sua juventude – mas n&atilde;o    a teoria da relatividade – pois at&eacute; 1880 faltavam muitos elementos necess&aacute;rios    para a cria&ccedil;&atilde;o dessa teoria. Al&eacute;m disso, este artigo mostrar&aacute;    que grande parte daquilo que se costuma atribuir a Einstein foi o resultado    do trabalho de outras pessoas. </font></p>     <p><font size="3">Nada do que ser&aacute; apresentado aqui &eacute; novo para    os historiadores da f&iacute;sica – exceto a forma de apresenta&ccedil;&atilde;o    aqui adotada (1); mas &eacute; relevante apresentar esses fatos para um p&uacute;blico    mais amplo, de modo a contribuir para uma melhor compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es    entre ci&ecirc;ncia e hist&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="3"><b>O ELETROMAGNETISMO DE MAXWELL</b> Em 1905, Einstein publicou    dois trabalhos que s&atilde;o considerados suas mais importantes contribui&ccedil;&otilde;es    para a teoria da relatividade especial. Nesses trabalhos n&atilde;o aparecia    ainda a express&atilde;o "teoria da relatividade". Einstein deu a um desses    dois trabalhos o t&iacute;tulo "Sobre a eletrodin&acirc;mica dos corpos em movimento"    (2). Um f&iacute;sico bem informado, em 1905, ao ler esse t&iacute;tulo, compreenderia    que Einstein estava discutindo um assunto que j&aacute; havia sido abordado    por outros autores anteriores (como Heinrich Hertz, Joseph Larmor, Max Abraham    e Hendrik Antoon Lorentz); e que, como estes, tomava como ponto de partida o    eletromagnetismo de James Clerk Maxwell. A teoria de Maxwell estudava os fen&ocirc;menos    eletromagn&eacute;ticos utilizando os conceitos de campos el&eacute;tricos e    magn&eacute;ticos, que eram considerados por ele como propriedades do &eacute;ter    – uma subst&acirc;ncia f&iacute;sica especial, que preenchia todo o espa&ccedil;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Vamos refletir um pouco sobre esse primeiro ponto. O contexto    te&oacute;rico, que Einstein tomou como ponto de partida, era uma teoria formulada    30 anos antes, por Maxwell. Essa n&atilde;o era a &uacute;nica teoria eletromagn&eacute;tica    da &eacute;poca; havia outras propostas diferentes, como as de Hermann von Helmholtz    e de Wilhelm Weber. Se estivesse se dedicando ao assunto na d&eacute;cada de    1870, Einstein provavelmente n&atilde;o optaria pela teoria de Maxwell, que    era bastante estranha para os padr&otilde;es da Europa continental e que n&atilde;o    parecia melhor do que as outras. E se Einstein se dedicasse &agrave; teoria    de Helmholtz ou &agrave; de Weber, jamais desenvolveria a teoria da relatividade.    </font></p>     <p><font size="3">No final da d&eacute;cada de 1880, essa situa&ccedil;&atilde;o    mudou. Em 1887, Heinrich Hertz produziu experimentalmente e estudou as propriedades    das ondas eletromagn&eacute;ticas, que haviam sido previstas pela teoria de    Maxwell. Essa foi uma important&iacute;ssima confirma&ccedil;&atilde;o da teoria    e teve um papel decisivo na crescente aceita&ccedil;&atilde;o da teoria de Maxwell,    nos anos seguintes. Logo em seguida, iniciou-se uma corrida pela utiliza&ccedil;&atilde;o    pr&aacute;tica dessas ondas, para transmiss&atilde;o de mensagens – o tel&eacute;grafo    sem fio. Na d&eacute;cada de 1890, a teoria de Maxwell e as ondas eletromagn&eacute;ticas    (ou ondas hertzianas, como eram chamadas na &eacute;poca) n&atilde;o podiam    mais ser menosprezadas por ningu&eacute;m. Por&eacute;m, se Einstein se dedicasse    aos fen&ocirc;menos eletromagn&eacute;ticos em 1885, poderia ainda ignorar o    trabalho de Maxwell e desenvolver pesquisas em uma dire&ccedil;&atilde;o totalmente    diferente da que conduziu &agrave; teoria da relatividade. Ele teve a sorte    de n&atilde;o nascer 20 anos antes do que nasceu. </font></p>     <p><font size="3"><b>A VARIA&Ccedil;&Atilde;O DA MASSA DOS EL&Eacute;TRONS</b>    Uma das conseq&uuml;&ecirc;ncias mais importantes da teoria da relatividade    foi uma nova din&acirc;mica, na qual a massa dos corpos j&aacute; n&atilde;o    &eacute; mais constante e sim uma fun&ccedil;&atilde;o da