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</front><body><![CDATA[ <p ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/tendenc.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="CENTER"><font size=5><b>Do holocausto nazista &agrave; nova eugenia    no s&eacute;culo XXI</b></font>    <br>   <font size="3"><b><i>Andr&eacute;a Guerra</i></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="3"><b>E</b>mbora a produ&ccedil;&atilde;o    da bomba at&ocirc;mica seja sempre lembrada como exemplo da ci&ecirc;ncia a    servi&ccedil;o da destrui&ccedil;&atilde;o, h&aacute; outro igualmente relevante:    o desenvolvimento das teorias eug&ecirc;nicas e seu aproveitamento por movimentos    raciais, culminando no Holocausto nazista na Segunda Guerra Mundial. </font></p>     <p><font size="3">A maioria dos geneticistas do s&eacute;culo XXI, quando a gen&eacute;tica    &eacute; assunto rotineiro na m&iacute;dia, pouco ou nada sabe sobre a hist&oacute;ria    da eugenia. Conhec&ecirc;-la, por&eacute;m, &eacute; fundamental em face de    situa&ccedil;&otilde;es concretas da atualidade, como fertiliza&ccedil;&atilde;o    <i>in vitro</i>, diagn&oacute;sticos pr&eacute;-natal e pr&eacute;-implanta&ccedil;&atilde;o,    aborto terap&ecirc;utico e clonagem reprodutiva. Em vista das preocupa&ccedil;&otilde;es    sobre a emerg&ecirc;ncia de uma nova eugenia, &eacute; importante rever o passado    e aprender com os erros cometidos. </font></p>     <p><FONT size="3"><b>O MOVIMENTO EUG&Ecirc;NICO</b> Quando em <i>The origin of    species</i>, de 1859, Darwin prop&ocirc;s que a sele&ccedil;&atilde;o natural    fosse o processo de sobreviv&ecirc;ncia a governar a maioria dos seres vivos,    importantes pensadores passaram a destilar suas id&eacute;ias num conceito novo    – o darwinismo social. </font></p>     <p><font size="3">Esse conceito, de que na luta pela sobreviv&ecirc;ncia muitos    seres humanos eram n&atilde;o s&oacute; menos valiosos, mas destinados a desaparecer,    culminou em uma nova ideologia de melhoria da ra&ccedil;a humana por meio da    ci&ecirc;ncia. Por tr&aacute;s dessa ideologia estava sir Francis J. Galton,    cujo nome &eacute; associado ao surgimento da gen&eacute;tica humana e da eugenia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Convencido de que era a natureza, n&atilde;o o ambiente, quem    determinava as habilidades humanas, Galton dedicou sua carreira cient&iacute;fica    &agrave; melhoria da humanidade por meio de casamentos seletivos. No livro <i>Inquiries    into human faculty and its development</i>, de 1883, criou um termo para designar    essa nova ci&ecirc;ncia: eugenia (bem nascer). </font></p>     <p><font size="3">No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, quando as teorias de Darwin    eram amplamente aceitas na Inglaterra, havia grande preocupa&ccedil;&atilde;o    quanto &agrave; &quot;degenera&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica&quot; do pa&iacute;s,    pois o decl&iacute;nio na taxa de nascimentos era muito maior nas classes alta    e m&eacute;dia do que na classe baixa. Para muitos, parecia l&oacute;gico que    a qualidade da popula&ccedil;&atilde;o pudesse ser aprimorada por proibi&ccedil;&atilde;o    de uni&otilde;es indesej&aacute;veis e promo&ccedil;&atilde;o da uni&atilde;o    de parceiros bem-nascidos. Foi necess&aacute;rio, apenas, que homens como Galton    popularizassem a eugenia e justificassem suas conclus&otilde;es com argumentos    cient&iacute;ficos aparentemente s&oacute;lidos. </font></p>     <p><font size="3">As propostas de Galton ficaram conhecidas como &quot;eugenia    positiva&quot;. Nos EUA, por&eacute;m, elas foram modificadas, na dire&ccedil;&atilde;o    da chamada &quot;eugenia negativa&quot;, de elimina&ccedil;&atilde;o das futuras    gera&ccedil;&otilde;es de &quot;geneticamente incapazes&quot; – enfermos, racialmente    indesejados e economicamente empobrecidos –, por meio de proibi&ccedil;&atilde;o    marital, esteriliza&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria, eutan&aacute;sia passiva    e, em &uacute;ltima an&aacute;lise, exterm&iacute;nio. </font></p>     <p><font size="3">Como salienta Edwin Black no livro <i>A guerra contra os fracos</i>,    &quot;os EUA estavam prontos para a eugenia antes que a eugenia estivesse pronta    para os EUA&quot;. O aumento no n&uacute;mero de imigrantes no final do s&eacute;culo    XIX levou o grupo dominante no pa&iacute;s, os protestantes cujos ancestrais    eram oriundos do norte da Europa, a buscar motivos para exclus&atilde;o. Encontraram    terreno f&eacute;rtil na pseudoci&ecirc;ncia da eugenia.