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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n2/a11img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>O CONHECIMENTO, A TERMINOLOGIA E O DICION&Aacute;RIO</b></font></p>     <p><FONT size="3"><b>Maria Tereza Camargo Biderman</b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>A NOMEA&Ccedil;&Atilde;O DA REALIDADE E O L&Eacute;XICO DAS    L&Iacute;NGUAS NATURAIS</b> &Eacute; a partir da palavra que as entidades da    realidade podem ser identificadas e nomeadas pelos seres humanos. A designa&ccedil;&atilde;o    e a nomea&ccedil;&atilde;o dessas realidades cria um universo significativo    revelado pela linguagem.</font></p>     <p><font size="3">A atividade de nomear resulta do processo de categoriza&ccedil;&atilde;o.    Por sua vez, a categoriza&ccedil;&atilde;o fundamenta-se na capacidade de discrimina&ccedil;&atilde;o    de tra&ccedil;os distintivos entre os referentes percebidos ou apreendidos pelo    aparato sensitivo e cognitivo do homem. A esse processo segue-se o ato de nomear.    Por essa raz&atilde;o a categoriza&ccedil;&atilde;o &eacute; o processo em que    se baseia a sem&acirc;ntica de uma l&iacute;ngua natural, por meio do qual o    homem desenvolveu a capacidade de associar palavras a conceitos. </font></p>     <p><font size="3">O l&eacute;xico de uma l&iacute;ngua constitui, portanto, uma    forma de registrar o conhecimento do universo. Ao dar nomes &agrave;s entidades    percept&iacute;veis e apreendidas no universo cognosc&iacute;vel, o homem as    classifica simultaneamente. Assim, a nomea&ccedil;&atilde;o da realidade pode    ser considerada como a etapa primeira no percurso cient&iacute;fico do esp&iacute;rito    humano de conhecimento do universo. Ao identificar semelhan&ccedil;as e, inversamente,    discriminar os tra&ccedil;os distintivos que individualizam estes referentes    em entidades distintas, o homem foi estruturando o conhecimento do mundo que    o cerca, dando nomes (palavras e termos) a essas entidades discriminadas. &Eacute;    esse processo de nomea&ccedil;&atilde;o que gerou e gera o l&eacute;xico das    l&iacute;nguas naturais.</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, e inversamente, esse processo est&aacute; indissoluvelmente    associado &agrave; cultura com que se conjuga uma l&iacute;ngua natural. Da&iacute;    resultam as disparidades vocabulares que op&otilde;em, muitas vezes, variedades    de uma mesma l&iacute;ngua como muito bem ilustram os evidentes contrastes entre    o portugu&ecirc;s do Brasil e o portugu&ecirc;s europeu, sobretudo com respeito    &agrave;s terminologias t&eacute;cnico-cient&iacute;ficas.</font></p>     <p><font size="3">Outra quest&atilde;o importante: a expans&atilde;o do universo    cognosc&iacute;vel na contemporaneidade em virtude da amplia&ccedil;&atilde;o    <i>ad infinitum</i> desse universo, propiciada e provocada pelas mudan&ccedil;as    cont&iacute;nuas emanadas das ci&ecirc;ncias e das t&eacute;cnicas. Estamos    falando da explos&atilde;o do l&eacute;xico nas modernas culturas e civiliza&ccedil;&otilde;es,    gerando um <i>motu</i> cont&iacute;nuo de neologismos designadores de novos    conceitos que se v&atilde;o formando e criando. &Agrave; medida que fabrica    novas realidades, o homem cria novas palavras em um processo incessante. E o    l&eacute;xico vai assumindo dimens&otilde;es gigantescas sendo praticamente    imposs&iacute;vel registr&aacute;-lo e descrev&ecirc;-lo por meio de um dicion&aacute;rio.