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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Física entre a guerra e a paz: reflexões sobre a responsabilidade social da ciência]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>A F&Iacute;SICA ENTRE A GUERRA E A PAZ - REFLEX&Otilde;ES    SOBRE A RESPONSABILIDADE SOCIAL DA CI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Luiz Pinguelli Rosa</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5><b>&Eacute;</b></font> freq&uuml;entemente evocado    que Arquimedes teria queimado navios inimigos na Gr&eacute;cia focalizando sobre    eles a luz do sol refletida por superf&iacute;cies espelhadas. Teria sido esta    a primeira aplica&ccedil;&atilde;o militar da ci&ecirc;ncia ou do saber da filosofia    da natureza? O caso &eacute; pol&ecirc;mico, pois, segundo Thuillier (1), n&atilde;o    &eacute; presum&iacute;vel que tal fa&ccedil;anha pudesse ser realizada com    os meios dispon&iacute;veis na Gr&eacute;cia Antiga. Entretanto, s&atilde;o    in&uacute;meros os exemplos de desenvolvimentos da f&iacute;sica voltados &agrave;s    aplica&ccedil;&otilde;es b&eacute;licas. S&atilde;o mais n&iacute;tidos os exemplos    dos fundadores da mec&acirc;nica no s&eacute;culo XVII. Galileu escreveu um    tratado sobre t&eacute;cnicas militares e inventou um compasso para esse fim.    No segundo livro dos <i>Principia</i> de Newton (2) h&aacute; v&aacute;rios    t&oacute;picos com n&iacute;tidas aplica&ccedil;&otilde;es &agrave; t&eacute;cnica    militar da sua &eacute;poca. </font></p>     <p><font size="3">Desde Galileu fica claro que h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o    entre ci&ecirc;ncia e poder. Sua posi&ccedil;&atilde;o tornou-se revolucion&aacute;ria,    contra as concep&ccedil;&otilde;es aristot&eacute;licas da filosofia escol&aacute;stica    sustentada pela Igreja. Suas duas novas ci&ecirc;ncias (3) – a mec&acirc;nica    e a resist&ecirc;ncia dos materiais – eram funcionais &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es    que desembocaram n&atilde;o s&oacute; na revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica    do s&eacute;culo XVII, mas na revolu&ccedil;&atilde;o industrial dos s&eacute;culos    subseq&uuml;entes, com a ascens&atilde;o do capitalismo como forma mais avan&ccedil;ada    de produ&ccedil;&atilde;o do que o feudalismo medieval. As revolu&ccedil;&otilde;es    que balizaram, no n&iacute;vel superestrutural, o advento da modernidade – a    Reforma Religiosa, o Renascimento no campo cultural-art&iacute;stico e a Revolu&ccedil;&atilde;o    Cient&iacute;fica – foram frutos de mudan&ccedil;as estruturais em curso na    produ&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e nas rela&ccedil;&otilde;es sociais.    Por outro lado, em uma retro-alimenta&ccedil;&atilde;o positiva, elas impeliram    as mudan&ccedil;as transformando a concep&ccedil;&atilde;o de mundo. Galileu    &eacute; um contra-exemplo acerca da ilus&atilde;o da ci&ecirc;ncia neutra.    (4) </font></p>     <p><font size="3">O historiador da ci&ecirc;ncia J. Bernal (5) toma como um ponto    de partida neste tipo de estudo o artigo de Boris Hessen "As ra&iacute;zes sociais    e econ&ocirc;micas dos Principia de Newton" (6). Nele, as atividades de Newton    s&atilde;o relacionadas ao desenvolvimento da propriedade privada que caracterizou    sua &eacute;poca, em que emergiam o capital mercantil e a manufatura enquanto    se desintegrava o feudalismo. Hessen relaciona as &aacute;reas da f&iacute;sica    que se desenvolveram nos anos 1600, com as necessidades econ&ocirc;micas e sociais,    incluindo as militares (7), se &eacute; que podemos eticamente considerar estas    &uacute;ltimas necess&aacute;rias. As necessidades apontadas por Hessen estimulavam    basicamente o desenvolvimento da mec&acirc;nica, incluindo a mec&acirc;nica    celeste, a cinem&aacute;tica, a din&acirc;mica e a mec&acirc;nica dos fluidos,    abordadas nos <i>Principia</i>, em que Newton sintetizou todos estes assuntos    em uma teoria unificada e matematizada, com enorme poder de resolu&ccedil;&atilde;o    de problemas pr&aacute;ticos. Enquanto os Livros I e III dos <i>Principia</i>    se ocupam predominantemente com os problemas fundamentais, embora n&atilde;o    