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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>F&Iacute;SICA E MEIO AMBIENTE</b></font></p>     <p><font size=5><b>O SUBSTRATO DA EST&Eacute;TICA NA CI&Ecirc;NCIA CONTEMPOR&Acirc;NEA</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Marc&iacute;lio de Freitas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>O FIO CONDUTOR</b> A possibilidade de desestabiliza&ccedil;&atilde;o    ecol&oacute;gica do planeta desdobrando-se no exterm&iacute;nio da esp&eacute;cie    humana p&otilde;e elementos novos para os fundamentos da cultura universal.    Problemas que exigem a desconstru&ccedil;&atilde;o dos fundamentos da civiliza&ccedil;&atilde;o    ocidental, em especial, dos modos e das formas de interven&ccedil;&atilde;o    humana nos usos e explora&ccedil;&atilde;o da natureza, assim como modifica&ccedil;&otilde;es    radicais nas rela&ccedil;&otilde;es entre as pessoas, as comunidades e tamb&eacute;m    entre os pa&iacute;ses. O colapso dos modelos econ&ocirc;micos standard, baseados    na explora&ccedil;&atilde;o e expropria&ccedil;&atilde;o intensiva dos recursos    naturais, aliado ao crescente processo de pauperiza&ccedil;&atilde;o dos povos    perif&eacute;ricos, em m&eacute;dio prazo agrava esse quadro, reafirmando a    import&acirc;ncia dos estudos ambientais. O que reserva um "lugar" singular    para a f&iacute;sica e a ecologia nas configura&ccedil;&otilde;es societ&aacute;rias    projetadas para o s&eacute;culo XXI. </font></p>     <p><font size="3">O desvendamento das rela&ccedil;&otilde;es das ci&ecirc;ncias    f&iacute;sicas com a ecologia &eacute; complexo e contradit&oacute;rio. A crescente    reafirma&ccedil;&atilde;o da ecologia envolve representa&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas    e materiais, fundindo-a, definitivamente, com o destino do homem. Uma caracter&iacute;stica    instigante s&atilde;o os aspectos suscitados pela sua dimens&atilde;o simb&oacute;lica.</font></p>     <p><font size="3">A dimens&atilde;o ficcional da ecologia &eacute; uma perspectiva    subjetiva que atravessa todas as culturas mundiais, &eacute; como se o destino    da Terra fosse de responsabilidade de cada um de seus habitantes. Esse processo    se intensifica em forma ponderada e numa intensidade proporcional ao grau de    destrui&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica dos lugares, dos pa&iacute;ses, dos    continentes e do planeta. A cren&ccedil;a difusa que a Terra encontra-se num    crescente processo de desestabiliza&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica constitui    uma realidade virtual que atravessar&aacute; todo o s&eacute;culo XXI, movimentando    muitas a&ccedil;&otilde;es e programas institucionais mundiais. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a17fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Outro aspecto singular refere-se &agrave; reinven&ccedil;&atilde;o    dos mitos da imortalidade, do mundo-para&iacute;so, do universo-espet&aacute;culo    e do mundo-fashion, elementos que movimentam o imagin&aacute;rio desse novo    patamar civilizat&oacute;rio. Elementos que, em ordem, t&ecirc;m como refer&ecirc;ncias    centrais as religi&otilde;es, a Amaz&ocirc;nia, a ci&ecirc;ncia e a mercadoria    virtual como matrizes de significa&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas. Representa&ccedil;&otilde;es    ficcion&aacute;rias que se articulam entre si e que j&aacute; se encontram fundidas    nos processos ecol&oacute;gicos que projetam a Amaz&ocirc;nia como o principal    signo da modernidade. A cultura judaico-crist&atilde; tem uma matriz, uma g&ecirc;nesis    ou origem do mundo centrada na condi&ccedil;&atilde;o perfeita perdida, o para&iacute;so.    A localiza&ccedil;&atilde;o ficcional da &aacute;rvore da vida (imortalidade)    e da &aacute;rvore da ci&ecirc;ncia (do bem e do mal) na ecologia tem contribu&iacute;do    para o resgate e a hegemoniza&ccedil;&atilde;o de uma concep&ccedil;&atilde;o    universal ancorada na id&eacute;ia de ambiente-mundo cujo contexto &eacute;    o destino da humanidade conforme o pensamento iluminista do s&eacute;culo XVIII.    