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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a12img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <P><font size=5><b>DESIGUALDADES DE G&Ecirc;NERO E RA&Ccedil;A NO MERCADO DE    TRABALHO BRASILEIRO</b> </font></P>     <P><font size="3"><b>La&iacute;s Abramo</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3"> <font size=5><b>O</b></font> mercado de trabalho brasileiro    est&aacute; marcado por significativas e persistentes desigualdades de g&ecirc;nero    e ra&ccedil;a e esse &eacute; um aspecto que deve ser levado em conta nos processos    de formula&ccedil;&atilde;o, implementa&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o    das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas em geral, e, em particular, das pol&iacute;ticas    de emprego, inclus&atilde;o social e redu&ccedil;&atilde;o da pobreza. </font></P>     <p><font size="3">As diversas formas de discrimina&ccedil;&atilde;o est&atilde;o    fortemente relacionadas aos fen&ocirc;menos de exclus&atilde;o social que originam    e reproduzem a pobreza. S&atilde;o respons&aacute;veis pela superposi&ccedil;&atilde;o    de diversos tipos de vulnerabilidades e pela cria&ccedil;&atilde;o de poderosas    barreiras adicionais para que pessoas e grupos discriminados possam superar    a pobreza e ter acesso a um trabalho decente. No Brasil, as desigualdades de    g&ecirc;nero e ra&ccedil;a n&atilde;o s&atilde;o fen&ocirc;menos que est&atilde;o    referidos a "minorias" ou a grupos espec&iacute;ficos da sociedade. Pelo contr&aacute;rio,    s&atilde;o problemas que dizem respeito &agrave;s grandes maiorias da popula&ccedil;&atilde;o:    segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic&iacute;lios (PNAD)    2003, as mulheres representam 43% da Popula&ccedil;&atilde;o Economicamente    Ativa (PEA) no Brasil e os negros (de ambos os sexos) representam 46%. Somados,    correspondem a aproximadamente 70% da PEA (60 milh&otilde;es de pessoas). As    mulheres negras, por sua vez, correspondem a mais de 15 milh&otilde;es de pessoas    (18% da PEA) e, como resultado de uma dupla discrimina&ccedil;&atilde;o (de    g&ecirc;nero e ra&ccedil;a), apresentam uma situa&ccedil;&atilde;o de sistem&aacute;tica    desvantagem em todos os principais indicadores sociais e de mercado de trabalho.    </font></P>     <p><font size="3">As desigualdades de g&ecirc;nero e ra&ccedil;a s&atilde;o eixos    estruturantes da matriz da desigualdade social no Brasil que, por sua vez, est&aacute;    na raiz da perman&ecirc;ncia e reprodu&ccedil;&atilde;o das situa&ccedil;&otilde;es    de pobreza e exclus&atilde;o social. Por isso, enfrentar essas desigualdades    significa tratar de uma caracter&iacute;stica estrutural da sociedade brasileira,    cuja transforma&ccedil;&atilde;o &eacute; imprescind&iacute;vel para a supera&ccedil;&atilde;o    dos d&eacute;ficits de trabalho decente atualmente existentes, assim como para    o efetivo cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Mil&ecirc;nio.</font></P>     <p><font size="3">As desigualdades de g&ecirc;nero e ra&ccedil;a se expressam    claramente nos indicadores de mercado de trabalho, como tem sido demonstrado    por v&aacute;rios estudos e pesquisas recentes. A an&aacute;lise acurada, precisa    e sistem&aacute;tica desses indicadores e de sua evolu&ccedil;&atilde;o &eacute;    uma condi&ccedil;&atilde;o para a elabora&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas    e estrat&eacute;gias voltadas para altera&ccedil;&atilde;o desse quadro. </font></P>     <p><font size="3">A taxa de participa&ccedil;&atilde;o das mulheres no mercado    de trabalho brasileiro continua aumentando, mas ainda est&aacute; marcada por    uma forte diferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; taxa de participa&ccedil;&atilde;o    dos homens(1). A taxa de participa&ccedil;&atilde;o das mulheres mais pobres    e com menos escolaridade ainda &eacute; muito inferior &agrave; taxa de participa&ccedil;&atilde;o    das mulheres mais escolarizadas, o que indica a exist&ecirc;ncia de diferen&ccedil;as    importantes entre as mulheres relacionadas aos diferentes estratos de renda    aos quais elas pertencem, e a dificuldade adicional de inser&ccedil;&atilde;o    das mulheres pobres no mercado de trabalho.