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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a30img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">NELSON DE OLIVEIRA</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>(ENTRE PAR&Ecirc;NTESES)</b></font></p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3">(Imagine um peda&ccedil;o de queijo su&iacute;&ccedil;o, do    tipo mais cheio de buraco poss&iacute;vel. Quanto mais queijo mais buraco, certo?)    <br>   (Se cada buraco ocupa o lugar onde deveria haver queijo, ent&atilde;o quanto    mais buraco menos queijo, certo?)    <br>   (Assim, quanto mais queijo mais buraco e quanto mais buraco menos queijo. Logo,    quanto mais queijo menos queijo!)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   (…)    <br>   (Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; de muito papo, n&eacute;?)    <br>   (N&atilde;o adianta resmungar, xingar, isso s&oacute; piora a situa&ccedil;&atilde;o.    O segredo &eacute; ter paci&ecirc;ncia. Mais cedo ou mais tarde algu&eacute;m    vai achar a gente aqui e chamar o zelador.)    <br>   (O segredo &eacute; ter paci&ecirc;ncia, relaxar.)    <br>   (Pegadinha: qual &eacute; o sistema dos restaurantes por quilo em Portugal?)    <br>   (Simples: o fregu&ecirc;s &eacute; pesado na entrada e na sa&iacute;da.)    <br>   (P&ocirc;, que mau humor. Desse jeito fica dif&iacute;cil, n&eacute;?)    <br>   (Outra pegadinha: qual a diferen&ccedil;a entre drama e trag&eacute;dia?)    <br>   (Drama &eacute; a primeira vez que n&atilde;o se consegue dar a segunda. Trag&eacute;dia    &eacute; a segunda vez que n&atilde;o se consegue dar a primeira.)    <br>   (T&aacute; bom, t&aacute; bom, n&atilde;o falo mais nada.)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   (…)    <br>   (J&aacute; percebeu que ficar preso em elevador &eacute; o mesmo que estar entre    par&ecirc;nteses?)    <br>   (N&atilde;o &eacute; outra pegadinha, n&atilde;o. T&ocirc; falando s&eacute;rio!)    <br>   (Nada embaixo, nada em cima, percebe?)    <br>   (…)    <br>   (Par&ecirc;nteses.)    <br>   (Me acusam de sempre colocar as pessoas entre par&ecirc;nteses. Que ironia,    agora o feiti&ccedil;o se voltou contra mim.)    <br>   (…)    <br>   (Par&ecirc;nteses, par&ecirc;n-teses, pa-r&ecirc;n-te-ses.)    <br>   (Me acusam de colocar as pessoas entre par&ecirc;nteses, sempre. J&aacute; falei    isso, n&eacute;?)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   (Queriam o qu&ecirc;? Peso cento e trinta quilos, n&atilde;o fui feliz no casamento,    n&atilde;o fui feliz antes do casamento, n&atilde;o sou feliz depois do div&oacute;rcio.)    <br>   (Minha ex-mulher, voc&ecirc; a conheceu, n&atilde;o?)    <br>   (Durante quinze anos de casado n&atilde;o h&aacute; quem n&atilde;o ganhe peso.)    <br>   (Solteiro, eu trabalhava o dia todo, chegava em casa, via o que tinha na geladeira    e, desanimado, ia pra cama. Casado, as coisas mudaram.)    <br>   (Eu chegava em casa, via o que tinha na cama e, desanimado, ia pra geladeira.    Foi assim durante quinze anos.)    <br>   (Minha ex-mulher, voc&ecirc; se lembra dela, n&atilde;o?)    <br>   (Adorava queijo su&iacute;&ccedil;o.)    <br>   (Aprendi a botar as pessoas entre par&ecirc;nteses com ela, comecei com os parentes    dela: a m&atilde;e e o pai.)    <br>   (Estreei com minha sogra. Deu trabalho, a velha gritou e esperneou. Tive que    usar alicate, chave-de-fenda e furadeira. Sogra boa &eacute; sogra enlatada.)    <br>   (Entre par&ecirc;nteses as sogras falam menos, usam menos o telefone, se preocupam    menos com a vida alheia.)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   (Depois foi a vez do meu sogro. O velho n&atilde;o reclamou nada, acho at&eacute;    que ficou muito feliz de se ver livre da mulher e da filha. As duas o infernizaram    durante d&eacute;cadas. Eu o enfiei com cadeira de rodas e tudo. No final ele    me sorriu. Em sinal de agradecimento, eu acho.)    <br>   (Ele detestava queijo su&iacute;&ccedil;o.)    <br>   (Com a minha mulher eu senti prazer, prazer s&aacute;dico, entende?)    <br>   (Ela me amea&ccedil;ou, me mordeu a m&atilde;o e arranhou meu rosto.)    <br>   (Parecia duas pessoas, sabe por qu&ecirc;? Porque estava fora de si.)    <br>   (Pegadinha… N&atilde;o consegui evitar.)    <br>   (A verdade &eacute; que entre par&ecirc;nteses as mulheres n&atilde;o notam    se voc&ecirc; est&aacute; com as unhas sujas ou n&atilde;o, n&atilde;o insistem    em discutir a rela&ccedil;&atilde;o nem exigem flores no anivers&aacute;rio    de casamento.)    <br>   (Entre par&ecirc;nteses as mulheres n&atilde;o reclamam que a tampa do vaso    n&atilde;o foi levantada, que o peido n&atilde;o foi silencioso, que os dentes    n&atilde;o foram escovados, que a descarga n&atilde;o foi dada.)    <br>   (N&atilde;o quero ser grosso, detesto grosserias, mas j&aacute; reparou que.    Nem sei como dizer.)    <br>   (J&aacute; reparou que o que as mulheres t&ecirc;m s&atilde;o deliciosos par&ecirc;nteses    entre as pernas? Par&ecirc;nteses com cheiro de queijo su&iacute;&ccedil;o…    Que adoramos botar nosso travess&atilde;o neles? Travess&atilde;o entre par&ecirc;nteses,    essa &eacute; a melhor travessura do mundo, n&atilde;o?)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   (Cara, voc&ecirc; &eacute; mesmo muito mal-humorado.)    <br>   (Tudo bem, n&atilde;o falo mais nada.)    <br>   (…)    <br>   (&Uacute;ltima pegadinha? Que foi que a zebra disse pra mosca?)    <br>   (…)    <br>   (Voc&ecirc; est&aacute; na minha lista negra.)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Nelson de Oliveira</b> nasceu em 1966, em Gua&iacute;ra,    SP. Escritor e doutorando em letras pela USP, publicou <i>Naquela &eacute;poca    t&iacute;nhamos um gato</i> (contos, 1998), <i>Subsolo infinito</i> (romance,    2000), <i>O filho do crucificado</i> (contos, 2001, tamb&eacute;m lan&ccedil;ado    no M&eacute;xico), <i>A maldi&ccedil;&atilde;o do macho</i> (romance, 2002,    publicado tamb&eacute;m em Portugal) e <i>Verdades provis&oacute;rias</i> (ensaios,    2003), entre outros. Em 2001, organizou a antologia <i>Gera&ccedil;&atilde;o    90: manuscritos de computador</i> e, em 2003, <i>Gera&ccedil;&atilde;o 90: os    transgressores</i>. Dos pr&ecirc;mios que recebeu destacam-se o Casa de las    Am&eacute;ricas (1995), o da Funda&ccedil;&atilde;o Cultural da Bahia (1996)    e duas vezes o da APCA (2001 e 2003).</font></p>      ]]></body>
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