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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>O ENSINO CLASSIFICAT&Oacute;RIO DO METABOLISMO HUMANO</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Maur&iacute;cio R.M.P. Luz e Andrea T. Da Poian</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><font size=5>O</font></b> metabolismo energ&eacute;tico    &eacute; um tema relacionado a assuntos bastante comuns na vida cotidiana dos    alunos do ensino b&aacute;sico. Esses temas incluem as dietas para emagrecimento,    o exerc&iacute;cio f&iacute;sico e o uso de horm&ocirc;nios anabolizantes. Nesse    sentido, acreditamos que uma compreens&atilde;o integrada dos processos de produ&ccedil;&atilde;o    de energia (ou ATP) pelas diferentes c&eacute;lulas e tecidos seja de extrema    relev&acirc;ncia tanto no ensino fundamental (EF) quanto no ensino m&eacute;dio    (EM). Por esses motivos, nosso grupo vem estudando o ensino do metabolismo energ&eacute;tico,    e o conjunto dos resultados obtidos at&eacute; o momento aponta para uma situa&ccedil;&atilde;o    curiosa. </font></P>     <P><font size="3">Estudantes de primeiro per&iacute;odo de gradua&ccedil;&atilde;o    de diversos cursos da UFRJ parecem utilizar duas concep&ccedil;&otilde;es n&atilde;o    apenas diferentes, mas tamb&eacute;m conflitantes, a respeito da produ&ccedil;&atilde;o    de energia pelas c&eacute;lulas (1). A concep&ccedil;&atilde;o cientificamente    incorreta e mais freq&uuml;entemente encontrada entre estudantes, a qual denominamos    concep&ccedil;&atilde;o dominante (CD), &eacute; de que somente a glicose pode    ser utilizada para a produ&ccedil;&atilde;o de ATP pelas c&eacute;lulas. Essa    primeira concep&ccedil;&atilde;o contrasta, obviamente, com a outra expressada    por esses mesmos alunos em outras situa&ccedil;&otilde;es, qual seja, a de que    tamb&eacute;m lip&iacute;deos e prote&iacute;nas podem ser utilizados na produ&ccedil;&atilde;o    de ATP pelas c&eacute;lulas. Na verdade, a exist&ecirc;ncia de concep&ccedil;&otilde;es    conflitantes a respeito de um mesmo fen&ocirc;meno &eacute; mais freq&uuml;ente    do que se poderia esperar, e tem sido objeto de intensos e controvertidos estudos    (2). </font></P>     <P><font size="3">Nossos resultados apontam para uma origem da CD no ensino formal,    e n&atilde;o nas experi&ecirc;ncias cotidianas dos alunos. Essa origem estaria    relacionada basicamente a uma &ecirc;nfase ou mesmo uma apresenta&ccedil;&atilde;o    exclusiva das vias de oxida&ccedil;&atilde;o da glicose no EM e uma &ecirc;nfase    exagerada na fun&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica de carboidratos no EF, em    detrimento de lip&iacute;deos e prote&iacute;nas. Nesse &uacute;ltimo caso,    o ensino classificat&oacute;rio da nutri&ccedil;&atilde;o implica na atribui&ccedil;&atilde;o    das fun&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas e espec&iacute;ficas para cada nutriente:    fun&ccedil;&atilde;o "energ&eacute;tica" para os carboidratos, de    "reserva" para os lip&iacute;deos e "estrutural" (ou "pl&aacute;stica")    para as prote&iacute;nas. Essa classifica&ccedil;&atilde;o, associada &agrave;    &ecirc;nfase posterior no catabolismo da glicose, n&atilde;o permite que os    alunos percebam a import&acirc;ncia de lip&iacute;deos e amino&aacute;cidos    na integra&ccedil;&atilde;o e na regula&ccedil;&atilde;o das diversas vias do    metabolismo energ&eacute;tico em diferentes situa&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas.