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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a12img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <P><font size=5><b>A DIAL&Eacute;TICA DA CENTRALIDADE DO TRABALHO</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Wolfgang Leo Maar</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3">"<i>Tudo tem um pre&ccedil;o (...)    <br>   S&oacute; os homens t&ecirc;m dignidade</i>."    <br>   I<SMALL>MMANUEL</small> K<SMALL>ANT</small> (1) </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>1. O SENTIDO DA CENTRALIDADE DO TRABALHO</b> A quest&atilde;o    da centralidade do trabalho precisa ser elaborada com cautela, para evitar par&acirc;metros    manique&iacute;stas para o problema, ao contrapor as posi&ccedil;&otilde;es    contr&aacute;rias apenas no plano do discurso. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">De um lado, n&atilde;o cabe se fixar apenas na propalada – verdadeira    – tend&ecirc;ncia factual regressiva do trabalho na sociedade presente, sob    pena de unicamente fazer eco &agrave; ideologia capitalista. Nem tampouco procede    insistir numa mera defesa da centralidade do trabalho – verdadeira – idealizada    para al&eacute;m da sociedade em sua forma&ccedil;&atilde;o real vigente, com    o risco de resvalar somente num essencialismo ahist&oacute;rico. Em ambos os    casos, movemo-nos num ambiente de abstra&ccedil;&atilde;o das determina&ccedil;&otilde;es    sociais em suas forma&ccedil;&otilde;es efetivas, abstra&ccedil;&otilde;es que    resultam em diminutas contribui&ccedil;&otilde;es &agrave; elucida&ccedil;&atilde;o    adequada do tema em pauta. Evitar essas abordagens significa superar uma posi&ccedil;&atilde;o    positiva, embora conformista, no primeiro caso; e cr&iacute;tica-negativa, por&eacute;m    idealista, no segundo.</font></P>     <p><font size="3">O tema da centralidade do trabalho precisa ser focalizado tendo    em vista o processo de produ&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o material    da vida humana em sociedade, em sua intera&ccedil;&atilde;o com os outros homens    e com a natureza. Neste processo os homens produzem a si pr&oacute;prios, a    sociedade e as pr&oacute;prias formas sociais em que produzem.</font></P>     <p><font size="3">O trabalho social tem uma dupla "natureza": ele &eacute; tanto    o trabalho envolvido no processo de produ&ccedil;&atilde;o <b>da</b> sociedade    em que se trabalha, que determina socialmente, quanto o trabalho concreto <b>na</b>    sociedade vigente, socialmente determinado.</font></P>     <p><font size="3">Marx se refere a essa quest&atilde;o no cap&iacute;tulo sexto    in&eacute;dito de <i>O Capital</i>. </font></P>     <p><font size="3">"(...) os economistas burgueses, enredados nas id&eacute;ias    capitalistas, v&ecirc;em sem d&uacute;vida como se produz <i>no interior</i>    da rela&ccedil;&atilde;o capitalista, mas n&atilde;o como se produz esta rela&ccedil;&atilde;o    propriamente dita (...)" (2).</font></P>     <p><font size="3">Contudo o &uacute;nico acesso &agrave; "ess&ecirc;ncia" ocorre    pela via da apar&ecirc;ncia, que n&atilde;o &eacute; imagem ilus&oacute;ria,    mas forma real efetiva da ess&ecirc;ncia. Isto &eacute;, o acesso ao trabalho    como forma do metabolismo entre os homens em sua vida social e a natureza, e    que &eacute; produtor da sociedade, ocorre a partir de uma apreens&atilde;o    cr&iacute;tica das formas sociais determinadas do trabalho na sociedade vigente.</font></P>     <p><font size="3">O sentido da quest&atilde;o da centralidade do trabalho est&aacute;    em sua rela&ccedil;&atilde;o com a sociedade. Por mais que haja consci&ecirc;ncia    das condi&ccedil;&otilde;es que, pela centralidade do trabalho na forma&ccedil;&atilde;o    social vigente, alienam os homens do pr&oacute;prio processo de trabalho, subordinando-os    ao mesmo em vez de possibilitar que, por seu interm&eacute;dio, se formem enquanto    sujeitos; por mais que assim se delimitem com clareza as a&ccedil;&otilde;es    pr&aacute;ticas capazes de promover a transforma&ccedil;&atilde;o pretendida    nesta rela&ccedil;&atilde;o entre sociedade e trabalho como uma possibilidade    objetiva; isso n&atilde;o basta. &Eacute; preciso principalmente estabelecer    os nexos desse objetivo com a realidade efetiva. S&oacute; assim ser&aacute;    poss&iacute;vel conferir materialidade &agrave; pr&aacute;tica e n&atilde;o    incorrer nos equ&iacute;vocos apontados acima.