velocidade. Sob o    ponto de vista te&oacute;rico, a id&eacute;ia de uma massa vari&aacute;vel para    part&iacute;culas eletrizadas de alta velocidade surge em 1896, pelos trabalhos    de J. J. Thomson, Oliver Heaviside, George Searle e outros. Esse efeito foi    deduzido inicialmente como uma conseq&uuml;&ecirc;ncia da teoria eletromagn&eacute;tica    de Maxwell. </font></p>     <p><font size="3"> A descoberta do el&eacute;tron data de 1897. Nesse ano, gra&ccedil;as    aos trabalhos de J. J. Thomson e de Pieter Zeeman, foi identificado um componente    sub-at&ocirc;mico presente em todo tipo de mat&eacute;ria. A raz&atilde;o <i>e/m</i>    entre sua massa e sua carga foi medida por Thomson e Walter Kaufmann em experimentos    de deflex&atilde;o de el&eacute;trons de baixa velocidade; e calculada por Hendrik    Lorentz a partir da sua interpreta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica do efeito    Zeeman. </font></p>     <p><font size="3">O estudo de deflex&atilde;o de el&eacute;trons por campos eletromagn&eacute;ticos    exige o uso de dispositivos de alto v&aacute;cuo, que foram obtidos pela primeira    vez por William Crookes, em 1879. Assim, 20 anos antes da descoberta do el&eacute;tron,    nem sequer existiam as condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas para realizar    os experimentos com raios cat&oacute;dicos. </font></p>     <p><font size="3">Depois da descoberta do el&eacute;tron os estudos experimentais    se desenvolveram rapidamente. No entanto, n&atilde;o era poss&iacute;vel produzir    el&eacute;trons de alta velocidade (pr&oacute;xima &agrave; velocidade da luz)    utilizando os recursos experimentais da &eacute;poca. Os dispositivos de alta    voltagem existentes no final do s&eacute;culo XIX eram capazes de produzir tens&otilde;es    de aproximadamente 25.000 volts, permitindo acelerar el&eacute;trons at&eacute;    velocidades de cerca de 30% da velocidade da luz <i>c</i>. Em 1898, Phillip    Lenard mediu <i>e/m</i> para raios cat&oacute;dicos com velocidades de at&eacute;    <i>c</i>/3. As medidas sugeriam que a massa dos el&eacute;trons variava com    a velocidade, mas n&atilde;o eram conclusivas. </font></p>     <p><font size="3"> Os primeiros experimentos que mostraram claramente uma varia&ccedil;&atilde;o    da massa dos el&eacute;trons com a velocidade foram realizados em 1901, por    Walter Kaufmann, utilizando raios beta (el&eacute;trons de alta energia emitidos    por subst&acirc;ncias radioativas). Nesses experimentos, os el&eacute;trons    tinham velocidades entre 0,8 e 0,9 <i>c</i>. Os experimentos de Kaufmann foram    poss&iacute;veis por causa da descoberta da radioatividade e da compreens&atilde;o    da natureza dos raios beta, que s&oacute; ocorreu em 1899, gra&ccedil;as aos    estudos de Ernest Rutherford (que identificou a exist&ecirc;ncia de raios alfa    e beta atrav&eacute;s de estudos de absor&ccedil;&atilde;o pela mat&eacute;ria)    e de Friedrich Giesel (que mostrou que os raios beta podiam ser desviados por    campos magn&eacute;ticos). </font></p>     <p><font size="3">Em 1902, Max Abraham prop&ocirc;s um importante modelo que permitia    calcular a rela&ccedil;&atilde;o entre a massa do el&eacute;tron e a velocidade    e que era compat&iacute;vel com os resultados experimentais. Dois anos depois,    Hendrik Lorentz apresentou outra proposta, obtendo a equa&ccedil;&atilde;o considerada    correta para a varia&ccedil;&atilde;o da massa com a velocidade. </font></p>     <p><font size="3">Einstein conhecia os estudos te&oacute;ricos e experimentais    existentes antes de 1905 a respeito da varia&ccedil;&atilde;o da massa do el&eacute;tron    com a velocidade. Se Einstein tivesse nascido antes e estivesse publicando seus    primeiros trabalhos em 1895, teria sido imposs&iacute;vel discutir a rela&ccedil;&atilde;o    entre a massa e a velocidade dos el&eacute;trons – n&atilde;o apenas porque    nem se aceitava a exist&ecirc;ncia dos el&eacute;trons, mas tamb&eacute;m porque    faltariam, em 1905, os pr&eacute;-requisitos te&oacute;ricos e experimentais    para se discutir esse efeito. </font></p>     <p><font size="3"><b>A SINCRONIZA&Ccedil;&Atilde;O DE REL&Oacute;GIOS</b> Outro    aspecto importante da teoria da relatividade &eacute; a an&aacute;lise da simultaneidade.    