</font></P>     <P><font size="3">Ap&oacute;s diagnosticar o problema de concep&ccedil;&otilde;es    conflitantes, temos desenvolvido propostas para os estudantes constru&iacute;rem    concep&ccedil;&otilde;es coerentes entre si e diferentes da CD e que sejam realiz&aacute;veis    no contexto da maioria das escolas brasileiras. Para tanto nos baseamos essencialmente    no uso de materiais presentes no cotidiano e sem custo no caso do EF, e na an&aacute;lise    de gr&aacute;ficos e na interpreta&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncias simples    no EM.</font></P>     <P><font size="3"><b>ENSINO FUNDAMENTAL</b> Nossa id&eacute;ia principal foi abordar    as fun&ccedil;&otilde;es dos diferentes nutrientes de modo n&atilde;o restritivo,    ou seja, sem atribuir a cada um deles uma fun&ccedil;&atilde;o &uacute;nica    ou exclusiva. Com isto, tivemos o objetivo de levar os alunos a perceber que    diversos nutrientes podem contribuir para a produ&ccedil;&atilde;o de energia    no organismo humano. Al&eacute;m disso, procuramos abordar o tema atrav&eacute;s    de atividades pr&aacute;ticas e interativas, que estimulassem a coleta organizada    de dados, o racioc&iacute;nio l&oacute;gico e a discuss&atilde;o entre os alunos    ou grupos de alunos. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">A proposta inicial de trabalho na unidade de ensino Nutri&ccedil;&atilde;o    pode ser a discuss&atilde;o do tema "de que &eacute; feita e para que serve    a nossa comida?". A partir desta pergunta, opta-se pela utiliza&ccedil;&atilde;o    dos r&oacute;tulos de alimentos industrializados, j&aacute; que estes cont&ecirc;m    n&atilde;o apenas a listagem de seus ingredientes como tamb&eacute;m tabelas    de valor nutricional. Consultando-as, parte-se para a elabora&ccedil;&atilde;o    de uma esp&eacute;cie de "placar geral" (uma tabela de freq&uuml;&ecirc;ncias,    na verdade) no qual os alunos listam os nutrientes presentes nos alimentos e    determinam quantas vezes cada um deles &eacute; encontrado. A elabora&ccedil;&atilde;o    do "placar geral" pode se dar em etapas, com cada aluno preparando    seu placar individual, agregando, ent&atilde;o, seus resultados aos de um pequeno    grupo. Finalmente, todos os grupos constroem o placar geral da turma. </font></P>     <P><font size="3">A an&aacute;lise inicial do "placar" costuma revelar    que os alunos consideram as calorias como componentes dos alimentos e, naturalmente,    como o mais freq&uuml;ente deles. Essa situa&ccedil;&atilde;o oferece uma valiosa    oportunidade para que, gra&ccedil;as ao uso de dicion&aacute;rios ou da discuss&atilde;o    da cl&aacute;ssica experi&ecirc;ncia de Lavoisier e Laplace (3) os alunos compreendam    as calorias como unidades de medida de energia e n&atilde;o como nutrientes.    Essa discuss&atilde;o &eacute; de fundamental import&acirc;ncia para as atividades    seguintes. A explora&ccedil;&atilde;o posterior do placar sempre indica uma    maior freq&uuml;&ecirc;ncia de carboidratos, seguidos por lip&iacute;deos e    prote&iacute;nas. Os outros nutrientes, tais como fibras, vitaminas e diferentes    sais minerais apresentam-se com menor freq&uuml;&ecirc;ncia. </font></P>     <P><font size="3">O fato de que todos os alimentos possuam calorias, mas muitos    tenham composi&ccedil;&atilde;o complexa, permite que se levante a quest&atilde;o    referente a qual, ou quais, dos nutrientes listados nas tabelas nutricionais    fornecem a energia (ou calorias). A partir de ent&atilde;o se estimula a discuss&atilde;o    entre os alunos, de modo a que eles tentem sugerir uma abordagem capaz de identificar    quais s&atilde;o os nutrientes energ&eacute;ticos. Nesse momento, dois