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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a12img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <P><font size=5><b>JORNADA DE TRABALHO: DURA&Ccedil;&Atilde;O E INTENSIDADE</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Sadi Dal Rosso</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3"> <b><font size=5>A</font></b> sociedade moderna erigiu o trabalho,    na forma do assalariamento, como sua atividade central. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia,    a jornada de trabalho ganhou espa&ccedil;o incomum tanto no terreno de estudo    e pesquisa, em que floresceram as &aacute;reas da economia, da sociologia, da    psicologia, da epidemiologia, do direito e da administra&ccedil;&atilde;o, quanto    nas rela&ccedil;&otilde;es sociais em que se enfrentam classes sociais, governos    e movimentos sociais com vistas a controlar as formas da regula&ccedil;&atilde;o    social.</font></P>     <p><font size="3">A jornada de trabalho se expressa primeiramente pelo componente    de dura&ccedil;&atilde;o, que compreende a quantidade de tempo que o trabalho    consome das vidas das pessoas. A quest&atilde;o tem diversas implica&ccedil;&otilde;es,    tr&ecirc;s das quais s&atilde;o aqui destacadas: afeta a qualidade de vida,    pois interfere na possibilidade de usufruir ou n&atilde;o de mais tempo livre;    define a quantidade de tempo durante o qual as pessoas se dedicam a atividades    econ&ocirc;micas; estabelece rela&ccedil;&otilde;es diretas entre as condi&ccedil;&otilde;es    de sa&uacute;de, o tipo e o tempo de trabalho executado. Essas raz&otilde;es,    muito al&eacute;m da curiosidade hist&oacute;rica, s&atilde;o suficientes para    explicar porque os estudos de tempo de trabalho que se dedicam &agrave; an&aacute;lise    da dura&ccedil;&atilde;o se tornaram socialmente t&atilde;o relevantes.</font></P>     <p><font size="3"><b>A CURVA DA JORNADA</b> A an&aacute;lise hist&oacute;rica    da evolu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho &eacute; feita com base nas    experi&ecirc;ncias dos Estados-na&ccedil;&otilde;es e das diversas categorias    ocupacionais. Tomando como par&acirc;metro a experi&ecirc;ncia das na&ccedil;&otilde;es    desde a constitui&ccedil;&atilde;o do sistema capitalista at&eacute; hoje, &eacute;    poss&iacute;vel descrever (1) genericamente a dura&ccedil;&atilde;o da jornada    por meio de uma curva composta de tr&ecirc;s elementos gr&aacute;ficos b&aacute;sicos:    alongamento; jornada m&aacute;xima; e redu&ccedil;&atilde;o da jornada. </font></P>     <p><font size="3">Historicamente, o alongamento da jornada &eacute; encontrado    na constitui&ccedil;&atilde;o das sociedades modernas como sociedades que generalizam    a rela&ccedil;&atilde;o de assalariamento para a maior parte de sua for&ccedil;a    de trabalho e nos per&iacute;odos que antecedem as revolu&ccedil;&otilde;es    industriais capitalistas, passadas e contempor&acirc;neas. A imposi&ccedil;&atilde;o    de um aumento da dura&ccedil;&atilde;o do trabalho para o conjunto dos trabalhadores    de uma na&ccedil;&atilde;o justifica integralmente a compreens&atilde;o das    sociedades modernas como sociedades do trabalho. Como ter-se-&aacute; ocasi&atilde;o    de demonstrar mais adiante o alongamento da jornada n&atilde;o constitui apenas    uma fase da experi&ecirc;ncia passada das na&ccedil;&otilde;es. O aumento do    tempo de trabalho pode retomar seu lugar na hist&oacute;ria, como sucede aos    dias de hoje em algumas das pot&ecirc;ncias econ&ocirc;micas mundiais.