Concep&ccedil;&atilde;o que, virtualmente, tem a preocupa&ccedil;&atilde;o de    tornar eterna e invenc&iacute;vel o homem-natureza-cultura. Esses fatores, intr&iacute;nsecos    &agrave; ecologia, dificultam uma associa&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica    entre ela e a f&iacute;sica, exigindo a constru&ccedil;&atilde;o de uma linguagem    sist&ecirc;mica ancorada pelo devir material e espiritual; linguagem que tem    a est&eacute;tica como principal refer&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="3">O confronto entre as categorias: mat&eacute;ria e esp&iacute;rito;    sujeito e objeto; espa&ccedil;o e tempo; liberdade e necessidade; guerra e paz,    e suas diversas combina&ccedil;&otilde;es, que movimentaram todos os processos    civilizat&oacute;rios entre os s&eacute;culos XVIII e XIX, foi subsumido por    uma nova concep&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;ria do pensamento universal.    A fus&atilde;o do sujeito com o objeto; a indivisibilidade do espa&ccedil;o-tempo;    o entrela&ccedil;amento da liberdade com a necessidade; a substitui&ccedil;&atilde;o    do primado da mat&eacute;ria por entidades f&iacute;sicas que n&atilde;o necessitam    de um meio material para se propagarem e para manterem suas identidades – entidades    denominadas "campos" que articulam a multiplicidade de possibilidades das propriedades    dos fen&ocirc;menos da natureza com a nossa realidade f&iacute;sica –, e a emerg&ecirc;ncia    da ecologia, constituem empreendimentos humanos estruturantes da modernidade,    pondo novos paradigmas para o conhecimento organizado. Paradigmas que fundiram    definitivamente as ci&ecirc;ncias da natureza &agrave;s ci&ecirc;ncias humanas,    abarcando quest&otilde;es amplas e aparentemente desconexas entre si, tais como:    hist&oacute;ria e realidade f&iacute;sica; simbolismo e economia; ci&ecirc;ncia    e religi&atilde;o, tecnologia e pol&iacute;tica, dentre outras. </font></p>     <p><font size="3">O incrustamento da ecologia nas pautas dos f&oacute;runs pol&iacute;ticos,    econ&ocirc;micos e cient&iacute;ficos hegem&ocirc;nicos, contribuiu para o fortalecimento    da condi&ccedil;&atilde;o de indivisibilidade da categoria homem-natureza, desdobrando-se    na emerg&ecirc;ncia de cen&aacute;rios hipercomplexos que movimentar&atilde;o    o s&eacute;culo XXI. Cen&aacute;rios que constituem o substrato da est&eacute;tica    – campo de conhecimento que potencializa todos os arranjos e combina&ccedil;&otilde;es    dos fluxos de elementos materiais e/ou n&atilde;o-materiais num empreendimento    humano. (1) </font></p>     <p><font size="3">Est&eacute;tica que pressup&otilde;e a realidade do conhecimento    e da a&ccedil;&atilde;o (2) enquanto entes entrela&ccedil;ados entre si e que    se movimentam fundindo a natureza na cultura, transfigurando a concep&ccedil;&atilde;o    dos processos civilizat&oacute;rios, em qualidade e intensidade, e articulando    e mediando os processos anal&iacute;ticos e hist&oacute;ricos, projetando novas    interpreta&ccedil;&otilde;es e sentidos &agrave; exist&ecirc;ncia humana e aos    processos civilizat&oacute;rios em curso e, finalmente, redefinindo as rela&ccedil;&otilde;es    entre os diversos campos de conhecimento cient&iacute;fico, em especial as rela&ccedil;&otilde;es    entre as ci&ecirc;ncias f&iacute;sicas e a ecologia que tem uma g&ecirc;nese    centrada na vida. </font></p>     <p><font size="3"><b>A F&Iacute;SICA, A ECOLOGIA E OS PRINC&Iacute;PIOS ESTRUTURANTES    DA EST&Eacute;TICA</b> As rela&ccedil;&otilde;es entre o homem e a natureza    passam tamb&eacute;m pelas rela&ccedil;&otilde;es entre os homens, na guerra    e na paz. A antropologia especifica que o estudo da rela&ccedil;&atilde;o entre    o homem e o seu meio ambiente pode ser feito por dois m&eacute;todos diferentes:    1- analisa-se a forma com que a cultura, de interesse, interv&eacute;m e