</font></P>     <p><font size="3">Nessa medida cabe decifrar como a quest&atilde;o do trabalho    e sua centralidade est&atilde;o presentes nas formas concretas e contradit&oacute;rias    da reprodu&ccedil;&atilde;o social vigente. Conforme exposto a seguir, a sociedade    do trabalho &eacute; determinada a partir de sua base econ&ocirc;mica pela perspectiva    da acumula&ccedil;&atilde;o do capital, e &eacute; determinante seja dos indiv&iacute;duos    que atuam e trabalham na sociedade, seja das suas rela&ccedil;&otilde;es sociais,    seja das suas rela&ccedil;&otilde;es com a natureza. A partir dessa situa&ccedil;&atilde;o    concreta, invertida em rela&ccedil;&atilde;o ao trabalho, o mesmo precisar&aacute;    ser decantado como elemento contradit&oacute;rio essencial &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o    da sociedade por um prisma humano. Isto foi caracterizado por Kant em sua <i>Fundamenta&ccedil;&atilde;o    da metaf&iacute;sica dos costumes</i>, onde contrap&otilde;e a sociedade em    que tudo tem um pre&ccedil;o e os fins s&atilde;o contrapostos aos homens e    a sociedade em que se efetiva a dignidade humana, onde os homens s&atilde;o    fins em si mesmos.</font></P>     <p><font size="3">Por esse prisma pode-se configurar, como contraponto &agrave;    sociedade vigente do trabalho, da forma&ccedil;&atilde;o social pela perspectiva    do capital e suas determina&ccedil;&otilde;es, uma configura&ccedil;&atilde;o    da sociedade pela perspectiva do trabalho, um "modelo" de sociedade contraposto    e cr&iacute;tico em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;quele do modo de produ&ccedil;&atilde;o    capitalista.</font></P>     <p><font size="3"><b>O sentido humanista, emancipat&oacute;rio, da centralidade    do trabalho, n&atilde;o se efetiva na sociedade do trabalho, mas em uma sociedade    pela perspectiva do trabalho</b>. Nesta &uacute;ltima o trabalho social n&atilde;o    se vincula, como ocorre na sociedade do trabalho, &agrave; aliena&ccedil;&atilde;o    nas rela&ccedil;&otilde;es entre os homens, nem &agrave; aliena&ccedil;&atilde;o    nas rela&ccedil;&otilde;es com a natureza.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A centralidade do trabalho diz respeito, nesses termos, &agrave;    cr&iacute;tica &agrave;s formas sociais determinadas na forma&ccedil;&atilde;o    vigente. Ou seja: cr&iacute;tica ao economicismo que instrumentaliza as rela&ccedil;&otilde;es    sociais em termos de produtividade capitalista; &agrave; mercantiliza&ccedil;&atilde;o    generalizada, que subordina a vida social ao consumismo e aos ditames da ind&uacute;stria    cultural; &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o ambiental resultante de uma rela&ccedil;&atilde;o    com a natureza objetivada em mat&eacute;ria de explora&ccedil;&atilde;o predat&oacute;ria;    &agrave; pol&iacute;tica instrumental que subordina a amplia&ccedil;&atilde;o    dos direitos sociais &agrave; mera circula&ccedil;&atilde;o no acesso aos mecanismos    de poder, etc.. </font></P>     <p><font size="3"><b>2. A CENTRALIDADE DO TRABALHO NA SOCIEDADE VIGENTE</b> As    manifesta&ccedil;&otilde;es e os dist&uacute;rbios que ocorreram em 2006, na    Fran&ccedil;a, um pa&iacute;s altamente industrializado, foram basicamente de    contingentes exclu&iacute;dos socialmente pelo desemprego, pelo emprego prec&aacute;rio    desprovido de direitos sociais e pela aus&ecirc;ncia de expectativas de emprego.    Mesmo fortes pol&iacute;ticas sociais compensat&oacute;rias, como as da Fran&ccedil;a,    demonstraram-se insuficientes para a inclus&atilde;o social efetiva, ativa e    com direitos. Os eventos citados constituem uma tend&ecirc;ncia mundial crescente.    