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</front><body><![CDATA[ <p><FONT size="4"><b>FRONTEIRAS</b></FONT></p>     <p><font size=5> <b>A <SMALL>ARTE DIANTE DO LIMITE DO ESPA&Ccedil;O F&Iacute;SICO</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Literatura e cinema encontram grande fonte de inspira&ccedil;&atilde;o    em confrontos territoriais de fronteiras e situa&ccedil;&otilde;es de exce&ccedil;&atilde;o:    campos de refugiados, cidades sitiadas, guerras. A obra de Manuel Scorza, escritor    peruano auto-exilado em Paris, &eacute; um bom exemplo: na d&eacute;cada de    1970, comp&ocirc;s um conjunto de cinco livros dedicado aos qu&eacute;chuas    e a sua luta contra a invisibilidade a que as autoridades locais, regionais    e nacionais os relegam. Numa linguagem marcada pela ironia, Scorza se valeu    de uma mitologia em larga medida inventada – apenas dois mitos apresentados    pertencem &agrave; cultura qu&eacute;chua – para abordar, com originalidade,    fatos que realmente aconteceram e personagens de carne-e-osso. </font></p>     <p><font size="3">Ele adota o g&ecirc;nero liter&aacute;rio do realismo m&aacute;gico,    no qual o ins&oacute;lito, o sobrenatural &eacute; incorporado ao real, e que    celebrizou diversos escritores latino-americanos, como o colombiano Gabriel    Garc&iacute;a M&aacute;rquez e o mexicano Juan Rulfo. </font></p>     <p><font size="3">Scorza criou e desenvolveu met&aacute;foras que pretendiam iluminar    o poder desmedido, fosse ele pol&iacute;tico, exercido pelo governo, fosse ele    econ&ocirc;mico, exercido pela empresa transnacional norte-americana Cerro de    Pasco Corporation. Para ele, &quot;os mitos s&atilde;o sempre para mostrar a    gravidade da situa&ccedil;&atilde;o&quot;, ou seja, prestam-se &agrave; desmistifica&ccedil;&atilde;o    do poder. Assim &eacute; que na primeira balada, tamb&eacute;m o primeiro livro    do autor, <i>Bom dia para os defuntos</i>, &agrave; altura do d&eacute;cimo    cap&iacute;tulo, uma cerca, a &quot;lagarta de arame&quot;, &quot;parida&quot;    pela noite, em uma das paredes do cemit&eacute;rio do vilarejo de Yanacancha,    vizinho de Rancas, se det&eacute;m, medita, se divide, rasteja, pernoita; n&atilde;o    acaba, quer &quot;cercar o mundo&quot;; n&atilde;o parece coisa de gente, teria    vida pr&oacute;pria: &quot;&Agrave;s seis da tarde tinha uma idade de cinco    quil&ocirc;metros&quot;. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/a23fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Fortunato, um dos her&oacute;is do livro, dispensa qualquer    explica&ccedil;&atilde;o m&iacute;tica para o fen&ocirc;meno e diz &agrave;    outra personagem: &quot;Uma cerca &eacute; uma cerca. Uma cerca significa um    dono, Dom Marcelino&quot;. E, se n&atilde;o &eacute; coisa de gente, tampouco    a cerca &eacute; de Deus, diz Pis-Pis, que tem amigos motoristas que circulam    para al&eacute;m do que os habitantes locais alcan&ccedil;am a p&eacute; ou    a cavalo: &quot;N&atilde;o &eacute; Deus, paizinhos, &eacute; a Cerro de Pasco    Corporation&quot;. Mais que uma simples cerca que demarca uma propriedade, tornada    m&iacute;tica, esta &eacute; uma revela&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a    da transnacional. As autoridades n&atilde;o a v&ecirc;em, como n&atilde;o v&ecirc;em    a causa ind&iacute;gena, nem Garabombo, o invis&iacute;vel, personagem principal    e t&iacute;tulo da segunda balada. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Ele se torna &quot;v&iacute;tima&quot; de uma mol&eacute;stia    que o faz invis&iacute;vel para as autoridades e s&oacute; se curar&aacute;    no dia em que os comuneiros forem &quot;valentes&quot; e ele puder assumir o    comando de sua cavalaria. No entanto, ao longo das cinco baladas, os elementos    m&iacute;ticos perdem import&acirc;ncia no projeto do autor, a conscientiza&ccedil;&atilde;o    e o amadurecimento pol&iacute;tico dos qu&eacute;chuas. A &quot;opera&ccedil;&atilde;o&quot;,    segundo Scorza, &eacute; clara, e &quot;tende justamente ao abandono do mito&quot;,    que servira inicialmente como resist&ecirc;ncia. Quando os qu&eacute;chuas lutam,    de fato, e fazem-se v&iacute;timas de mais um massacre, o mito deixa de valer    como abordagem. Tampouco &eacute; uma resposta ou solu&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel.    Despido de met&aacute;foras, o &uacute;ltimo livro chega a ser quase um panfleto.