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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Em nome do dissenso, filósofo francês redefine termos e conceitos na arte e na política]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/mundo.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/a11fig01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">ENTREVISTA: JACQUES RANCI&Egrave;RE</font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v57n4/linhapt.gif"></P>     <p><font size="4"><b>Em nome do dissenso, fil&oacute;sofo franc&ecirc;s redefine    termos e conceitos na arte e na pol&iacute;tica </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Professor em&eacute;rito do Departamento de Filosofia da Universidade    Paris VIII, Jacques Ranci&egrave;re &eacute; autor de <i>A partilha do sens&iacute;vel</i>,    livro recentemente lan&ccedil;ado pela Editora 34 no Brasil. Com agudeza e "oportuna"    impertin&ecirc;ncia, o fil&oacute;sofo franc&ecirc;s analisa e redefine termos    e conceitos, dialoga com as manifesta&ccedil;&otilde;es da arte e com o que    se pensa sobre ela.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b><i>Como refletir sobre o fen&ocirc;meno do "politicamente    correto"?</i></b></FONT></P>     <p><font size="3">Deve-se utilizar com prud&ecirc;ncia essa no&ccedil;&atilde;o    de "politicamente correto", que serve um pouco facilmente demais como    recusa para desqualificar tudo que se op&otilde;e ao consenso dominante. A reivindica&ccedil;&atilde;o    de "corre&ccedil;&atilde;o" est&aacute; ligada a um aspecto efetivamente    essencial do qual a no&ccedil;&atilde;o de partilha do sens&iacute;vel pretende    dar conta: as formas da domina&ccedil;&atilde;o – de classe, de ra&ccedil;a,    de sexo – s&atilde;o, a princ&iacute;pio, formas inscritas na paisagem do cotidiano,    na maneira de descrever o que se v&ecirc;, de dar nomes &agrave;s coisas. O    perigo, a partir da&iacute;, &eacute; praticar uma simples opera&ccedil;&atilde;o    cosm&eacute;tica sobre as formas da domina&ccedil;&atilde;o: camuflar a realidade    da domina&ccedil;&atilde;o sob a representa&ccedil;&atilde;o de um universo    de pequenas diferen&ccedil;as no qual cada identidade &eacute; provida de seu    reconhecimento, seus direitos pr&oacute;prios; fazer reinar, por meio de uma    linguagem euf&ecirc;mica, uma outra forma de consenso.</font></P>     <p><font size="3"><b><i>O revisionismo &eacute; uma evid&ecirc;ncia da dimens&atilde;o    pol&iacute;tica da escrita? </i></b></FONT></P>     <p><font size="3">O revisionismo n&atilde;o pode, evidentemente, ser reduzido    a uma quest&atilde;o do que &eacute; escrito. H&aacute; diversos revisionismos,    nutridos por argumentos te&oacute;ricos e paix&otilde;es diversas. Mas ele tem,    incontestavelmente, uma dimens&atilde;o "escritural". O cora&ccedil;&atilde;o    da demonstra&ccedil;&atilde;o revisionista &eacute; sempre uma estrat&eacute;gia    discursiva que consiste em esmigalhar um evento – a revolu&ccedil;&atilde;o    francesa, o genoc&iacute;dio nazista, entre outros – numa profus&atilde;o de    fatos para constatar, em contrapartida, que, somados uns aos outros, n&atilde;o    faz nunca a l&oacute;gica de um encadeamento rigoroso a partir de uma causa    primeira at&eacute; &agrave;s &uacute;ltimas conseq&uuml;&ecirc;ncias. Ora,    esta l&oacute;gica da cadeia intermin&aacute;vel est&aacute;, de fato, ligada    ao regime de escrita pr&oacute;prio ao regime est&eacute;tico. "A besteira    &eacute; querer concluir": a frase de Flaubert resume uma certa moral da    escrita e mostra a liga&ccedil;&atilde;o dessa moral com toda uma s&eacute;rie    de implica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, dentre elas o revisionismo.</font></P>     <p><font size="3"><b><i>As palavras, assim como a arte, podem ser revolucion&aacute;rias?</i></b></FONT></P>     <p><font size="3">As palavras t&ecirc;m um poder de ruptura. Elas embaralham a    evid&ecirc;ncia segundo a qual as coisas seriam simplesmente o que elas s&atilde;o.    Esse poder de ruptura tem m&uacute;ltiplos usos e, notadamente, permite a constitui&ccedil;&atilde;o    de coletivos pol&iacute;ticos unidos pela vontade de explorar o significado    de palavras como liberdade ou igualdade. Isso quer dizer que n&atilde;o h&aacute;    palavras revolucion&aacute;rias por si s&oacute;s. O mesmo acontece com a arte.    