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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/mundo.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">AQUECIMENTO GLOBAL    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v58n3/linha_bk.gif"> </font></p>     <p><font size="4"><b>Vento de furac&atilde;o esquenta debate sobre mudan&ccedil;a    clim&aacute;tica </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas globais n&atilde;o    s&oacute; est&atilde;o aquecendo a Terra. Pol&iacute;tica e debate cient&iacute;fico    tamb&eacute;m est&atilde;o inflamados pelo efeito estufa. E, nos &uacute;ltimos    meses, ventos de furac&atilde;o tamb&eacute;m se abateram na comunidade dos    climatologistas. </font></p>     <p><font size="3">Que ciclones e furac&otilde;es possam ter alt&iacute;ssimo poder    de destrui&ccedil;&atilde;o, nunca foi mist&eacute;rio. Uma ligeira lista do    que aconteceu nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas fala por si. Em 1970, um ciclone    no delta do rio Gange causou uma das maiores trag&eacute;dias registradas na    hist&oacute;ria: cerca de 300 mil v&iacute;timas em Bangladesh. Em 1974, o furac&atilde;o    Fifi matou 8 mil pessoas no Honduras. No ano seguinte, na China, tempestades    mataram 85 mil. Em 1991, as inunda&ccedil;&otilde;es causadas por um ciclone    em Bangladesh deixaram mais de 130 mil mortos, enquanto um ano depois, nos EUA,    o furac&atilde;o Andrew, causava 58 v&iacute;timas e dezenas de bilh&otilde;es    de d&oacute;lares de danos. Em 1998, o furac&atilde;o Mitch se abateu sobre    Honduras, Nicar&aacute;gua, Guatemala e Salvador, causando entre 10 e 20 mil    v&iacute;timas e 2 milh&otilde;es de pessoas sem teto. Em 2004, Catarina, ciclone    com caracter&iacute;sticas de furac&atilde;o, nasceu onde nunca se imaginava:    foi o primeiro observado no sul do Oceano Atl&acirc;ntico, atingindo o litoral    do estado de Santa Catarina. Em agosto do ano passado, o furac&atilde;o Katrina    causou 1,6 mil v&iacute;timas e danos de US$ 75 bilh&otilde;es em Nova Orleans,    nos Estados Unidos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a09img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Ser&aacute; que furac&otilde;es de alto poder de destrui&ccedil;&atilde;o    se tornaram fen&ocirc;menos menos raros? De acordo com recentes pesquisas, tudo    parece indicar que sim. O culpado &eacute; o aquecimento global? A resposta    &eacute;: talvez. O debate sobre o tema esquentou recentemente bem mais que    a temperatura do planeta. "&Eacute; altamente improv&aacute;vel que o aquecimento    global contribuiu ou contribuir&aacute; para uma mudan&ccedil;a dr&aacute;stica    em n&uacute;mero ou intensidade dos furac&otilde;es", afirma o site oficial    da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), uma das maiores institui&ccedil;&otilde;es    de meteorologia dos EUA. O que foi contestado em julho do ano passado por Kerry    Emanuel, pesquisador do Massachusetts Institute of Technology, em carta &agrave;    revista <i>Nature</i>: "meus estudos sugerem que um aquecimento futuro    pode levar a uma tend&ecirc;ncia crescente no potencial destrutivo dos ciclones    tropicais". Pouco depois, pesquisadores liderados por Peter Webster, professor    do Georgia Institute of Technology, publicavam artigo na revista <i>Science</i>    que, ap&oacute;s analisar intensidade e n&uacute;mero de ciclones dos &uacute;ltimos    35 anos, conclu&iacute;a: "foi observado um grande aumento em n&uacute;mero    e propor&ccedil;&atilde;o de furac&otilde;es chegando &agrave; categoria 4 e    5" (os graus mais altos na escala de Saffir-Simpson). </font></p>     <p><font size="3">Esse debate acarreta potenciais conseq&uuml;&ecirc;ncias pol&iacute;ticas    e midi&aacute;ticas. Quando o Katrina destruiu New Orleans, muitos indagaram    se n&atilde;o seria um sinal do aquecimento global. O jornalista Ross Gelbspan,    logo ap&oacute;s o desastre, escreveu no <i>Boston Globe</i>: "deram ao    furac&atilde;o de ontem o apelido de Katrina… Seu verdadeiro nome &eacute; aquecimento    global". E acrescentou, polemicamente: "infelizmente, pouqu&iacute;ssimas    pessoas na Am&eacute;rica conhecem o verdadeiro nome do furac&atilde;o, porque    as ind&uacute;strias de carv&atilde;o e petr&oacute;leo gastaram milh&otilde;es    de d&oacute;lares para manter a opini&atilde;o p&uacute;blica em d&uacute;vida    sobre o assunto". Em abril passado, outro artigo foi publicado pelo grupo    do Webster e de Judith Curry na <i>Science</i>, afirmando que a tend&ecirc;ncia    ao aumento de furac&otilde;es intensos "&eacute; diretamente ligada ao    andamento da temperatura da superf&iacute;cie do mar".