</font></p>     <p><font size="3"><b>A CERCA CINEMATOGR&Aacute;FICA</b> Uma cerca tamb&eacute;m    simboliza em parte a opress&atilde;o e o conflito na co-produ&ccedil;&atilde;o    franco-libanesa <i>Sob o c&eacute;u do L&iacute;bano</i>. O filme recebeu o    Le&atilde;o de Prata (Pr&ecirc;mio Especial do J&uacute;ri) na Mostra de Veneza    de 2003. Seu t&iacute;tulo original, <i>Le cerf-volant</i>, faz refer&ecirc;ncia    &agrave; pipa que a protagonista Lamia resgata, correndo risco de vida, ao ultrapassar    a fronteira que apartou sua fam&iacute;lia. Para trocar informa&ccedil;&otilde;es    e manter os la&ccedil;os afetivos, as mulheres se valem de alto-falantes. Suas    conversas, p&uacute;blicas, respondem por quase toda a gra&ccedil;a e a leveza    do filme. O pano de fundo &eacute; um conflito cuja solu&ccedil;&atilde;o &eacute;    incerta. Lamia &eacute; apaixonada pelo soldado que vigia a fronteira, mas ser&aacute;    obrigada pelos parentes mais velhos, a fim de aplacar sua inquieta&ccedil;&atilde;o    adolescente, a se casar com o primo Samy. Ele vive na parte anexada por Israel,    onde os costumes s&atilde;o mais permeados pelos valores ocidentais. A travessia    requer salvo-conduto militar. Deixando para tr&aacute;s sua m&atilde;e e seu    irm&atilde;o mais novo, a quem &eacute; muito ligada, para se casar, tem de    atravessar a terra de ningu&eacute;m. E n&atilde;o se adapta. Sa&iacute;da,    o filme s&oacute; encontra na f&aacute;bula.</font></p>     <p><font size="3"><i>Terra de ningu&eacute;m</i> &eacute; o t&iacute;tulo do filme    do diretor b&oacute;snio Danis Tanovic, no qual conviv&ecirc;ncia e conflito    se encerram numa trincheira. Recusando-se a contar uma hist&oacute;ria de guerra    tradicional, Tanovic opta por narrar uma situa&ccedil;&atilde;o de forma tragic&ocirc;mica.    Em 1993, depois de um denso nevoeiro, soldados b&oacute;snios se perdem e s&atilde;o    bombardeados por s&eacute;rvios. Quando amanhece, um b&oacute;snio, Ciki, e    um s&eacute;rvio, Nino, se v&ecirc;em obrigados a dividir uma trincheira na    &quot;terra de ningu&eacute;m&quot; que divide os dois territ&oacute;rios. Tentam    repetidas vezes matar um ao outro, sem sucesso, at&eacute; que descobrem que    suas vidas est&atilde;o sob risco. </font></p>     <p><font size="3">Um terceiro soldado, Cera, b&oacute;snio, ferido, foi considerado    morto e colocado sobre uma mina que pode explodir a qualquer momento, a qualquer    movimento. Em cima, fogo cruzado, a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es    Unidas (ONU) orientada a n&atilde;o intervir, a televis&atilde;o em busca de    imagens e fatos chocantes. Embaixo, um &oacute;dio at&aacute;vico ou alimentado    pelos conflitos recentes, que as circunst&acirc;ncias extremas atenuam, mas    n&atilde;o aplacam totalmente. O filme foi premiado com o Oscar e o Globo de    Ouro de filme estrangeiro em 2002 e ganhou o pr&ecirc;mio de Melhor Roteiro    em Cannes (2001).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n1/a23fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>INTERDI&Ccedil;&Atilde;O</b> Minas s&atilde;o outra forma    de impedir o uso de um territ&oacute;rio. Um dos problemas que o protagonista    do filme <i>Tartarugas podem voar</i>, do diretor curdo Bhaman Ghobadi, tem    de enfrentar. Ele n&atilde;o passa de um menino e &eacute; conhecido como Sat&eacute;lite    (chamado de &quot;satel&aacute;it&quot;, conforme a pron&uacute;ncia &aacute;rabe    da palavra anglo-sax&ocirc;nica), porque sabe instalar antenas, tanto as comuns    quanto as parab&oacute;licas. Apaixonado pela cultura norte-americana, seu ingl&ecirc;s    &eacute; parco, mas os anci&atilde;os curdos esperam ter not&iacute;cias do    conflito que se arma entre os EUA e o Iraque e contam, para tanto, com o menino.    Assistem &agrave; televis&atilde;o como quem consulta um or&aacute;culo. A poss&iacute;vel    chegada dos soldados dos EUA &eacute; fonte de alguma esperan&ccedil;a. </font></p>     <p><font size="3">Satelait comanda as outras crian&ccedil;as e adolescentes do    campo de refugiados – alguns deles mutilados, sem bra&ccedil;os ou pernas –    na retirada de minas, que desativam e vendem para sobreviver, e representam    as tartarugas do t&iacute;tulo. Por ironia do destino, ele quase morre tentando    salvar o filho renegado de sua outra paix&atilde;o, uma quase-menina curda,    Agrin, estuprada por um soldado americano. O ano &eacute; 2003 e o cen&aacute;rio    n&atilde;o pode ser mais desolador: um campo de refugiados na fronteira iraquiana.    Qualquer esperan&ccedil;a, ali, resulta v&atilde;. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Fl&aacute;via Nat&eacute;rcia</i></font></p>      ]]></body>
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