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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/tendenc.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>Empirismo e ci&ecirc;ncia: fonte de novos    fitomedicamentos</b></font>    <br>   <font size="3"><b><i>Lauro Barata</i></b></font></p>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>A</b></font><font size="3">zia, m&aacute; digest&atilde;o?    – extrato de aniz com melissa. Gastrite? – espinheira santa, ora! Dor nas pernas?    – &eacute; s&oacute; passar &oacute;leo de andiroba morno!... Doutores e gente    comum se cuidam com ch&aacute;s, mezinhas e at&eacute; garrafadas. Segundo a    Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS), 80% da popula&ccedil;&atilde;o    mundial utiliza plantas medicinais. No Brasil, no entanto, a maioria dos m&eacute;dicos    n&atilde;o usa e nem acredita nelas e, por isso, n&atilde;o as prescrevem. Essa    atitude pode ser atribu&iacute;da ao desconhecimento da classe m&eacute;dica,    que nos seus curr&iacute;culos n&atilde;o trazem disciplinas de fitomedicina,    mas o assunto &eacute; mais complexo e passa pelo mercado farmac&ecirc;utico    e, sobretudo, pela baixa qualidade das mat&eacute;rias-primas naturais brasileiras.    Prescritos por m&eacute;dicos, os fitoter&aacute;picos na Alemanha, maior consumidor    individual de fitomedicamentos no Ocidente, s&atilde;o &eacute;ticos, isto &eacute;,    passaram por todas as fases dos ensaios de seguran&ccedil;a e efic&aacute;cia    antes de irem parar nas prateleiras das farm&aacute;cias.</font></P>     <p><font size="3"> Embora o Brasil seja rico em biodiversidade e domine a maioria    das tecnologias para a produ&ccedil;&atilde;o de fitomedicamentos, somente neste    ano uma empresa lan&ccedil;ou o primeiro medicamento &eacute;tico vindo de uma    planta medicinal brasileira – a erva-baleeira (<i>Cordia verbenaceae</i>). O    custo, estimado pela ind&uacute;stria de US$ 5 milh&otilde;es, &eacute; apenas    1% do valor de um novo medicamento nos EUA. Desenvolvido em parceria com a Unicamp,    a pesquisa e desenvolvimento desse medicamento antiinflamat&oacute;rio mudou    o paradigma de cinco s&eacute;culos de importa&ccedil;&atilde;o, abrindo uma    perspectiva de o Brasil entrar no sofisticado e excludente mercado farmac&ecirc;utico,    um dote de US$ 500 milh&otilde;es por ano. Embora uma janela de oportunidades,    entrar nesse mercado significa superar os gargalos existentes, que n&atilde;o    s&atilde;o poucos. Os problemas da cadeia da produ&ccedil;&atilde;o das plantas    medicinais come&ccedil;am com os ambientais. Das 400 plantas medicinais comercializadas    no Brasil, 75% s&atilde;o de origem extrativa, coletadas diretamente de seu    habitat na mata atl&acirc;ntica, amaz&ocirc;nia, caatinga e cerrado, sem qualquer    manejo, o que gera grande press&atilde;o ambiental no ecossistema causando problemas    na sustentabilidade e risco de extin&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o caso da fava    d’anta: milhares de toneladas s&atilde;o arrancadas anualmente do cerrado e    consumidas pela ind&uacute;stria sem a necess&aacute;ria reposi&ccedil;&atilde;o.    Adicionalmente, as mat&eacute;rias-primas produzidas s&atilde;o visualmente    de m&aacute; qualidade e, algumas vezes, grosseiramente falsificadas. O fornecimento    &eacute; irregular, o pre&ccedil;o varia com a sazonalidade, as adultera&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o constantes e o controle de qualidade, que deveria ser r&iacute;gido,    &eacute; quase inexistente. A presen&ccedil;a de galhos e at&eacute; de outras    plantas contaminantes, ou mesmo a troca de uma esp&eacute;cie por outra, ocorre    com freq&uuml;&ecirc;ncia, al&eacute;m de fungos, bact&eacute;rias e coliformes    fazerem parte das amostras de plantas medicinais. Apesar desse cen&aacute;rio,    t&eacute;cnicas como a Cromatografia L&iacute;quida