Dois acontecimentos que s&atilde;o simult&acirc;neos em rela&ccedil;&atilde;o    a um referencial podem n&atilde;o ser simult&acirc;neos em rela&ccedil;&atilde;o    a outro referencial. Em cada referencial inercial, Einstein imaginou uma rede    de rel&oacute;gios sincronizados atrav&eacute;s de sinais luminosos e estudou    como essas redes seriam descritas em rela&ccedil;&atilde;o a diferentes referenciais.    Henri Poincar&eacute; j&aacute; havia discutido, antes de 1905, a sincroniza&ccedil;&atilde;o    de rel&oacute;gios por sinais com a velocidade da luz e a relatividade da simultaneidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O historiador Peter Galison mostrou, de forma convincente, que    esse aspecto da teoria da relatividade foi fortemente influenciado por preocupa&ccedil;&otilde;es    t&eacute;cnicas da &eacute;poca. Por v&aacute;rios motivos pr&aacute;ticos,    foram criados, no final do s&eacute;culo XIX, sistemas de rel&oacute;gios sincronizados    atrav&eacute;s de sinais el&eacute;tricos. Um rel&oacute;gio central de grande    precis&atilde;o (o rel&oacute;gio mestre) emitia periodicamente impulsos el&eacute;tricos    que eram enviados atrav&eacute;s de fios (ou, depois, atrav&eacute;s de sinais    eletromagn&eacute;ticos sem fio) para um conjunto de rel&oacute;gios em diversos    lugares (os rel&oacute;gios secund&aacute;rios). Esse tipo de sistema era muito    importante para o controle do sistema de trens, por exemplo, que j&aacute; atingiam    na &eacute;poca velocidades superiores a 150 km/h. Era tamb&eacute;m importante    a sincroniza&ccedil;&atilde;o de rel&oacute;gios a grandes dist&acirc;ncias,    por meio de sinais telegr&aacute;ficos, para determina&ccedil;&atilde;o precisa    da longitude geogr&aacute;fica. </font></p>     <p><font size="3">Em muitos pa&iacute;ses da Europa estavam sendo montadas redes    de rel&oacute;gios el&eacute;tricos sincronizados. Henri Poincar&eacute;, na    Fran&ccedil;a, participava dos trabalhos do servi&ccedil;o de longitude. Na    Su&iacute;&ccedil;a, onde Albert Einstein vivia enquanto desenvolvia seus primeiros    trabalhos sobre relatividade, havia uma importante rede de rel&oacute;gios el&eacute;tricos    sincronizados. Al&eacute;m disso, passaram projetos de sistemas de rel&oacute;gios    el&eacute;tricos sincronizados pelo escrit&oacute;rio de patentes no qual Einstein    trabalhava, na &eacute;poca. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas de que esse    desenvolvimento t&eacute;cnico do per&iacute;odo levou, naturalmente, &agrave;    reflex&atilde;o sobre o processo de sincroniza&ccedil;&atilde;o de rel&oacute;gios    distantes por meio de sinais com a velocidade da luz, uma id&eacute;ia que foi    incorporada tanto por Poincar&eacute; quanto por Einstein &agrave; teoria da    relatividade. Vinte anos antes, n&atilde;o seria natural pensar a respeito desse    tipo de sistema. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o se pode dizer que a cria&ccedil;&atilde;o das redes    de rel&oacute;gios el&eacute;tricos distantes sincronizados tenha sido uma condi&ccedil;&atilde;o    necess&aacute;ria para o desenvolvimento da teoria da relatividade; mas certamente    facilitou o seu desenvolvimento.</font></p>     <p><font size="3"><b>A ATITUDE EMPIRISTA DE EINSTEIN</b> Quase todos os resultados    obtidos por Einstein em seu primeiro artigo de 1905 sobre relatividade j&aacute;    haviam sido obtidos antes por Lorentz e Poincar&eacute;. No entanto, havia uma    importante diferen&ccedil;a epistemol&oacute;gica entre Einstein e esses antecessores.    Enquanto Lorentz e Poincar&eacute; aceitavam a exist&ecirc;ncia de um &eacute;ter    (seguindo as concep&ccedil;&otilde;es de Maxwell), Einstein negou a validade    de se falar a respeito do &eacute;ter, j&aacute; que ele era inobserv&aacute;vel    e (segundo a atitude adotada por Einstein nessa &eacute;poca) a f&iacute;sica    s&oacute; deveria tratar de entes e grandezas observ&aacute;veis e mensur&aacute;veis.    