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n2/a14img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>A DISSEMINA&Ccedil;&Atilde;O DO CONHECIMENTO E A DEMOCRATIZA&Ccedil;&Atilde;O    DO SABER</b> Na contemporaneidade o conhecimento adquirido e produzido por alguns    membros das diversas comunidades humanas tende a ser divulgado e conhecido por    todo o planeta Terra por meio de algumas institui&ccedil;&otilde;es t&iacute;picas    das sociedades modernas: 1. a m&iacute;dia escrita, a eletr&ocirc;nica, a cinematogr&aacute;fica;    2. o jornalismo, sobretudo o cient&iacute;fico; 3. e a escola, entendendo-se    por esta palavra toda e qualquer institui&ccedil;&atilde;o dedicada &agrave;    transmiss&atilde;o do conhecimento de maneira organizada, sistem&aacute;tica    e institucionalizada. Assim, tais ve&iacute;culos garantem a dissemina&ccedil;&atilde;o    do conhecimento junto a um p&uacute;blico cada vez maior, levando juntamente    com o conhecimento das realidades o vocabul&aacute;rio que as designa. Vamos    exemplificar com duas &aacute;reas diretamente relacionadas com a vida dos seres    humanos em nossos dias: a &aacute;rea das ci&ecirc;ncias biom&eacute;dicas e    a economia.</font></p>     <p><font size="3">O VOCABUL&Aacute;RIO DAS CI&Ecirc;NCIAS DA SA&Uacute;DE</font></p>     <p><font size="3">Na sua conviv&ecirc;ncia freq&uuml;ente com esse mundo o p&uacute;blico    leigo vem integrando em seu vocabul&aacute;rio muitos termos t&eacute;cnico-cient&iacute;ficos    que designam especialidades m&eacute;dicas, tipos de exames laboratoriais e    de diagn&oacute;stico, t&eacute;cnicas de tratamento, drogas e medicamentos,    recursos v&aacute;rios usados na cura das doen&ccedil;as, e assim por diante.    Vamos ilustrar com alguns exemplos:</font></p>     <p><font size="3"><b>doen&ccedil;as e manifesta&ccedil;&otilde;es m&oacute;rbidas    da sa&uacute;de:</b> carcinoma, cisto, dengue, dist&uacute;rbio neurol&oacute;gico,    enfisema pulmonar, epidemiologia, gastrenterite/gastroenterite, glaucoma, hepatite,    herpes, hipertens&atilde;o arterial, hipoglicemia/hiperglicemia, hipertireoidismo,    isquemia, isquemia cerebral, leishmaniose, mal degenerativo, neurose, osteoporose,    patologia, paran&oacute;ia, p&oacute;lipo, sarcoma, septicemia, s&iacute;ndrome,    s&iacute;ndrome do p&acirc;nico, soropositivo, s&iacute;ndrome de Alzheimer,    s&iacute;ndrome de Down;</font></p>     <p><font size="3"><b>t&eacute;cnicas, exames e tratamentos:</b> an&aacute;lise    do DNA, biologia molecular, bi&oacute;psia/biopse, densidade &oacute;ssea, diagn&oacute;stico    por imagem, exame parasitol&oacute;gico, gastrectomia, hemograma, informa&ccedil;&atilde;o    gen&eacute;tica, psicoterapia, laparoscopia, mamografia, neurocirurgia, raio    X, ultra-sonografia;</font></p>     <p><font size="3"><b>profissionais da sa&uacute;de e especialidades m&eacute;dicas:</b>    cardiologia, cardiologista, citologia, dermatologia, dermatologista, endocrinologia,    endocrinologista, fisioterapia, fisioterapeuta, gastroenterologia, geriatra,    geriatria, ginecologia, ginecologista, hematologia, imunologia, microbiologia,    neurologia, neurologista, oftalmologia, oftalm&oacute;logo, ortopedia, ortopedista,    otorrinolaringologia, otorrinolaringologista, parasitologia, proctologia, pneumologia,    toxicologia,urologia, urologista.