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a09img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>DEBATE RET&Oacute;RICO</b> "Na    verdade, este debate &eacute;, em certa medida, ret&oacute;rico", comenta    Carlos Afonso Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais    (Inpe), "porque a correla&ccedil;&atilde;o entre furac&otilde;es e temperatura    da superf&iacute;cie dos oceanos j&aacute; est&aacute; provada. A d&uacute;vida,    apenas, &eacute; se j&aacute; estamos assistindo aos efeitos do aquecimento    global sobre os furac&otilde;es, ou se isso acontecer&aacute; somente nos pr&oacute;ximos    anos". Nesse &uacute;ltimo trabalho – em que Webster e seus colegas analisaram    furac&otilde;es entre 1970 e 2004 –, descobriu-se que o n&uacute;mero total    de furac&otilde;es n&atilde;o mudou sensivelmente. O que aumentou &eacute; a    propor&ccedil;&atilde;o dos furac&otilde;es mais fortes. </font></p>     <p><font size="3">Os recentes furac&otilde;es podem j&aacute; ser atribu&iacute;dos    ao aquecimento global? Webster e colegas dizem que sim, o instituto de meteorologia    americano diz que n&atilde;o, porque este tipo de fen&ocirc;meno tem uma ciclicidade    de 20-25 anos. A quest&atilde;o, talvez, n&atilde;o seja tanto sobre o que acontecer&aacute;,    mas sobre o que fazer. </font></p>     <p><font size="3"><b>COTAS DE CA RBONO</b> Em 1990, a pedido das Na&ccedil;&otilde;es    Unidas, 2 mil especialistas indicaram num documento conjunto, que era preciso    cortar as emiss&otilde;es de di&oacute;xido de carbono de 50 a 70%. Significava    dizer adeus a carv&atilde;o e petr&oacute;leo, um neg&oacute;cio de US$ 3 trilh&otilde;es    anuais. Seguiram complexas negocia&ccedil;&otilde;es. Em 1992, na confer&ecirc;ncia    do Rio de Janeiro, aprovava-se o chamado princ&iacute;pio de precau&ccedil;&atilde;o:    "quando houver amea&ccedil;a de danos s&eacute;rios ou irrevers&iacute;veis,    a aus&ecirc;ncia de absoluta certeza cient&iacute;fica n&atilde;o deve ser utilizada    como raz&atilde;o para postergar medidas eficazes e economicamente vi&aacute;veis    para prevenir a degrada&ccedil;&atilde;o ambiental". Mais de 170 pa&iacute;ses    assinaram. George Bush, ent&atilde;o presidente dos EUA e pai do atual, se recusou:    "o estilo de vida americano n&atilde;o &eacute; negoci&aacute;vel",    declarou.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Cinco anos depois, a maioria dos governos do    planeta estabeleceu em Kyoto o que era "economicamente vi&aacute;vel":    o m&aacute;ximo era tentar diminuir as emiss&otilde;es at&eacute; 2012, mas    em 5,2% do n&iacute;vel acordado em 1990: como apagar um inc&ecirc;ndio com    conta-gotas. "Mesmo assim, Kyoto representa um importante avan&ccedil;o.    N&atilde;o s&oacute; do ponto de vista simb&oacute;lico, mas tamb&eacute;m pr&aacute;tico,    porque incentiva pesquisas tecnol&oacute;gicas em busca de alternativas energ&eacute;ticas    e de uso sustent&aacute;vel dos recursos", diz Nobre. </font></p>     <p><font size="3">O Protocolo de Kyoto entrou em vigor em fevereiro de 2005. Os    Estados Unidos n&atilde;o assinaram, novamente, sob a mesma alega&ccedil;&atilde;o:    "n&atilde;o colocar em risco o estilo de vida americano". Embora muitos    estados daquele pa&iacute;s venham tentando p&ocirc;r em pr&aacute;tica a diminui&ccedil;&atilde;o    das emiss&otilde;es, a evid&ecirc;ncia, por&eacute;m, &eacute; que a temperatura    do planeta e os furac&otilde;es, assim como o n&iacute;vel de vida, n&atilde;o    parecem ser negoci&aacute;veis.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><b><i>Yurij Castelfranchi</i></b></font></p>      ]]></body>
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