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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/nt_bra.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">INCLUS&Atilde;O SOCIAL</font>    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v58n1/linhapt.gif"></p>     <p><font size="4"><b>Legenda e &aacute;udio-descri&ccedil;&atilde;o na televis&atilde;o    garantem acessibilidade a deficientes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Na sociedade globalizada de hoje, a palavra de ordem &eacute;    acessibilidade. No debate que a cria&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia Nacional    do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) suscitou, em nenhum momento se faz refer&ecirc;ncia    a cegos e surdos, como integrantes de um p&uacute;blico que &eacute; privado    da cultura audiovisual brasileira. O problema est&aacute;, em primeiro lugar,    na exclus&atilde;o social e intelectual.</font></p>     <p><font size="3">Quando falamos em l&iacute;nguas, geralmente pensamos em idiomas,    e no ato da fala ou da escrita que os expressa. No meio audiovisual, e mais    precisamente, na televis&atilde;o brasileira (no cinema e teatro, nem se fala!),    raramente lembramos daqueles que n&atilde;o escutam e que n&atilde;o v&ecirc;em.    Portanto, aqueles que usam outras formas de comunica&ccedil;&atilde;o, outras    l&iacute;nguas. Chegamos at&eacute; a subestim&aacute;-los, confundindo nossa    ignor&acirc;ncia com uma suposta desvantagem intelectual deles. Custa-nos entender,    por exemplo, que os surdos brasileiros t&ecirc;m a sua l&iacute;ngua, eles falam    a L&iacute;ngua Brasileira de Sinais (Libras), e que o portugu&ecirc;s &eacute;    sua segunda l&iacute;ngua, como uma l&iacute;ngua estrangeira. Parece &oacute;bvio,    mas o fato s&oacute; ficou claro atrav&eacute;s de uma pesquisa – publicada    na Europa em 2003 – sobre a recep&ccedil;&atilde;o da legenda fechada por um    grupo de surdos de Fortaleza, realizada em parceria com Vera L.S.Ara&uacute;jo,    da Uece. Justifica-se a&iacute; a dificuldade do surdo com a leitura do portugu&ecirc;s,    e da verborr&aacute;gica e dessincronizada legenda fechada – <i>closed caption</i>    – que &eacute; disponibilizada em poucos programas da Rede Globo. O fato nada    tem a ver com a emissora ou seus tradutores, mas com uma pol&iacute;tica protecionista    e pretensiosa do audiovisual, que define o qu&ecirc;, quando e como surdos ter&atilde;o    acesso ao meio. A pesquisa demonstrou que a legenda fechada disponibilizada    atualmente – seja ela do tipo <i>roll up</i> (para programas de n&atilde;o-fic&ccedil;&atilde;o),    ou <i>pop on</i> (para programas de fic&ccedil;&atilde;o) – pouco tem a ver    com as necessidades, prefer&ecirc;ncias ou expectativas dos surdos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/a08fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Com os cegos, o problema &eacute; ainda pior porque, at&eacute;    o momento, nenhum suporte de representa&ccedil;&atilde;o visual &eacute; disponibilizado    para complementar o &aacute;udio. Apesar de j&aacute; ter sido demonstrado pela    psic&oacute;loga Maria Eduarda S. Leme (Unicamp, 2003), que o cego consegue    construir imagens l&oacute;gicas atrav&eacute;s de seu ouvido apurado e do conhecimento    facilitado pelo conv&iacute;vio social, o que fazer com cenas silenciosas, imagens    distorcidas, letreiros, placas, onde as informa&ccedil;&otilde;es se manifestam    visualmente? H&aacute; alguns projetos de lei na C&acirc;mara que tentam assegurar    uns poucos direitos aos portadores de necessidades especiais, inclusive no que    se refere ao meio audiovisual. A inten&ccedil;&atilde;o &eacute; boa, mas n&atilde;o    garante a acessibilidade