<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252006000100010</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Abelhas entre os Girassóis de van Gogh]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Natércia]]></surname>
<given-names><![CDATA[Flávia]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2006</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2006</year>
</pub-date>
<volume>58</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>16</fpage>
<lpage>17</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252006000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252006000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252006000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/mundo.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/a10fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">ECOLOGIA</font>    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v58n1/linhapt.gif"></p>     <p><font size="4"><b>Abelhas entre os <i>Girass&oacute;is</i> de van Gogh</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Expostas a reprodu&ccedil;&otilde;es de pinturas &quot;amplamente    apreciadas na sociedade ocidental&quot;, abelhas mamangavas (<i>Bombus terrestris</i>)    perscrutaram e pousaram com maior freq&uuml;&ecirc;ncia nos <i>Girass&oacute;is</i>    do impressionista holand&ecirc;s Vincent van Gogh. Especial aten&ccedil;&atilde;o    foi dada &agrave; assinatura do artista, em azul sobre fundo amarelo, no canto    inferior direito. Um fen&ocirc;meno curioso. O experimento foi realizado por    Lars Chittka, bi&oacute;logo especializado em ecologia comportamental da Faculdade    Queen Mary da Universidade de Londres (Reino Unido) e o artista de instala&ccedil;&atilde;o    Julian Walker, cada um atra&iacute;do pelo trabalho do outro devido ao fato    de que tanto abelhas quanto seres humanos s&atilde;o atra&iacute;dos por flores.    Seus resultados foram publicados na revista <i>Optics &amp; Laser Technology</i>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">As &quot;cobaias&quot; foram tr&ecirc;s col&ocirc;nias de mamangavas    que nunca haviam visto flores. As caixas onde comp&otilde;em seus ninhos em    laborat&oacute;rio foram conectadas a uma &quot;arena de v&ocirc;o&quot;. No    ch&atilde;o dessa arena, foram colocadas quatro reprodu&ccedil;&otilde;es de    pinturas – duas com flores e duas sem flores. Al&eacute;m dos girass&oacute;is    de van Gogh, em ordem decrescente de prefer&ecirc;ncia pelas abelhas, os autores    expuseram <i>Pottery</i>, de Patrick Caulfield, <i>Still life with beer mug</i>,    de Fernand L&eacute;ger, e <i>Um vaso de flores</i>, de Paul Gauguin. Cada col&ocirc;nia    foi exposta &agrave;s quatro pinturas, mas somente uma vez a cada uma, por quatro    minutos, e suas rea&ccedil;&otilde;es foram filmadas com c&acirc;meras digitais    de v&iacute;deo, permitindo distinguir entre v&ocirc;os de averigua&ccedil;&atilde;o    e aterrissagens sobre as reprodu&ccedil;&otilde;es. As abelhas sobrevoaram tanto    as flores quanto os objetos n&atilde;o-florais das pinturas, mas a propor&ccedil;&atilde;o    de v&ocirc;os que terminaram com pousos foi significativamente maior nas pinturas    com flores. De acordo com Chittka, isso indica que as flores pintadas &quot;capturaram    a ess&ecirc;ncia das caracter&iacute;sticas florais, do ponto de vista de uma    abelha&quot;.</font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o se trata de um experimento cient&iacute;fico no sentido    mais restrito do termo, ainda que os autores tenham seguido um protocolo convencional    para mensurar respostas inatas de abelhas a est&iacute;mulos visuais. Elementos    como o cheiro das reprodu&ccedil;&otilde;es das pinturas n&atilde;o foi isolado    como vari&aacute;vel. &quot;Nesse estudo de ci&ecirc;ncia e arte (<i>SciArt</i>,    em ingl&ecirc;s), a inten&ccedil;&atilde;o foi estimular a reflex&atilde;o sobre    as origens evolutivas da percep&ccedil;&atilde;o e das prefer&ecirc;ncias est&eacute;ticas    numa audi&ecirc;ncia que n&atilde;o est&aacute; acostumada a pensar nesses termos&quot;,    conta Chittka. A id&eacute;ia dos autores era intrigar, levantar quest&otilde;es.    