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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>LITERATURA</b></font></p>     <p><font size=5><b>A <SMALL>IDENTIDADE E O CAR&Aacute;TER UNIVERSAL DOS ROMANCES    REGIONAIS</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A mescla de influ&ecirc;ncias e cen&aacute;rios do ambiente    brasileiro, de norte a sul, marcou o mundo liter&aacute;rio com autores consagrados    como Guimar&atilde;es Rosa, com o retrato dos sert&otilde;es mineiros; Graciliano    Ramos, que fez o mesmo em rela&ccedil;&atilde;o ao castigado semi-&aacute;rido    nordestino; ou, ainda, &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, que pincelou com letras    magistrais os pampas ga&uacute;chos. Na mesma trilha liter&aacute;ria, uma gera&ccedil;&atilde;o    de escritores contempor&acirc;neos traz novas luzes aos romances ambientados    seja na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica ou nas plan&iacute;cies do sul. A exemplo    da obra de seus ilustres antecessores, trazem em si apelo universal, o que lhes    t&ecirc;m conferido pr&ecirc;mios liter&aacute;rios e adapta&ccedil;&atilde;o    para outras linguagens, como a cinematogr&aacute;fica.</font></p>     <p><FONT size="3">"Uma das caracter&iacute;sticas mais fortes da fic&ccedil;&atilde;o    praticada hoje no Rio Grande do Sul &eacute; justamente a ultrapassagem do regionalismo    para alcan&ccedil;ar a met&aacute;fora da regi&atilde;o. D&aacute;-se o aproveitamento    da ‘regi&atilde;o’ n&atilde;o apenas como document&aacute;rio, mas como sinal    da universalidade na representa&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria local". &Eacute;    o que afirma Fl&aacute;vio Loureiro Chaves, da Universidade de Caxias do Sul,    pesquisador da obra de &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, no mestrado, e de Sim&otilde;es    Lopes Neto. Para o professor, Lopes Neto inaugurou esse caminho liter&aacute;rio    quando fez o aproveitamento da linguagem local para expressar uma densa simbologia.    Ver&iacute;ssimo, por sua vez, teria logrado inserir na cr&ocirc;nica provincial    de <i>O tempo e o vento</i> uma vis&atilde;o da hist&oacute;ria que seria uma    dial&eacute;tica entre o transit&oacute;rio e o permanente. "Os atuais narradores    do Rio Grande do Sul v&atilde;o manter invariavelmente esse rumo, a&iacute;    inclu&iacute;do Tabajara Ruas, que faz o aproveitamento intensivo do manancial    hist&oacute;rico. Este, tamb&eacute;m, &eacute; o caso de outros dois not&aacute;veis    narradores – Luiz Antonio de Assis Brasil e Jos&eacute; Clemente Pozenato –    que observam a regi&atilde;o acima do particularismo para fisgar o sinal da    universalidade", completa Chaves.</font></p>     <p><FONT size="3"><b>OLHAR GA&Uacute;CHO</b> Pozenato &eacute; autor de ensaios    premiados como <i>O regional e o universal na literatura ga&uacute;cha</i> (1974),    de novelas, cr&ocirc;nicas e romances, dos quais se destaca <i>O quatrilho</i>    (1985), adaptado para o cinema, com dire&ccedil;&atilde;o de F&aacute;bio Barreto    e indicado para o Oscar em 1996, na categoria de melhor filme estrangeiro. O    romance de estr&eacute;ia de Assis Brasil, <i>Um quarto de l&eacute;gua em quadro</i>    (1976), tamb&eacute;m trata das ra&iacute;zes europ&eacute;ias do povo ga&uacute;cho,    abordando os prim&oacute;rdios do povoamento a&ccedil;oriano no estado. Seu    segundo romance, <i>A prole do corvo</i> (1978), &eacute; um painel do &uacute;ltimo    ano da Guerra dos Farrapos. Esse tema hist&oacute;rico tamb&eacute;m &eacute;    tratado em dois romances de Tabajara Ruas: <i>Os var&otilde;es assinalados</i>    (1985), escrito originalmente na forma de folhetim para o jornal <i>Zero Hora</i>,    de Porto Alegre, e <i>Netto perde sua alma</i> (1995), que recebeu o pr&ecirc;mio    A&ccedil;orianos de Literatura, em 1996, e foi adaptado para o cinema com roteiro    e co-dire&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Ruas, em parceria com o cineasta    Beto Souza, vencendo 4 kikitos no 29º Festival de Cinema de Gramado, em 2001.