desejada aos 12 milh&otilde;es de cidad&atilde;os com    problemas auditivos e aos 5 milh&otilde;es de cegos no pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="3">Mas h&aacute; luz no fim do t&uacute;nel, at&eacute; para os    cegos. Pesquisando os anais do F&oacute;rum de Barcelona 2004 (<a href="http://www.barcelona%202004.org" target="_blank"><i>www.barcelona    2004.org</i></a>), encontramos no resumo do debate sobre Comunica&ccedil;&atilde;o    Audiovisual Global, Diversidade Cultural e Regulamenta&ccedil;&atilde;o, a seguinte    afirma&ccedil;&atilde;o: &quot;Se o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o    e &agrave; informa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; um direito universal,    a m&iacute;dia p&uacute;blica e privada tamb&eacute;m deveria cumprir com a    obriga&ccedil;&atilde;o de fortalecer valores democr&aacute;ticos, elevar a    diversidade e qualidade de seu conte&uacute;do (especialmente no que se refere    &agrave;s crian&ccedil;as), ajudar as pessoas com defici&ecirc;ncias f&iacute;sicas    a ganhar acesso ao conte&uacute;do, e garantir a normalidade nas suas descri&ccedil;&otilde;es    de minorias sociais&quot;.</font></p>     <p><font size="3">A Europa, sem d&uacute;vida nenhuma, &eacute; exemplo a ser    seguido. Em primeiro lugar, pela pr&aacute;tica pioneira da legenda fechada    para surdos e da descri&ccedil;&atilde;o em &aacute;udio para cegos. Tradutores    e pesquisadores do mundo todo v&atilde;o &agrave; Europa para aprender. Em outubro    de 2004, foi realizada, em Berlim, uma oficina sobre descri&ccedil;&atilde;o    em &aacute;udio com um de seus maiores especialistas, o alem&atilde;o Bernd    Benecke, que n&atilde;o dispensa a ajuda de seu consultor Elmar Dosh, cidad&atilde;o    cego. Al&eacute;m de indicar como se seleciona a informa&ccedil;&atilde;o visual    que realmente importa, algumas regras fundamentais para satisfazer o espectador    com defici&ecirc;ncia visual foram transmitidas, tais como: </font></p>     <p><FONT size="3"><b>a.</b> n&atilde;o resumir o que acontece (por exemplo,. n&atilde;o    falar &quot;eles brigam&quot;, mas descrever a cena &quot;o homem alto d&aacute;    um soco no homem com um chap&eacute;u de palha&quot;);</font></p>     <p><FONT size="3"><b>b.</b> n&atilde;o interpretar o que acontece ( n&atilde;o    falar &quot;ele est&aacute; doente&quot;, mas &quot;ele p&otilde;e a m&atilde;o    sobre a testa e respira fundo&quot;); </font></p>     <p><FONT size="3"><b>c.</b> n&atilde;o dar a informa&ccedil;&atilde;o muito cedo    ( &quot;h&aacute; um homem atr&aacute;s da porta&quot;), para n&atilde;o estragar    o suspense. </font></p>     <p><font size="3">Parece f&aacute;cil, mas tente colocar essas regras no espa&ccedil;o    de tempo entre ru&iacute;dos e falas. O mais importante, por&eacute;m, foi descobrir    que pouco sabemos sobre o universo do cego.</font></p>     <p><FONT size="3"><b>LEGENDA FECHADA</b> O desafio &eacute; conseguir expressar    na escrita aquilo que &eacute; falado, os sons locais (risos, telefone tocando)    e de efeito (como a m&uacute;sica), al&eacute;m de outras complexidades, sem    desvincular o texto &agrave; imagem que &eacute; transmitida. Qualquer tradutor    audiovisual sabe que a regra n&uacute;mero um da legenda &eacute; a condensa&ccedil;&atilde;o    do discurso, j&aacute; que o n&uacute;mero de caracteres na tela &eacute; extremamente    limitado. Junte-se a esse fato a dificuldade de leitura dos surdos, e de identifica&ccedil;&atilde;o    do falante com v&aacute;rios atores em cena, ou quando este est&aacute; fora    da tela. Num modelo de legenda fechada que deu certo, como o europeu, vemos    uma maior edi&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o acontece