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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a12img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>A CULTURA, AS CIDADES E OS RIOS NA AMAZ&Ocirc;NIA</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Jos&eacute; Aldemir de Oliveira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b><font size=5>&Eacute;</font></b> poss&iacute;vel compreender    a Amaz&ocirc;nia a partir de suas cidades, ou mais especificamente, das pequenas    cidades localizadas &agrave;s margens de seus rios? &Eacute; disso que este    artigo trata, de cidades das quais pouco e poucos tratam. &Eacute; preciso falar    delas para compreender a Amaz&ocirc;nia, n&atilde;o porque s&atilde;o importantes    do ponto de vista econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico, mas porque s&atilde;o lugares    em que pulsam modos de vida que diferem significativamente do padr&atilde;o    caracterizado como urbano e predominante em outras regi&otilde;es do Brasil.    </font></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>A PRIMEIRA VIS&Atilde;O</b> A vida nas e das cidades amaz&ocirc;nicas    est&aacute; ligada ao rio e &agrave; floresta. Transpondo-os, surgem os aglomerados    de casas simples que, vistas uma vez, nunca mais ser&atilde;o esquecidas. N&atilde;o    porque deixem, como outras cidades memor&aacute;veis, uma imagem extraordin&aacute;ria    nas recorda&ccedil;&otilde;es, mas porque t&ecirc;m a propriedade de permanecer    na mem&oacute;ria rua por rua, casa por casa, apesar de n&atilde;o possu&iacute;rem    particular beleza. &Eacute; mais ou menos assim que Italo Calvino(1) descreve    uma cidade imagin&aacute;ria no livro <i>Cidades invis&iacute;veis</i>, e &eacute;    assim que temos o primeiro contato com a maioria das cidades da Amaz&ocirc;nia    localizadas &agrave; beira dos rios. </font></p>     <p><FONT SIZE="3">Dessas cidades, temos a primeira vis&atilde;o de longe quando    o barco em que navegamos se aproxima. Se for dia vemos a torre da telef&ocirc;nica,    antes v&iacute;amos a torre da igreja. &Agrave; noite &eacute; o clar&atilde;o    da cidade que se achega vagarosamente, sem pressa. A viagem &eacute; longa,    mas a chegada &agrave; cidade, desde que temos a primeira vis&atilde;o, parece    intermin&aacute;vel, dando-nos tempo para os aconteceres e para a concretiza&ccedil;&atilde;o    do SER. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Finalmente, chega-se ao porto, em que tudo &eacute; transit&oacute;rio.    A improvisa&ccedil;&atilde;o do local onde param os barcos d&aacute; a quem    chega a impress&atilde;o de que, nas pequenas cidades da Amaz&ocirc;nia, nada    &eacute; perene, tudo &eacute; tempor&aacute;rio, inacabado e precocemente deteriorado.    O porto &eacute; por onde se chega e se vai; ele cont&eacute;m a possibilidade    do entendimento da cidade, pois a vida come&ccedil;a no porto, menos pelo movimento,    mais pelo fato de ele encerrar quase tudo que a cidade possui e que nela falta.    O porto &eacute; o interm&eacute;dio entre o rio, a floresta e a cidade, lugar    privilegiado dos enigmas amaz&ocirc;nicos, transfigurados em enigmas do mundo,    a nos interrogar sobre o nosso passado, presente e futuro. O rio, a floresta    e a cidade t&ecirc;m no porto a fronteira entre a realidade e a fic&ccedil;&atilde;o,    possibilitando-nos leituras m&uacute;ltiplas de espa&ccedil;os-tempos diversos.    </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">&Eacute; quase sempre assim que se chega &agrave; maioria das    cidades ribeirinhas e delas se tem a primeira impress&atilde;o, que nem sempre    fica, pois a concretude de um arruamento ca&oacute;tico, de equipamentos urbanos    inexistentes ou inadequados, d&aacute; outra impress&atilde;o dessas pequenas    cidades mergulhadas na in&eacute;rcia. Todavia, essa in&eacute;rcia pode ser    apenas aparente, pois quase sempre se usam concep&ccedil;&otilde;es anteriormente    formuladas para realidades de um urbano em movimento, enquanto que na Amaz&ocirc;nia    isso pode n&atilde;o ser encontrado &agrave; primeira vista, e