se    articula com o seu habitat; ou, 2- delimita-se um determinado meio ambiente    e analisa-se a varia&ccedil;&atilde;o, espacial e temporal, da adapta&ccedil;&atilde;o    cultural em limites pr&eacute;-determinados. (3) A matriz epistemol&oacute;gica    da antropologia abarca, necessariamente, o entrela&ccedil;amento da cultura    com o meio ambiente, com delimita&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias do objeto    de pesquisa. Entretanto, o conceito de natureza &eacute; mais amplo e sofisticado    que o conceito de meio ambiente, o que requer a utiliza&ccedil;&atilde;o de    mais campos de conhecimento e outros m&eacute;todos cient&iacute;ficos para    a an&aacute;lise de uma rela&ccedil;&atilde;o do tipo: homem-natureza. O conceito    de natureza envolve n&atilde;o somente o que &eacute; externo ao homem; envolve    tamb&eacute;m o que lhe &eacute; interno e a necess&aacute;ria articula&ccedil;&atilde;o    do local com o universal buscando um sentido c&oacute;smico &agrave; exist&ecirc;ncia    humana; um sentido de pertencimento ao mundo. </font></p>     <p><font size="3">O conhecimento acumulado sobre a natureza retrata uma &eacute;poca,    diversas formas de interven&ccedil;&atilde;o humana nos processos naturais,    abarca tamb&eacute;m a exist&ecirc;ncia, a rela&ccedil;&atilde;o e a condi&ccedil;&atilde;o    humana em todas as suas dimens&otilde;es. Nesse entrela&ccedil;amento rec&iacute;proco,    o "homem-natureza" se movimenta, gestando uma hist&oacute;ria para o mundo,    novas formas n&atilde;o cessam de se criar, a reinven&ccedil;&atilde;o dos cosmos    continua se projetando como um mito com o pensamento universal reafirmando a    inexist&ecirc;ncia de civiliza&ccedil;&atilde;o eterna ou ideologia definitiva.    Cristaliza-se a tese de que a dial&eacute;tica n&atilde;o &eacute; somente a    vida do pensamento, mas a vida da natureza, a id&eacute;ia de que a natureza    n&atilde;o pode ser concebida sem movimento, que o movimento &eacute; insepar&aacute;vel    da mat&eacute;ria, da id&eacute;ia de totalidade org&acirc;nica e de vida, em    todos seus graus de complexidade, e que nada no mundo est&aacute; isolado (4);    &eacute; poss&iacute;vel dizer que existe uma est&eacute;tica da vida que na    p&oacute;s-modernidade tem privilegiado os processos cient&iacute;ficos, em    detrimento de empreendimentos pluriculturais e ecum&ecirc;nicos.</font></p>     <p><font size="3">A concep&ccedil;&atilde;o transdisciplinar e multidimensional    da est&eacute;tica moderna constr&oacute;i seus pilares com elementos te&oacute;ricos    centrados em problemas pr&oacute;prios da exist&ecirc;ncia humana, da estrutura    e da din&acirc;mica dos processos socioecon&ocirc;micos, dos processos ps&iacute;quicos    e de preval&ecirc;ncia do libido, em processos imbricados na ess&ecirc;ncia    das coisas, em princ&iacute;pios de contesta&ccedil;&atilde;o da ordem social    e em proje&ccedil;&otilde;es c&oacute;smicas da natureza, conforme linguagens    elaboradas, respectivamente, por Schopenhauer, Marx, Freud, Heidegger, Marcuse    e Einstein. Ela encontra-se incrustada nos fundamentos dos cen&aacute;rios que    movimentam a hist&oacute;ria da humanidade abarcando a multiplicidade cultural    que permeia os processos socioecon&ocirc;micos mundiais. </font></p>     <p><font size="3">A concep&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica da matriz da est&eacute;tica    da vida que nos &eacute; projetada ainda encontra-se ancorada no determinismo    e na eugenia; inven&ccedil;&otilde;es europ&eacute;ias que t&ecirc;m em Newton    e em Darwin as suas principais matrizes. A transposi&ccedil;&atilde;o deformada    e mutiladora dos princ&iacute;pios estruturantes das obras desses cientistas,    "Princ&iacute;pios matem&aacute;ticos da filosofia natural" e "A origem das    esp&eacute;cies" para os processos socioecon&ocirc;micos, corroborou para a    interpreta&ccedil;&atilde;o de um processo civilizat&oacute;rio plasmado sobre    os princ&iacute;pios de acumula&ccedil;&atilde;o