</font></P>     <p><font size="3">A jornada m&aacute;xima decorre do fato de que as pessoas t&ecirc;m    uma capacidade m&aacute;xima de trabalhar, apesar das variabilidades individuais,    sem afetar as condi&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de e de vida. Novamente,    em termos hist&oacute;ricos, os per&iacute;odos em que a dura&ccedil;&atilde;o    do trabalho dos assalariados tomou o maior n&uacute;mero de horas por ano, s&atilde;o    constitu&iacute;dos pelas revolu&ccedil;&otilde;es industriais. O n&uacute;mero    m&eacute;dio de horas de trabalho por ano subiu das 2,5 mil horas nos per&iacute;odos    pr&eacute;-industriais para 3 mil a 3,5 mil horas durante as revolu&ccedil;&otilde;es    industriais. A historiografia desconhece per&iacute;odos hist&oacute;ricos que    o patamar do trabalho tenha-se elevado a n&iacute;veis superiores aos verificados    durante a revolu&ccedil;&atilde;o industrial capitalista. Neles, o n&uacute;mero    m&aacute;ximo de horas por ano constitui um indicador de clareza meridiana sobre    o grau de explora&ccedil;&atilde;o a que os/as trabalhadores/as foram submetidos/as.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O &uacute;ltimo componente da curva da jornada &eacute; representado    pela redu&ccedil;&atilde;o das horas de trabalho. Novamente, a historiografia    mostra que, submetidos a um aumento da dura&ccedil;&atilde;o que elevou o trabalho    at&eacute; o ponto m&aacute;ximo da sua resist&ecirc;ncia humana, os/as trabalhadores/as    reagiram a esse grau de dilapida&ccedil;&atilde;o dos corpos e das mentes com    movimentos pol&iacute;ticos, com greves, empregando diversos outros instrumentos    de press&atilde;o social e com negocia&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es    de trabalho. Aos poucos, a dura&ccedil;&atilde;o da jornada vai sendo reduzida    nos pa&iacute;ses mais ricos do mundo ocidental, como descrevem Evans, Lippoldt    e Marianna (2): "as horas m&eacute;dias de trabalho nos pa&iacute;ses que pertencem    &agrave; OCDE caiu de em torno a 3 mil horas por ano em 1870, para entre 1,5    mil e 2 mil horas por ano em 1990."</font></P>     <p><font size="3">A curva da jornada de trabalho n&atilde;o descreve apenas a    experi&ecirc;ncia dos pa&iacute;ses de capitalismo inicial, como tamb&eacute;m    &eacute; um elemento que permite a interpreta&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia    dos pa&iacute;ses de capitalismo tardio e dos pa&iacute;ses subdesenvolvidos.    Assim a curva da jornada pode aplicar-se ao caso brasileiro. Ainda que ex&iacute;gua,    a pesquisa historiogr&aacute;fica que descreve a dura&ccedil;&atilde;o do tempo    de trabalho na &eacute;poca da instala&ccedil;&atilde;o das primeiras ind&uacute;strias    no Brasil do s&eacute;culo XIX, mostra o aumento das horas relativamente aos    padr&otilde;es costumeiros anteriores de trabalho, e que esse trabalho excessivo    foi motiva&ccedil;&atilde;o para in&uacute;meras greves ocorridas em diversas    cidades brasileiras (1). As greves alcan&ccedil;aram em boa medida seus objetivos    espec&iacute;ficos de controlar a dura&ccedil;&atilde;o desvairada do trabalho    exigida pelo patronato. A partir de 1932, o Estado brasileiro interveio, nesse    aspecto da quest&atilde;o social representado pela dura&ccedil;&atilde;o do    trabalho, regulamentando-o por meio de decretos, mais tarde incorporados &agrave;    Consolida&ccedil;&atilde;o das Leis do Trabalho (CLT). &Eacute; nessas condi&ccedil;&otilde;es    que &eacute; introduzido o par&acirc;metro das oito horas regulares de trabalho    ao dia, quarenta e oito semanais, suplementadas pela