desdobramentos,    igualmente interessantes, podem ocorrer. </font></P>     <P><font size="3">No primeiro caso, no in&iacute;cio da discuss&atilde;o, &eacute;    comum que os alunos consultem atentamente os r&oacute;tulos em busca de uma    poss&iacute;vel resposta. Dependendo dos r&oacute;tulos dispon&iacute;veis,    uma resposta parcial &agrave; pergunta pode ser encontrada. Esse &eacute; o    caso, por exemplo, do a&ccedil;&uacute;car refinado (sacarose), cuja tabela    nutricional indica a presen&ccedil;a exclusivamente de carboidratos. Utilizando-se    os valores dispon&iacute;veis na tabela nutricional do a&ccedil;&uacute;car    pode-se determinar o valor cal&oacute;rico de um grama deste alimento. Caso    existam outros alimentos compostos somente de carboidratos, como o amido de    milho (Maizena), por exemplo, pode-se, at&eacute;, verificar que a generaliza&ccedil;&atilde;o    dos valores obtidos com a sacarose &eacute; v&aacute;lida, j&aacute; que os    valores em ambos os casos s&atilde;o semelhantes. An&aacute;lises similares    podem ser feitas com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s prote&iacute;nas, usando    gelatina sem sabor, e aos lip&iacute;deos, usando gordura vegetal hidrogenada.    No entanto, apenas o primeiro dos tr&ecirc;s alimentos citados &eacute; encontrado    freq&uuml;entemente entre aqueles trazidos pelos alunos. A partir da an&aacute;lise    do r&oacute;tulo de a&ccedil;&uacute;car refinado, os alunos s&atilde;o capazes    de compreender a id&eacute;ia geral necess&aacute;ria para a determina&ccedil;&atilde;o    dos nutrientes "energ&eacute;ticos": basta encontrar um alimento composto    de um &uacute;nico nutriente. Com essa proposta em mente, os alunos podem pesquisar    nos mercados e localizar os alimentos que se prestem &agrave; abordagem proposta.    A an&aacute;lise do r&oacute;tulo do "sal de cozinha", por exemplo,    acrescenta aos resultados da pesquisa a informa&ccedil;&atilde;o de que o cloreto    de s&oacute;dio, e logo s&oacute;dio e cloro n&atilde;o possuem valor cal&oacute;rico.</font></P>     <P><font size="3">O segundo caso que pode ocorrer &eacute; aquele em que n&atilde;o    existe entre os r&oacute;tulos trazidos pelos alunos algum composto de um &uacute;nico    nutriente, o que torna a discuss&atilde;o mais demorada. Em geral, a an&aacute;lise    livre dos r&oacute;tulos dispon&iacute;veis permite que os alunos cheguem &agrave;    conclus&atilde;o de que &eacute; preciso encontrar um alimento composto de um    &uacute;nico nutriente. Essa discuss&atilde;o pode ser estimulada inicialmente    pelo professor, sem comprometer a autonomia do racioc&iacute;nio da turma, de    modo que os alunos percebam que a presen&ccedil;a de diversos nutrientes em    cada alimento &eacute; o fator que dificulta a determina&ccedil;&atilde;o do    valor cal&oacute;rico de cada um deles. </font></P>     <P><font size="3">Todos as vezes que trabalhamos com essa proposta, as turmas    foram capazes de propor a abordagem proposta ap&oacute;s a an&aacute;lise de    poucos r&oacute;tulos escolhidos casualmente. Tal conclus&atilde;o nos parece    ser bastante intuitiva e compat&iacute;vel com a faixa et&aacute;ria normal    de alunos de 7ª s&eacute;rie do EF. </font></P>     <P><font size="3">O fato de que alimentos compostos exclusivamente de vitaminas,    fibras ou sais minerais n&atilde;o est&atilde;o dispon&iacute;veis comercialmente    (&agrave; exce&ccedil;&atilde;o j&aacute; mencionada do sal de cozinha) oferece    mais uma oportunidade de discuss&atilde;o e an&aacute;lise por parte das turmas.    