</font></p>     <p><font size="3">O VOCABUL&Aacute;RIO DA ECONOMIA E DAS FINAN&Ccedil;AS</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nesse dom&iacute;nio terminol&oacute;gico muitos s&atilde;o    os termos do complexo banc&aacute;rio e financeiro, das finan&ccedil;as p&uacute;blicas,    do mercado <i>tout court</i> e do mercado de capitais com que os cidad&atilde;os    v&ecirc;m convivendo nos dias atuais e que incorporaram a seu vocabul&aacute;rio    por viverem em uma sociedade capitalista dominada pelo mercado. Vejamos alguns    exemplos dessa imensa pletora de termos: &aacute;gio, al&iacute;quota, amortiza&ccedil;&atilde;o,    ap&oacute;lice, auditoria, balan&ccedil;a comercial, bens de consumo, capital    de giro, cart&atilde;o de cr&eacute;dito, cartel, cheque especial, contribuinte,    data-base, d&eacute;ficit, des&aacute;gio, d&iacute;vida p&uacute;blica, dividendo,    duplicata, endossar, endosso, <i>factoring</i>, fluxo de caixa, globaliza&ccedil;&atilde;o,    <i>holding</i>, imposto de renda, imposto territorial urbano (IPTU), imposto    sobre a propriedade de ve&iacute;culos automotores (IPVA), inadimpl&ecirc;ncia,    <i>joint venture</i>, <i>leasing</i>, licita&ccedil;&atilde;o, margem de lucro,    monop&oacute;lio, nota promiss&oacute;ria, oligop&oacute;lio, passivo, patrim&ocirc;nio,    pessoa f&iacute;sica, pessoa jur&iacute;dica, pre&ccedil;o de mercado, privatiza&ccedil;&atilde;o,    risco-Brasil, saldo m&eacute;dio, <i>spread</i>, super&aacute;vit, taxa de c&acirc;mbio,    valor de mercado, valor venal, venda a presta&ccedil;&atilde;o, etc.</font></p>     <p><font size="3"><b>A CRIA&Ccedil;&Atilde;O DE NOVOS TERMOS NA L&Iacute;NGUA</b>    Um problema te&oacute;rico de grande relev&acirc;ncia relativamente aos vocabul&aacute;rios    cient&iacute;ficos e t&eacute;cnicos diz respeito ao processo de cria&ccedil;&atilde;o    das novas unidades l&eacute;xicas que, como se disse, &eacute; fato que ocorre    com enorme freq&uuml;&ecirc;ncia nesses dom&iacute;nios. Ora, sucede que as    linguagens de especialidade geram novos termos com base no acervo que a l&iacute;ngua    j&aacute; possui. De um lado, reutiliza palavras j&aacute; existentes para criar    outras, ou ent&atilde;o, serve-se dos processos de forma&ccedil;&atilde;o de    palavras que existem no sistema do portugu&ecirc;s. Assim, por exemplo, os processos    de deriva&ccedil;&atilde;o e composi&ccedil;&atilde;o s&atilde;o continuamente    solicitados para gerar neologismos que se fazem necess&aacute;rios. Mas a l&iacute;ngua    se serve tamb&eacute;m, n&atilde;o raro, de empr&eacute;stimos de outras l&iacute;nguas,    sendo o ingl&ecirc;s, na atualidade, o idioma que maior n&uacute;mero de termos    fornece ao portugu&ecirc;s. Ver exemplos mencionados acima: <i>holding</i>,    <i>leasing</i>, <i>spread</i> na economia. A deriva&ccedil;&atilde;o &eacute;    acionada freq&uuml;entemente sendo que, nesse caso, a prefixa&ccedil;&atilde;o    ocorre comumente. Aqui tem imensa import&acirc;ncia o uso de prefixos ou elementos    de composi&ccedil;&atilde;o gregos e latinos, como por exemplo: <b>aero-, agro-,    anti-, arqui-, auto-, bio-, cine-, demo-, electro-, endo-, epi-, extra-, fisio-,    fono-, foto-, geo-, hetero-, hidro-, hiper-, hipo-, inter-, macro-, maxi-, mega-,    micro-, mini-, mono-, neuro-, multi-, pluri-, poli-, proto-, pseudo-, radio-,    retro-, semi-, sub-, super-, supra-, tele-, ultra-</b>, etc. &Eacute; verdade    que o neologismo cient&iacute;fico formado a partir de um desses formantes muitas    vezes n&atilde;o foi gerado no portugu&ecirc;s, mas em outro idioma (o ingl&ecirc;s,    o franc&ecirc;s) e nossa l&iacute;ngua adotou esse voc&aacute;bulo, adaptando-o    &agrave;s caracter&iacute;sticas morfossint&aacute;ticas do portugu&ecirc;s,    podendo-se considerar que se trata de empr&eacute;stimo. De fato, o vocabul&aacute;rio    t&eacute;cnico-cient&iacute;fico tem car&aacute;ter universal e, para todas    as l&iacute;nguas, o grego e o latim constituem a fonte lexical onde todos v&atilde;o    beber na revitaliza&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de seus l&eacute;xicos.