Em que medida a percep&ccedil;&atilde;o reflete a realidade? Qual a natureza    da imagem como objeto? Haveria um sentido evolutivo na est&eacute;tica ou na    aprecia&ccedil;&atilde;o humana das flores? </font></p>     <p><font size="3">&quot;Flores s&atilde;o uma componente consp&iacute;cua e bem    estabelecida das culturas humanas, e se espera que flores nos fa&ccedil;am sentir    felizes e positivos. Por qu&ecirc;?&quot;. Embora o pesquisador admita ser dif&iacute;cil    testar essa id&eacute;ia, acha que vale a pena refletir sobre ela, sobretudo    sobre a prefer&ecirc;ncia europ&eacute;ia por flores alaranjadas ou vermelhas    (cores dos frutos que atraem primatas), em detrimento de azuis, por exemplo,    as preferidas das abelhas por estarem associadas a um alto conte&uacute;do de    n&eacute;ctar. &quot;Talvez esse gosto seja conseq&uuml;&ecirc;ncia da evolu&ccedil;&atilde;o    de outro car&aacute;ter ou caracter&iacute;stica, como a frugivoria (h&aacute;bito    de alimentar-se de frutos)&quot;, pondera Chittka. Ele admite que a percep&ccedil;&atilde;o    de cores pelos seres humanos, certamente, n&atilde;o foi diretamente influenciada    pelas flores num sentido evolutivo. &quot;Mas, prestar aten&ccedil;&atilde;o    nas flores pode ter trazido benef&iacute;cios na hist&oacute;ria evolutiva humana,    porque flores s&atilde;o indicativas de outros recursos que s&atilde;o mais    &uacute;teis do que as pr&oacute;prias flores&quot;, especula Chittka, que pretende    continuar investigando as origens evolutivas da percep&ccedil;&atilde;o e da    &quot;prefer&ecirc;ncia est&eacute;tica&quot; em abelhas e peixes. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/a10fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Mas dizer que animais t&ecirc;m senso est&eacute;tico &eacute;    uma quest&atilde;o controversa. Para Darwin, diversos animais – especialmente    as aves, como o pav&atilde;o – apresentam um senso est&eacute;tico genu&iacute;no,    ainda que n&atilde;o t&atilde;o sofisticado quanto o humano, que evolui num    contexto de sele&ccedil;&atilde;o intersexual, no qual, em geral, cabe &agrave;s    f&ecirc;meas escolher entre diferentes machos. Se, na competi&ccedil;&atilde;o    entre os machos pelas f&ecirc;meas, o que vale mais s&atilde;o armas, vigor,    for&ccedil;a, para atrair as f&ecirc;meas &eacute; preciso algo mais: ornamentos,    cores contrastantes, belos presentes ou incrementadas dan&ccedil;as nupciais.    A sele&ccedil;&atilde;o sexual constitui um mecanismo evolutivo &agrave; parte    da sele&ccedil;&atilde;o natural, levando &agrave;s vezes ao desenvolvimento    de caracter&iacute;sticas que, embora aumentem suas chances de encontrar um    parceiro, diminuem as possibilidades de sobreviv&ecirc;ncia dos animais. Assim,    esse mecanismo poderia ser respons&aacute;vel pelo desacoplamento entre o senso    est&eacute;tico e a utilidade dos objetos de aprecia&ccedil;&atilde;o. Para    alguns, a intelig&ecirc;ncia humana, a um s&oacute; tempo criativa e destrutiva,    pode ter evolu&iacute;do em contexto semelhante.</font></p>     <p><font size="3">Embora diferentes aspectos do mundo em cores sejam relevantes    biologicamente para cada esp&eacute;cie, existe alguma sobreposi&ccedil;&atilde;o    entre o que humanos e abelhas s&atilde;o capazes de perceber. Como explicam    os autores, abelhas t&ecirc;m tr&ecirc;s tipos de receptores para cores assim    como os primatas do Velho Mundo, inclusive os humanos. Esses fotorreceptores    s&atilde;o ligeiramente sens&iacute;veis para a luz ultravioleta que, entretanto,    &eacute; absorvida pelo cristalino e, normalmente, jamais atinge a retina. Assim,    parte das diferen&ccedil;as de percep&ccedil;&atilde;o entre abelhas e humanos    pode ser reduzida quando o cristalino &eacute; removido cirurgicamente para    combater a catarata, como aconteceu com o pintor franc&ecirc;s Claude Monet    (ver box) . </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><b><i>Fl&aacute;via Nat&eacute;rcia</i></b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body>
</article>