talvez nem na    &uacute;ltima. </FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">A interpreta&ccedil;&atilde;o que se pode dar &agrave;s pequenas    cidades perdidas na imensid&atilde;o dos rios e da floresta muitas vezes &eacute;    fugidia, pois busca par&acirc;metros l&oacute;gicos que nem sempre s&atilde;o    capazes de explic&aacute;-las. Todavia, apesar de todas as limita&ccedil;&otilde;es    que se tenha, o importante &eacute; perceber, desde a chegada, que nessas pequenas    cidades est&atilde;o as ra&iacute;zes caboclas fincadas no ch&atilde;o, preciosos    arquivos culturais do mundo amaz&ocirc;nico, que s&atilde;o as dimens&otilde;es    simb&oacute;licas de uma cultura que teima em permanecer. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>O QUE S&Atilde;O AS PEQUENAS CIDADES?</b> Quais os par&acirc;metros    para se definir uma pequena cidade? N&atilde;o h&aacute; uma defini&ccedil;&atilde;o    absoluta. Como assinala Oswaldo Amorim Filho (2) ao analisar cidades m&eacute;dias,    o primeiro crit&eacute;rio ainda &eacute; o demogr&aacute;fico, por&eacute;m    este crit&eacute;rio &eacute; capaz apenas de identificar o grupo ou a faixa    ao qual a cidade pertence. Portanto, outros crit&eacute;rios devem ser arrolados,    especialmente para uma regi&atilde;o como a Amaz&ocirc;nia. Num esfor&ccedil;o    de defini&ccedil;&atilde;o, aponta-se:</font></p>     <p><FONT SIZE="3">• a baixa articula&ccedil;&atilde;o com as cidades do entorno;    <br>   • as atividades econ&ocirc;micas quase nulas, com o predom&iacute;nio de trabalho    ligado aos servi&ccedil;os p&uacute;blicos;    <br>   • a pouca capacidade de oferecimento de servi&ccedil;os, mesmo os b&aacute;sicos,    ligados &agrave; sa&uacute;de, &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e &agrave; seguran&ccedil;a;    <br>   • a predomin&acirc;ncia de atividades caracterizadas como rurais.</font></p>     <p><FONT SIZE="3">As pequenas cidades s&atilde;o, portanto, cidades locais (3),    com atua&ccedil;&atilde;o restrita, cuja articula&ccedil;&atilde;o imediata    se d&aacute; com um centro subordinado a outro de n&iacute;vel hier&aacute;rquico    superior. Por outro lado, o processo de surgimento das pequenas cidades na Amaz&ocirc;nia    n&atilde;o prescinde de suas especificidades, e &eacute; neste sentido que ganha    relev&acirc;ncia a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento sobre elas, visto    que, do ponto de vista demogr&aacute;fico, no per&iacute;odo intercensit&aacute;rio    (1991-2000), a regi&atilde;o Norte apresentou a maior taxa de crescimento relativo    da popula&ccedil;&atilde;o urbana no Brasil, 18,26%, com m&eacute;dia de urbaniza&ccedil;&atilde;o    de 69,87%. Observa-se que h&aacute; o aumento do n&uacute;mero de cidades e    a diminui&ccedil;&atilde;o do tamanho das mesmas, pois, em 1991, o tamanho m&eacute;dio    das cidades era de 5,2 mil habitantes e, em 2000, de 2,07 mil. Tomando como    exemplo o estado do Amazonas, no censo de 2000, das 62 cidades, 10 t&ecirc;m    menos de 5 mil habitantes e 21, entre 5 a 10 mil habitantes.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Quase sempre, s&atilde;o pequenos n&uacute;cleos que se emancipam    com fraca ou nenhuma infra-estrutura, tendo como base econ&ocirc;mica o repasse    de recursos p&uacute;blicos e, embora apresentem a estrutura de cidade, carecem    de atividades econ&ocirc;micas caracterizadas como urbanas, o que faz com que    a popula&ccedil;&atilde;o urbana se dedique a atividades rurais tradicionais,    como pesca e extrativismo. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Esses n&uacute;cleos urbanos diferem dos criados &agrave;s margens    das estradas, os quais se constituem nas novas espacialidades urbanas da Amaz&ocirc;nia    a partir dos anos 1970, em decorr&ecirc;ncia da constru&ccedil;&atilde;o de    novos eixos de circula&ccedil;&atilde;o que s&atilde;o os vetores de expans&atilde;o    da fronteira para a implanta&ccedil;&atilde;o dos projetos de coloniza&ccedil;&atilde;o    e da instala&ccedil;&atilde;o de grandes projetos p&uacute;blicos e privados.    </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Ao mesmo tempo em que ocorre a integra&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio,    possibilitando a circula&ccedil;&atilde;o de pessoas e objetos, h&aacute; a    desarticula&ccedil;&atilde;o de fluxos pret&eacute;ritos e o surgimento de outros.    Como essa desarticula&ccedil;&atilde;o de fluxos n&atilde;o &eacute; circunscrita    a si mesma, n&atilde;o apenas os eixos desaparecem, mas se desarticulam atividades    e, da&iacute;, modos de vida a elas ligados (o regat&atilde;o, por exemplo).    Geralmente, os padr&otilde;es de circula&ccedil;&atilde;o impostos pela moderniza&ccedil;&atilde;o    determinam o desaparecimento de algumas atividades e o surgimento de outras;    da&iacute; os impactos decorrentes. </FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">No caso espec&iacute;fico das pequenas cidades localizadas &agrave;s    margens dos rios, observa-se que elas perderam sua incipiente din&acirc;mica    econ&ocirc;mica em decorr&ecirc;ncia da crise do extrativismo, mas mantiveram    certa import&acirc;ncia local como suporte de servi&ccedil;os &agrave; popula&ccedil;&atilde;o,    visto que, embora as condi&ccedil;&otilde;es gerais de infra-estrutura de servi&ccedil;os    na Amaz&ocirc;nia sejam prec&aacute;rias, a pouca existente ainda est&aacute;    concentrada nas cidades. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>AS PEQUENAS CIDADES DO NOSSO &Aacute;GORA</b> H&aacute; outro    lado que tamb&eacute;m deve ser considerado para compreender as cidades amaz&ocirc;nicas.    Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, a vida nas cidades da    Amaz&ocirc;nia mudou de modo significativo. Mesmo nas pequenas cidades, em pouco    mais de uma gera&ccedil;&atilde;o, as informa&ccedil;&otilde;es tornaram-se    mais &aacute;geis, pois os lugares foram atingidos por tecnologias que possibilitaram    maior circula&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias e o acesso &agrave; moderniza&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <p><FONT SIZE="3">Isso contribuiu concreta e subjetivamente para o surgimento    de novo processo urbano, o qual j&aacute; se apresenta complexo. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia,    h&aacute; mudan&ccedil;as de propor&ccedil;&otilde;es espantosas tanto positivas    como negativas. De um lado, as cidades passam a ser associada &agrave;s id&eacute;ias    do novo, do moderno; de outro, passam a ser associadas &agrave; baixa qualidade    de vida, epidemias, in&eacute;rcia e lugar da destrui&ccedil;&atilde;o e da    viol&ecirc;ncia, as quais sempre ganham adjetiva&ccedil;&atilde;o que as associa    ao espa&ccedil;o urbano.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">A quest&atilde;o que se vislumbra &eacute; como compreender    as estrat&eacute;gias das popula&ccedil;&otilde;es e do poder local para a supera&ccedil;&atilde;o    das dificuldades de acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de e telecomunica&ccedil;&otilde;es;    e como essa articula&ccedil;&atilde;o se insere numa rede de organiza&ccedil;&otilde;es    do movimento social local (sindicatos, cooperativas, na&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas)    e desta com o movimento ambientalista (ONG’s), inserindo a Amaz&ocirc;nia como    pauta de discuss&atilde;o internacional, relacionada &agrave; quest&atilde;o    ambiental. Neste sentido, as pequenas cidades da beira do rio parecem ter sua    dinamicidade ligada &agrave; dimens&atilde;o da sustentabilidade e da biotecnologia,    comandadas quase sempre por ONG’s que est&atilde;o articuladas ao mundo, sem    se articular com os lugares. Criam-se espa&ccedil;os artificiais, desprovidos    de mem&oacute;ria, que desprezam a hist&oacute;ria e a cultura espec&iacute;ficas,    levando &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de objetos iguais, independentemente    dos lugares onde est&atilde;o localizados.