Manifesta&ccedil;&otilde;es semelhantes se avolumam progressivamente no &acirc;mbito    de quem &eacute; exclu&iacute;do do chamado "mundo do trabalho" legal do capitalismo,    particularmente na Europa e nos Estados Unidos, mas sem eliminar qualquer pa&iacute;s.    Este &eacute; o problema b&aacute;sico dos migrantes, clandestinos e n&atilde;o-cidad&atilde;os,    mas tamb&eacute;m de todos que s&atilde;o objeto de exclus&atilde;o social.    </font></P>     <p><font size="3">Nas d&eacute;cadas de setenta e oitenta do s&eacute;culo XX    desenvolveram-se cr&iacute;ticas incisivas &agrave; estrutura de classes como    base da socializa&ccedil;&atilde;o e dos movimentos emancipat&oacute;rios –    basta lembrar o livro <i>Adeus ao proletariado</i> de Andr&eacute; Gorz (3)    – questionando-se por essa via a centralidade do trabalho, at&eacute; mesmo    como categoria sociol&oacute;gica chave, tal como o fez, por exemplo, Claus    Offe (4). A solidariedade e a &eacute;tica de classes podem at&eacute; ter diminu&iacute;do,    conforme as interpreta&ccedil;&otilde;es correntes em anos anteriores, quando    se insistia, seja na precariedade futura do emprego assalariado face &agrave;    produtividade crescente, seja nas dificuldades da organiza&ccedil;&atilde;o    de classe frente &agrave; reestrutura&ccedil;&atilde;o das opera&ccedil;&otilde;es    da produ&ccedil;&atilde;o. Contudo a inser&ccedil;&atilde;o social pela via    do emprego, do assalariamento, permanece a &uacute;nica com uma realidade efetiva,    que sustenta a auto-identifica&ccedil;&atilde;o social. Na forma&ccedil;&atilde;o    social vigente do capitalismo, o trabalho s&oacute; se realiza como "social"    pela via da inser&ccedil;&atilde;o no mercado de trabalho; ao mesmo tempo, como    corol&aacute;rio, a inser&ccedil;&atilde;o social – como sujeito, embora "alienado"    – depende da via do assalariamento. Os homens e as mulheres na sociedade vigente    s&atilde;o sempre, de modo crescente, trabalhadores sem trabalho; permanecem    como "sujeitos laborais assalariados", ainda que desprovidos de trabalho. Ou    seja, nos termos preponderantes na forma&ccedil;&atilde;o social vigente, s&oacute;    se inserem socialmente como trabalhadores assalariados.</font></P>     <p><font size="3">Em fun&ccedil;&atilde;o disso os movimentos sociais emancipat&oacute;rios    t&ecirc;m diante de si o desafio de uma representa&ccedil;&atilde;o mais ampla    do "trabalho", do que unicamente aquela no ambiente restrito dos sindicatos:    precisam abranger, desse modo, n&atilde;o s&oacute; desempregados e sub-empregados,    mas toda a parcela exclu&iacute;da do pleno exerc&iacute;cio ativo dos direitos    sociais, embora fa&ccedil;a parte da sociedade do trabalho pois t&ecirc;m sua    vida medida em termos de tempo de trabalho.</font></P>     <p><font size="3">Conforme o disposto acima, faz sentido falar de uma centralidade    do trabalho na sociedade vigente do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista.    Mas n&atilde;o em decorr&ecirc;ncia exclusiva de uma privilegiada sabedoria    decorrente da rela&ccedil;&atilde;o com o "ch&atilde;o-de-f&aacute;brica" que    caracterizaria o trabalho produtivo. Nem tamb&eacute;m a partir apenas de rela&ccedil;&otilde;es    privilegiadas de classe como base da socializa&ccedil;&atilde;o, e que seriam    at&eacute; mesmo apreendidas como pren&uacute;ncios dos nexos sociais em uma    sociedade emancipada.</font></P>     <p><font size="3">A centralidade do trabalho se apresenta conforme uma dupla dial&eacute;tica.</font></P>     <p><font size="3">De um lado diz respeito a um posicionamento que &eacute; cr&iacute;tico    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s estruturas do trabalho e do emprego na forma&ccedil;&atilde;o    social vigente – que s&atilde;o alienadas – ao mesmo tempo em que toma as mesmas    como ponto de partida para a rela&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica com o processo    de reprodu&ccedil;&atilde;o presente da sociedade, em vez de se apoiar em ide&aacute;rios    desprovidos de base efetiva.