de Alta Efici&ecirc;ncia    (HPLC) para o controle de qualidade come&ccedil;am a ser utilizadas por algumas    empresas de base tecnol&oacute;gica, mas ainda n&atilde;o existe a padroniza&ccedil;&atilde;o    de extratos. </font></p>     <p><font size="3"><b>PADRONIZA&Ccedil;&Atilde;O DA MAT&Eacute;RIA-PRIMA </b>padroniza&ccedil;&atilde;o,    o produto perde qualidade e a ind&uacute;stria n&atilde;o pode garantir a efic&aacute;cia    apregoada j&aacute; que desconhece a concentra&ccedil;&atilde;o do produto &agrave;    venda. Extratos padronizados s&atilde;o a base dos fitoter&aacute;picos (extratos    vegetais contendo v&aacute;rias subst&acirc;ncias, como o da casca da quina)    e fitof&aacute;rmacos (subst&acirc;ncias puras extra&iacute;das de vegetais,    como o quinino). Mas essa situa&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a a mudar com a    recente portaria da Anvisa (RDC 48/04 de 16.03.04) que estabeleceu uma legisla&ccedil;&atilde;o    espec&iacute;fica, que se baseia na "garantia de qualidade (...) exigindo    a reprodutibilidade dos fitoter&aacute;picos produzidos", o que s&oacute;    pode ser alcan&ccedil;ado se as empresas se utilizarem de extratos padronizados    e estabelecerem r&iacute;gido controle de qualidade.</font></p>     <p><font size="3"> No entanto, como raramente se conhece o princ&iacute;pio ativo    (PA) existente nas plantas medicinais brasileiras, a lei permite um controle    via "marcadores moleculares", o que em princ&iacute;pio poderia ser    qualquer subst&acirc;ncia presente com regularidade no extrato e dentro de certa    concentra&ccedil;&atilde;o nos extratos. Para algumas plantas, isso &eacute;    f&aacute;cil, como o extrato do guaran&aacute; (<i>Paullinia cupana</i>) que    pode ser dosado tomando por base a cafe&iacute;na. No entanto, quando se trata    da pata de vaca (<i>Bauhinia forficata</i>) para diabetes ou da espinheira santa    (<i>Maytenus ilicifolia</i>), planta antiulcerog&ecirc;nica, sabe-se apenas    que seus extratos n&atilde;o s&atilde;o t&oacute;xicos e que s&atilde;o, de    fato, eficazes no tratamento indicado pela popula&ccedil;&atilde;o, mas como    seus princ&iacute;pios ativos n&atilde;o est&atilde;o descritos, a padroniza&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; feita em cima dos PA’s. Frente a tais dificuldades, empresas    "padronizam" os extratos da espinheira santa atrav&eacute;s da presen&ccedil;a    de taninos, subst&acirc;ncias fen&oacute;licas, t&atilde;o distribu&iacute;das    na natureza quanto a celulose. Na pr&aacute;tica, esses fatos absolvem os m&eacute;dicos    brasileiros do fato de manterem dist&acirc;ncia de ch&aacute;s e fitoter&aacute;picos.    Mas, teriam eles raz&atilde;o? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>USO SECULAR</b> Os fitomedicamentos t&ecirc;m sido usados    pelo homem desde o in&iacute;cio de sua hist&oacute;ria e muito do que sabemos    de nossas plantas vem do conhecimento ind&iacute;gena, que possibilitava tratar    da mal&aacute;ria antes dos brancos chegarem por aqui. At&eacute; o meio do    s&eacute;culo XIX, as plantas eram a base da medica&ccedil;&atilde;o, e isto    s&oacute; mudou com a s&iacute;ntese da aspirina pela Bayer em 1856. Mesmo assim,    os extratos de plantas e subst&acirc;ncias puras seguiram sendo a base da terap&ecirc;utica    at&eacute; a d&eacute;cada de 1940. Com o aparecimento das sulfas, por&eacute;m,    a situa&ccedil;&atilde;o se inverteu: os medicamentos se tornaram sint&eacute;ticos    originados de produtos do petr&oacute;leo, embora parte deles sejam ainda naturais    ou tenham seus esqueletos baseados em subst&acirc;ncias de plantas como os ester&oacute;ides    anticoncepcionais. </font></P>     <p><font size="3"> Assim, em princ&iacute;pio, n&atilde;o h&aacute; uma base cient&iacute;fica    para a rejei&ccedil;&atilde;o pura e simples dos medicamentos naturais de plantas.    