sem aplica&ccedil;&otilde;es, o Livro II &eacute; voltado &agrave;s aplica&ccedil;&otilde;es    mais pr&aacute;ticas. Servia &agrave; bal&iacute;stica, &agrave; constru&ccedil;&atilde;o    naval, &agrave;s armas de fogo, ao bombeamento de &aacute;gua, &agrave; eleva&ccedil;&atilde;o    dos min&eacute;rios nas minas e &agrave; navega&ccedil;&atilde;o. Em contraste    com o enorme desenvolvimento da mec&acirc;nica, os demais campos da f&iacute;sica    tiveram um desenvolvimento menor, n&atilde;o matematizado, com exce&ccedil;&atilde;o    da &oacute;ptica, tamb&eacute;m com aplica&ccedil;&atilde;o na localiza&ccedil;&atilde;o    dos corpos celestes, que &eacute; &uacute;til &agrave; navega&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <p><font size="3">Outros autores analisaram o desenvolvimento cient&iacute;fico    extrapolando o seu exclusivo contexto interno. Koyre (8) se inspira na convic&ccedil;&atilde;o    da unidade do pensamento humano nas suas formas mais elaboradas e procura relacionar    o pensamento cient&iacute;fico com a hist&oacute;ria, partindo da hip&oacute;tese    de que a ci&ecirc;ncia influi e &eacute; influenciada por outras id&eacute;ias    n&atilde;o cient&iacute;ficas em cada &eacute;poca. Habermas (9) introduz o    conceito de interesses que orientam a ci&ecirc;ncia. Para ele, as orienta&ccedil;&otilde;es    b&aacute;sicas da pesquisa n&atilde;o visam &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o    de necessidades imediatas, mas &agrave; solu&ccedil;&atilde;o dos problemas    sist&ecirc;micos. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o &eacute; trivial reproduzir a an&aacute;lise de Hessen    para todo o desenvolvimento da f&iacute;sica. H&aacute; pontos pol&ecirc;micos.    (10) Mas, parece-nos correta a id&eacute;ia de procurar identificar a defini&ccedil;&atilde;o    da problem&aacute;tica principal, isto &eacute;, os campos de pesquisa considerados    mais importantes da f&iacute;sica e da ci&ecirc;ncia em geral com as necessidades    sociais ou das classes dominantes. H&aacute; dois exemplos contempor&acirc;neos.    Um deles &eacute; a prioridade dada &agrave; f&iacute;sica nuclear e &agrave;    sua sucessora, a f&iacute;sica das part&iacute;culas elementares, no p&oacute;s-guerra,    com o desenvolvimento das armas nucleares(11) e com a grande esperan&ccedil;a    depositada na fiss&atilde;o e na fus&atilde;o nuclear como fonte de energia,    id&eacute;ia hoje controvertida. (12) Outro &eacute; o desenvolvimento recente    da f&iacute;sica do estado s&oacute;lido, estimulado pela crescente import&acirc;ncia    da telecomunica&ccedil;&atilde;o, da microeletr&ocirc;nica e da inform&aacute;tica    em escala mundial.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">No s&eacute;culo XX, nas duas guerras mundiais, o poder de destrui&ccedil;&atilde;o    cresceu exponencialmente pela aplica&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia e da    tecnologia aos armamentos, culminando na Segunda Guerra com as bombas de Hiroshima    e Nagasaki – um mau legado da ci&ecirc;ncia para a humanidade. Foi fruto do    temor de alguns dos maiores cientistas do s&eacute;culo, como Einstein, Fermi,    Bohr e Szilard, que propuseram ao presidente norte americano Roosevelt desenvolver    a bomba antes que a Alemanha nazista a fizesse. Constituiu-se em um dos maiores    erros da hist&oacute;ria da humanidade, pois os nazistas n&atilde;o estavam    tendo &ecirc;xito no desenvolvimento da bomba nuclear. O nazismo, que chegou    a tomar grande parte da Europa, foi derrotado por uma alian&ccedil;a do ocidente    capitalista com a ex-Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. Com o fim da guerra intensificou-se    no plano ideol&oacute;gico o confronto entre capitalismo e socialismo, cristalizando-se    na guerra fria, cujo marco foi a bomba nuclear. As duas superpot&ecirc;ncias    criaram um mundo bipolar, sob a &eacute;gide da amea&ccedil;a do holocausto    da guerra nuclear.