</font></P>     <p><font size="3">De outro lado, ao mesmo tempo em que se sustenta em uma presen&ccedil;a    inexor&aacute;vel e cada vez mais dominante do trabalho em sua forma social    existente, mediando todas as rela&ccedil;&otilde;es sociais, desenvolve tamb&eacute;m    uma apreens&atilde;o negativa desse trabalho nos termos da din&acirc;mica de    suas contradi&ccedil;&otilde;es nas formas sociais vigentes – for&ccedil;as    produtivas e rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o – que conduzem,    contraditoriamente, a um quadro de deteriora&ccedil;&atilde;o das pr&oacute;prias    rela&ccedil;&otilde;es com o trabalho.</font></P>     <p><font size="3">Em suma: <b>a tese da centralidade do trabalho, ao mesmo tempo    em que postula uma posi&ccedil;&atilde;o central para o trabalho na sociedade    vigente e em seu dinamismo social, &eacute; cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; sociedade do trabalho vigente e negativa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    tend&ecirc;ncia evolutiva da mesma</b>; tend&ecirc;ncia dominada pelo processo    de acumula&ccedil;&atilde;o capitalista que aliena os homens do pr&oacute;prio    processo de reprodu&ccedil;&atilde;o material de sua vida.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a14img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>3.A SOCIEDADE DO TRABALHO</b> A chamada "sociedade do trabalho"    &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o social constitu&iacute;da por homens e    mulheres no curso do processo de reprodu&ccedil;&atilde;o de sua vida material,    na intera&ccedil;&atilde;o social e com a natureza. A sociedade capitalista    em que vivemos &eacute; uma "sociedade do trabalho" sob a forma social determinada    da acumula&ccedil;&atilde;o do capital. O processo de constru&ccedil;&atilde;o    da sociedade capitalista exigiu uma s&eacute;rie de condi&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;ricas antes n&atilde;o existentes – uma &eacute;tica do trabalho,    a convers&atilde;o de trabalho em mercadoria, o apoio social &agrave; acumula&ccedil;&atilde;o    sem prop&oacute;sito de uso – apontadas de modo exemplar na obra de Max Weber,    especialmente em <i>A &eacute;tica protestante e o esp&iacute;rito do capitalismo</i>    (5).</font></P>     <p><font size="3">A forma&ccedil;&atilde;o social assim constitu&iacute;da aparece    no dia a dia como se fosse "objetiva", isto &eacute;, como produto abstra&iacute;do    do processo de sua forma&ccedil;&atilde;o material, instalando-se como se fosse    a verdadeira "natureza" da sociedade.</font></P>     <p><font size="3">Nessa sociedade o nexo com o trabalho &eacute; contradit&oacute;rio.    A melhor formula&ccedil;&atilde;o disso ainda &eacute; de Marx:</font></P>     <p><font size="3">"O capital &eacute;, ele pr&oacute;prio, a contradi&ccedil;&atilde;o    em processo (porque) procura reduzir o tempo de trabalho a um m&iacute;nimo,    ao mesmo tempo em que, de outro lado, disp&otilde;e o tempo de trabalho como    &uacute;nica medida e fonte da riqueza (...) Por um lado conclama &agrave; vida    todos os poderes da ci&ecirc;ncia e da natureza, bem como da combina&ccedil;&atilde;o    social e do interc&acirc;mbio social para tornar a cria&ccedil;&atilde;o da    riqueza (relativamente) independente do tempo de trabalho neles aplicado. De    outro lado pretende medir as enormes for&ccedil;as sociais assim criadas pelo    tempo de trabalho, e aprision&aacute;-las nos limites exigidos para conservar    como valor o valor j&aacute; criado."(6). </font></P>     <p><font size="3">Ao menos duas conclus&otilde;es importantes para o tema aqui    examinado encontram-se implicadas nessa formula&ccedil;&atilde;o magistral.    A tese de Marx elucida a dupla dial&eacute;tica entre trabalho e sociedade.</font></P>     <p><font size="3">Em primeiro lugar, h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria    entre forma&ccedil;&atilde;o social, capital e trabalho. Em outras palavras,    a sociedade capitalista &eacute; incapaz de se reproduzir ou conservar – gerar    riquezas – sem a media&ccedil;&atilde;o do trabalho; donde se pode inferir a    centralidade do trabalho na forma&ccedil;&atilde;o social vigente. Mas, junto    ao nexo necess&aacute;rio com o trabalho, o mesmo encontra-se em tend&ecirc;ncia    declinante frente ao crescimento do capital.