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Durante os anos 90 e come&ccedil;o da presente d&eacute;cada,    observa-se uma importante eleva&ccedil;&atilde;o nos n&iacute;veis de escolaridade    da Popula&ccedil;&atilde;o Economicamente Ativa (PEA), com uma significativa    diminui&ccedil;&atilde;o da porcentagem de pessoas com menos escolaridade e    um aumento nos n&iacute;veis superiores de escolaridade. No conjunto da PEA,    a porcentagem de pessoas com menos de quatro anos de estudo se reduziu de 35%    para 24%, com menos de oito anos passou de 67% para 53% e com mais de oito anos    cresceu de 33% para 47%.</font></P>     <p><font size="3">No entanto, observam-se diferen&ccedil;as importantes por g&ecirc;nero    e ra&ccedil;a. Ainda que esses avan&ccedil;os tenham beneficiado homens, mulheres,    negros e brancos, eles n&atilde;o se distribuiram igualmente entre esses grupos.    O n&iacute;vel de escolaridade das mulheres &eacute; claramente superior ao    dos homens, mas as desigualdades raciais n&atilde;o se reduzem. </font></P>     <p><font size="3">A taxa de desemprego de mulheres e negros &eacute; sistematicamente    superior &agrave; de homens e brancos e a taxa de desemprego das mulheres negras    &eacute; quase o dobro da dos homens brancos. </font></P>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m persistem importantes diferenciais de remunera&ccedil;&atilde;o    no mercado de trabalho brasileiro relacionadas ao sexo e &agrave; ra&ccedil;a/cor    das pessoas. Os rendimentos das mulheres s&atilde;o sistematicamente inferiores    aos dos homens, inclusive quando comparamos n&iacute;veis similares de escolaridade.    Por hora trabalhada, as mulheres recebem, em m&eacute;dia, 79% da remunera&ccedil;&atilde;o    m&eacute;dia dos homens (ou seja, 21% a menos) e os trabalhadores negros de    ambos os sexos recebem em m&eacute;dia a metade (50%) do que recebem o conjunto    dos trabalhadores brancos de ambos os sexos. Por sua vez, as mulheres negras    recebem apenas 39% do que recebem os homens brancos (ou seja, 61% a menos).    Por m&ecirc;s, essas diferen&ccedil;as s&atilde;o ainda mais acentuadas: as    mulheres recebem em m&eacute;dia 66% do que recebem os homens, os negros 50%    do que recebem os brancos, e as mulheres negras apenas 32% do que recebem os    homens brancos. </font></P>     <p><font size="3">Os rendimentos dos negros s&atilde;o sistematicamente inferiores    aos dos brancos, inclusive entre aqueles que t&ecirc;m o mesmo n&iacute;vel    de escolaridade. Em cada uma das faixas consideradas, inclusive entre aqueles    que t&ecirc;m estudos p&oacute;s-secund&aacute;rios (11 a 14 e 15 anos e mais),    os negros recebem aproximadamente 30% a menos que os brancos. Se comparamos    mulheres negras com homens brancos (ambos na faixa de 11 anos e mais de estudo),    elas recebem apenas 46% do que recebem os homens brancos por hora trabalhada.</font></P>     <p><font size="3">Esses dados p&otilde;em por terra um dos argumentos mais freq&uuml;entemente    utilizados para justificar os acentuados diferenciais de rendimento entre negros    e brancos, que &eacute; o fato do n&iacute;vel de escolaridade dos trabalhadores    negros, no seu conjunto, ser significativamente menor que o n&iacute;vel de    escolaridade dos trabalhadores brancos. Apesar disso ser verdade, o dado acima    indica que a diferen&ccedil;a de escolaridade n&atilde;o &eacute; suficiente    para explicar a diferen&ccedil;a de rendimentos e que, portanto, h&aacute; outros    fatores que a explicam, entre elas os mecanismos de segrega&ccedil;&atilde;o    ocupacional baseados na ra&ccedil;a/cor das pessoas e uma s&eacute;rie de mecanismos    diretos e indiretos de discrimina&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">Por outro lado, a segmenta&ccedil;&atilde;o ocupacional por    g&ecirc;nero