</font></p>     <p><font size="3">Mas tamb&eacute;m o processo de composi&ccedil;&atilde;o tem    enorme vitalidade na gera&ccedil;&atilde;o dos vocabul&aacute;rios cient&iacute;ficos    e t&eacute;cnicos. Exemplos: cardiovascular, amino&aacute;cido, carboidrato,    &aacute;cidos graxos, a&ccedil;&atilde;o oxidante, dist&uacute;rbio neurol&oacute;gico,    enfisema pulmonar, dermatologia, dermatologista, endocrinologia, endocrinologista,    fisioterapia, fisioterapeuta, neurotransmissor, radical livre, s&iacute;ndrome    do p&acirc;nico, s&iacute;ndrome de Down, balan&ccedil;a comercial, balan&ccedil;o    de pagamentos, bens de consumo, capital de giro, cart&atilde;o de cr&eacute;dito,    imposto de renda, imposto predial ou imposto territorial urbano (IPTU), margem    de lucro, pessoa f&iacute;sica, pessoa jur&iacute;dica, pre&ccedil;o de mercado,    risco-Brasil, saldo m&eacute;dio, etc.</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, ao servir-se de seu patrim&ocirc;nio lexical,    muitas vezes o portugu&ecirc;s procede a uma ressemantiza&ccedil;&atilde;o de    unidades j&aacute; comuns na l&iacute;ngua. A reutiliza&ccedil;&atilde;o do    vocabul&aacute;rio j&aacute; existente na l&iacute;ngua, atribuindo-lhe novos    sentidos, &eacute; um recurso usado freq&uuml;entemente nas terminologias. Esse    procedimento evita a cria&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de novas unidades    at&eacute; ent&atilde;o inexistentes, fazendo-se economia de novas formas, o    que expandiria <i>ad infinitum</i> o n&uacute;mero de unidades diferentes do    l&eacute;xico. Assim, com base em tra&ccedil;os sem&acirc;nticos que a significa&ccedil;&atilde;o    nuclear da palavra j&aacute; possui, ampliam-se seus valores de sentido para    incluir novas denota&ccedil;&otilde;es. &Eacute; o que ocorreu recentemente    com o vocabul&aacute;rio da inform&aacute;tica. V&aacute;rios termos foram criados    a partir de outros j&aacute; existentes no portugu&ecirc;s. Contudo, a esses    voc&aacute;bulos foram agregados caracter&iacute;sticas sem&acirc;nticas novas    como por exemplo, ocorreu com <b>arquivo, barra, bot&atilde;o, carregar, comando,    disco, janela, lixeira, mem&oacute;ria, placa, porta, programa, rede, rodar,    salvar, tecla, teclado, v&iacute;rus.</b></font></p>     <p><font size="3"><b>O REGISTRO DO VOCABUL&Aacute;RIO T&Eacute;CNICO-CIENT&Iacute;FICO    EM DICION&Aacute;RIOS GERAIS DA L&Iacute;NGUA</b> Os dicion&aacute;rios constituem    uma organiza&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica do l&eacute;xico, por meio    da qual os lexic&oacute;grafos tentam descrever o vocabul&aacute;rio dessa l&iacute;ngua    acumulado ao longo dos s&eacute;culos. Assim, essas obras recolhem o patrim&ocirc;nio    l&eacute;xico da l&iacute;ngua num dado momento da hist&oacute;ria da comunidade,    visando descrever e documentar esse tesouro lexical que a tradi&ccedil;&atilde;o    foi armazenando. De fato, esse ideal &eacute; intang&iacute;vel, j&aacute; que    o l&eacute;xico cresce em progress&atilde;o geom&eacute;trica e esse processo    nunca cessa enquanto a l&iacute;ngua for viva. At&eacute; mesmo os maiores tesouros    lexicogr&aacute;ficos j&aacute; compilados, como a edi&ccedil;&atilde;o de 1983    do <i>Webster</i> (500 mil verbetes) nem de longe registrou todo o acervo lexical    do ingl&ecirc;s naquela data. </font></p>     <p><font size="3">No caso da l&iacute;ngua portuguesa, nossos dicion&aacute;rios    gerais s&atilde;o mais modestos. Nosso dicion&aacute;rio