Na medida em que os alunos disp&otilde;em dos valores cal&oacute;ricos aproximados    dos tr&ecirc;s nutrientes mais freq&uuml;entes, torna-se poss&iacute;vel, com    a realiza&ccedil;&atilde;o de c&aacute;lculos simples, a determina&ccedil;&atilde;o    de que os demais nutrientes n&atilde;o contribuem de modo significativo para    o valor cal&oacute;rico dos alimentos. Em geral, ap&oacute;s uma breve discuss&atilde;o,    as turmas s&atilde;o capazes de perceber que a soma dos valores cal&oacute;ricos    dos carboidratos, lip&iacute;deos e prote&iacute;nas presentes em um dado alimento    equivale aproximadamente ao valor cal&oacute;rico total deste alimento. </font></P>     <P><font size="3">Ap&oacute;s a realiza&ccedil;&atilde;o dessa atividade simples,    os alunos percebem que, dentre os nutrientes presentes nos alimentos, os carboidratos,    as prote&iacute;nas e os lip&iacute;deos s&atilde;o capazes de fornecer energia.    Al&eacute;m disso, os resultados dos c&aacute;lculos feitos pelos pr&oacute;prios    alunos mostram claramente que os lip&iacute;deos t&ecirc;m o maior valor cal&oacute;rico,    e que prote&iacute;nas e carboidratos t&ecirc;m valores cal&oacute;ricos semelhantes.    Essas conclus&otilde;es j&aacute; se contrap&otilde;em ao ensino classificat&oacute;rio    que mencionamos previamente, ao destacar a potencial fun&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica    de tr&ecirc;s nutrientes, sem &ecirc;nfase especial em qualquer um deles. </font></P>     <P><font size="3">Os desdobramentos posteriores &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o    da tabela de freq&uuml;&ecirc;ncia e da an&aacute;lise de r&oacute;tulos incluem,    entre outros, as rela&ccedil;&otilde;es entre a import&acirc;ncia nutricional    das fibras e nossa incapacidade de digeri-las, al&eacute;m da composi&ccedil;&atilde;o    excessivamente rica em carboidratos dos alimentos industrializados. Naturalmente,    as outras fun&ccedil;&otilde;es dos diversos nutrientes, incluindo-se aqueles    mais freq&uuml;entes, t&ecirc;m de ser abordadas posteriormente. &Eacute; importante    ressaltar que a proposta contribui para evitar que se estabele&ccedil;a precocemente,    entre os alunos, uma concep&ccedil;&atilde;o cientificamente incorreta e, ademais,    conflitante com suas pr&oacute;prias concep&ccedil;&otilde;es cotidianas.</font></P>     <P><font size="3"><b>ATP NO ENSINO M&Eacute;DIO</b> Como mencionamos anteriormente,    o ensino das vias de produ&ccedil;&atilde;o de ATP no ensino m&eacute;dio (EM)    costuma se concentrar quase exclusivamente na vias catab&oacute;licas relacionadas    &agrave; glicose. Na verdade, ao tratarem exclusivamente da glicose, os autores    de livros did&aacute;ticos n&atilde;o apresentam, por exemplo, a import&acirc;ncia    do Ciclo de Krebs como via de integra&ccedil;&atilde;o do metabolismo energ&eacute;tico,    considerada fundamental no ensino de bioqu&iacute;mica (4). Ademais, esta abordagem    de uma &uacute;nica via omite a diversidade metab&oacute;lica dos diversos tipos    celulares. Inicialmente, a solu&ccedil;&atilde;o mais simples poderia ser a    inclus&atilde;o do ensino de outras vias catab&oacute;licas no EM. Mesmo considerando    que tal proposta poderia representar um avan&ccedil;o em rela&ccedil;&atilde;o    ao panorama atual, acreditamos que, tamb&eacute;m no EM, pode-se trabalhar com    atividades que estimulem a discuss&atilde;o e, sobretudo, que levem em conta    os conhecimento pr&eacute;vios dos alunos, al&eacute;m de uma maior capacidade    de raciocino abstrato, caracter&iacute;stica dessa faixa et&aacute;ria.