Saber se ela deve ou n&atilde;o ser engajada &eacute; uma quest&atilde;o vazia    de sentido. A arte sempre faz pol&iacute;tica. O regime est&eacute;tico da arte    &eacute; atravessado pelo projeto de uma arte que realiza suas potencialidades    essenciais ultrapassando a sim mesma, criando, como diz Malevitch, n&atilde;o    quadros, mas sim formas de vida. A revolu&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica n&atilde;o    somente se ligou &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o social, como tamb&eacute;m    lhe forneceu modelos. O que se passou na R&uacute;ssia sovi&eacute;tica n&atilde;o    foi o confronto entre a pol&iacute;tica e a arte, foi o confronto entre uma    pol&iacute;tica da arte revolucion&aacute;ria, criadora de formas de vida, e    a vis&atilde;o est&aacute;tica da arte como ilustra&ccedil;&atilde;o da revolu&ccedil;&atilde;o    social. </font></P>     <p><font size="3"><b><i>O senhor usa os termos pol&iacute;tica e pol&iacute;cia,    mas n&atilde;o a palavra poder. Por qu&ecirc; ? </i></b></FONT></P>     <p><font size="3">N&atilde;o me ocupo do poder como conjunto de dispositivos e    t&eacute;cnicas de domina&ccedil;&atilde;o. O que me interessa &eacute; a configura&ccedil;&atilde;o    do comum no seio da qual esses dispositivos e t&eacute;cnicas se inscrevem.    Pol&iacute;tica e pol&iacute;cia s&atilde;o dois modos antag&ocirc;nicos dessa    configura&ccedil;&atilde;o. A pol&iacute;cia n&atilde;o &eacute;, para mim,    o poder sobre os corpos, e sim a configura&ccedil;&atilde;o da comunidade como    totalidade org&acirc;nica, definida de maneira exaustiva por suas fun&ccedil;&otilde;es,    seus lugares e suas identidades. A pol&iacute;tica, ao contr&aacute;rio, &eacute;    a configura&ccedil;&atilde;o da comunidade que abre essa totalidade, que faz    intervir sujeitos suplementares que n&atilde;o s&atilde;o partes do corpo social,    mas formas de subjetiva&ccedil;&atilde;o de um lit&iacute;gio. Pensar em termos    de poder ou de tecnologias de poder &eacute; esquecer o espa&ccedil;o pr&oacute;prio    da pol&iacute;tica como configura&ccedil;&atilde;o conflituosa do comum da comunidade.    </font></P>     <p><font size="3"><b><i>A democracia nunca passou de uma promessa, um sonho? </i></b></FONT></P>     <p><font size="3">Deve-se inverter essa proposi&ccedil;&atilde;o. A democracia    e a igualdade n&atilde;o s&atilde;o sonhos. N&atilde;o s&atilde;o metas a atingir.    S&atilde;o potencialidades que s&oacute; ganham realidade se s&atilde;o atualizadas    aqui e agora. A democracia &eacute;, seguramente, um sonho se algu&eacute;m    espera que, a partir dos pr&oacute;prios textos que declaram homens e mulheres    iguais em direito, a igualdade se torne realidade. Ela deixa de ser um sonho    quando mulheres e homens provam sua igualdade, sua compet&ecirc;ncia igual para    se ocupar das coisas comuns. Em outras palavras, a democracia n&atilde;o &eacute;    nunca assimil&aacute;vel a uma forma de governo nem a uma forma de sociedade.    Todo governo &eacute; olig&aacute;rquico. Ele tende sempre a privatizar, em    seu proveito, a esfera dos neg&oacute;cios comuns. A democracia n&atilde;o se    trata de uma promessa, e sim de uma realidade que existe atrav&eacute;s dos    atos sempre prec&aacute;rios que a constroem. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b><i>Para quem ainda n&atilde;o conhece sua obra, por qual    livro se deve iniciar?</i></b></FONT></P>     <p><font size="3">Eu me sentiria tentado a responder recorrendo ao pr&oacute;prio    princ&iacute;pio da emancipa&ccedil;&atilde;o intelectual, tal como ele foi    desenvolvido em meu livro <i>O mestre ignorante</i>: pode-se come&ccedil;ar    por qualquer parte; n&atilde;o h&aacute; inicia&ccedil;&atilde;o por graus,    n&atilde;o h&aacute; uma via real pedag&oacute;gica. Escrevi, aparentemente,    sobre os assuntos mais diversos: a emancipa&ccedil;&atilde;o oper&aacute;ria    e a poesia de Mallarm&eacute;, a teoria pol&iacute;tica e a f&aacute;bula cinematogr&aacute;fica,    o discurso da hist&oacute;ria e a revolu&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica. E    o fiz segundo modos muito diversos de escrita, do estilo narrativo (<i>A noite    dos prolet&aacute;rios ou Courts voyages au pays du peuple</i>) ao estilo argumentativo    (<i>O desentendimento, Malaise dans l’esth&eacute;tique</i>), porque a constante    do meu trabalho &eacute; romper com a separa&ccedil;&atilde;o das disciplinas    e a hierarquia dos g&ecirc;neros a fim de colocar em evid&ecirc;ncia a partilha    do sens&iacute;vel, a maneira como a filosofia ou a literatura, a est&eacute;tica    ou a hist&oacute;ria constitui seu discurso. Pode-se, portanto, come&ccedil;ar    por onde se queira, de acordo com o pr&oacute;prio interesse: est&eacute;tico    ou pol&iacute;tico, pedag&oacute;gico ou liter&aacute;rio.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><b><i>Fl&aacute;via Nat&eacute;rcia</i></b></font></p>      ]]></body>
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