</font></p>     <p><font size="3">Nada mais insuspeito do que o general Eisenhower, presidente    dos EUA ap&oacute;s ter comandado as for&ccedil;as aliadas na guerra, apontando    o "complexo industrial militar", que ganhou enorme dimens&atilde;o com a guerra    fria. O conceito de Eisenhower foi analisado em uma confer&ecirc;ncia da Union    for Radical Economics, como se segue. "O estado b&eacute;lico que constru&iacute;mos    (...) tem uma ampla clientela. No alto da pir&acirc;mide est&aacute; o complexo    industrial militar, que compreende, em primeiro lugar, o Departamento de Estado    (...), a CIA, a NASA. Os almirantes e generais, os cientistas (...) empenham-se    ativamente em fortalecer sua influ&ecirc;ncia. Com essa finalidade, cultivam    boas rela&ccedil;&otilde;es com congressistas (...) distribuem generosos favores    aos legisladores. Antigos militares s&atilde;o enredados numa ampla malha de    influ&ecirc;ncia (...). Os militares s&atilde;o escorados pela vertente industrial    desse complexo, isto &eacute;, pelas grandes corpora&ccedil;&otilde;es ....    . (13) Algumas dessas corpora&ccedil;&otilde;es destinam o grosso da sua produ&ccedil;&atilde;o    aos militares ...". (14) Infelizmente, com as devidas corre&ccedil;&otilde;es,    colocando o Partido no lugar das corpora&ccedil;&otilde;es, o Kremlim no lugar    do Departamento de Estado e a KGB no lugar da CIA, o que se passava na ex-Uni&atilde;o    Sovi&eacute;tica n&atilde;o era totalmente diferente. (15)</font></p>     <p><font size="3">At&eacute; a d&eacute;cada de 1960, os jovens que escolhiam    a carreira cient&iacute;fica n&atilde;o tinham d&uacute;vidas sobre sua op&ccedil;&atilde;o,    quanto &agrave; finalidade social: era uma atividade voltada para o progresso    humano, valorizada tanto pela esquerda como pelos liberais, ainda que alguns    malfeitores pudessem fazer um mau uso dos seus frutos. Eram considerados lament&aacute;veis    mas evit&aacute;veis casos como o da bomba at&ocirc;mica (de fiss&atilde;o),    lan&ccedil;ada sobre os japoneses para amea&ccedil;ar os sovi&eacute;ticos.    (16) Hoje, apesar do fim da guerra fria com o colapso da ex-Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica,    o sistema de poder dominante nos Estados Unidos, amea&ccedil;a com as bombas    termonucleares de fus&atilde;o (piores que as de fiss&atilde;o) toda a humanidade.    R&uacute;ssia, Fran&ccedil;a, Inglaterra e China, seguidos de longe, em muito    menor escala, por Israel, &Iacute;ndia e Paquist&atilde;o s&atilde;o tamb&eacute;m    dotados de armas nucleares, que amea&ccedil;am inclusive seus pr&oacute;prios    povos. H&aacute; o medo de o terrorismo usar um artefato nuclear, o que &eacute;    perfeitamente poss&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="3">Em 1996, a Assembl&eacute;ia Geral das Na&ccedil;&otilde;es    Unidas aprovou uma proposta para negocia&ccedil;&atilde;o de uma conven&ccedil;&atilde;o    proibindo as bombas nucleares no mundo. As pot&ecirc;ncias nucleares votaram    contra e nada fizeram neste sentido. Nos EUA, a National Ignition Facility foi    instalada para desenvolver bombas nucleares mais avan&ccedil;adas, mantendo    o arsenal nuclear atualizado. </font></p>     <p><font size="3">Era esperado que com o avan&ccedil;o da ci&ecirc;ncia, o desenvolvimento    das for&ccedil;as produtivas decorrentes aliviaria o pesado fardo dos trabalhadores,    cujo esfor&ccedil;o muscular &eacute; substitu&iacute;do pela pot&ecirc;ncia    das m&aacute;quinas alimentadas pelas fontes de energia apropriadas da natureza    e postas a servi&ccedil;o dos homens. Eram supostas provis&oacute;rias, e super&aacute;veis    com o progresso, as terr&iacute;veis condi&ccedil;&otilde;es de trabalho da    f&aacute;brica, t&atilde;o bem ilustradas por Chaplin em <i>Tempos modernos</i>:    seus gestos comandados pela organiza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o    taylorista, seu ritmo dado pela velocidade da linha de montagem do fordismo,    seu c&eacute;rebro substitu&iacute;do pelos dos gerentes, t&eacute;cnicos, engenheiros,    cientistas. O pr&oacute;ximo passo na era da inform&aacute;tica &eacute; a robotiza&ccedil;&atilde;o    da produ&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute; esta a sa&iacute;da que a ci&ecirc;ncia    e a revolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica atual oferecem, o maravilhoso    mundo dos servi&ccedil;os, p&oacute;s-industrial? (17) Talvez, mas h&aacute;    certo ceticismo quando se observa como as popula&ccedil;&otilde;es