e individualiza&ccedil;&atilde;o;    esquema que tamb&eacute;m contribuiu para a r&aacute;pida consolida&ccedil;&atilde;o    e dissemina&ccedil;&atilde;o do capitalismo durante os s&eacute;culos XIX e    XX, incrustando definitivamente o etnocentrismo, a mis&eacute;ria e a destrui&ccedil;&atilde;o    ecol&oacute;gica do planeta na hist&oacute;ria universal. Essas s&atilde;o quest&otilde;es    complexas que impulsionaram a articula&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias da    natureza com os megaprocessos econ&ocirc;micos e pol&iacute;ticos mundiais,    possibilitando a irradia&ccedil;&atilde;o planet&aacute;ria dos modelos de desenvolvimento    dos pa&iacute;ses centrais. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O macro-cen&aacute;rio f&iacute;sico prevalecente at&eacute;    o final do s&eacute;culo XIX, estabelecia que o universo se desenvolvia no espa&ccedil;o    tridimensional da geometria, conforme estabelecido por Euclides, e os eventos,    os fluxos e as transforma&ccedil;&otilde;es se faziam presentes num substrato    chamado tempo. Nesse quadro, o espa&ccedil;o e o tempo s&atilde;o representados    como dois recept&aacute;culos de toda a realidade f&iacute;sica, onde n&atilde;o    se pode evitar se colocar dentro dos mesmos, certa mat&eacute;ria substanci&aacute;vel.    O espa&ccedil;o sendo um recept&aacute;culo &uacute;nico a tr&ecirc;s dimens&otilde;es    e o tempo, independentes entre si. Atrav&eacute;s de movimentos adequados seria    poss&iacute;vel projetar geometricamente um aparato com todos os momentos da    hist&oacute;ria universal, c&oacute;smica e humana, sobre uma trajet&oacute;ria    &uacute;nica, onde a simultaneidade &eacute; expressa por uma coincid&ecirc;ncia    exata dos fatos representados, com a sucess&atilde;o e a ordem relativa dos    acontecimentos sendo intuitivamente manifestos. Este cen&aacute;rio constitui    um simulacro dos processos civilizat&oacute;rios; constitui tamb&eacute;m a    nega&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o humana.</font></p>     <p><font size="3">A divis&atilde;o da natureza entre o mundo dos vivos e o mundo    dos n&atilde;o-vivos, continua a ser um dos impasses para a constru&ccedil;&atilde;o    de uma concep&ccedil;&atilde;o hol&iacute;stica e sist&ecirc;mica sobre os processos    da natureza. A natureza &eacute; simultaneamente, um processo de escolha e de    determina&ccedil;&atilde;o; como todo processo de escolha exibe dentro de si    uma consci&ecirc;ncia sens&iacute;vel, ele n&atilde;o pode dar alguma explica&ccedil;&atilde;o    sobre o car&aacute;ter da natureza. Tudo que pode ser feito &eacute; utilizar    a linguagem que permite mostr&aacute;-la especulativamente. (5)</font></p>     <p><font size="3">Este quadro-s&iacute;ntese reafirma a concep&ccedil;&atilde;o    na qual o pensamento universal, a cultura e os sistemas filos&oacute;ficos que    movimentam os processos cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos ocidentais    est&atilde;o, definitivamente, cindidos em duas grandes vertentes: os estudos    sobre os fen&ocirc;menos da natureza, considerando esta entidade como parte    isolada do homem, e os estudos sobre o homem, sobre as comunidades, as sociedades,    os processos civilizat&oacute;rios, enfim, sobre os processos materiais e culturais    que d&atilde;o suporte aos elementos organizativos e din&acirc;micos da sociedade,    considerando-os como independentes da natureza. As ci&ecirc;ncias exatas isolaram    o homem da natureza e as ci&ecirc;ncias humanas privilegiaram os processos sociais    sobre os naturais, com procedimentos metodol&oacute;gicos que fortaleceram,    cada um a seu modo, a nega&ccedil;&atilde;o da unicidade homem-natureza e o    refutamento de um referencial epist&ecirc;mico interdependente. (6)</font></p>     <p><font size="3">A evolu&ccedil;&atilde;o (f&iacute;sica, biol&oacute;gica e    humana) pode ser considerada n&atilde;o somente como produto de dial&eacute;ticas    entre os processos de organiza&ccedil;&atilde;o e