Essa atitude, que o diferencia fortemente de Lorentz e Poincar&eacute;, &eacute;    uma manifesta&ccedil;&atilde;o clara da posi&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica    empirista extrema que Einstein adotou durante essa fase. </font></p>     <p><font size="3">Sabe-se como ele adquiriu essas id&eacute;ias. Antes de escrever    seus artigos de 1905, Einstein estudou e discutiu com um grupo de amigos diversas    obras sobre filosofia da ci&ecirc;ncia, dando especial aten&ccedil;&atilde;o    a tr&ecirc;s autores empiristas – David Hume, Ernst Mach, Karl Pearson. Esses    dois &uacute;ltimos foram cientistas/fil&oacute;sofos com grande influ&ecirc;ncia    na &eacute;poca, que defendiam que a ci&ecirc;ncia deveria dedicar-se principalmente    a sistematizar dados emp&iacute;ricos atrav&eacute;s de generaliza&ccedil;&otilde;es,    sem tentar descobrir alguma realidade oculta por tr&aacute;s das apar&ecirc;ncias    dos fen&ocirc;menos. A cr&iacute;tica de Mach &agrave;s concep&ccedil;&otilde;es    de espa&ccedil;o e tempo absolutos de Isaac Newton teve forte influ&ecirc;ncia    sobre o pensamento de Einstein. Outro importante empirista da &eacute;poca,    o qu&iacute;mico Wilhelm Ostwald, tamb&eacute;m teve forte influ&ecirc;ncia    sobre ele. </font></p>     <p><font size="3">Todas essas obras (exceto a de Hume) s&atilde;o das duas &uacute;ltimas    d&eacute;cadas do s&eacute;culo XIX. Se n&atilde;o estivesse sob a influ&ecirc;ncia    das mesmas, &eacute; poss&iacute;vel que Einstein tivesse adotado a mesma posi&ccedil;&atilde;o    realista dos cientistas mais velhos (como Lorentz e Poincar&eacute;), que n&atilde;o    viam nada de errado em aceitar a exist&ecirc;ncia do &eacute;ter. A ado&ccedil;&atilde;o    de uma epistemologia empirista foi uma condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria    para que Einstein formulasse sua vis&atilde;o da teoria da relatividade; e dificilmente    ele adotaria essa postura se tivesse nascido em um tempo anterior e estivesse    formulando seu trabalho vinte anos antes. </font></p>     <p><font size="3"><b>EXPERIMENTOS SOBRE O MOVIMENTO DA TERRA</b> Os livros did&aacute;ticos    atuais sempre indicam que o experimento de Michelson e Morley, de 1887, constituiu    uma base emp&iacute;rica fundamental da teoria da relatividade especial. H&aacute;    discuss&otilde;es infind&aacute;veis, entre os historiadores da f&iacute;sica,    sobre se Einstein realmente conhecia esse experimento e lhe atribu&iacute;a    tanta import&acirc;ncia assim, em 1905. No entanto, n&atilde;o se pode colocar    em d&uacute;vida que Einstein sabia da exist&ecirc;ncia de alguns experimentos    infrut&iacute;feros para detectar o movimento da Terra em rela&ccedil;&atilde;o    ao &eacute;ter e que afirmou, em 1905, que essa era a base do princ&iacute;pio    da relatividade: "&#91;...&#93; as tentativas sem sucesso de verificar que a    Terra se move em rela&ccedil;&atilde;o ao "meio luminoso" &#91;&eacute;ter&#93;    levaram &agrave; conjetura de que, n&atilde;o apenas na mec&acirc;nica, mas    tamb&eacute;m na eletrodin&acirc;mica, n&atilde;o h&aacute; propriedades observ&aacute;veis    associadas &agrave; id&eacute;ia de repouso absoluto, mas as mesmas leis eletrodin&acirc;micas    e &oacute;pticas se aplicam a todos os sistemas de coordenadas nos quais s&atilde;o    v&aacute;lidas as equa&ccedil;&otilde;es da mec&acirc;nica &#91;...&#93;. Elevaremos    essa conjetura (cujo conte&uacute;do ser&aacute; daqui por diante chamado de    "princ&iacute;pio da relatividade") &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de um postulado    &#91;...&#93;" (2).</font></p>     <p><font size="3">Antes do experimento de Michelson e Morley e depois do mesmo,    foram realizados v&aacute;rios outros experimentos (utilizando diferentes princ&iacute;pios)    para tentar detectar o movimento da Terra em rela&ccedil;&atilde;o ao &eacute;ter.    A quais experimentos estava Einstein se referindo? &Eacute; dif&iacute;cil dizer.    