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">No caso presente, seria interessante que consider&aacute;ssemos    que os alunos acreditam, em situa&ccedil;&otilde;es de ensino formal, que a    glicose &eacute; a principal, sen&atilde;o a &uacute;nica "fonte"    de energia das c&eacute;lulas. Em nossa proposta, estamos iniciando o estudo    do metabolismo energ&eacute;tico com a discuss&atilde;o de um gr&aacute;fico    representando a curva glic&ecirc;mica de um indiv&iacute;duo, um exame no qual    a concentra&ccedil;&atilde;o de glicose &eacute; medida em amostras do sangue    de um paciente, retiradas em intervalos de tempo regulares, antes e depois da    ingest&atilde;o de glicose. Esse exame simula as varia&ccedil;&otilde;es na    glicemia (concentra&ccedil;&atilde;o sang&uuml;&iacute;nea de glicose) do indiv&iacute;duo    ap&oacute;s uma refei&ccedil;&atilde;o normal. A <a href="#tab01">Tabela 1</a>    mostra que logo ap&oacute;s a alimenta&ccedil;&atilde;o a glicemia aumenta gradativamente    ao longo da primeira hora p&oacute;s-alimenta&ccedil;&atilde;o de 80mg/100ml    para 140mg / 100ml. Em seguida, a glicemia cai rapidamente, voltando aos n&iacute;veis    basais em aproximadamente 30 minutos. A partir da&iacute;, a glicemia permanece    praticamente constante at&eacute; a pr&oacute;xima alimenta&ccedil;&atilde;o.    Para fins did&aacute;ticos, a curva encontra-se dividida em tr&ecirc;s etapas    (etapa I: aumento ap&oacute;s a alimenta&ccedil;&atilde;o; etapa II: queda;    etapa III: manuten&ccedil;&atilde;o dos valores basais). Inicialmente, pede-se    aos alunos que, individualmente ou em grupos, proponham explica&ccedil;&otilde;es    para as varia&ccedil;&otilde;es da glicemia em cada uma delas. A discuss&atilde;o    coletiva das hip&oacute;teses propostas oferece uma rica oportunidade para as    atividades posteriores.</font></P>     <P><a name="tab01"></a></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/a23fig01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">A discuss&atilde;o das etapas I e II, em geral, &eacute; simples    e r&aacute;pida e as interpreta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o sempre consensuais:    enquanto a etapa I representa a digest&atilde;o e a absor&ccedil;&atilde;o dos    alimentos presentes na refei&ccedil;&atilde;o, a II representa o consumo da    glicose absorvida pelas c&eacute;lulas do indiv&iacute;duo. A etapa III, no    entanto, tem propiciado as discuss&otilde;es mais ricas. Isto porque os alunos    n&atilde;o disp&otilde;em de conhecimentos pr&eacute;vios que expliquem a estabiliza&ccedil;&atilde;o    da glicemia. Al&eacute;m disso, essa mesma estabiliza&ccedil;&atilde;o se contrap&otilde;e    &agrave; concep&ccedil;&atilde;o freq&uuml;ente entre eles de que a glicose,    por ser a &uacute;nica fonte de energia dispon&iacute;vel, deveria continuar    sendo consumida e, portanto, deveria ter sua concentra&ccedil;&atilde;o sangu&iacute;nea    diminu&iacute;da. A estabiliza&ccedil;&atilde;o da glicemia gera, por esse motivo,    uma interessante situa&ccedil;&atilde;o de conflito cognitivo, ou seja, um problema    real para os alunos. Esse conflito pode representar uma importante oportunidade    de aprendizado significativo, como discutiremos a seguir.