geral de maior porte    &eacute; a 10ª edi&ccedil;&atilde;o do <i>Dicion&aacute;rio de Morais</i>, reeditado    por J.P.Machado para a Editorial Conflu&ecirc;ncia em 12 volumes (1949-1959),    que inclui uma nomenclatura de 306.949 verbetes. Para que se tenha um par&acirc;metro    comparativo da expans&atilde;o do vocabul&aacute;rio portugu&ecirc;s ao longo    do tempo e da hist&oacute;ria da l&iacute;ngua, vamos comparar essa 10ª edi&ccedil;&atilde;o    com a edi&ccedil;&atilde;o considerada fundadora desse Dicion&aacute;rio de    Antonio Morais e Silva, a 2ª edi&ccedil;&atilde;o de 1813. Nessa edi&ccedil;&atilde;o    de 1813, Morais registrou 40 mil voc&aacute;bulos (verbetes) tendo abarcado    a l&iacute;ngua dos s&eacute;culos XVI, XVII e XVIII. As obras que lhe serviram    de fonte de refer&ecirc;ncia s&atilde;o desses tr&ecirc;s s&eacute;culos. Examinando    o vocabul&aacute;rio t&eacute;cnico-cient&iacute;fico desse dicion&aacute;rio    e comparando-o com o de nossos dias, podemos dar-nos conta da imensa evolu&ccedil;&atilde;o    da terminologia cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="3">Na contemporaneidade s&atilde;o dicion&aacute;rios gerais: o    <i>Novo Aur&eacute;lio- Dicion&aacute;rio da l&iacute;ngua portuguesa- S&eacute;culo    XXI (1999)</i> registrando uns 135 mil verbetes, o <i>Dicion&aacute;rio Hoauiss    da l&iacute;ngua portuguesa(2001)</i>, cerca de 228.500 verbetes e o <i>Dicion&aacute;rio    Michaelis de portugu&ecirc;s</i>, cerca de 200 mil verbetes. Ora, seja qual    for a dimens&atilde;o de um dicion&aacute;rio geral, o fato &eacute; que a imensa    maioria desse acervo &eacute; constitu&iacute;da pela terminologia t&eacute;cnico-cient&iacute;fica.    O vocabul&aacute;rio comumente usado na l&iacute;ngua n&atilde;o ultrapassa    10 mil unidades vocabulares, embora essas palavras sejam usadas com uma alt&iacute;ssima    freq&uuml;&ecirc;ncia, al&eacute;m de serem reutilizadas continuamente com novas    conota&ccedil;&otilde;es, gerando o fen&ocirc;meno da ressemantiza&ccedil;&atilde;o    acima referido, e gerando tamb&eacute;m o fen&ocirc;meno da polissemia pelo    qual os valores sem&acirc;nticos dos voc&aacute;bulos se multiplicam. Inversamente,    o vocabul&aacute;rio t&eacute;cnico-cient&iacute;fico tem freq&uuml;&ecirc;ncia    de uso muito baixa na l&iacute;ngua como um todo, sendo usado apenas no &acirc;mbito    de cada l&iacute;ngua de especialidade pelos profissionais dessa &aacute;rea    como &eacute; o caso dos dois dom&iacute;nios que comentamos acima: o das ci&ecirc;ncias    biom&eacute;dicas e o da economia. Entretanto, em face do fen&ocirc;meno da    democratiza&ccedil;&atilde;o do saber, uma parcela desse vocabul&aacute;rio    ultrapassa as fronteiras do dom&iacute;nio especializado e ingressa na grande    corrente do uso geral. </font></p>     <p><font size="3">Portanto, dado o n&uacute;mero gigantesco de termos t&eacute;cnicos    e cient&iacute;ficos, e considerando-se o escasso emprego de muitos deles, o    dicionarista ter&aacute; uma tarefa complexa na sele&ccedil;&atilde;o das unidades    que integrar&atilde;o a nomenclatura do dicion&aacute;rio geral. Uma vez que    &eacute; imposs&iacute;vel registrar tudo, ou quase tudo, e levando em considera&ccedil;&atilde;o    as limita&ccedil;&otilde;es de uma obra impressa, quais crit&eacute;rios utilizar&aacute;    o lexic&oacute;grafo para selecionar a nomenclatura do dicion&aacute;rio? Na    realidade mesmo os dicion&aacute;rios mais bem elaborados que utilizaram crit&eacute;rios    ling&uuml;&iacute;sticos e l&eacute;xico-estat&iacute;sticos n&atilde;o operaram    de modo rigorosamente