No Brasil, geriatras prescrevem para mem&oacute;ria, circula&ccedil;&atilde;o    e doen&ccedil;as vasculares perif&eacute;ricas dr&aacute;geas de Ginkgo biloba,    pesquisada e popularizada por uma empresa francesa. Mistura de subst&acirc;ncias    chamadas ginkol&iacute;dios, o extrato de ginkgo &eacute; efetivamente um fitoter&aacute;pico,    uma mistura de um adapt&oacute;geno antiestresse tamb&eacute;m usado para mem&oacute;ria.    </font></p>     <p><font size="3">Ent&atilde;o, por que m&eacute;dicos brasileiros receitam uma    planta estrangeira e n&atilde;o uma brasileira? A resposta &eacute; simples.    Toda a farmacologia pr&eacute;-clinica e cl&iacute;nica do Ginkgo biloba foi    feita no exterior, o que tornou esse fitoter&aacute;pico aceito como medicamento    com todas as exig&ecirc;ncias de seguran&ccedil;a e efic&aacute;cia.</font></p>     <p><font size="3">Havendo ci&ecirc;ncia e qualidade, nossos m&eacute;dicos aceitariam    os medicamentos baseados nas nossas plantas medicinais, e foi isso que comprovou    uma recente pesquisa de uma empresa de consultoria. Quando perguntados sobre    "quais os requerimentos principais para a prescri&ccedil;&atilde;o de drogas    fitoter&aacute;picas", 100% responderam que era a comprova&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica, entre outras respostas. Quando perguntados se "receitariam    drogas fitoter&aacute;picas havendo prova cient&iacute;fica", todos disseram    que sim. </font></p>     <p><font size="3"><b>MUDAN&Ccedil;AS PARADIGM&Aacute;TICAS</b> O conhecimento    etno-m&eacute;dico era, at&eacute; os anos 1970, sistematicamente desconhecido    e/ou desprezado pelos cientistas e pela ind&uacute;stria. No entanto, a partir    de 1985 isso come&ccedil;ou a mudar, com a ind&uacute;stria e os cientistas    buscando beber na fonte de conhecimento tradicional. O desenvolvimento de novos    equipamentos espectrom&eacute;tricos e a informatiza&ccedil;&atilde;o dos meios    anal&iacute;ticos revolucionou a defini&ccedil;&atilde;o das estruturas qu&iacute;micas.    Aliado a isso, a robotiza&ccedil;&atilde;o dos ensaios <i>in vitro</i> gerando    os atuais HTS (High Throughtput Screening ) capazes de gerar cem mil ensaios    num &uacute;nico dia – nos anos 1970 demorava um ano – mudaram profundamente    as pesquisas para gerar um novo f&aacute;rmaco a partir de plantas.</font></P>     <p><font size="3"> A diversidade estrutural dos produtos naturais foi uma forte    raz&atilde;o para a retomada do uso de extratos de plantas e suas subst&acirc;ncias    isoladas. Estruturas qu&iacute;micas absolutamente originais como o taxol, para    a cura do c&acirc;ncer, s&oacute; poderiam ter sido desenhadas pela natureza,    nenhum cientista se atreveria a imaginar tal complexidade de <i>drug design</i>.    A posteriori da descoberta foi poss&iacute;vel sintetiz&aacute;-la em laborat&oacute;rio,    mas a produ&ccedil;&atilde;o industrial por s&iacute;ntese total continua invi&aacute;vel.    </font></p>     <p><font size="3"><b>PESQUISA &amp; MERCADO</b> O Brasil tem uma das maiores produ&ccedil;&otilde;es    de PhDs do mundo, oito mil doutores a cada ano, tem conhecimento cient&iacute;fico    acumulado sobre as plantas medicinais e as empresas brasileiras tem capacita&ccedil;&atilde;o    necess&aacute;ria para gerar processos tecnol&oacute;gicos. Por&eacute;m, infelizmente,    as empresas n&atilde;o tem um corpo de P&amp;D capaz de gerar inova&ccedil;&otilde;es.    No entanto, com o uso sustent&aacute;vel da nossa biodiversidade, e tornando    a universidade aliada da empresa, ainda podemos suplantar os desafios para gerar    novos medicamentos &eacute;ticos para o Brasil e certamente para o mundo.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"> <i><b>Lauro E. S. Barata</b> &eacute; pesquisador do Laborat&oacute;rio    de Qu&iacute;mica de Produtos Naturais, IQ-Unicamp</i></font></p>      ]]></body>
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