possibilidade de acrescentar    mais duas horas-extras por dia, sempre que necess&aacute;rio. V&ecirc;-se que    a regulamenta&ccedil;&atilde;o &eacute; particularmente favor&aacute;vel aos    empregadores, levada em considera&ccedil;&atilde;o a possibilidade de duas horas    extras ao dia. </font></P>     <p><font size="3">Um segundo ciclo de redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho    no Brasil &eacute; aberto pela exitosa greve dos metal&uacute;rgicos do ABC    paulista de 1985 e conclu&iacute;do pela generaliza&ccedil;&atilde;o a todos/as    os/as trabalhadores/as da redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho de 48    semanais para 44 horas promovida pela Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988. O    efeito dessa redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho pela for&ccedil;a    da lei foi em grande medida frustrado pela continuidade da pr&aacute;tica das    horas-extras como atividade normal, tendo-se verificado um salto substantivo    no n&uacute;mero de pessoas que passaram a realizar trabalho extraordin&aacute;rio    imediatamente ap&oacute;s a promulga&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o    (3).</font></P>     <p><font size="3"><b>E HOJE: O QUE ACONTECE COM A DURA&Ccedil;&Atilde;O DA JORNADA    DE TRABALHO NO MUNDO?</b> O emprego da curva da jornada como meio descritivo    de uma realidade hist&oacute;rica e n&atilde;o como instrumento anal&iacute;tico    pode conduzir &agrave; falsa impress&atilde;o de que doravante a dura&ccedil;&atilde;o    do trabalho caminha irreversivelmente no sentido de redu&ccedil;&atilde;o. No    fundo, existe a expectativa de que, com o desenvolvimento econ&ocirc;mico e    social, as pessoas precisem trabalhar cada vez menos horas por ano e possam    usufruir de mais tempo a seu livre dispor. No capitalismo, entretanto, a jornada    &eacute; socialmente determinada implicando em que al&eacute;m dos/as trabalhadores/as,    os governos e os empregadores tenham interesse direto na quest&atilde;o da dura&ccedil;&atilde;o    do trabalho. Conseq&uuml;entemente ela pode oscilar para mais ou para menos,    para cima ou para baixo.</font></P>     <p><font size="3">Se n&atilde;o aparecessem casos indicativos de oscila&ccedil;&atilde;o    para cima da curva da jornada, a quest&atilde;o nem deveria ser posta, a n&atilde;o    ser em termos abstratos apenas como possibilidade te&oacute;rica. Entretanto,    come&ccedil;am a se acumular evid&ecirc;ncias no sentido de que importantes    pa&iacute;ses do bloco capitalista ocidental estejam retomando a pr&aacute;tica    de alongamento da jornada de trabalho nos dias de hoje. Se verificada, a tend&ecirc;ncia    n&atilde;o deixa de ser inquietante e constitui uma reviravolta hist&oacute;rica,    uma vez que, observada sob a &oacute;tica dos Estados-na&ccedil;&otilde;es,    a jornada de trabalho vinha sendo reduzida h&aacute; mais de s&eacute;culo.</font></P>     <p><font size="3">Evans, Lipoldt e Marianna (2) afirmam que "o fato mais chocante    a respeito das tend&ecirc;ncias recentes das horas anuais m&eacute;dias de trabalho    &eacute; que o seu decl&iacute;nio de longa dura&ccedil;&atilde;o refreou-se    em quase todos os pa&iacute;ses da OCDE e ocasionalmente reverteu-se". &Eacute;    necess&aacute;rio examinar com mais detalhe esta revers&atilde;o: quando e onde    acontece e qual seu significado.