</font></P>     <P><font size="3">As explica&ccedil;&otilde;es propostas pelos alunos para a estabiliza&ccedil;&atilde;o    da glicemia podem ser agrupadas em tr&ecirc;s categorias gerais. Na primeira,    encontram-se aquelas hip&oacute;teses relacionadas &agrave; exist&ecirc;ncia    de uma reserva de glicose no organismo, que passaria a ser, de alguma forma,    disponibilizada para ser consumida pelas c&eacute;lulas. Uma segunda categoria    incluiria as hip&oacute;teses, menos freq&uuml;entes, segundo as quais o organismo    seria capaz de sintetizar glicose para seu pr&oacute;prio consumo. Finalmente,    a terceira categoria incluiria as hip&oacute;teses relacionadas ao consumo de    outras "fontes" de energia pelos tecidos. Uma caracter&iacute;stica    interessante dos tr&ecirc;s tipos de hip&oacute;teses &eacute; que todas est&atilde;o    corretas. A hidr&oacute;lise do glicog&ecirc;nio, a gliconeog&ecirc;nese e a    oxida&ccedil;&atilde;o de lip&iacute;deos e amino&aacute;cidos, respectivamente,    subsidiam as hip&oacute;teses apresentadas. </font></P>     <P><font size="3">Curiosamente, por&eacute;m, as duas primeiras hip&oacute;teses    abordam o problema da estabiliza&ccedil;&atilde;o da glicemia com base no aporte    cont&iacute;nuo de glicose. Em um certo sentido, portanto, esses dois tipos    de hip&oacute;teses buscam solucionar o problema mantendo-se em acordo com a    concep&ccedil;&atilde;o de que a glicose &eacute; a principal (ou &uacute;nica)    fonte de energia, e, por isto mesmo, sua demanda precisaria ser continuamente    suprida. A hip&oacute;tese relacionada &agrave;s outras "fontes" de    energia, no entanto, parece representar uma situa&ccedil;&atilde;o na qual os    alunos utilizam conhecimentos informais (a "queima" de gorduras durante    as dietas, por exemplo) na proposi&ccedil;&atilde;o de solu&ccedil;&otilde;es    para um problema surgido no ensino formal. Por esse motivo acreditamos que sua    discuss&atilde;o tem grande potencial de consolidar entre os estudantes uma    vis&atilde;o mais rica e integrada do metabolismo energ&eacute;tico.</font></P>     <P><font size="3">Temos prosseguido com o ensino solicitando aos alunos que sugiram    experi&ecirc;ncias capazes de testar suas hip&oacute;teses. Ao longo do trabalho,    procuramos deixar claro para os grupos que n&atilde;o &eacute; importante que    as experi&ecirc;ncias sejam tecnicamente vi&aacute;veis mas, sim, que eles saibam    formular, em linhas gerais, aquilo que denominamos de seus "fundamentos    l&oacute;gicos". Diante de tal flexibilidade, os alunos s&atilde;o capazes    de propor experi&ecirc;ncias coerentes com as hip&oacute;teses. </font></P>     <P><font size="3">No caso do terceiro tipo de explica&ccedil;&atilde;o, por exemplo,    os alunos sugerem a submiss&atilde;o de um indiv&iacute;duo a uma "dieta    sem glicose", associada &agrave; medida da quantidade de lip&iacute;deos    e prote&iacute;nas presentes no organismo. Nesse caso, pode-se disponibilizar    para os alunos os resultados das medidas de peso magro e gordo de um indiv&iacute;duo    submetido &agrave; uma dieta isenta de carboidratos largamente praticada na    atualidade. A an&aacute;lise dos resultados permite que os alunos concluam que,    de fato, ocorre consumo substancial de lip&iacute;deos e prote&iacute;nas em    uma situa&ccedil;&atilde;o de priva&ccedil;&atilde;o de glicose. De modo an&aacute;logo,    s&atilde;o sugeridas abordagens para testar a s&iacute;ntese de glicose pelo    organismo, que podem ser facilmente ilustradas pela apresenta&ccedil;&atilde;o    de resultados simplificados dos trabalhos do casal Cori referentes &agrave;    gliconeog&ecirc;nese. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Os detalhes das diversas experi&ecirc;ncias e das maneiras de    abord&aacute;-las excedem os objetivos deste artigo, mas muitas delas podem    ser encontradas em Oliveira (5). &Eacute; essencial destacar, por&eacute;m,    que em nossa proposta cabe ao professor o papel de orientador, mais que o de    portador de informa&ccedil;&otilde;es a serem aceitas pelos alunos (6). Alguns    passos das vias do metabolismo energ&eacute;tico s&atilde;o apresentados posteriormente.    