</font></p>     <p><FONT size="3"><b>IMIGRANTES</b> Os eugenistas usaram os &uacute;ltimos conhecimentos    cient&iacute;ficos para &quot;provar&quot; que a hereditariedade tinha papel-chave    em gerar patologias sociais e doen&ccedil;a. Os imigrantes tornaram-se alvos    f&aacute;ceis de defensores dessa nova &quot;ci&ecirc;ncia&quot;, que empregaram    os achados do movimento eug&ecirc;nico para construir sua imagem como pessoas    deformadas, doentes e depravadas, encontrando eco em seus contempor&acirc;neos    nas ci&ecirc;ncias sociais e na biologia, entre os quais a eugenia propagou-se    como algo considerado perfeitamente l&oacute;gico. </font></p>     <p><font size="3">O racismo dos primeiros eugenistas norte-americanos n&atilde;o    era contra n&atilde;o-brancos, mas contra n&atilde;o-n&oacute;rdicos, e as doutrinas    de pureza e supremacia raciais eram elaboradas por figuras p&uacute;blicas cultas    e respeitadas. Quando as teorias de Mendel chegaram aos EUA, esses pensadores    influentes acrescentaram um verniz cient&iacute;fico ao &oacute;dio racial e    social. </font></p>     <p><font size="3">O l&iacute;der do movimento eugenista dos EUA foi Charles Davenport,    que dirigia o laborat&oacute;rio de biologia do Brooklin Institute of Arts and    Science, em Long Island, instalado em Cold Spring Harbor. Em 1903, obteve da    Carnegie Institution o estabelecimento de uma Esta&ccedil;&atilde;o Biol&oacute;gica    Experimental no local, onde a eugenia seria abordada como ci&ecirc;ncia genu&iacute;na.    Em seguida, juntou-se aos criadores de animais e especialistas em sementes da    American Breeders Association, muitos deles convencidos de que o conhecimento    mendeliano sobre gado e plantas era aplic&aacute;vel a seres humanos. </font></p>     <p><FONT size="3"><b>ANTECEDENTES GEN&Eacute;TICOS</b> O pr&oacute;ximo passo    de Davenport foi identificar os que deveriam ser impedidos de se reproduzir.    Em 1909 criou o Eugenics Record Office para registrar os antecedentes gen&eacute;ticos    dos norte-americanos e pressionar por legisla&ccedil;&atilde;o que permitisse    a preven&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria de linhagens indesej&aacute;veis.    Para isso, o grupo concluiu que o melhor m&eacute;todo seria a esteriliza&ccedil;&atilde;o,    e o estado de Indiana foi a primeira jurisdi&ccedil;&atilde;o do mundo a introduzir    lei de esteriliza&ccedil;&atilde;o coercitiva, logo seguido por v&aacute;rios    outros estados. Desde o in&iacute;cio, por&eacute;m, o uso de c&acirc;maras    de g&aacute;s estava entre as estrat&eacute;gias discutidas para elimina&ccedil;&atilde;o    daqueles considerados indignos de viver. </font></p>     <p><font size="3">Com o tempo, a eugenia passou a ser vista como ci&ecirc;ncia    prestigiosa e conceito m&eacute;dico leg&iacute;timo, disseminada por meio de    livros did&aacute;ticos e institui&ccedil;&otilde;es de instru&ccedil;&atilde;o    eugenista. No primeiro Congresso Internacional de Eugenia, em 1912, l&iacute;deres    de delega&ccedil;&otilde;es dos EUA e pa&iacute;ses europeus formaram o Comit&ecirc;    Internacional de Eugenia, que, posteriormente, deu origem &agrave; Federa&ccedil;&atilde;o    Internacional de Organiza&ccedil;&otilde;es Eugenistas, cuja agenda pol&iacute;tica    e cient&iacute;fica era dominada pelos EUA, para onde eugenistas estrangeiros    viajavam para per&iacute;odos de treinamento em Cold Spring Harbor.</font></p>     <p><font size="3">Na Alemanha, a eugenia norte-americana inspirou nacionalistas    defensores da supremacia racial, entre os quais Hitler, que nunca se afastou    das doutrinas eugenistas de identifica&ccedil;&atilde;o, segrega&ccedil;&atilde;o,    esteriliza&ccedil;&atilde;o, eutan&aacute;sia e exterm&iacute;nio em massa dos    indesej&aacute;veis, e legitimou seu &oacute;dio fan&aacute;tico pelos judeus    envolvendo-o numa fachada m&eacute;dica e pseudocient&iacute;fica. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">N&atilde;o houve apenas exterm&iacute;nio em massa de judeus    e outros grupos &eacute;tnicos. Em julho de 1933, foi decretada lei de esteriliza&ccedil;&atilde;o    compuls&oacute;ria de diversas categorias de &quot;defeituosos&quot; e, com    o in&iacute;cio da Segunda Guerra Mundial, os alem&atilde;es considerados mentalmente    deficientes passaram a ser mortos em c&acirc;maras de g&aacute;s. M&eacute;dicos    nazistas realizavam experimentos em prisioneiros nos campos de concentra&ccedil;&atilde;o,    e, em Auschwitz, Mengele dedicou-se ao estudo de g&ecirc;meos para investigar    a contribui&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica ao desenvolvimento de caracter&iacute;sticas    normais e patol&oacute;gicas – de 1.500 pares de g&ecirc;meos submetidos a suas    experi&ecirc;ncias, menos de 200 sobreviveram. </font></p>     <p><FONT size="3"><b>A NOVA EUGENIA DO S&Eacute;CULO XXI</b> A revela&ccedil;&atilde;o    das atrocidades nazistas desacreditou a eugenia cient&iacute;fica e eticamente,    e fez com que a palavra desaparecesse abruptamente do uso. No entanto, a eugenia    n&atilde;o desapareceu, mas se refugiou em muitos casos sob o r&oacute;tulo    &quot;gen&eacute;tica humana&quot;. O laborat&oacute;rio de Cold Spring Harbor    &eacute; dirigido hoje por um dos descobridores da estrutura de dupla h&eacute;lice    do DNA, o geneticista James Watson, que vem propagando id&eacute;ias claramente    eug&ecirc;nicas. Avan&ccedil;os cient&iacute;ficos v&ecirc;m sendo direcionados    &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o de &quot;indesej&aacute;veis&quot;, como    a utiliza&ccedil;&atilde;o de exames que detectam doen&ccedil;as gen&eacute;ticas    por companhias de seguro e planos de sa&uacute;de e o uso de bancos de DNA no    controle de imigra&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">&Agrave; medida que diminui o n&uacute;mero de filhos por casal,    pressiona-se para que sejam cada vez mais perfeitos. T&eacute;cnicas de diagn&oacute;stico    pr&eacute;-natal permitem detectar beb&ecirc;s com problemas gen&eacute;ticos,    e embora a decis&atilde;o sobre aborto terap&ecirc;utico seja pessoal, difunde-se    o conceito de que &eacute; cruel n&atilde;o levar em conta a qualidade de vida    e que interromp&ecirc;-la pode ser um ato de amor. Os pais tamb&eacute;m s&atilde;o    levados a priorizar a qualidade de suas pr&oacute;prias vidas. Como saber, por&eacute;m,    o que faz com que a vida n&atilde;o mere&ccedil;a ser vivida ou n&atilde;o mere&ccedil;a    ser cuidada?</font></p>     <p><FONT size="3"><b>FERTILIZA&Ccedil;&Atilde;O <i>IN VITRO</i></b> Num futuro    pr&oacute;ximo, se a eugenia for al&eacute;m dos abortos terap&ecirc;uticos    para de fato projetar beb&ecirc;s que se beneficiem de todos os avan&ccedil;os    da gen&eacute;tica, provavelmente n&atilde;o far&aacute; sentido que a concep&ccedil;&atilde;o    ocorra da maneira tradicional, mas sim em cl&iacute;nicas de fertiliza&ccedil;&atilde;o    <i>in vitro</i>. </font></p>     <p><font size="3">No final de sua vida, Galton escreveu um romance chamado <i>Kantsaywhere</i>,    em que descrevia uma utopia eug&ecirc;nica. Ap&oacute;s o exame de suas caracter&iacute;sticas    gen&eacute;ticas, os habitantes de <i>Kantsaywhere</i> com material gen&eacute;tico    inferior eram destinados ao celibato em col&ocirc;nias de trabalho. Os que recebiam    um &quot;certificado de segunda classe&quot; podiam se reproduzir &quot;com    reservas&quot; e os bem qualificados eram encorajados a casar entre si. Em 1997,    o filme <i>Gattaca</i> esbo&ccedil;ava uma vers&atilde;o moderna de um para&iacute;so    eug&ecirc;nico em que a procria&ccedil;&atilde;o ocorria por fertiliza&ccedil;&atilde;o    <i>in vitro</i> e s&oacute; eram implantados embri&otilde;es sem defeitos gen&eacute;ticos.    Como salienta o geneticista Nicholas Gillham, <i>Kantsaywhere e Gattaca</i>    s&atilde;o lugares semelhantes e as quest&otilde;es &eacute;ticas levantadas    s&atilde;o as mesmas – a diferen&ccedil;a est&aacute; em um s&eacute;culo de    avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Andr&eacute;a Trevas Maciel Guerra</b>, m&eacute;dica    geneticista, &eacute; professora titular do Departamento de Gen&eacute;tica    M&eacute;dica da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas da Unicamp.</i></font></p>      ]]></body>
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