</font></P>     <p><font size="3">O in&iacute;cio da revers&atilde;o teria acontecido nos Estados    Unidos, Inglaterra e Su&eacute;cia ainda na d&eacute;cada de 1980, segundo dados    citados por aqueles autores. A mudan&ccedil;a projeta-se para a d&eacute;cada    de 1990, exceto na Inglaterra, envolvendo tamb&eacute;m a Espanha. Noutros pa&iacute;ses,    como o Canad&aacute;, Austr&aacute;lia, Finl&acirc;ndia, Nova Zel&acirc;ndia,    os ind&iacute;cios da revers&atilde;o do processo de redu&ccedil;&atilde;o da    jornada m&eacute;dia anual de trabalho s&atilde;o muito t&ecirc;nues, na express&atilde;o    dos autores. Evid&ecirc;ncia consistente, durante duas d&eacute;cadas, de revers&atilde;o    da redu&ccedil;&atilde;o da jornada m&eacute;dia de trabalho prov&eacute;m basicamente    dos Estados Unidos, onde o aumento das horas extras &eacute; apontado como o    fator b&aacute;sico respons&aacute;vel pela mudan&ccedil;a da tend&ecirc;ncia.    Na d&eacute;cada 1980, os Estados Unidos, sob a presid&ecirc;ncia de Ronald    Reagan, e a Inglaterra, sob o governo da primeira ministra Margareth Thatcher,    promoveram a ortodoxia neoliberal e implementaram as pol&iacute;ticas de reestrutura&ccedil;&atilde;o    econ&ocirc;mica, com a redu&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o do Estado na economia,    privatiza&ccedil;&atilde;o de empresas e servi&ccedil;os governamentais, junto    com um arsenal de outras medidas liberalizantes. Ambos governos enfrentaram    o forte movimento sindical que resistia &agrave;s mudan&ccedil;as e tentava    preservar postos de trabalho ou ainda o estado de bem estar social constru&iacute;do    anteriormente. Tornou-se emblem&aacute;tica na hist&oacute;ria do movimento    sindical a resist&ecirc;ncia dos mineiros ao governo de Thatcher e dos controladores    do tr&aacute;fego a&eacute;reo ao governo de Reagan.</font></P>     <p><font size="3">Por outro lado, a tend&ecirc;ncia &agrave; redu&ccedil;&atilde;o    da jornada de trabalho mant&eacute;m-se firme, ainda que se manifestando mais    lentamente, em pa&iacute;ses como Fran&ccedil;a, cujas pol&iacute;ticas a transformaram    em &iacute;cone simb&oacute;lico do encurtamento da jornada de trabalho, Alemanha,    It&aacute;lia, Holanda, Noruega, sendo a redu&ccedil;&atilde;o mais acentuada    no Jap&atilde;o e na Cor&eacute;ia.</font></P>     <p><font size="3">Duas tend&ecirc;ncias referentes &agrave; dura&ccedil;&atilde;o    do tempo de trabalho, pois, dominam o cen&aacute;rio mundial: uma consolidada    e vigente nos pa&iacute;ses europeus e asi&aacute;ticos capitalistas avan&ccedil;ados,    no sentido de continuar a hist&oacute;rica redu&ccedil;&atilde;o da jornada    m&eacute;dia anual de trabalho; a outra, presente mais fortemente nos Estados    Unidos, no sentido de alongamento das horas de trabalho. Qual delas prevalecer&aacute;    nos pr&oacute;ximos anos? H&aacute; fortes argumentos a favor da tend&ecirc;ncia    dominante nos Estados Unidos da Am&eacute;rica em fun&ccedil;&atilde;o do papel    que aquele pa&iacute;s desempenha no cen&aacute;rio da economia mundial. Entretanto,    deve ser observado que a expans&atilde;o para outros pa&iacute;ses n&atilde;o    &eacute; verificada de maneira inconteste quando se analisam as horas m&eacute;dias    anuais, o que n&atilde;o implica que determinadas categorias de trabalhadores    n&atilde;o tenham sentido o aumento de suas jornadas de trabalho. Tentativamente    poder-se-ia pensar que o alongamento da jornada de trabalho representado pela    reviravolta liberal norte-americana est&aacute; enfrentando forte resist&ecirc;ncia    dos/as trabalhadores/as de outros pa&iacute;ses do mundo, o que aparece nos    fr&aacute;geis indicadores de expans&atilde;o da tend&ecirc;ncia de alongamento    da jornada de trabalho por outros pa&iacute;ses.