asi&aacute;ticas,    africanas, latino-americanas, bem como os pobres e imigrantes nos pa&iacute;ses    ricos s&atilde;o contempladas neste mundo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a19fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Embora seja antiga a cr&iacute;tica ao progresso t&eacute;cnico    sem limites foram os movimentos sociais das &uacute;ltimas d&eacute;cadas do    s&eacute;culo XX – o ecologista, o antinuclear e o pacifista – que a trouxeram    &agrave; consci&ecirc;ncia de muitos. N&atilde;o se trata de engrossar o coro    das carpideiras com saudade dos velhos bons tempos, em que a polui&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o atingia tanto as classes m&eacute;dia e alta nos seus bairros verdes    e tranq&uuml;ilos, mas os mais pobres chafurdavam, tanto quanto hoje, em locais    insalubres, expostos a doen&ccedil;as infecciosas. Nem se trata de aderir ao    p&oacute;s-modernismo anticient&iacute;fico. A expectativa de vida aumentou    e a mortalidade infantil diminuiu. Ser contra a penicilina, um produto da ci&ecirc;ncia,    como ser contra o r&aacute;dio, a televis&atilde;o, o motor &agrave; explos&atilde;o    e tudo que a tecnologia deu, parece ser est&eacute;ril. Negar as leis de Newton    e a teoria da relatividade de Einstein seria t&atilde;o equivocado quanto mistificar    a ci&ecirc;ncia sem procurar ver suas contradi&ccedil;&otilde;es e suas limita&ccedil;&otilde;es.    </font></p>     <p><font size="3">Einstein, provavelmente o maior f&iacute;sico ap&oacute;s Newton,    escreveu sobre essa quest&atilde;o em "Minhas id&eacute;ias e opini&otilde;es".    (18) Ele viveu o drama de ter sido um dos f&iacute;sicos que aconselharam o    presidente Roosevelt a desenvolver a bomba at&ocirc;mica, com medo de que os    nazistas a fizessem e, com ela, ampliassem a mortandade da Segunda Guerra e    subjugassem a humanidade aos seus prop&oacute;sitos inumanos e anti-sociais.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Paradoxalmente, Einstein e alguns dos f&iacute;sicos que foram    os respons&aacute;veis diretos ou indiretos pela bomba at&ocirc;mica tinham    profundas preocupa&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas. O mesmo n&atilde;o &eacute;    verdade para os que se engajaram em pesquisas para o aprimoramento das armas    nucleares, seja a soldo dos projetos militares, seja em nome da neutralidade    da ci&ecirc;ncia, realizando estudos acad&ecirc;micos estimulados e financiados    pela sua aplica&ccedil;&atilde;o militar potencial. Ao contr&aacute;rio destes,    alguns dos pais da bomba at&ocirc;mica eram &eacute;ticos ainda que nem sempre    tenham sido coerentes politicamente com seus objetivos. Muitos livros t&ecirc;m    sido publicados a esse respeito com o testemunho de v&aacute;rios daqueles f&iacute;sicos.    (19) Bunge, mais como epistem&oacute;logo do que como f&iacute;sico, escreveu    o livro <i>&Eacute;tica e Ci&ecirc;ncia</i>. (20)</font></p>     <p><font size="3">A rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e armamentismo est&aacute;    inserida em um contexto que empurra, atrav&eacute;s dos valores do patriotismo    ou de ideologias, os cientistas a colaborarem para a tecnologia da guerra. O    problema que aqui se coloca &eacute; o da situa&ccedil;&atilde;o limite no caso    espec&iacute;fico em que uma sociedade se une e se organiza para defender-se    contra o ataque de um inimigo invasor e brutal, como ocorreu na Segunda Guerra    Mundial. Isso levou importantes cientistas a colaborarem no esfor&ccedil;o de    guerra dos aliados. A&iacute; se insere a quest&atilde;o das armas nucleares    propostas por f&iacute;sicos contra a Alemanha, mas lan&ccedil;adas pelos EUA    no Jap&atilde;o ap&oacute;s a capitula&ccedil;&atilde;o dos alem&atilde;es,    contra a vontade de Bohr, que saiu do projeto e amea&ccedil;ou advertir os sovi&eacute;ticos,    ent&atilde;o aliados, sobre a bomba. Churchill tentou convencer Roosevelt a    prend&ecirc;-lo. O memorando resultante da reuni&atilde;o dos dois, em Hyde    Park, em setembro de 1944, estabelecia que: "A atividade do professor Bohr ser&aacute;    submetida a um inqu&eacute;rito e medidas ser&atilde;o tomadas para assegurar    que ele n&atilde;o seja respons&aacute;vel por