Sabe-se que em 1897 ou 1898, enquanto estudante, Einstein tomou conhecimento    de tentativas de detec&ccedil;&atilde;o do movimento da Terra em rela&ccedil;&atilde;o    ao &eacute;ter e que ele pr&oacute;prio planejou novos experimentos que permitissem    fazer esse tipo de medida. Em 1901, ele ainda acreditava no &eacute;ter e procurava    novos meios de detectar o movimento da Terra em rela&ccedil;&atilde;o ao mesmo.    </font></p>     <p><font size="3">Para a finalidade do presente artigo, &eacute; relevante indicar    que, nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XIX e nos primeiros    anos do s&eacute;culo XX houve diversos experimentos desse tipo e que esse tema    se tornou bastante discutido. Alguns f&iacute;sicos mantinham a opini&atilde;o    de que seria poss&iacute;vel fazer esse tipo de medida. Outros (como Henri Poincar&eacute;)    conclu&iacute;ram, antes de Einstein, que todos os experimentos futuros seriam    infrut&iacute;feros e que havia uma impossibilidade f&iacute;sica de medir a    velocidade da Terra em rela&ccedil;&atilde;o ao &eacute;ter. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a15fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Poderia algu&eacute;m ter defendido essa posi&ccedil;&atilde;o    em 1885? Muito dificilmente. Naquela &eacute;poca, j&aacute; tinham sido realizados    diversos experimentos &oacute;pticos procurando observar efeitos do movimento    da Terra em rela&ccedil;&atilde;o ao &eacute;ter. Alguns deles haviam dado <i>resultados    positivos</i>, como o experimento de Fizeau (1859) e o de &Aring;ngstr&ouml;m,    em 1863. Havia uma demonstra&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de que, de acordo    com a teoria do &eacute;ter de Fresnel, seria imposs&iacute;vel detectar efeitos    <i>de primeira ordem</i> atrav&eacute;s de experimentos que envolvessem apenas    reflex&atilde;o, refra&ccedil;&atilde;o e aberra&ccedil;&atilde;o da luz – mas    poderiam ser vi&aacute;veis experimentos de outros tipos. Na d&eacute;cada de    1860, Eleuth&egrave;re Mascart repetiu os experimentos de Fizeau e de &Aring;ngstr&ouml;m,    sem obter resultados. No entanto, no final da d&eacute;cada seguinte, Maxwell    analisou novos tipos de experimentos e sugeriu que seria vi&aacute;vel determinar    a velocidade do sistema solar atrav&eacute;s do &eacute;ter atrav&eacute;s de    medidas de atrasos dos eclipses dos sat&eacute;lites de J&uacute;piter. At&eacute;    a d&eacute;cada de 1880, a tend&ecirc;ncia quase un&acirc;nime entre os f&iacute;sicos    era a de que em um futuro pr&oacute;ximo seria poss&iacute;vel medir a velocidade    da Terra em rela&ccedil;&atilde;o ao &eacute;ter. Apenas na d&eacute;cada seguinte,    sob o impacto do experimento de Michelson e Morley e alguns outros, come&ccedil;ou    a surgir a id&eacute;ia do princ&iacute;pio da relatividade para os fen&ocirc;menos    &oacute;pticos e eletromagn&eacute;ticos sem, no entanto, obter unanimidade.    </font></p>     <p><font size="3">A aceita&ccedil;&atilde;o da impossibilidade experimental de    medir a velocidade da Terra em rela&ccedil;&atilde;o ao &eacute;ter &eacute;    uma base fundamental da teoria da relatividade; e que essa base n&atilde;o existia    em 1885. Mesmo na d&eacute;cada seguinte, poucos f&iacute;sicos admitiam essa    impossibilidade. Einstein foi capaz de utilizar essa id&eacute;ia em 1905 sem    dar muitas explica&ccedil;&otilde;es; mas n&atilde;o poderia faz&ecirc;-lo da    mesma forma vinte anos antes. </font></p>     <p><font size="3"><b>AS PROPRIEDADES DIN&Acirc;MICAS DA LUZ</b> Em 1905, Einstein    prop&ocirc;s a proporcionalidade entre energia e massa, estudando uma situa&ccedil;&atilde;o    que envolvia emiss&atilde;o e absor&ccedil;&atilde;o de luz por um corpo material.    