</font></P>     <p><font size="3"><b>A INTENSIFICA&Ccedil;&Atilde;O DO TRABALHO CONTEMPOR&Acirc;NEO</b>    A exposi&ccedil;&atilde;o feita at&eacute; agora sobre tempo de trabalho alicer&ccedil;ou-se    sobre a dimens&atilde;o de dura&ccedil;&atilde;o nele contida e que &eacute;    relevante por ser um par&acirc;metro de qualidade de vida, podendo ser lida    tamb&eacute;m como indicador do grau de explora&ccedil;&atilde;o do trabalho.    Deste ponto em diante, a exposi&ccedil;&atilde;o destacar&aacute; outra dimens&atilde;o,    a de intensidade, que se refere ao consumo de energias pessoais e grupais no    trabalho, expressa de outra maneira como sendo o esfor&ccedil;o despendido pelos/as    trabalhadores/as em seu labor cotidiano.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&Eacute; comum a literatura do campo n&atilde;o distinguir intensidade    de produtividade do trabalho, o que resulta em erro lastim&aacute;vel, porquanto,    se ambas as categorias s&atilde;o respons&aacute;veis por expressar incrementos    nos resultados obtidos do trabalho, as origens e as for&ccedil;as respons&aacute;veis    pela produ&ccedil;&atilde;o de tais resultados s&atilde;o completamente diferentes.    Reserva-se a categoria de produtividade para a obten&ccedil;&atilde;o de resultados    superiores em qualidade e quantidade, decorrentes de investimentos em tecnologias    materiais inovativas e organizativas que n&atilde;o requeiram maior consumo    das energias pessoais. Por outro lado, a categoria de intensidade refere-se    ao esfor&ccedil;o gasto pelos indiv&iacute;duos no processo de trabalho. A intensidade    tem a ver com o investimento das energias das pessoas com o trabalho. Refere-se    ao desgaste da pessoa com o trabalho.</font></P>     <p><font size="3">Alguns problemas metodol&oacute;gicos para investigar a intensidade    do trabalho e para aferir sua mensura&ccedil;&atilde;o s&atilde;o discutidos    por Fernex (4) e por Bartoli (5). O manual "Medindo a Produtividade" da OCDE    (6) distingue produtividade e intensidade quando registra que "a produtividade    do trabalho reflete somente parcialmente a produtividade do trabalho em termos    das capacidades pessoais dos trabalhadores ou da intensidade do seu esfor&ccedil;o",    mas n&atilde;o oferece uma medida concreta para o conceito.</font></P>     <p><font size="3">A partir da distin&ccedil;&atilde;o conceitual entre intensidade    e produtividade, &eacute; poss&iacute;vel imaginar um conjunto de situa&ccedil;&otilde;es    abstratas e te&oacute;ricas que iluminam a realidade concreta: o aumento de    produtividade combinado com aumento da intensidade do trabalho &eacute; comum    ser encontrado em diversos momentos da hist&oacute;ria, particularmente nos    per&iacute;odos de revolu&ccedil;&otilde;es industriais; j&aacute; aumento de    produtividade, sem eleva&ccedil;&atilde;o da intensidade do trabalho, somente    &eacute; poss&iacute;vel pela resist&ecirc;ncia dos/as trabalhadores/as a um    desgaste f&iacute;sico ou mental maior; eleva&ccedil;&atilde;o de intensidade,    sem eleva&ccedil;&atilde;o da produtividade, tende a acontecer em momentos de    reorganiza&ccedil;&atilde;o dos processos do trabalho, sem que tenha havido    ganhos tecnol&oacute;gicos, sendo o taylorismo um exemplo t&iacute;pico de uma    estrat&eacute;gia organizacional que em sua origem n&atilde;o dependia de investimentos    em tecnologia de inova&ccedil;&atilde;o, em investimentos em m&aacute;quinas    e equipamentos mais produtivos.</font></P>     <p><font size="3">A intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho &eacute; um fen&ocirc;meno    antigo na hist&oacute;ria do capitalismo ocidental. Foi descrito por Marx (7),    que se valeu da met&aacute;fora da porosidade do trabalho para explic&aacute;-la.    