fugas de informa&ccedil;&otilde;es,    em particular para os russos". Segundo Goldschmidt, Churchill chegou a referir-se    a um "crime pass&iacute;vel de pena de morte". (21) Bohr foi um dos criadores    da mec&acirc;nica qu&acirc;ntica, autor do primeiro modelo qu&acirc;ntico do    &aacute;tomo, um dos maiores f&iacute;sicos do s&eacute;culo XX. </font></p>     <p><font size="3">A quest&atilde;o &eacute; at&eacute; que ponto deve o cientista    colaborar nessa situa&ccedil;&atilde;o limite mobilizando seu conhecimento cient&iacute;fico    para criar novas formas de destrui&ccedil;&atilde;o. O problema n&atilde;o &eacute;    simples, exigindo uma an&aacute;lise cuidadosa do papel do cientista e do enorme    poder da apropria&ccedil;&atilde;o do seu saber para aplica&ccedil;&otilde;es    tecnol&oacute;gicas fora de controle racional e &eacute;tico. Em que grau h&aacute;    responsabilidade do cientista sobre o fruto do seu trabalho e o quanto ele tem    consci&ecirc;ncia do significado do que produz nas suas pesquisas? Isso exige    uma abertura da consci&ecirc;ncia do cientista quanto ao alcance e &agrave;    limita&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia. (22) O pesquisador geralmente escolhe    seu assunto sem consci&ecirc;ncia do que dele pode resultar, acreditando sinceramente    estar autonomamente decidindo movido pelo desafio, pela curiosidade ou pelo    interesse de resolver problemas &uacute;teis &agrave; sociedade. Em especial    &eacute; assim que se faz o trabalho acad&ecirc;mico nas universidades. O direcionamento    da pesquisa se d&aacute; globalmente pela destina&ccedil;&atilde;o das verbas    pelos &oacute;rg&atilde;os de fomento &agrave; ci&ecirc;ncia ou pelas linhas    editoriais das revistas cient&iacute;ficas de maior prest&iacute;gio ou dos    comit&ecirc;s de organiza&ccedil;&atilde;o das confer&ecirc;ncias internacionais,    que podem ser suscept&iacute;veis a est&iacute;mulos de fora da ci&ecirc;ncia.    Kuhn (23) descreve os profissionais das ci&ecirc;ncias f&iacute;sicas trabalhando    exaustivamente dentro de um paradigma at&eacute; o exaurir e abrir ent&atilde;o    o espa&ccedil;o para as rupturas quando a ci&ecirc;ncia ganha uma conota&ccedil;&atilde;o    revolucion&aacute;ria. Popper (24) – um dos pais do neoliberalismo e, independentemente    disto, importante na filosofia da ci&ecirc;ncia – via o cientista t&iacute;pico    absorto no operacionalismo da sua teoria e da sua pr&aacute;tica, sem prestar    aten&ccedil;&atilde;o ao significado epistemol&oacute;gico do que faz. Mas deve-se    acrescentar que a inconsci&ecirc;ncia &eacute; social e pol&iacute;tica, pela    cren&ccedil;a em uma ci&ecirc;ncia neutra, acima do bem e do mal, em busca puramente    da verdade. Nessa concep&ccedil;&atilde;o suas aplica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o    s&atilde;o da responsabilidade dos cientistas. </font></p>     <p><font size="3">Em contraponto com essa vis&atilde;o h&aacute; um movimento    global de cientistas preocupados com os problemas da ci&ecirc;ncia para a sociedade.    Einstein e Bertrand Russel fundaram o movimento Pugwash contra as armas nucleares,    cujo presidente de honra &eacute; o Nobel da Paz Joseph Rotblat . (25) No Brasil,    a Sociedade Brasileira de F&iacute;sica (SBF) estabeleceu um debate sobre o    Acordo Nuclear com a Alemanha (26), durante o governo militar. Uma preocupa&ccedil;&atilde;o    foi estabelecer um controle efetivo da tecnologia nuclear para evitar que o    programa nuclear fosse um degrau na dire&ccedil;&atilde;o da bomba at&ocirc;mica,    em uma escalada para a nucleariza&ccedil;&atilde;o militar da Am&eacute;rica    Latina a come&ccedil;ar pelo Brasil e pela Argentina. (27) O dispositivo da    Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 que delimita a energia nuclear para fins    pac&iacute;ficos foi um passo no sentido desse controle. Entretanto, j&aacute;    no governo do presidente Sarney uma comiss&atilde;o da SBF(28) identificou –    por tr&aacute;s de uma perfura&ccedil;&atilde;o po&ccedil;o profunda denunciada    na base a&eacute;rea de Cachimbo(29) – o projeto herdado dos governos militares    de testar um explosivo nuclear. Primeiramente negado foi depois reconhecido    e desativado no governo Collor. (30) </font></p>     <p><font size="3">Portanto, a quest&atilde;o &eacute;tica n&atilde;o pode ser    vista exclusivamente como individual, sendo relacionada &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;ricas por que passaram e passam as comunidades de cientistas. Ou    seja, ela &eacute; tamb&eacute;m pol&iacute;tica. (31)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Luiz Pinguelli</b> &eacute; f&iacute;sico e professor    titular da COPPE/UFRJ; &eacute; docente da &aacute;rea interdisciplinar de Hist&oacute;ria    das Ci&ecirc;ncias e das T&eacute;cnicas e Epistemologia da UFRJ.