Nesta e em outras dedu&ccedil;&otilde;es, &eacute; necess&aacute;rio pressupor    que a luz (ou qualquer outro tipo de onda eletromagn&eacute;tica) transporta    pelo espa&ccedil;o tanto energia quanto <i>momentum</i> – ou seja, que a luz    tem propriedades mec&acirc;nicas. </font></p>     <p><font size="3">At&eacute; o in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, quando se admitia    que a luz tinha natureza corpuscular, todos acreditavam que ela tinha massa    e podia produzir press&atilde;o ao colidir contra um corpo material. No entanto,    quando se passou a aceitar a hip&oacute;tese ondulat&oacute;ria da luz, a situa&ccedil;&atilde;o    j&aacute; n&atilde;o parecia mais t&atilde;o clara. Por&eacute;m, em seu livro    de 1873, Maxwell previu que as ondas eletromagn&eacute;ticas deveriam exercer    press&atilde;o tanto sobre corpos refletores quanto sobre corpos que absorvessem    a radia&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Poucos anos depois, Adolfo Bartoli mostrou, atrav&eacute;s de    um argumento puramente termodin&acirc;mico (ou seja, sem utilizar o eletromagnetismo)    que a luz deveria exercer press&atilde;o sobre uma superf&iacute;cie refletora.    Na d&eacute;cada seguinte, o argumento de Bartoli foi aperfei&ccedil;oado e    generalizado por Ludwig Boltzmann (1884). Tanto de acordo com a teoria eletromagn&eacute;tica    quanto de acordo com a termodin&acirc;mica, a press&atilde;o exercida pela radia&ccedil;&atilde;o    incidindo perpendicularmente sobre uma superf&iacute;cie seria igual &agrave;    densidade de energia da radia&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o diante do espelho.    A concord&acirc;ncia entre as duas an&aacute;lises deu uma grande confian&ccedil;a    &agrave; previs&atilde;o, que foi confirmada experimentalmente em 1901 por Pyotr    Lebedew e, independentemente, por Ernest Nichols e Gordon Hull.</font></p>     <p><font size="3">Se admitirmos a lei da conserva&ccedil;&atilde;o da quantidade    de movimento, a press&atilde;o exercida pela radia&ccedil;&atilde;o sobre uma    superf&iacute;cie deve ser interpretada como uma prova de que a radia&ccedil;&atilde;o    possui uma quantidade de movimento (ou <i>momentum</i> mec&acirc;nico). Tal    conclus&atilde;o, no entanto, n&atilde;o estava presente no trabalho do pr&oacute;prio    Maxwell. Foi J. J. Thomson, em 1893, quem prop&ocirc;s uma rela&ccedil;&atilde;o    geral entre o fluxo de energia do campo eletromagn&eacute;tico (dado pelo vetor    de Poynting, <img src="/img/revistas/cic/v57n3/a15img01.gif" align="absmiddle">    e a exist&ecirc;ncia de uma densidade de momentum <img src="/img/revistas/cic/v57n3/a15img02.gif" align="absmiddle">    do mesmo campo: <img src="/img/revistas/cic/v57n3/a15img03.gif" align="absmiddle"></font></p>     <p><font size="3"> Nos primeiros anos do s&eacute;culo XX praticamente todos os    f&iacute;sicos aceitavam a exist&ecirc;ncia de um <i>momentum</i> associado    &agrave; radia&ccedil;&atilde;o eletromagn&eacute;tica; e isso permitiu a Poincar&eacute;    chegar a uma rela&ccedil;&atilde;o semelhante &agrave; proporcionalidade entre    massa e energia, em 1900, estudando a radia&ccedil;&atilde;o livre; assim como    Fritz Hasen&ouml;hrl, em 1904, estabeleceu uma proporcionalidade entre massa    e energia para uma caixa contendo radia&ccedil;&atilde;o. Portanto, em 1905,    Einstein podia utilizar esse pressuposto de forma natural. Vinte anos antes,    estava come&ccedil;ando a ficar clara a exist&ecirc;ncia de uma press&atilde;o    exercida pela luz. Apenas dez anos antes, no entanto, passou a ser aceita a    rela&ccedil;&atilde;o entre fluxo de energia e densidade de <i>momentum</i>.    Seria pouco plaus&iacute;vel que Einstein (ou qualquer outra pessoa) pudesse    apresentar alguma dedu&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o entre massa    e energia em 1885.</font></p>     <p><font size="3"><b>O TEMA CENTRAL DA TEORIA DA RELATIVIDADE</b> A teoria da    relatividade especial mostra como se transformam as grandezas f&iacute;sicas    entre dois referenciais inerciais em movimento relativo, assumindo que as leis    b&aacute;sicas da f&iacute;sica s&atilde;o as mesmas em todos esses referenciais.    &Eacute; bem conhecido que o trabalho de Einstein n&atilde;o foi o primeiro    a fazer esse tipo de an&aacute;lise. O problema b&aacute;sico que est&aacute;    por tr&aacute;s da teoria da relatividade come&ccedil;ou a ser discutido por    v&aacute;rios f&iacute;sicos depois da proposta do eletromagnetismo de Maxwell.    