Tanto menos recortado por paradas, interrup&ccedil;&otilde;es, tempos de descanso,    intervalos de qualquer ordem – genericamente chamados de "tempos mortos" – mais    intenso &eacute; o trabalho, mais energias s&atilde;o consumidas do trabalhador    e mais resultados produz. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a16img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho e alongamento da jornada    s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es que podem conviver juntas enquanto essa uni&atilde;o    n&atilde;o colocar em risco a vida do trabalhador por excesso de envolvimento    com o trabalho. Por isso, Marx concebe a intensifica&ccedil;&atilde;o como uma    pr&aacute;tica de explora&ccedil;&atilde;o do trabalho que &eacute; colocada    em a&ccedil;&atilde;o pelos capitalistas de maneira sistem&aacute;tica a partir    do momento em que as horas de trabalho s&atilde;o controladas por meio de legisla&ccedil;&atilde;o    ou por movimentos sociais, e os empregadores ficam impedidos de obter mais trabalho    atrav&eacute;s do alongamento da jornada. Lan&ccedil;am m&atilde;o, ent&atilde;o,    do recurso &agrave; intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho. Alongamento da    jornada e intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho n&atilde;o tendem a operar    ao mesmo tempo.</font></P>     <p><font size="3">A intensidade foi objeto de estudo das principais correntes    de organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho dos s&eacute;culos XIX e XX, ainda    que o termo tenha perdido sua fun&ccedil;&atilde;o social cr&iacute;tica e sua    ess&ecirc;ncia de produ&ccedil;&atilde;o de maiores resultados tenha sido aplicada    sistematicamente para elevar a produ&ccedil;&atilde;o da mais-valia. Taylor,    no final do s&eacute;culo XIX, al&ccedil;ou os estudos dos tempos e dos movimentos    &agrave; categoria cient&iacute;fica, abrindo as portas para pr&aacute;ticas    vigentes at&eacute; os dias de hoje no trabalho, empreitada continuada e aprimorada    por H. Ford. T. Ohno n&atilde;o &eacute; menos pretensioso quando tra&ccedil;a    o objetivo de superar o m&eacute;todo de produ&ccedil;&atilde;o norte-americano    – leia-se o m&eacute;todo taylorista-fordista – que seria baseado sobre uma    estrutura de desperd&iacute;cios, pela ado&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios    de perda zero, da polival&ecirc;ncia e do trabalho em grupo.</font></P>     <p><font size="3">A partir da d&eacute;cada de 1980, come&ccedil;am a ser detectados    sinais de que uma nova onda de intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho (8)    dissemina-se pelo mundo, juntamente com o processo conhecido como reestrutura&ccedil;&atilde;o    produtiva. Esta onda &eacute; respons&aacute;vel, segundo Fairris (9), por um    acr&eacute;scimo imenso de acidentes e problemas do trabalho, verificados nos    Estados Unidos da Am&eacute;rica desde essa data.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">No Brasil, a intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho j&aacute;    se faz presente aos dias de hoje em diversos ramos de ocupa&ccedil;&otilde;es,    ainda que n&atilde;o esteja generalizada por todos, sendo as evid&ecirc;ncias    emp&iacute;ricas levantadas junto &agrave;quelas atividades mais expostas &agrave;    concorr&ecirc;ncia nacional e internacional que inicialmente constitu&iacute;ram    as portas de entrada dos trabalhos mais intensificados (10). &Eacute; assim    que a partir das avalia&ccedil;&otilde;es efetuadas pelos/as trabalhadores/as    em uma amostra representativa, bancos e finan&ccedil;as, telefonia e comunica&ccedil;&atilde;o,    al&eacute;m de grandes empresas de abastecimento, emergiram como os setores    que podem ser tomados como modelos de intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho    em nosso pa&iacute;s.