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">1. Thuillier, P. <i>D’Archim&egrave;de &agrave; Einstein</i>,    Fayard, Paris. 1988.</font><!-- ref --><p><font size="3">2. Newton, <i>Philosophiae Naturalis Principia Mathematicae</i>,    1687; Great Books; Enc. Britannica and Univ. Chicago. 1978.</font><!-- ref --><p><font size="3">3. Carneiro, F. L. (coord.) 350 anos dos <i>"Discorsi intorno    a due nuove scienze"</i>, Marco Zero, Rio, 1989. </font><!-- ref --><p><font size="3">4. Rosa, L. P. <i>Tecnoci&ecirc;ncias e humanidades</i>, Vol.    I – "O determinismo newtoniano na vis&atilde;o de mundo moderna", Paz e Terra,    S.Paulo. 2005.</font><!-- ref --><p><font size="3">5. Bernal, J. "Science in history", <i>MIT Press</i>, Cambridge.    1979.</font><!-- ref --><p><font size="3">6. Hessen, B. no II Congresso Internacional da Hist&oacute;ria    da Ci&ecirc;ncia e da Tecnologia, Londres, 1931, tradu&ccedil;&atilde;o de J.    Zanetic para a <i>Rev. Ensino de F&iacute;sica</i>, vol. 6, no. 1, p. 37. 1984.</font><p><font size="3">7. Desenvolvimento da artilharia, substitui&ccedil;&atilde;o    de balas de pedra por balas de ferro, uso de ferro e cobre na fabrica&ccedil;&atilde;o    dos canh&otilde;es e das armas, exigindo estudos de processos internos &agrave;s    armas, estabilidade e pontaria, trajet&oacute;ria dos proj&eacute;teis e resist&ecirc;ncia    do ar, e envolvendo conhecimentos de dilata&ccedil;&atilde;o dos gases, din&acirc;mica,    cinem&aacute;tica e bal&iacute;stica.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Koyr&eacute;,A. <i>Estudos de hist&oacute;ria do pensamento    cient&iacute;fico</i>, Ed. Univ. Bras&iacute;lia, p. 13. 1982.</font><!-- ref --><p><font size="3">9. Habermas, J. <i>Conhecimento e interesse</i>, tradu&ccedil;&atilde;o    de J. Heck, Ed. Guanabara, Rio. 1987. </font><!-- ref --><p><font size="3">10. Clagett, M. <i>Critical problems in the history of sciense</i>,    Univ. Wisconsin Press. 1969. </font><!-- ref --><p><font size="3">11. Rosa,L.P. em Ricardo Arnt (organizador), <i>O armamentismo    no Brasil</i>, Brasiliense. 1985.</font><!-- ref --><p><font size="3">12. Rosa, L. P. e Gomes, F. M. (organizadores) <i>Energia, tecnologia    e desenvolvimento – A quest&atilde;o nuclear</i>, Vozes, Petr&oacute;polis.    1978.    <!-- ref --><br>   Rosa, L. P. <i>Energia e crise</i>, Vozes, Petr&oacute;polis. 1984.    <!-- ref --><br>   Rosa, L. P. <i>Pol&iacute;tica nuclear - O caminho das armas at&ocirc;micas</i>,    Jorge Zahar, Rio. 1986.    <!-- ref --><br>   Rosa, L. P.; Barros, F. S. e Ribeiro, S., <i>A pol&iacute;tica nuclear no Brasil</i>,    Greenpeace, SP. 1991.    <br>   Sobre pol&iacute;tica nuclear orientei as teses de Ildo Sauer e Jos&eacute;    Ces&aacute;rio Cecchi na &Aacute;rea Interdisciplinar de Energia da COPPE. Antes,    trabalhei por v&aacute;rios anos com Zileli Dutra Thom&eacute; no Programa de    P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o de Engenharia Nuclear da COPPE e no Instituto    de F&iacute;sica da UFRJ. </font></p>     <p><font size="3">13. No Brasil, no processo das privatiza&ccedil;&otilde;es,    tecnocratas no governo envolvidos no processo recebiam, depois, altos cargos    no setor privado ao sa&iacute;rem do governo. Ex- defensores do papel do Estado    na economia viraram neoliberais convictos.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">14. Fusfeld,D. em Hunt, E. e Sherman, H. <i>Hist&oacute;ria    do pensamento econ&ocirc;mico</i>, Vozes, Petr&oacute;polis. 2001. </font><p><font size="3">15. Nas economias em transi&ccedil;&atilde;o do ex-Segundo Mundo,    muitos ex-dirigentes comunistas viraram os mais &aacute;vidos capitalistas.