</font></P>     <p><font size="3">Em segundo lugar, se produz um nexo de depend&ecirc;ncia da    sociedade em todas as suas formas sociais com o trabalho, ao mesmo tempo em    que ocorre uma domina&ccedil;&atilde;o social, em fun&ccedil;&atilde;o desse    trabalho, que se exerce sobre o pr&oacute;prio trabalho, "aprisionado nos limites    exigidos para conservar como valor o valor j&aacute; criado". Ou seja: junto    com uma tend&ecirc;ncia &agrave; generaliza&ccedil;&atilde;o da "natureza" social    capitalista como sociedade do trabalho, h&aacute; uma imposi&ccedil;&atilde;o    dos crit&eacute;rios e das condi&ccedil;&otilde;es da acumula&ccedil;&atilde;o    em todos os &acirc;mbitos das rela&ccedil;&otilde;es dos homens entre si e com    a natureza traduzida na cita&ccedil;&atilde;o como "medida do tempo de trabalho".    A pr&oacute;pria "racionalidade", ou seja, o modo de apreender a sociedade por    parte de seus sujeitos efetivos, encontra-se marcada pelo "tempo de trabalho"    na forma vigente. Ressalte-se que esta &eacute; a parte ausente na focaliza&ccedil;&atilde;o    de Weber. Este autor n&atilde;o diferenciou adequadamente as formas sociais    determinadas da racionalidade, distinguindo a domina&ccedil;&atilde;o exercida    nos termos da racionalidade instrumental do processo de acumula&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">A contradi&ccedil;&atilde;o do capital se instala como hist&oacute;ria    aparentemente inexor&aacute;vel do dinamismo do trabalho, em todas as suas formas,    rumo ao trabalho tal como &eacute; part&iacute;cipe do processo de acumula&ccedil;&atilde;o    capitalista, seu pretenso destino.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Duas teses simult&acirc;neas delimitam a sociedade do trabalho:</font></P>     <p><font size="3"><b>1.</b> Existe uma rela&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria    entre forma&ccedil;&atilde;o social, capital e trabalho;</font></P>     <p><font size="3"><b>2.</b> H&aacute; uma tend&ecirc;ncia &agrave; domina&ccedil;&atilde;o    do capital sobre o trabalho que configura uma determinada forma&ccedil;&atilde;o    social.</font></P>     <p><font size="3">Portanto, h&aacute; na forma&ccedil;&atilde;o social vigente    uma estrutura de domina&ccedil;&atilde;o no que se apresenta como rela&ccedil;&otilde;es    entre capital e trabalho. A sociedade capitalista existente &eacute; uma sociedade    do trabalho pela perspectiva dominante do capital, que desenvolve formas de    domina&ccedil;&atilde;o. A base desta domina&ccedil;&atilde;o seria apreendida    por Marx enquanto processo de aliena&ccedil;&atilde;o na rela&ccedil;&atilde;o    dos homens com a sociedade e a natureza, a partir de sua an&aacute;lise do trabalho    alienado enquanto processo de objetiva&ccedil;&atilde;o invertida, em que se    constitui uma abstra&ccedil;&atilde;o do produto em rela&ccedil;&atilde;o ao    seu processo de produ&ccedil;&atilde;o. Nas palavras de Marx, trata-se de "uma    forma&ccedil;&atilde;o social onde o processo de produ&ccedil;&atilde;o domina    os homens e os homens ainda n&atilde;o dominam o processo de produ&ccedil;&atilde;o"    (7).</font></P>     <p><font size="3"><b>4.TRABALHO SEM DIAL&Eacute;TICA?</b> Por fim algumas quest&otilde;es    para n&oacute;s, brasileiros, refletirmos. O tema da centralidade do trabalho    possui no Brasil um sentido especial. Em um pa&iacute;s cujo nome &eacute; o    de uma <i>commodity</i>, que se constituiu como Estado antes de ser uma na&ccedil;&atilde;o    e onde o trabalho escravo era at&eacute; ontem a forma social dominante de gera&ccedil;&atilde;o    de riquezas, a cr&iacute;tica ao trabalho nas formas sociais vigentes ou a defesa    de sua centralidade correm um risco n&atilde;o desprez&iacute;vel de se converterem    em abstra&ccedil;&atilde;o cultural.