Finalmente, a atividade de s&iacute;ntese se d&aacute; gra&ccedil;as &agrave;    discuss&atilde;o, por parte dos estudantes, de um gr&aacute;fico representando    as varia&ccedil;&otilde;es nas concentra&ccedil;&otilde;es plasm&aacute;ticas    de diversas mol&eacute;culas durante um jejum prolongado, de modo simplificado    (7). Dessa maneira, os alunos s&atilde;o capazes de perceber a natureza integrada    das vias do metabolismo energ&eacute;tico, e n&atilde;o apenas memorizam cada    uma delas em separado.</font></P>     <P> <font size="3"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b> Ao longo de nosso    trabalho temos tentado a aproxima&ccedil;&atilde;o entre a universidade e o    ensino b&aacute;sico, atrav&eacute;s do diagn&oacute;stico conjunto de problemas    e da elabora&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o de propostas de ensino,    que naturalmente precisam ser adaptadas e ter sua validade testada em diferentes    contextos educacionais. Nesse sentido, temos desenvolvido material did&aacute;tico    para alunos de licenciatura (8) e cursos de forma&ccedil;&atilde;o continuada    para professores (dispon&iacute;veis em <a href="http://www.cederj.gov.br/extensao" target="_blank"><i>www.cederj.gov.br/extensao</i></a>),    nos quais as quest&otilde;es levantadas a partir da pesquisa em ensino de temas    de bioqu&iacute;mica encontram-se presentes.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Maur&iacute;cio R.M.P. Luz</b> &eacute; professor do Col&eacute;gio    de Aplica&ccedil;&atilde;o da UFRJ e pesquisador do Laborat&oacute;rio de Biologia    Celular, Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz(RJ).    <br>   <b>Andrea T. Da Poian</b> &eacute; professora adjunta do Departamento de Bioqu&iacute;mica    M&eacute;dica(ICB/UFRJ).</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Oliveira, G.A., Sousa, C.R., Da Poian, A.T. e Luz, M.R.M.P.    <i>Adv. Physiol. Educ</i>. 27, 97-101. 2003.</font><!-- ref --><p><font size="3">2. Mortimer, E.F. <i>Linguagem e forma&ccedil;&atilde;o de conceitos    no ensino de ci&ecirc;ncias</i>. Editora UFMG: Belo Horizonte. 2000.</font><!-- ref --><p><font size="3">3. Gabriel, M.L. &amp; Fogel, S. <i>Great experiments in biology    englewood cliffs</i>, N.J., Prentice-Hall. 1955.</font><!-- ref --><p><font size="3">4. Pickering, W.R. <i>J. Biol. Educ</i>. 33, 100-102. 1999.</font><!-- ref --><p><font size="3">5. Oliveira, G.A., "O metabolismo energ&eacute;tico no    ensino m&eacute;dio: diagn&oacute;stico e proposta de ensino". Disserta&ccedil;&atilde;o    de mestrado. Departamento de Bioqu&iacute;mica M&eacute;dica (ICB/UFRJ). 2003.</font><!-- ref --><p><font size="3">6. Gil-P&eacute;rez, D. Int. <i>J. Sci. Educ</i>. 18, 889-901.    1996.</font><!-- ref --><p><font size="3">7. Da Poian, A.T. "Integra&ccedil;&atilde;o hormonal do    metabolismo durante o jejum", em <i>Horm&ocirc;nios e metabolismo: integra&ccedil;&atilde;o    e correla&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas</i> (Da Poian, A. T. e Alves, P.    C. C., eds.), cap. VIII, Editora Atheneu, Rio de Janeiro, RJ, pp. 185-213. 2003.</font><!-- ref --><p><font size="3">8. Luz, M.R.M.P., <i>Instrumenta&ccedil;&atilde;o ao ensino    de bioqu&iacute;mica e biologia celular</i>. Funda&ccedil;&atilde;o Cecierj,    cons&oacute;rcio Cederj, Rio de Janeiro. 2003.</font> ]]></body><back>
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