</font></P>     <p><font size="3"><b>CONCLUS&Atilde;O</b> Desse relato sobre a dura&ccedil;&atilde;o    da jornada de trabalho e sobre seu grau de intensidade resulta que nos dias    de hoje convergem tend&ecirc;ncias que acumulam repercuss&otilde;es sobre a    explora&ccedil;&atilde;o do trabalho. Por um lado, a secular tend&ecirc;ncia    de redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho perde for&ccedil;a. Por outro,    as condi&ccedil;&otilde;es de trabalho agravam sua intensidade e os requerimentos    impostos aos trabalhadores/as, em meio a uma pl&ecirc;iade de outras tantas    exig&ecirc;ncias paralelas. A combina&ccedil;&atilde;o de tais elementos sugere    fortes impactos sobre a sa&uacute;de dos/as trabalhadores/as, em seus aspectos    f&iacute;sico, emocional e cognitivo.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Sadi Dal Rosso</b> &eacute; professor titular da Universidade    de Bras&iacute;lia, no Departamento de Sociologia, onde leciona sociologia do    trabalho. &Eacute; autor, entre outros livros, de </i>A jornada de trabalho    na sociedade – O castigo de Prometeu<i> (SP: LTr); </i>Debate sobre a redu&ccedil;&atilde;o    da jornada de trabalho<i> (SP: ABET); </i>A intensifica&ccedil;&atilde;o do    trabalho na sociedade contempor&acirc;nea<i> (SP: Boitempo, no prelo).</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Dal Rosso, S.. <i>A jornada de trabalho na sociedade – O    castigo de Prometeu</i>. S&atilde;o Paulo: LTr, pp. 225-262, 1996.</font><!-- ref --><p><font size="3">2. Evans, J.M., Lipoldt, D.C., Marianna, P. "Trends in working    hours in OECD Countries". OECD Labour Market and Social Policy Occasional Papers    nº . 45, <i>OECD Publishing</i>, pp. 7-8, 2001.</font><!-- ref --><p><font size="3">3. Dal Rosso, S. <i>O debate sobre a redu&ccedil;&atilde;o da    jornada de trabalho</i>. S&atilde;o Paulo: ABET, pp. 84-89, 1998.</font><!-- ref --><p><font size="3">4. Fernex, A. "Intensit&eacute; du travail, d&eacute;finition,    mesure, evolution". Colloque Intensification du Travail. Centre d'&Eacute;tudes    de l'Emploi, Paris, 2000.</font><!-- ref --><p><font size="3">5. Bartoli, M. "L'intensit&eacute; du travail" Th&egrave;se    pour le Doctorat d'&Eacute;tat en sciences &eacute;conomiques. Universit&eacute;    des Sciences Sociales de Grenoble, Suisse, 1980.</font><!-- ref --><p><font size="3">6. OCDE. "Medindo a produtividade". <i>OECD Publishing</i>,    pp. 14-15, 2002.</font><!-- ref --><p><font size="3">7. Marx, K. <i>O capital</i>. New York: International Publishers,    vol. 1, pp. 581-592, 1975.</font><!-- ref --><p><font size="3">8. Gollack, M., e Volkoff, S. "Citius, altius, fortius. L'intensification    du travail", <i>Actes de la Recherche en Sciences Sociales</i>, 114 (septembre),    pp. 54-67, 1996.</font><!-- ref --><p><font size="3">9. Fairris, D. "Towards a theory of work intensity". Colloque    Intensification du Travail. Centre d'&Eacute;tudes de l'Emploi, Paris, 2002.</font><!-- ref --><p><font size="3">10. Dal Rosso, S. <i>A intensifica&ccedil;&atilde;o do trabalho    na sociedade contempor&acirc;nea</i>. S&atilde;o Paulo: Boitempo (no prelo),    2006.</font> ]]></body><back>
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