desordem, mais tamb&eacute;m    como o produto da dial&eacute;tica entre sistemas e acontecimentos que, a partir    do momento no qual se constituem os seres vivos, faz aparecer as condi&ccedil;&otilde;es    de regress&otilde;es e desenvolvimento. (7) O que se desdobra no definitivo    incrustamento da condi&ccedil;&atilde;o humana na est&eacute;tica da natureza,    transformando-a em est&eacute;tica da vida; est&eacute;tica que tamb&eacute;m    incorporou, definitivamente, a no&ccedil;&atilde;o de desenvolvimento em seu    universo existencial. </font></p>     <p><font size="3">Um fundamento importante para a est&eacute;tica &eacute; a unidade.    Muito embora o empreendimento humano possa se manifestar em forma fragmentada,    a din&acirc;mica dos elementos e dos fen&ocirc;menos da natureza evolui com    a media&ccedil;&atilde;o de uma unidade sist&ecirc;mica. As coisas da natureza    se nos apresentam ao mesmo tempo como concretas. As flores, por exemplo, t&ecirc;m    muitas qualidades – cor, cheiro, sabor, forma, etc –, mas todas estas qualidades    est&atilde;o em uma mesma entidade f&iacute;sica. Elas n&atilde;o est&atilde;o    separadas umas das outras, o cheiro aqui, a cor ali, mas a cor, o cheiro, o    sabor, etc. est&atilde;o configurados numa unidade, ainda que apare&ccedil;am    como distintas. Tampouco se pode construir mecanicamente esta unidade. Cada    parte da folha tem todas as propriedades que tem a folha inteira. (8)</font></p>     <p><font size="3">Outro exemplo &eacute; o descrito por Ernest Mach. Num caso    extremo, Mach prop&ocirc;s a elimina&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o como    causa ativa no sistema da mec&acirc;nica, campo de conhecimento que estuda os    movimentos. Ele desenvolveu a hip&oacute;tese que n&atilde;o &eacute; em rela&ccedil;&atilde;o    ao espa&ccedil;o que um ponto material se move com movimento n&atilde;o acelerado,    e sim em rela&ccedil;&atilde;o ao centro de todas as massas do universo. &Eacute;    como se existisse uma interdepend&ecirc;ncia entre todas as massas existentes    no universo. &Eacute; como se o movimento "isolado" de um corpo dependesse da    configura&ccedil;&atilde;o de todos os demais corpos do universo, o que reafirma    a tese da unidade e da interdepend&ecirc;ncia sist&ecirc;mica entre as entidades    que comp&otilde;em a natureza, pelo menos na concep&ccedil;&atilde;o machiana.    (9, 10) </font></p>     <p><font size="3">Ao se movimentar, o espa&ccedil;o-tempo se historiciza, seja    como forma de exprimir rela&ccedil;&otilde;es entre eventos ou como substratos    das id&eacute;ias, das estruturas ling&uuml;&iacute;sticas, dos mitos, do imagin&aacute;rio    ficcional das pessoas, dos sentimentos humanos, das rela&ccedil;&otilde;es entre    as sociedades e os povos; pode tamb&eacute;m constituir parte dos fundamentos    cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos que movimentam o mundo tecnificado.    Universo no qual as ci&ecirc;ncias da natureza, em especial a f&iacute;sica,    a qu&iacute;mica e a biologia – tendo como meta a constru&ccedil;&atilde;o de    novas realidades f&iacute;sicas –, num ritmo ininterrupto, inventam novos fundamentos    explicativos para os cen&aacute;rios da natureza; cen&aacute;rios que s&atilde;o,    continuamente, recriados com outros sentidos e alcances (11) transfigurando    as proje&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas dos processos civilizat&oacute;rios.    </font></p>     <p><font size="3">Outro aspecto peculiar pr&oacute;prio da est&eacute;tica &eacute;    o cont&iacute;nuo devir da forma e do conte&uacute;do das entidades, objeto    do processamento do conhecimento; devir caracterizado e compromissado com a    hist&oacute;ria universal. Fato que p&otilde;e a quest&atilde;o est&eacute;tica    em um outro patamar de complexidade que compreende um conjunto de processos    entrela&ccedil;ados que abarca &agrave; l&oacute;gica da raz&atilde;o, a sensibilidade    e a inteligibilidade, os preceitos &eacute;ticos e a no&ccedil;&atilde;o de    um empreendimento humano de natureza c&oacute;smica. (12) </font></p>     <p><font size="3">Nesse enfoque, o confronto natureza-cultura cria desdobramentos    surpreendentes. A condi&ccedil;&atilde;o humana, fonte da cultura, pode ser    reinventada, enquanto matriz geradora do progresso, do desenvolvimento de elementos    que se encontram plasmados nos processos da natureza; ela apreende e &eacute;    transfigurada pelos empreendimentos humanos novos que movimentam a cultura,    rompendo com as condi&ccedil;&otilde;es e os processos geradores atrav&eacute;s    de rupturas, tamb&eacute;m, irrevers&iacute;veis.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a17fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Dito de outra forma: o desenvolvimento, atrav&eacute;s da natureza,    recria os empreendimentos pr&oacute;prios da condi&ccedil;&atilde;o humana,    enquanto esta &uacute;ltima, mediada, por agentes externos e por complexos mecanismos    internos, operacionaliza novas formas de desenvolvimento. Natureza e cultura    se confundem entrela&ccedil;adas uma &agrave; outra, os confrontos e as contradi&ccedil;&otilde;es    de cada uma delas perdem suas identidades e passam a constituir, estruturalmente,    uma nova temporalidade, um novo universo epistemol&oacute;gico. Passa a existir    uma contradi&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica, do particular ao universal, da    unidade &agrave; multiplicidade, entre o contigencial e o necess&aacute;rio,    o finito e o infinito, o cont&iacute;nuo e o discreto que se manifestam num    contexto din&acirc;mico, criando novas est&eacute;ticas, n&atilde;o necessariamente    comprometidas com o destino da humanidade. </font></p>     <p><font size="3">&Eacute; nesse cen&aacute;rio multidimensional que as ci&ecirc;ncias    f&iacute;sicas, mediadas pela est&eacute;tica, se entrela&ccedil;am com a ecologia    para formar parte do substrato de sustenta&ccedil;&atilde;o das realidades hist&oacute;ricas    e cient&iacute;ficas que comp&otilde;em os atuais quadros sociais, econ&ocirc;micos    e pol&iacute;ticos e aos que se projetam para o futuro. Esse painel hist&oacute;rico    p&otilde;e novos problemas para os especialistas; problemas do tipo: Quais os    compromissos &eacute;ticos das ci&ecirc;ncias f&iacute;sicas com a desconstru&ccedil;&atilde;o    de um processo civilizat&oacute;rio centrado na naturaliza&ccedil;&atilde;o    da condi&ccedil;&atilde;o humana? Em que sentido e quando a f&iacute;sica, enquanto    campo de conhecimento organizado, se compromissar&aacute; com a constru&ccedil;&atilde;o    do futuro de todos? De que forma e em que intensidade a f&iacute;sica privilegiar&aacute;    a condi&ccedil;&atilde;o humana no confronto natureza-cultura? Como e em que    medida o confronto da totalidade versus unidade mediar&aacute; os programas    de estudos e pesquisa em f&iacute;sica? Que modifica&ccedil;&otilde;es devem    ser incorporadas aos fundamentos da f&iacute;sica nessa nova ordem mundial?    Em que forma e intensidade os processos est&eacute;ticos subsumem as m&eacute;tricas    espa&ccedil;o-temporais originando novos sentidos e linguagens explicativas    dos processos culturais em curso? </font></p>     <p><font size="3">Os sentidos que orientam as quest&otilde;es expostas s&atilde;o    possibilidades paradigm&aacute;ticas ou novos contornos transdisciplinares para    as ci&ecirc;ncias da natureza e as rela&ccedil;&otilde;es humanas. N&atilde;o    se esgotam em si pr&oacute;prios, tanto quanto o conhecimento e a a&ccedil;&atilde;o    que interv&eacute;m sobre a realidade e nela se recriam. Transcendem os campos    disciplinares e os explodem em novos arranjos e entidades de agrega&ccedil;&atilde;o,    articula&ccedil;&atilde;o e desarticula&ccedil;&atilde;o. Nesse n&iacute;vel    superam aparatos metodol&oacute;gicos e tecnol&oacute;gicos, suprimem e/ou fundem    paradigmas em novas representa&ccedil;&otilde;es. S&atilde;o aqui o substrato    da est&eacute;tica que subsume a &eacute;tica de &eacute;poca e vislumbram outros    "campos" ou feixes de modos e fen&ocirc;menos de interven&ccedil;&atilde;o.    