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">16. Rosa, L.P. em Wolfgang Leo Maar et al., <i>O p&uacute;blico    e o privado - O poder e o saber</i>, p. 108. Andes, Edit. Marco Zero, Rio. 1984.</font><p><font size="3">17.Weiner, N. escreveu "Some moral and technical consequences    of automation" (1960), ver M&eacute;sz&aacute;ros, I. 2004.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">18. Einstein, A. <i>Mis ideas y opiniones</i>, Antoni Bosch    Ed., Barcelona. 1985.</font><!-- ref --><p><font size="3">19. Pringle, P. and Spigelman, J. <i>The nuclear barons</i>,    Holt, Rinehart and Winston Ed, N York. 1981; Ackland, L. and McGuire,S. "Assessing    the Nuclear Age", Univ. Chicago Press. 1986.</font><!-- ref --><p><font size="3">20. Bunge, M. <i>&Eacute;tica y ci&ecirc;ncia</i>, Siglo Veinte,    B. Aires. 1985.     Agora h&aacute; a pol&ecirc;mica sobre a engenharia gen&eacute;tica    que novamente envolve a quest&atilde;o da &eacute;tica na ci&ecirc;ncia.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">21. Goldschmidt,B. <i>Le compl&egrave;xe ztomique</i>, p 24,    Fayard, Paris. 1980.</font><!-- ref --><p><font size="3">22. M&eacute;sz&aacute;ros,I. <i>O poder da ideologia</i>, Boitempo    Edit., S. Paulo, 2004, p 270 e 272. </font><!-- ref --><p><font size="3">23. Kuhn,T. <i>The structure of scientific revolution</i>. University    Chicago Press, 1962;    <!-- ref --> edi&ccedil;&atilde;o em portugu&ecirc;s: "A estrutura das    revolu&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas", <i>Debates</i>, Ed. Perspectiva,    1984.</font><!-- ref --><p><font size="3">24. Popper, K. <i>A l&oacute;gica da pesquisa cient&iacute;fica</i>,    Cultrix, SP, 1972.</font><p><font size="3">25. Joseph Rotblat &eacute; o &uacute;ltimo f&iacute;sico vivo    que integrou o projeto Manhatann para fazer a bomba at&ocirc;mica durante a    Segunda Guerra Mundial. Saiu do projeto juntamente com Bohr ap&oacute;s os alem&atilde;es    capitularem. </font></p>     <p><font size="3">26. Entre os primeiros cr&iacute;ticos na SBF estavam comigo    Ennio Candotti, Luiz Carlos Meneses, Jos&eacute; Zats, C&aacute;ssio Sigaud,    Jo&atilde;o Andr&eacute; Guillaumon e Alfredo Aveline. </font></p>     <p><font size="3">27. No per&iacute;odo em que foram presidentes da SBF Jos&eacute;    Goldemberg, M&aacute;rio Schemberg, Mois&eacute;s Nussenzveig e Souza Barros;    fui o secret&aacute;rio geral da SBF com os dois primeiros.    <br>   O primeiro grupo de trabalho da SBF sobre o Acordo Nuclear foi composto por    Jos&eacute; Goldemberg, Jos&eacute; Israel Vargas, Fernando Zawislak, Shigueo    Watanabe, Roberto Hukai e eu. Vargas e eu apresentamos declara&ccedil;&otilde;es    em separado, anexas ao relat&oacute;rio, com posi&ccedil;&otilde;es opostas    entre si. </font></p>     <p><font size="3">28. A Comiss&atilde;o tinha como membros Fernando de Souza Barros,    Anselmo Paschoa e eu, como relator. O relat&oacute;rio foi incisivo. Pelos c&aacute;lculos    que fiz, a perfura&ccedil;&atilde;o poderia ser destinada a uma explos&atilde;o    de pot&ecirc;ncia semelhante &agrave; da bomba de Hiroshima, pelas dimens&otilde;es    do po&ccedil;o.Baseei-me nos dados do Programa Plowshare norte americano, de    explos&otilde;es nucleares para fins pac&iacute;ficos (como a abertura de grandes    canais) que foi depois abandonado. Quem me alertou para estes dados foi o meu    colega da COPPE / UFRJ, Aquilino Senra Martins.    <br>   A SBPC logo a seguir formou uma comiss&atilde;o presidida pelo Goldemberg, da    qual fui tamb&eacute;m relator e dela participavam Souza Barros, Azis Ab’Saber,    Sebasti&atilde;o Baeta e Am&eacute;lia Hamburger. Goldemberg achava que n&atilde;o    dispunha de elementos suficientes. A solu&ccedil;&atilde;o conciliadora foi    uma conclus&atilde;o restrita no relat&oacute;rio da comiss&atilde;o:    <br>   – As condi&ccedil;&otilde;es verificadas s&atilde;o necess&aacute;rias para    o teste nuclear, embora n&atilde;o suficientes.    <br>   J&aacute; no per&iacute;odo do governo Collor, recebi um telefonema do Goldemberg,    ent&atilde;o ministro de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, pedindo para encontr&aacute;-lo    no aeroporto no Rio. No meu carro, conversamos privadamente. Ele me afirmou:    <br>   – A sua suspeita de que aquele po&ccedil;o em Cachimbo era para um teste nuclear    se confirmou. </font></p>     <p><font size="3">29. O ge&oacute;logo Arno Bertoldo, ex-presidente da Associa&ccedil;&atilde;o    Profissional dos Ge&oacute;logos do Rio de Janeiro, me procurou para informar    que estava sendo feita a perfura&ccedil;&atilde;o em Cachimbo pela Companhia    Brasileira de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM). Ele alertou que os ge&oacute;logos    da CPRM n&atilde;o sabiam para que serviria a perfura&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o    havia nenhum min&eacute;rio de interesse. Sugeri que fosse levado &agrave; imprensa    para obrigar o governo a esclarecer o assunto, da&iacute; a den&uacute;ncia    da jornalista Elvira Lobato na <i>Folha de S.Paulo</i>. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">30. Houve uma reuni&atilde;o na USP. Participavam o Goldemberg,    ent&atilde;o ministro de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, e o almirante Othon Pinheiro    da Silva, que tinha sido o l&iacute;der do projeto do submarino nuclear. A certa    altura eu me referi &agrave; quest&atilde;o da perfura&ccedil;&atilde;o em Cachimbo    como suspeita de servir para um teste nuclear. O almirante Othon replicou que    n&atilde;o havia mais nada. Antes que ele completasse a frase eu perguntei &agrave;    queima-roupa:    <br>   – Almirante, se o senhor diz que n&atilde;o h&aacute; mais nada &eacute; porque    havia antes o projeto do teste nuclear...    <br>   Ele negou. De fato sei hoje que ele n&atilde;o estava envolvido no projeto de    Cachimbo. Goldemberg pouco depois se retirou da reuni&atilde;o. Embora ministro,    ele n&atilde;o tinha conseguido ainda resolver aquele problema internamente    no governo. Era uma sexta feira, 14 de setembro de 1990.    <br>   No in&iacute;cio da semana seguinte, no dia 17, o presidente Collor anunciou    solenemente que o governo reconhecia a exist&ecirc;ncia de um projeto para fazer    uma explos&atilde;o nuclear subterr&acirc;nea na Base A&eacute;rea de Cachimbo.    Simbolicamente, o presidente fechou o po&ccedil;o de Cachimbo    <br>   Formou-se uma comiss&atilde;o parlamentar, da qual fui assessor. Em Aramar fomos    recebidos pelo almirante Mario Flores, ministro da Marinha. Ouvi dele a seguinte    frase:    <br>   – O senhor tinha raz&atilde;o sobre Cachimbo, mas n&atilde;o era um projeto    do Alto Comando.    <br>   Em Aramar verifiquei que a Marinha, dentro das atividades de desenvolvimento    de um reator para o submarino nuclear, tinha montado uma pilha subcr&iacute;tica    com ur&acirc;nio enriquecido. Perguntei aos especialistas da Marinha:    <br>   – Como foi obtido o ur&acirc;nio enriquecido para esta pilha?    <br>   A resposta n&atilde;o foi objetiva, dando a entender que teria sido enriquecido    nas ultra-centr&iacute;fugas que a pr&oacute;pria Marinha estava desenvolvendo.    Mas, pelos meus c&aacute;lculos, era imposs&iacute;vel naquele tempo produzir    nelas a quantidade de ur&acirc;nio enriquecido usada na pilha.    <br>   Havia um aspecto intrigante que constava do meu relat&oacute;rio para a SBF:    n&atilde;o havia material f&iacute;ssil em quantidade no pa&iacute;s para realizar    o teste nuclear em Cachimbo. Nunca se soube em que est&aacute;gio estava o projeto    do teste e se j&aacute; havia sido ou n&atilde;o resolvido o problema do material    f&iacute;ssil para ele. Mas agora eu colocava a quest&atilde;o do ur&acirc;nio    enriquecido para a pilha subcr&iacute;tica funcionar. Ele deveria ter vindo    de fora. Como os Eua e a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica tinham um acordo s&oacute;lido    de evitar a prolifera&ccedil;&atilde;o de armas nucleares, por exclus&atilde;o,    s&oacute; restava a China como poss&iacute;vel fornecedor. Este segredo nunca    foi desvendado...</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">31. Na campanha que elegeu Lula para a presid&ecirc;ncia da    Rep&uacute;blica, Souza Barros e eu tivemos um encontro com ele no Instituto    de Cidadania para falarmos sobre o problema das armas nucleares. </font></p>      ]]></body><back>
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