A teoria original admitia a exist&ecirc;ncia de um &eacute;ter e propunha um    conjunto de equa&ccedil;&otilde;es que seriam v&aacute;lidas para um referencial    parado em rela&ccedil;&atilde;o a esse &eacute;ter. Mas quais seriam as equa&ccedil;&otilde;es    v&aacute;lidas em outros referenciais? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Heinrich Hertz tentou resolver o problema supondo que cada    corpo material transporta em seu interior o seu pr&oacute;prio &eacute;ter,    de modo que as mesmas equa&ccedil;&otilde;es de Maxwell poderiam ser aplicadas    tamb&eacute;m a corpos em movimento. Lorentz, pelo contr&aacute;rio, admitia    que existia um &uacute;nico &eacute;ter universal, sempre em repouso, que n&atilde;o    era transportado pelos corpos. No entanto, tendo se convencido de que n&atilde;o    era poss&iacute;vel detectar movimentos em rela&ccedil;&atilde;o ao &eacute;ter,    procurou estabelecer as transforma&ccedil;&otilde;es de coordenadas, de tempo    e das grandezas eletromagn&eacute;ticas que mantivessem a validade das equa&ccedil;&otilde;es    de Maxwell em todos os referenciais inerciais. Inicialmente (1892 e 1895) ele    conseguiu satisfazer essas condi&ccedil;&otilde;es apenas para os casos de pequenas    velocidades (ou seja, em primeira ordem de <i>v/c</i>). Depois (em 1904) obteve    uma teoria exata (para qualquer velocidade inferior a <i>c</i>). Outros f&iacute;sicos    te&oacute;ricos que desenvolveram trabalhos na mesma dire&ccedil;&atilde;o foram    Woldemar Voigt, Joseph Larmor e Henri Poincar&eacute;. Estes dois primeiros    chegaram a rela&ccedil;&otilde;es praticamente id&ecirc;nticas &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es    de Lorentz para espa&ccedil;o e tempo, antes deste f&iacute;sico. Por&eacute;m,    apenas em 1904 Lorentz obteve uma teoria eletromagn&eacute;tica coerente, com    as transforma&ccedil;&otilde;es para as grandezas eletromagn&eacute;ticas compat&iacute;veis    com as transforma&ccedil;&otilde;es de Lorentz. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a15fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Em 1905, a busca de transforma&ccedil;&otilde;es das grandezas    mec&acirc;nicas e eletromagn&eacute;ticas entre dois referenciais em movimento    relativo, compat&iacute;veis com o princ&iacute;pio da relatividade, era um    tema bem conhecido e que j&aacute; tinha chegado a resultados s&oacute;lidos.    Dez anos antes, pode-se dizer que o tema n&atilde;o era bem conhecido e que    os pesquisadores estavam ainda engatinhando na dire&ccedil;&atilde;o adequada.    Em 1885, n&atilde;o existia nem motiva&ccedil;&atilde;o para buscar essas rela&ccedil;&otilde;es    (pois o princ&iacute;pio da relatividade ainda n&atilde;o era aceito para o    eletromagnetismo) nem se percebia claramente o que deveria ser buscado. </font></p>     <p><font size="3">Assim, em 1905, o trabalho de Einstein estava inserido em uma    linha de pesquisa com certa tradi&ccedil;&atilde;o, com uma problem&aacute;tica    clara e com bons resultados j&aacute; atingidos. Vinte anos antes, nem a problem&aacute;tica    nem os m&eacute;todos de abordagem estavam claros. Dificilmente Einstein ou    qualquer outra pessoa poderia ter chegado a resultados importantes, naquela    &eacute;poca. </font></p>     <p><font size="3"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b> Seria poss&iacute;vel    multiplicar os exemplos, mostrando que outros aspectos importantes da teoria    da relatividade tiveram condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas adequadas    para se desenvolverem em 1905, mas n&atilde;o poderiam ter surgido vinte anos    antes. No entanto, dados os limites de tamanho para o presente artigo, ser&aacute;    necess&aacute;rio limitarmo-nos aos exemplos acima. </font></p>     <p><font size="3">Procuramos mostrar que muitas das condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias    para o desenvolvimento da teoria da relatividade eram inexistentes na d&eacute;cada    de 1880. A pr&oacute;pria motiva&ccedil;&atilde;o ou problem&aacute;tica para    o desenvolvimento de tal teoria n&atilde;o existia ainda. N&atilde;o havia uma    base experimental para o princ&iacute;pio da relatividade na &oacute;ptica e    no eletromagnetismo. N&atilde;o havia aparelhagem experimental que pudesse permitir    o teste da rela&ccedil;&atilde;o entre massa e velocidade. N&atilde;o existiam    os pr&eacute;-requisitos te&oacute;ricos necess&aacute;rios para construir a    teoria. N&atilde;o havia sido difundida a vis&atilde;o epistemol&oacute;gica    empirista que serviu de base para a rejei&ccedil;&atilde;o do &eacute;ter por    Einstein. Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XIX e nos primeiros    anos do s&eacute;culo XX a situa&ccedil;&atilde;o mudou completamente.</font></p>     <p><font size="3">Costuma-se admitir que Einstein realizou seu trabalho apoiando-se    sobre os ombros de gigantes que o precederam: Galileu, Newton, Maxwell. No entanto,    quando se afirma isso, refor&ccedil;a-se a id&eacute;ia de que a ci&ecirc;ncia    &eacute; feita por grandes g&ecirc;nios, cada um deles superando o anterior.    N&atilde;o &eacute; esta a vis&atilde;o que queremos defender aqui. Pelo contr&aacute;rio:    procuramos mostrar que o trabalho de Einstein se apoiou sobre os ombros de um    grande n&uacute;mero de pesquisadores, alguns dos quais totalmente obscuros    para a grande maioria dos cientistas de hoje. A evolu&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia    &eacute; um trabalho coletivo e gradual, n&atilde;o &eacute; individual e instant&acirc;neo.    </font></p>     <p><font size="3">Note-se que a mudan&ccedil;a ocorrida na f&iacute;sica entre    1885 e 1905 significou n&atilde;o apenas a exist&ecirc;ncia de condi&ccedil;&otilde;es    que permitiram o trabalho de Einstein, mas tamb&eacute;m a efetiva obten&ccedil;&atilde;o    de muitos dos resultados usualmente atribu&iacute;dos a esse pesquisador por    outros f&iacute;sicos, antes dele. Quando est&atilde;o maduras as condi&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;ricas para o surgimento de uma nova proposta cient&iacute;fica,    &eacute; comum que diversos pesquisadores apresentem, independentemente uns    dos outros, id&eacute;ias semelhantes. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Antigamente, descrevia-se a hist&oacute;ria de cada na&ccedil;&atilde;o    como a sucess&atilde;o dos feitos de seus reis. Essa vis&atilde;o simplista    e equivocada foi substitu&iacute;da por outra, em que muitos tipos de atores    contribuem para as diversas mudan&ccedil;as sociais que ocorrem em cada lugar,    ao longo do tempo. &Eacute; necess&aacute;rio que a hist&oacute;ria das ci&ecirc;ncias    ultrapasse tamb&eacute;m a descri&ccedil;&atilde;o m&iacute;tica dos "grandes    g&ecirc;nios" e seja capaz de estudar toda a complexidade e riqueza do real    desenvolvimento hist&oacute;rico de cada passo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Roberto de Andrade Martins</b> &eacute; f&iacute;sico,    doutor em l&oacute;gica e filosofia da ci&ecirc;ncia. &Eacute; professor do    Instituto de F&iacute;sica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde    coordena o Grupo de Hist&oacute;ria e Teoria da Ci&ecirc;ncia. Foi presidente    da Sociedade Brasileira de Hist&oacute;ria da Ci&ecirc;ncia (SBHC) e da Associa&ccedil;&atilde;o    de Filosofia e Hist&oacute;ria da Ci&ecirc;ncia do Cone Sul (AFHIC).</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></FONT></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Whittaker, E. T., <i>A history of the theories of aether    and electricity</i>, New York: Humanities Press, 1973;    <!-- ref --> Miller, A.I., <i>Albert    Einstein’s special theory of relativity</i>, Reading: Addison-Wesley, 1981;    <!-- ref -->    Pais, A., <i>Subtle is the Lord… The science and the life of Albert Einstein</i>,    Oxford: Oxford University Press, 1982;    <!-- ref --> Galison, P.L., Gordin, M., Kaiser, D.    (eds.), <i>Science and society: the history of modern physical science in the    twentieth century. Volume 1: Making special relativity</i>, New York: Routledge,    2001.</font><!-- ref --><p><font size="3">2. Einstein, A., "Zur Elektrodynamic bewegter K&ouml;rper",    <i>Annalen der Physik</i> 17: 891-921. 1905. </font> ]]></body><back>
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