Emerge desses fluxos simb&oacute;licos e materiais, outro universo cultural    e art&iacute;stico. &Eacute; a pol&iacute;tica do paroxismo, em seu estado de    arte mais avan&ccedil;ado e sofisticado, aquele que submete o conhecido, o esperado,    o vivido e todos os outros constituintes simb&oacute;licos. &Eacute; nesse &acirc;mbito    que o futuro conclama as novas decis&otilde;es. </font></p>     <p><font size="3">Estas s&atilde;o quest&otilde;es complexas imbricadas em estudos    das ci&ecirc;ncias naturais e humanas e da filosofia que precisam ser desvendadas    para melhor compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre esses campos    de conhecimento e a ecologia. Finalmente, as rela&ccedil;&otilde;es entre f&iacute;sica    brasileira e estudos ambientais, em todas as escalas espaciais e temporais,    perpassam necessariamente, por um compromisso c&iacute;vico e institucional,    das pessoas e das institui&ccedil;&otilde;es nacionais com a Amaz&ocirc;nia,    principal signo ecol&oacute;gico da modernidade. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Marc&iacute;lio de Freitas</b> &eacute; professor do Departamento    de F&iacute;sica da Universidade Federal do Amazonas desde 1978. Marc&iacute;lio    &eacute; especialista em processos de transporte e autor, em parceria com outros    professores, de v&aacute;rios livros sobre a Amaz&ocirc;nia, entre eles:</i>    Amaz&ocirc;nia e desenvolvimento sustent&aacute;vel. <i>Petr&oacute;polis: Editora    Vozes, 2004; e</i> Amaz&ocirc;nia – a natureza dos problemas e os problemas    da natureza, <i>V. I. Manaus: EDUA. 2005. </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></FONT></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Freitas, M. <i>Proje&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas da    Amaz&ocirc;nia: um olhar para o futuro</i>. Manaus, Editora Valer. 2005. (em    processo de lan&ccedil;amento).</font><!-- ref --><p><font size="3">2. Bakhtin, M. <i>Quest&otilde;es de literatura e de est&eacute;tica    – A teoria do romance</i>, 3ª. Edi&ccedil;&atilde;o, pp 69, 32. S&atilde;o Paulo:    Editora Unesp-Hucitec. 1993.</font><!-- ref --><p><font size="3">3. Meggers, B., J. <i>Amaz&ocirc;nia, a ilus&atilde;o de um    para&iacute;so</i> S&atilde;o Paulo, Editora da Universidade de S&atilde;o Paulo,    p 29. 1987. </font><!-- ref --><p><font size="3">4. Garaudy, R. <i>Para conhecer o pensamento de Hegel</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o    de Suey Bastos. Porto Alegre, L&amp;PM Editores, pp 22-30, 124. 1983.</font><!-- ref --><p><font size="3">5. Whitehead, A., N. <i>Le concept de nature</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o    de Jean Douchement. France, Libraire Philosophique J. Vrin, pp 178-179. 1998.</font><!-- ref --><p><font size="3">6. Frioux, D. <i>Nature et culture</i>. Paris, Armand Colin.    2001</font><!-- ref --><p><font size="3">7. Morin, E. <i>Science avec conscience</i>. Paris, Editions    du Seuil, p 235. 1990.</font><!-- ref --><p><font size="3">8. Hegel, G. W. F. <i>Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria    da filosofia</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o de Euclidy Carneiro da Silva. S&atilde;o    Paulo, Hemus Editora, p 47.. 1983.</font><!-- ref --><p><font size="3">9. Einstein, A. <i>O significado da relatividade</i>. Traduzido    por M&aacute;rio Silva. Coimbra, Portugal, Arm&ecirc;nio Amado, Editor, Suc,    p 68. 1958. </font><!-- ref --><p><font size="3">10. Farago, F. <i>La nature</i>. Paris, Editora Armand Colin,    p. 224. 2000. </font><!-- ref --><p><font size="3">11. Freitas, M.; Silva Freitas, M., C.; Marmoz, L. <i>A ilus&atilde;o    da sustentabilidade</i>. Manaus, EDUA. 2003.</font><!-- ref --><p><font size="3">12. Jonas, H. <i>Le principle responsabilit&eacute;</i>. Paris,    Editora Champs Flammarion, pp 30-56. 1990.</font> ]]></body><back>
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