cient&iacute;fico. Basta ler o pref&aacute;cio do dicion&aacute;rio    do franc&ecirc;s <i>Petit Robert</i>, escrito pelo grande lexic&oacute;grafo    e especialista nas ci&ecirc;ncias do l&eacute;xico, Alan Rey. Os melhores dicion&aacute;rios    da l&iacute;ngua inglesa, tipo Oxford e Cambridge, tamb&eacute;m n&atilde;o    justificam de modo totalmente satisfat&oacute;rio suas escolhas. Rey explica    que selecionou apenas os termos vulgarizados na l&iacute;ngua comum, o que n&atilde;o    esclarece muito. O acervo do <i>Petit Robert</i> &eacute; de 70 mil entradas.    Ali&aacute;s, n&atilde;o se trata de um dicion&aacute;rio geral como estamos    aqui considerando, mas de um dicion&aacute;rio de porte relativamente grande    para o uso do consulente letrado.</font></p>     <p><font size="3">Em qualquer hip&oacute;tese, como proceder ? Onde recolher esse    vocabul&aacute;rio geral da l&iacute;ngua inclusive um n&uacute;mero suficientemente    grande de termos t&eacute;cnico-cient&iacute;ficos para atender &agrave;s necessidades    de um eventual consulente letrado, mas n&atilde;o especialista ? A resposta    &eacute;: partir de um gigantesco <i>corpus</i> de textos informatizados da    l&iacute;ngua, textos esses que sejam representativos de todos os g&ecirc;neros,    que incluam as duas modalidades da l&iacute;ngua (falada e escrita) e que abranjam    todos as &aacute;reas do conhecimento. Seria fact&iacute;vel? Relativamente    ao n&uacute;mero de &aacute;reas t&eacute;cnico-cient&iacute;ficas, n&atilde;o    se sabe exatamente que n&uacute;mero seria esse; talvez totalize uns 250, 300    ou mais dom&iacute;nios. Numa tentativa que estava sendo levada a efeito pela    Editora Longman de Londres no in&iacute;cio dos anos noventa, a partir do <i>corpus</i>    do <i>Webster</i>, a equipe de especialistas elencou 200 &aacute;reas do conhecimento    para trabalhar com elas, formulando a hip&oacute;tese de que cobririam quase    a totalidade das &aacute;reas do conhecimento. A evolu&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia    de l&aacute; para c&aacute; ampliou o n&uacute;mero de dom&iacute;nios cient&iacute;ficos,    criando muitas especialidades novas. Parece-me imposs&iacute;vel responder a    essa quest&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, infelizmente, a confec&ccedil;&atilde;o de dicion&aacute;rios    gerais da l&iacute;ngua &eacute; planejada e executada por editoras comerciais    que n&atilde;o est&atilde;o dispostas a investir milh&otilde;es em pesquisa    para investigar a complexidade do l&eacute;xico geral de uma l&iacute;ngua e    produzir um dicion&aacute;rio segundo crit&eacute;rios que poder&iacute;amos    chamar de cient&iacute;ficos. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Atualmente existem dois <i>corpora</i> de grandes dimens&otilde;es    do portugu&ecirc;s que foram criados com objetivos lexicogr&aacute;ficos – um    brasileiro e um europeu. O europeu <i>Corpus de Refer&ecirc;ncia do Portugu&ecirc;s    Contempor&acirc;neo</i>, (CRPC), da Universidade de Lisboa tem cerca de 201,5    milh&otilde;es de ocorr&ecirc;ncias. O brasileiro da FCL da Unesp, campus de    Araraquara com 200 milh&otilde;es de ocorr&ecirc;ncias de palavras. A partir    do <i>corpus</i> do CRPC foi elaborado o <i>Dicion&aacute;rio da l&iacute;ngua    portuguesa contempor&acirc;nea</i> (2001) da <i>Academia de Ci&ecirc;ncias de    Lisboa</i>, contendo 70.000 verbetes. A partir do corpus de Araraquara foi elaborado    o <i>Dicion&aacute;rio de usos</i> com 60 mil verbetes (&Aacute;tica, 2002).    