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>DA PAISAGEM NATURAL AO ESPA&Ccedil;O DA CULTURA</b> Na Amaz&ocirc;nia    as espacialidades urbanas, especialmente das cidades localizadas &agrave; margens    dos rios, foram impostas, o que n&atilde;o significa reconhecer, de um lado,    que estas formas n&atilde;o s&atilde;o homog&ecirc;neas; de outro, que guardam    res&iacute;duos de rela&ccedil;&otilde;es pret&eacute;ritas como sinais de resist&ecirc;ncia.    Na verdade, essas espacialidades revelam as diferentes estrat&eacute;gias dos    diversos agentes produtores do espa&ccedil;o urbano que buscam, a partir das    condi&ccedil;&otilde;es concretas, defender seus interesses, o que leva a compreender    a paisagem como o resultado das determina&ccedil;&otilde;es das pol&iacute;ticas    do Estado, das rela&ccedil;&otilde;es sociais de produ&ccedil;&atilde;o e, mais    que isso, como deposit&aacute;ria de vida, sentimentos e emo&ccedil;&otilde;es    traduzidas no cotidiano das pessoas. Tais rela&ccedil;&otilde;es concretizam-se    em espacialidades real ou imagin&aacute;ria, quer as cidades estejam na beira    do rio, na v&aacute;rzea, quer na terra firme. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3">A an&aacute;lise das pequenas cidades amaz&ocirc;nicas deve    levar em considera&ccedil;&atilde;o a floresta e a &aacute;gua como ponto de    partida e n&atilde;o de chegada. Nas pequenas cidades amaz&ocirc;nicas, localizadas    no meio da floresta e &agrave;s margens dos rios, o habitante deste espa&ccedil;o    pode ser levado inconscientemente a estabelecer a dimens&atilde;o de espacialidade    a partir do encantamento da realidade f&iacute;sica. Entretanto, a generosidade    da paisagem natural esvai-se e o que fica &eacute; o constru&iacute;do artificialmente.    &Eacute; claro que o conjunto formado pelos sistemas naturais existentes numa    regi&atilde;o como a Amaz&ocirc;nia ainda &eacute; muito importante e n&atilde;o    pode nem deve ser desconsiderado, por&eacute;m h&aacute; que se concentrar as    an&aacute;lises no que a elas acrescem os homens. Do ponto de vista geogr&aacute;fico,    h&aacute; uma exist&ecirc;ncia natural, todavia, a exist&ecirc;ncia real somente    lhe &eacute; dada por causa das rela&ccedil;&otilde;es sociais (4).</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>AS PEQUENAS CIDADES: ESPACIALIDADES E CONTRADI&Ccedil;&Otilde;ES</b>    Est&aacute; em curso um processo visando tornar essas pequenas cidades da Amaz&ocirc;nia    cada vez mais iguais, com a tend&ecirc;ncia de que as suas formas escapem &agrave;    hist&oacute;ria e &agrave; cultura do lugar, tornando os homens e as mulheres    ref&eacute;ns da l&oacute;gica de um mundo distante, das possibilidades ilimitadas    como se fosse poss&iacute;vel reinventar formas iguais em qualquer lugar. Busca-se    projetar formas espaciais para unificar o ambiente simb&oacute;lico, visando    atender aos interesses de determinados segmentos da sociedade, conseq&uuml;entemente    substituindo a especificidade hist&oacute;rica de cada lugar (5). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">Essas novas temporalidades e espacialidades s&atilde;o alheias    ao lugar, visto que o poder, a produ&ccedil;&atilde;o e a riqueza s&atilde;o    projetados para o mundo enquanto a experi&ecirc;ncia, a viv&ecirc;ncia, a cultura    e a hist&oacute;ria s&atilde;o enraizadas nos lugares. Em decorr&ecirc;ncia    disso, pode-se ter acesso &agrave;s mais avan&ccedil;adas tecnologias, que s&atilde;o    vendidas como sinais de progresso e de crescimento, mas a maioria n&atilde;o    tem sequer as necessidades b&aacute;sicas atendidas. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">As pequenas cidades amaz&ocirc;nicas apresentam essa contradi&ccedil;&atilde;o:    s&atilde;o articuladas a rela&ccedil;&otilde;es pret&eacute;ritas caracterizadas    pela in&eacute;rcia e, ao mesmo tempo, articuladas a dinamicidades contempor&acirc;neas    que as ligam ao mundo, especialmente a partir da biodiversidade e da sociodiversidade.    