</font></P>     <p><font size="3">De uma parte, como a forma&ccedil;&atilde;o social se deu quase    exclusivamente pelo Estado, privilegiou constru&ccedil;&otilde;es sociais imediatamente    a servi&ccedil;o da ordem vigente, sem maiores contradi&ccedil;&otilde;es e    sempre &agrave; procura posterior de uma base – ou, parafraseando Roberto Schwarz    em seu <i>As id&eacute;ias fora do lugar</i> (8) – de um lugar para a organiza&ccedil;&atilde;o    posta como id&eacute;ia necess&aacute;ria aos estamentos dominantes em sua reprodu&ccedil;&atilde;o.    O paradigma escravista com sua viol&ecirc;ncia estrutural, por sua vez, transitou    sem freios &agrave; estrutura social, de modo que atingem alturas quase inimagin&aacute;veis    as rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o imediata e direta explorat&oacute;rias,    seja no que concerne aos nexos sociais, seja no que se refere aos nexos com    a natureza em sua materialidade objetiva, seja no que diz respeito &agrave;s    rela&ccedil;&otilde;es de trabalho. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, ocorre a proporcional    redu&ccedil;&atilde;o dos direitos sociais.</font></P>     <p><font size="3">A constru&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s desde sempre pela    perspectiva da acumula&ccedil;&atilde;o capitalista n&atilde;o passou pelo desenvolvimento    de uma "&eacute;tica do trabalho" – como revela brilhantemente Ant&ocirc;nio    C&acirc;ndido em seu ensaio <i>Dial&eacute;tica da malandragem</i> (9) – com    todas as conseq&uuml;&ecirc;ncias correspondentes. O "trabalho", por sua vez,    sempre foi determinado em termos estritamente capitalistas produtivistas e quase    unicamente como fardo, desprovido do momento formativo do sujeito mediante sua    intera&ccedil;&atilde;o com a sociedade e a natureza. Delimitar-se-ia, assim,    em rela&ccedil;&atilde;o ao trabalho todo um conjunto de "outros afazeres",    muitas vezes reduzidos a rela&ccedil;&otilde;es de favor, estritamente comandadas    pelo exerc&iacute;cio da domina&ccedil;&atilde;o direta. Prova atual dessa situa&ccedil;&atilde;o    &eacute;, sem d&uacute;vida, a p&eacute;ssima remunera&ccedil;&atilde;o que    h&aacute; no Brasil para os professores e seu trabalho formativo e educacional    – que n&atilde;o &eacute; considerado trabalho, mas voca&ccedil;&atilde;o, dedica&ccedil;&atilde;o    – bem como para o servi&ccedil;o p&uacute;blico voltado ao atendimento dos direitos    sociais – idem. Por outro lado, comprovam essa situa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m    as altas remunera&ccedil;&otilde;es – completamente desproporcionais ao trabalho    envolvido, embora correspondendo inteiramente &agrave;s consequ&ecirc;ncias    assim geradas – de ocupa&ccedil;&otilde;es de mando providas &agrave; sombra    das rela&ccedil;&otilde;es de poder e objetivando sua conserva&ccedil;&atilde;o:    por exemplo, o judici&aacute;rio e o legislativo.</font></P>     <p><font size="3">O trabalho intelectual, de sua parte, &eacute; tamb&eacute;m    em grande parte desconsiderado como trabalho e meramente instrumentalizado pelo    conjunto sindicalizado de trabalhadores – veja-se, p. ex., o anti-intelectualismo    do PT – dificultando de modo particular os v&iacute;nculos entre o trabalho    manual e o trabalho intelectual, fundamentais como trabalhador coletivo numa    proposta de sociedade pela perspectiva do trabalho. </font></P>     <p><font size="3">Face a essa situa&ccedil;&atilde;o, a cr&iacute;tica &agrave;    sociedade do trabalho na sociedade brasileira vigente corre o risco de ser uma    id&eacute;ia fora do lugar, uma abstra&ccedil;&atilde;o social na mesma medida    em que a sociedade do trabalho constitui em grande parte uma abstra&ccedil;&atilde;o.    <b>A dial&eacute;tica do trabalho social se realiza de modo muito mediatizado    na sociedade brasileira, em que pese ela ser hegemonicamente uma sociedade pela    perspectiva do capital</b>, pautada conforme a medida do tempo de trabalho da    acumula&ccedil;&atilde;o capitalista.</font></P>     <p><font size="3">As conseq&uuml;&ecirc;ncias mais graves dessa situa&ccedil;&atilde;o    ocorrem no plano da cultura pol&iacute;tica, reduzida quase unicamente a rela&ccedil;&otilde;es    instrumentais, &agrave; partilha de benesses e &agrave; procura de solu&ccedil;&otilde;es    independentes de trabalho, de prefer&ecirc;ncia "m&aacute;gicas". A aus&ecirc;ncia    quase completa da media&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de trabalho    n&atilde;o reduzidas ao plano de fardo, quase inviabiliza quaisquer processos    formativos vinculados &agrave; inser&ccedil;&atilde;o na sociedade do trabalho,    fundamentais para a constitui&ccedil;&atilde;o de sujeitos pol&iacute;ticos    aut&ocirc;nomos.