Portanto, nenhum desses dois dicion&aacute;rios tem dimens&otilde;es de um dicion&aacute;rio    geral, embora ambos tenham a virtude de se terem baseado em um <i>corpus</i>    de textos efetivamente produzidos, logo com usos reais da l&iacute;ngua.</font></p>     <p><font size="3">Um <i>corpus</i> de refer&ecirc;ncia de grandes dimens&otilde;es    (digamos uns 200 milh&otilde;es de ocorr&ecirc;ncias) com as caracter&iacute;sticas    acima referidas, pode embasar o projeto de produ&ccedil;&atilde;o de um dicion&aacute;rio    geral da l&iacute;ngua. De fato, algumas l&iacute;nguas como o franc&ecirc;s    e o ingl&ecirc;s j&aacute; possuem corpora com o dobro dessas dimens&otilde;es,    ou seja, 400 milh&otilde;es de palavras. No caso do franc&ecirc;s, a partir    desse <i>corpus</i>, produziu-se um dicion&aacute;rio monumental <i>Dictionnaire    de la langue fran&ccedil;aise des XIX&egrave;me. e XX&egrave;me. si&egrave;cles</i>    (1969-1994) em 16 volumes, embora contendo apenas 80 mil verbetes.</font></p>     <p><font size="3">Um <i>corpus</i> ideal de uns 200 milh&otilde;es de palavras,    desenhado com a arquitetura acima referida, teria condi&ccedil;&otilde;es de    embasar um dicion&aacute;rio geral do portugu&ecirc;s. Dele seria extra&iacute;da    a <b>nomenclatura</b> (lista das palavras-entrada) usando-se crit&eacute;rios    lexico-estat&iacute;sticos e evitando-se solu&ccedil;&otilde;es aleat&oacute;rias.    Programas adequados extrairiam do <i>corpus</i> as concord&acirc;ncias de texto    dos lemas dessa nomenclatura. As concord&acirc;ncias de texto permitiriam identificar    os significados (conceitos) e os usos dos voc&aacute;bulos selecionados para    a nomenclatura do dicion&aacute;rio, que &eacute; a espinha dorsal do dicion&aacute;rio.    E haveria ainda todas as outras enormes complexidades postas pelas redes de    significa&ccedil;&atilde;o em que se encadeiam os significados e conceitos no    interior do l&eacute;xico. Aqui dificilmente o computador poderia ajudar o lexic&oacute;grafo.    Nessa etapa da elabora&ccedil;&atilde;o do dicion&aacute;rio faz-se mister o    engenho do dicionarista e um profundo conhecimento do idioma.</font></p>     <p><font size="3">Infelizmente, creio que o Brasil ainda n&atilde;o possui esse    tipo de obra, mas j&aacute; tem condi&ccedil;&otilde;es de produzir tal dicion&aacute;rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Maria Tereza Camargo</b> Biderman &eacute; ling&uuml;ista    e lexic&oacute;grafa, professora da Unesp &eacute; autora de dicion&aacute;rios:Dicion&aacute;rio    ilustrado de portugu&ecirc;s, &Aacute;tica, 2005, Dicion&aacute;rio did&aacute;tico    de portugu&ecirc;s, &Aacute;tica, 1998 e Dicion&aacute;rio do estudante, Globo,    2005. </i></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>BIBLIOGRAFIA CONSULTADO</b></FONT></p>     <!-- ref --><p><font size="3">Biderman, M.T.C. <i>Teoria ling&uuml;&iacute;stica</i>. S&atilde;o    Paulo, Editora Martins Fontes, 2001.</font><!-- ref --><p><font size="3">Biderman, M.T.C. "Dimens&otilde;es da palavra".<i>In    Filologia e l&iacute;ngua portuguesa</i>, S.Paulo, Humanitas Publica&ccedil;&otilde;es/FFLCH/USP,    nº 2, 1998, 81-118.</font><!-- ref --><p><font size="3">Cuenca, M. J. &amp; Hilferty, J. <i>Introducci&oacute;n a la    ling&uuml;&iacute;stica cognitiva</i>. Barcelona, Editorial Ariel, S.A. ,1999.</font><!-- ref --><p><font size="3">Lenneberg, E.H. <i>Fundamentos biol&oacute;gicos del lenguaje</i>.    Madrid, Alianza Universidad, 1975.</font><!-- ref --><p><font size="3">Robert, P. <i>Le Petit Robert</i>. Paris, Les dictionnaires-Robert,    1990.</font> ]]></body><back>
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