Essa contradi&ccedil;&atilde;o, que de resto n&atilde;o &eacute; exclusiva da    Amaz&ocirc;nia, possibilita as simultaneidades nas inova&ccedil;&otilde;es e    sinais da moderniza&ccedil;&atilde;o na paisagem (especialmente ligados &agrave;    comunica&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m aos equipamentos). </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Todavia, h&aacute; resist&ecirc;ncias, e, como conseq&uuml;&ecirc;ncia,    essas pequenas cidades representam, neste in&iacute;cio de s&eacute;culo XXI,    uma das mais raras perman&ecirc;ncias, refletindo e iluminando miticamente a    cultura. Cultura que, como assinala o poeta Jo&atilde;o Paes Loureiro, continuar&aacute;    a ser uma luz brilhando, e que persistir&aacute; mesmo com as chamas das queimadas    nas florestas, com a extra&ccedil;&atilde;o dos recursos naturais, com a polui&ccedil;&atilde;o    dos rios e com a mudan&ccedil;a das rela&ccedil;&otilde;es dos homens entre    si. Nas pequenas cidades amaz&ocirc;nicas ainda h&aacute; um tempo para a viv&ecirc;ncia    de uma forma ilimitada, "com seres sobrenaturais, porque somente a imagina&ccedil;&atilde;o    consegue ultrapassar os horizontes. Foi a boi&uacute;na que, ao agitar-se, fez    o barranco ruir; o curupira fez o ca&ccedil;ador perder-se na mata; a iara fez    afogar-se de sedu&ccedil;&atilde;o aquele que, aparentemente, n&atilde;o tinha    raz&otilde;es para morrer no rio; a tristeza n&atilde;o veio da alma, mas do    canto da acau&atilde;"(6).</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">H&aacute; nesses aglomerados a in&eacute;rcia caracterizada    pelos tempos lentos e, concomitante, a dinamicidade dos tempos r&aacute;pidos    (7), que caracteriza a inser&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia no mundo. A    an&aacute;lise desses dois aspectos (a in&eacute;rcia e a dinamicidade), ao    mesmo tempo antag&ocirc;nicos e complementares, necessita de pesquisas de campo    acuradas, porque elas podem clarear o papel das cidades ribeirinhas e, especialmente,    se esse novo momento da Amaz&ocirc;nia representa um processo caracterizado    pela dinamicidade ou se, ao contr&aacute;rio, significa a perman&ecirc;ncia    na in&eacute;rcia. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Outra quest&atilde;o a ser considerada &eacute; que as estruturas    e as dimens&otilde;es socioespaciais na Amaz&ocirc;nia hoje s&atilde;o compartilhadas    de modo diferente ao que era at&eacute; ent&atilde;o. Novos sujeitos, ind&iacute;genas,    movimentos sociais, empresas, ONG’s e m&iacute;dia produzem espacialidades diversas    e articulam as estruturas preexistentes quase sempre locais &agrave;s dimens&otilde;es    globais. No curso dessa articula&ccedil;&atilde;o, o poder se dilui entre os    v&aacute;rios sujeitos, grupos de indiv&iacute;duos, minorias &eacute;tnicas,    pacifistas, institui&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o se articulam apenas ao    Estado nacional e, em alguns casos, j&aacute; atingiram um grau de rela&ccedil;&otilde;es    supranacionais. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Aqui as pequenas cidades amaz&ocirc;nicas imersas numa in&eacute;rcia    de tempos lentos ganham papel relevante, visto que comportam elementos da natureza    ainda n&atilde;o conhecidos e, como esse processo ainda necessita de uma base    log&iacute;stica, estas cidades podem representar essa base, visto que est&atilde;o    ligadas ao mundo, por exemplo, pelas telecomunica&ccedil;&otilde;es. Compreender    esse processo em curso, e verificar se ele se conclui, significa a busca de    desvendar a Amaz&ocirc;nia. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>AS PEQUENAS CIDADES COMO ESPA&Ccedil;O DA ESPERAN&Ccedil;A</b>    As pequenas cidades amaz&ocirc;nicas n&atilde;o s&atilde;o apenas produtos do    nosso tempo, mas de tempos pret&eacute;ritos cristalizados na paisagem. Por    seu turno, a paisagem urbana n&atilde;o se resume ao conjunto de objetos, pois    cont&eacute;m modos de vida os quais, como os primeiros, s&atilde;o resultantes    das rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o continuamente produzidas,    reproduzidas, criadas e recriadas, contendo as dimens&otilde;es da sociedade    de cada tempo. Essa paisagem urbana tamb&eacute;m comporta as coisas da natureza.    