aqui, e outras solu&ccedil;&otilde;es    criativas, como o uso de cores e posi&ccedil;&otilde;es das legendas para diferenciar    os falantes, e de s&iacute;mbolos gr&aacute;ficos previamente aprovados pelos    surdos para representar sinais ac&uacute;sticos. Assim como na descri&ccedil;&atilde;o    em &aacute;udio, os surdos tamb&eacute;m s&atilde;o contratados como consultores    ou revisores das legendas fechadas. &Eacute; o caso da tradu&ccedil;&atilde;o    da novela <i>Mulheres apaixonadas</i> em Portugal pela atual especialista no    assunto, Jos&eacute;lia Neves, que conta com seu grupo de consultores surdos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT size="3"><b>NA EUROPA</b> O exemplo europeu tamb&eacute;m deve ser seguido    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; evid&ecirc;ncia que d&aacute; &agrave; quest&atilde;o    da acessibilidade em confer&ecirc;ncias sobre tradu&ccedil;&atilde;o audiovisual.    No programa da &uacute;ltima confer&ecirc;ncia na &aacute;rea, realizada em    junho passado na Universidade Aut&ocirc;noma de Barcelona, o tema esteve presente    na maioria das exposi&ccedil;&otilde;es. &Eacute; claro que h&aacute; um interesse    comercial forte na quest&atilde;o da acessibilidade pelo mercado tradut&oacute;rio.    Mas, por que n&atilde;o usar isso em prol da inclus&atilde;o social? O que fazer    com o conhecimento adquirido na Europa por pesquisadores brasileiros da &aacute;rea?    Na espera de recursos tecnol&oacute;gicos que promovam efetivamente o acesso    ao audiovisual de surdos e cegos, o neg&oacute;cio &eacute; fazer pesquisa,    interdisciplinar, inter-universit&aacute;ria. </font></p>     <p><font size="3">Recentemente, unindo pesquisadores da Universidade Federal da    Bahia (UFBA) e da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) formou-se    um grupo em tradu&ccedil;&atilde;o. Apoiado por dois especialistas na &aacute;rea    de educa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e sa&uacute;de coletiva para cegos –    Admilson Santos (UFBA/UEFS) e Sandra Rosa Farias (UEFS) – a equipe pretende    promover sess&otilde;es audiovisuais com &aacute;udio-descri&ccedil;&atilde;o    em institui&ccedil;&otilde;es de apoio ao deficiente visual, com o intuito de    estabelecer crit&eacute;rios para o desempenho dessa atividade tradut&oacute;ria    baseados em prefer&ecirc;ncias reais do espectador cego. J&aacute; h&aacute;    algumas institui&ccedil;&otilde;es no Brasil que apresentam algumas sess&otilde;es    de filmes narrados como parte de sua atividade cultural. Contudo, essa narra&ccedil;&atilde;o    &eacute; feita <i>in loco</i>, e depende da boa vontade de profissionais, pois    n&atilde;o h&aacute; aux&iacute;lio tecnol&oacute;gico necess&aacute;rio para    torn&aacute;-la parte da programa&ccedil;&atilde;o audiovisual regular. H&aacute;    um longo caminho a ser percorrido para que a ind&uacute;stria audiovisual brasileira    entenda o real significado de acessibilidade. O mais espantoso &eacute; que    ela parece ainda n&atilde;o ter percebido a potencialidade do p&uacute;blico    cego e surdo enquanto consumidor de produtos audiovisuais. O exerc&iacute;cio    da acessibilidade ao audiovisual s&oacute; ser&aacute; pleno quando houver a    inclus&atilde;o desses cidad&atilde;os brasileiros. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i><b>Eliana P. C. Franco</b>    <br>   Doutora em letras pela Universidade Cat&oacute;lica    <br>   de Leuven, na B&eacute;lgica. &Eacute; professora do curso de    <br>   gradua&ccedil;&atilde;o em letras (ingl&ecirc;s) e de p&oacute;s gradua&ccedil;&atilde;o    <br>   em letras e ling&uuml;&iacute;stica da UFBA.</i></font></p>      ]]></body>
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