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a24fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="3"><b>MEM&Oacute;RIA DE FRONTEIRA</b> A obra de Tabajara Ruas,    tido como um dos dez maiores romancistas da literatura ga&uacute;cha, al&eacute;m    de se pautar na mem&oacute;ria e na hist&oacute;ria local, tamb&eacute;m &eacute;    fortemente marcada por sua pr&oacute;pria mem&oacute;ria e hist&oacute;ria pessoal,    vivida em parte na cidade fronteiri&ccedil;a de Uruguaiana, separada da Argentina    pelo rio Uruguai. &Eacute; l&aacute; que ambienta a novela <i>Persegui&ccedil;&atilde;o    e cerco a Juv&ecirc;ncio Gutierrez</i> (1990), um relato que lembra a <i>Cr&ocirc;nica    de uma morte anunciada</i>, do colombiano Gabriel Garcia M&aacute;rquez. A novela    ga&uacute;cha se passa em 1957 e &eacute; narrada pelo sobrinho de Juv&ecirc;ncio    Gutierrez, um adolescente com a mesma idade que Tabajara Ruas tinha naquele    ano. Em determinado trecho, ao folhear o primeiro volume de <i>O tempo e o vento</i>    e comentar as anota&ccedil;&otilde;es feitas por seu pai no livro, o narrador    revela uma desconfian&ccedil;a sua: "meu pai fru&iacute;a alguma satisfa&ccedil;&atilde;o    escondida ao reconhecer, impressos em letra de f&ocirc;rma, os sinais do mundo    que habitava, ainda novo, buscando identidade, e que &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo    soubera detectar e transformar em epop&eacute;ia".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT size="3"><b>FIC&Ccedil;&Atilde;O AMAZONENSE</b> Longe do Chu&iacute;    ga&uacute;cho, mas perto do Oiapoque, outro escritor de peso conquistou grande    p&uacute;blico, mesclando os mesmos elementos. O amazonense Milton Hatoum, filho    de um liban&ecirc;s mu&ccedil;ulmano casado com uma brasileira crist&atilde;,    aborda, nos romances <i>Relato de um certo Oriente</i> (1989) e <i>Dois irm&atilde;os</i>    (2000), a rela&ccedil;&atilde;o de imigrantes estrangeiros com nativos em Manaus    e o conv&iacute;vio pac&iacute;fico entre pessoas de diferentes culturas e religi&otilde;es.    O primeiro livro foi traduzido para seis idiomas e publicado em oito pa&iacute;ses,    e o segundo, traduzido para oito l&iacute;nguas com publica&ccedil;&otilde;es    em dez pa&iacute;ses. A atual cand&ecirc;ncia dos conflitos nas rela&ccedil;&otilde;es    entre Oriente e Ocidente e dos debates sobre intoler&acirc;ncia &agrave;s diferen&ccedil;as    culturais e religiosas em todo o mundo explica, em certa medida, o sucesso internacional    de Hatoum.</font></p>     <p> <FONT size="3">"Seus romances ambientam-se na Amaz&ocirc;nia, mas falam, fundamentalmente,    sobre a circula&ccedil;&atilde;o de uma cultura. Tratam de uma identidade em    tr&acirc;nsito, em plena forma&ccedil;&atilde;o", diz Vera L&uacute;cia Soares,    da Universidade Federal Fluminense, estudiosa da rela&ccedil;&atilde;o entre    Oriente e Ocidente em literatura de l&iacute;ngua francesa. Em 2001, Vera publicou    um artigo em que compara um livro de uma escritora belga, de origem marroquina,    com o <i>Relato de um certo Oriente</i>, de Hatoum, que integra a colet&acirc;nea    <i>Imagens do outro: leituras divergentes da alteridade</i>, editada pela Universidade    Estadual de Feira de Santana, na Bahia. Segundo a pesquisadora, ambos os livros    apontam para a mesma impossibilidade de se pretender construir uma identidade    fechada, de raiz &uacute;nica. A diferen&ccedil;a &eacute; que o romance belga    aponta para o fato de a Europa ser mais fechada ao contato com o estrangeiro.</font></p>     <p> <FONT size="3">"No caso do Brasil, houve uma mesti&ccedil;agem na origem da    forma&ccedil;&atilde;o da sociedade. N&oacute;s n&atilde;o somos uma sociedade    branca ocidental. Longe disso. Quando muitos desses imigrantes chegaram, j&aacute;    encontraram uma sociedade mesti&ccedil;a", afirmou Hatoum, em entrevista &agrave;    rede de TV alem&atilde; <i>Deutsche Welle</i>, quando esteve em Frankfurt. "O    Brasil &eacute; um ‘caldeir&atilde;o de culturas’, onde se misturam ra&ccedil;as,    comidas, religi&otilde;es, com resultados sempre imprevis&iacute;veis, o que    explica, de certa maneira, a integra&ccedil;&atilde;o relativamente tranq&uuml;ila    dos imigrantes na sociedade brasileira", concorda Vera. Para a pesquisadora,    esse "caldeir&atilde;o de culturas" est&aacute;, de certa forma, representado    em <i>Relato de um certo Oriente</i> pela casa da personagem Emilie, que seria    uma esp&eacute;cie de resumo desse Brasil plural.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Rodrigo Cunha</i></font></p>      ]]></body>
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