As cidades de hoje s&atilde;o lugares bem diversos das cidades pret&eacute;ritas,    n&atilde;o s&oacute; porque o conjunto arquitet&ocirc;nico e a infra-estrutura    foram profundamente modificados. Foram mudados tamb&eacute;m a terra, a floresta    e os rios, mas, sobretudo, e de modo consider&aacute;vel, a cultura, quer pela    dinamicidade, quer pela estagna&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><FONT SIZE="3">Para compreender esse processo &eacute; preciso considerar a    paisagem para al&eacute;m do aparente. Para tanto, &eacute; preciso atravessar    o rio, pois, do outro lado, h&aacute; sempre a esperan&ccedil;a. A complexidade    contempor&acirc;nea n&atilde;o permite compreender as novas cidades apenas relacionando-as    &agrave; crise, emersa nos diagn&oacute;sticos das car&ecirc;ncias, mas tamb&eacute;m    como virtualidades, como possibilidades.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Por isso, &eacute; necess&aacute;ria a supera&ccedil;&atilde;o    de formas simplistas de interpreta&ccedil;&otilde;es e de interven&ccedil;&otilde;es,    reconhecendo que essas pr&aacute;ticas s&atilde;o engendradas a partir de condi&ccedil;&otilde;es    objetivas e est&atilde;o mediadas pelas contradi&ccedil;&otilde;es e conflitos    da sociedade. &Eacute; preciso apontar para outra vis&atilde;o de Amaz&ocirc;nia    que n&atilde;o seja apenas naturalizar o que &eacute; social, tampouco desconhecer    as suas caracter&iacute;sticas imanentes, considerando social o que &eacute;    natural. Ora, esse equ&iacute;voco foi o que norteou o modo de interven&ccedil;&atilde;o    na Amaz&ocirc;nia que predomina at&eacute; hoje. Tal interven&ccedil;&atilde;o    leva &agrave; ado&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias para a resolu&ccedil;&atilde;o    de quest&otilde;es que, na maioria dos casos, n&atilde;o s&atilde;o as mesmas    das popula&ccedil;&otilde;es locais. Concebida dessa forma, a pol&iacute;tica    de Estado ou de governos define, orienta e estabelece mecanismos operativos    para a Amaz&ocirc;nia, fincados em estrat&eacute;gias que visam ao crescimento    econ&ocirc;mico, mas n&atilde;o contribuem para o desenvolvimento de sua popula&ccedil;&atilde;o,    pois que desrespeitam a natureza da Amaz&ocirc;nia e principalmente a cultura    dos amaz&ocirc;nidas.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">As novas a&ccedil;&otilde;es postas para a Amaz&ocirc;nia, e    especialmente para as pequenas cidades, deveriam contribuir para superar a vis&atilde;o    funcional e caricatural de que a Amaz&ocirc;nia &eacute; s&oacute; fronteira    e fonte de recursos inesgot&aacute;veis. A Amaz&ocirc;nia &eacute; muito mais    do que isso; &eacute;, em todos os cantos, o lugar de encantos. &Eacute; uma    realidade complexa e contradit&oacute;ria, ultrapassando a paisagem natural    ou artificial aparente, para circunscrever-se em sentimentos e emo&ccedil;&otilde;es.    </FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">As a&ccedil;&otilde;es deveriam buscar as condi&ccedil;&otilde;es    da urbanidade, o que significa articular as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas,    visando remir os espa&ccedil;os coletivos como signo da nova cidade, n&atilde;o    s&oacute; como funcionalidade da produ&ccedil;&atilde;o e da circula&ccedil;&atilde;o,    mas como lugar das pessoas. Al&eacute;m disso, deve-se perseguir a busca de    um tempo para os encontros que ultrapassassem o encontro para a troca. &Eacute;    preciso criar tempos e espa&ccedil;os para a vida em toda a sua dimens&atilde;o.    Isto passa pelo resgate da cidadania que exige a concretude de uma vida decente,    que pressup&otilde;e o acesso &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es dignas de viv&ecirc;ncia.    Ainda que a aus&ecirc;ncia de bens e servi&ccedil;os seja abomin&aacute;vel,    tamb&eacute;m s&atilde;o intoler&aacute;veis a falta de tempo, de lazer, de    informa&ccedil;&atilde;o para os que moram nas pequenas cidades dos beirad&otilde;es.    "Uma vez que o espa&ccedil;o n&atilde;o &eacute; o reflexo da sociedade,    &eacute; sua express&atilde;o"(8), as mudan&ccedil;as s&oacute; ocorrer&atilde;o    a partir das transforma&ccedil;&otilde;es da sociedade. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b> Este &eacute; um texto    sem conclus&atilde;o, pois pesquisas necessitam ser feitas e, mesmo quando conclu&iacute;das,    revelar&atilde;o uma verdade, n&atilde;o a verdade. O &uacute;nico ponto a destacar    &eacute; que as pequenas cidades amaz&ocirc;nicas revelam espacialidades que    n&atilde;o coincidem com o invent&aacute;rio dos objetos no espa&ccedil;o nem    do discurso sobre a sua representa&ccedil;&atilde;o. Neste sentido, pode-se    concluir que a espacialidade oculta as conseq&uuml;&ecirc;ncias, o que indica    a constru&ccedil;&atilde;o de pesquisas que considerem a Amaz&ocirc;nia n&atilde;o    apenas como uma &aacute;rea a ser conhecida, mas como conhecimento do lugar,    capaz de revelar formas e conte&uacute;dos espaciais que foram transformados    e/ou permaneceram. </font></p>     <p><FONT SIZE="3">Compreender a Amaz&ocirc;nia a partir das pequenas cidades &eacute;    muito mais do que analisar a forma das cidades, significa compreender a vida    das pessoas simples, de onde brotam dimens&otilde;es de espacialidades que quase    sempre s&atilde;o desconsideradas, pois est&atilde;o eivadas por coisas simples,    transmutadas numa sensa&ccedil;&atilde;o de extrema obviedade, pela freq&uuml;&ecirc;ncia    do estar sempre por a&iacute;. Neste sentido, para al&eacute;m das formas das    cidades, h&aacute; homens e mulheres para os quais a hist&oacute;ria e a geografia    das cidades amaz&ocirc;nicas &eacute; feita e n&atilde;o esperada. H&aacute;    outro jeito de fazer e outro modo de esperar. H&aacute; outros tempos-espa&ccedil;os    mediados por outra ordem, outra raz&atilde;o e outros sentimentos. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Nas pequenas cidades amaz&ocirc;nicas, a natureza &eacute; importante.    Por&eacute;m, muito mais do que pelo fatalismo de uma vida governada pela determina&ccedil;&atilde;o    da natureza, h&aacute; a cultura amaz&ocirc;nica que se estrutura como l&oacute;gica    e como raz&atilde;o, mas tamb&eacute;m como sonho, esperan&ccedil;a e resist&ecirc;ncia.</FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><i><b>Jos&eacute; Aldemir de Oliveira</b> &eacute; ge&oacute;grafo,    professor titular do Depto. de Geografia da Universidade Federal do Amazonas,    l&iacute;der do Grupo de Pesquisas e Estudos das Cidades na Amaz&ocirc;nia Brasileira,    bolsista do CNPq.</i></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><B>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:</B></FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">1. Calvino. I. <i>Cidades invis&iacute;veis</i>. S&atilde;o    Paulo: Companhia das Letras, 1990.</FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">2. Amorim Filho, O. "Evolu&ccedil;&atilde;o e perspectivas    do papel das cidades m&eacute;dias no planejamento urbano e regional".    <i>In</i>: Andrade, T.A. e Serra, R. V. <i>Cidades m&eacute;dias brasileiras</i>.    Rio de Janeiro: IPEA, 2001. pp. 1-34. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">3. Ribeiro, M. A. C. <i>A complexidade da rede urbana amaz&ocirc;nica:    tr&ecirc;s dimens&otilde;es de an&aacute;lise</i>. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.    (Tese de Doutorado).</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">4. Santos M. <i>A natureza do espa&ccedil;o</i>. S&atilde;o    Paulo: Hucitec, 1997, p. 51.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">5. Castells, M. <i>A sociedade em rede</i>. Rio de Janeiro:    Paz e Terra, 1999. p. 441.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">6. Loureiro J. P. "Tradi&ccedil;&atilde;o, tradu&ccedil;&atilde;o,    transpar&ecirc;ncias". <i>Somanlu Revista de Estudos Amaz&ocirc;nicos</i>.    Manaus. PPGSCA – UFAM, ano 2, n. 2. pp 117-126. 2002.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">7. Santos M. <i>op. cit</i>. pp 266-267. 1997. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">8. Castells, M. <i>op. cit</i>. p. 435. 1999. </FONT></p>      ]]></body>
</article>