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em decorr&ecirc;ncia, existe um conformismo social extremado    que se expressa, por exemplo, pela aceita&ccedil;&atilde;o acr&iacute;tica e    quase "natural" das constru&ccedil;&otilde;es sociais manipuladas pela m&iacute;dia,    que n&atilde;o concorre com rela&ccedil;&otilde;es sociais pautadas no trabalho,    seja de que tipo for. Talvez isto explique o enorme poder social da televis&atilde;o    no Brasil, que focaliza apenas de modo caricatural – desprovido de qualquer    aspecto formativo – as rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, embora invista com    efetivo realismo na constru&ccedil;&atilde;o de uma forma&ccedil;&atilde;o social    pautada no medo e no arb&iacute;trio, objetivando formar indiv&iacute;duos aterrorizados    e manipul&aacute;veis.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Wolfgang Leo Maar</b> &eacute; professor titular de filosofia    do Centro de Educa&ccedil;&atilde;o e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade    Federal de S&atilde;o Carlos.</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Kant, I. <i>Grundlegung zur metaphysyk der sitten</i>. Hamburg:    pg. 58. Felix Meiner, 1965. Ed. Brasileira: <i>Fundamenta&ccedil;&atilde;o da    metaf&iacute;sica dos costumes</i>. S&atilde;o Paulo: pg. 65. Martin Claret,    2002. Tradu&ccedil;&atilde;o do original pelo autor. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030962&pid=S0009-6725200600040001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">2. Marx, K.Cap&iacute;tulo sexto — in&eacute;dito de <i>O Capital</i>.    S&atilde;o Paulo: pg. 138 Centauro, 2004.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030963&pid=S0009-6725200600040001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">3. Gorz, A. <i>Adeus ao proletariado</i>. S&atilde;o Paulo:    Forense, 1987.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030964&pid=S0009-6725200600040001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">4. Offe, C. <i>Capitalismo desorganizado</i>. S&atilde;o Paulo:    Brasiliense, 1989.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030965&pid=S0009-6725200600040001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">5. Weber, M. <i>A &eacute;tica protestante e o esp&iacute;rito    do capitalismo</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 2004</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030966&pid=S0009-6725200600040001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">6. Marx, K. <i>Grundrisse</i>. Frankfurt am Main: Europ&auml;ische,    s/d – pg. 594; Ed. Inglesa: <i>Grundrisse</i>. New York: Penguin, pg. 706. 1983.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030967&pid=S0009-6725200600040001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">7. Marx, K. <i>Das Kapital</i>. Livro 1. Frankfurt am Main:    Europ&auml;ische Verlagsanstalt, 1967. pg. 95; Ed. Brasileira: <i>O Capital</i>.    Livro 1, Vol.1. pg. 90. Rio: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 1980.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030968&pid=S0009-6725200600040001400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">8. Schwarz, R. <i>Cultura e pol&iacute;tica</i>. S&atilde;o    Paulo: Paz e Terra, 2005.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030969&pid=S0009-6725200600040001400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="3">9. C&acirc;ndido, A. "Dial&eacute;tica da malandragem". <i>In    Revista do Instituto de Estudos Brasileiros</i>, USP, nº . 8. pg. 67-89. S&atilde;o    Paulo, 1970. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=030970&pid=S0009-6725200600040001400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body>
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