e ra&ccedil;a persiste e exerce uma forte influ&ecirc;ncia sobre    os rendimentos e demais indicadores de qualidade de emprego de homens e mulheres,    negros e brancos. A porcentagem de ocupa&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias,    informais e de baixa qualidade sobre o total do emprego no Brasil &eacute; muito    significativa: 57% (2). Mas essas cifras tamb&eacute;m evidenciam importantes    diferen&ccedil;as de g&ecirc;nero e ra&ccedil;a: enquanto a propor&ccedil;&atilde;o    de ocupa&ccedil;&otilde;es informais e prec&aacute;rias sobre o total do emprego    masculino era de 54%, para as mulheres essa cifra era de 61% (ou seja, 13% superior).    Em termos de ra&ccedil;a essas desigualdades s&atilde;o ainda mais acentuadas:    foram classificadas como informais ou prec&aacute;rias 50,4% das ocupa&ccedil;&otilde;es    dos brancos (de ambos os sexos) e 65,3% das dos negros (de ambos os sexos),    o que configura uma diferen&ccedil;a de 29%. </font></P>     <p><font size="3">Uma grande propor&ccedil;&atilde;o da ocupa&ccedil;&atilde;o    feminina se concentra nos segmentos mais prec&aacute;rios do mercado de trabalho:    trabalhadores por conta pr&oacute;pria (com exce&ccedil;&atilde;o dos profissionais    ou t&eacute;cnicos), servi&ccedil;o dom&eacute;stico e ocupados sem remunera&ccedil;&atilde;o.    A porcentagem de mulheres ocupadas no servi&ccedil;o dom&eacute;stico (18%)    est&aacute; entre as mais altas entre os pa&iacute;ses latino-americanos. Se    somamos a isso a porcentagem de ocupadas sem remunera&ccedil;&atilde;o (15%),    chegamos a uma cifra de 33%. Isso significa que um ter&ccedil;o das mulheres    que trabalham no Brasil ou n&atilde;o recebem nenhuma remunera&ccedil;&atilde;o    pelo seu trabalho ou est&atilde;o ocupadas no servi&ccedil;o dom&eacute;stico.    Al&eacute;m disso, do total de ocupadas no servi&ccedil;o dom&eacute;stico,    apenas 27% t&ecirc;m carteira assinada (ou seja, mais de 2/3 delas n&atilde;o    est&atilde;o registradas e n&atilde;o gozam dos benef&iacute;cios previstos    na legisla&ccedil;&atilde;o do trabalho). </font></P>     <p><font size="3">Em todas essas formas prec&aacute;rias de ocupa&ccedil;&atilde;o    as mulheres negras est&atilde;o sobre-representadas em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave;s brancas: a porcentagem das que est&atilde;o empregadas no servi&ccedil;o    dom&eacute;stico &eacute; 23,3%, e a de ocupadas sem remunera&ccedil;&atilde;o    &eacute; de 17,5%, o que soma 40,8%. Entre as trabalhadoras no servi&ccedil;o    dom&eacute;stico, 71,2% das brancas e 76,2% das negras n&atilde;o t&ecirc;m    carteira assinada. </font></P>     <p><font size="3">A divulga&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica de dados e estat&iacute;sticas    desagregadas por sexo e ra&ccedil;a/cor (tais como os produzidos pela PNAD e    pela Pesquisa de Emprego e Desemprego – PED – realizada pela Funda&ccedil;&atilde;o    Seade e pelo Departamento Intersindical de Estat&iacute;sticas e Estudos Socioecon&ocirc;micos    (Dieese) tem contribu&iacute;do de forma muito importante para evidenciar as    desigualdades de g&ecirc;nero e ra&ccedil;a que caracterizam o mercado de trabalho    e a sociedade brasileiras. Desenvolver o conhecimento sobre as tend&ecirc;ncias    de evolu&ccedil;&atilde;o desses indicadores, assim como sobre os obst&aacute;culos    para uma inser&ccedil;&atilde;o mais igualit&aacute;ria de mulheres e negros    no mercado de trabalho &eacute; um aspecto fundamental das pol&iacute;ticas    que devem estar voltadas para a supera&ccedil;&atilde;o dessas desigualdades.    Por outro lado, a integra&ccedil;&atilde;o das dimens&otilde;es de g&ecirc;nero    e ra&ccedil;a &agrave; an&aacute;lise do mundo do trabalho ajuda n&atilde;o    apenas a entender os problemas vividos por mulheres e negros e os fatores que    os produzem, mas tamb&eacute;m a compreender melhor o funcionamento do mercado    de trabalho em seu conjunto, assim como a din&acirc;mica de produ&ccedil;&atilde;o    e reprodu&ccedil;&atilde;o das desigualdades sociais no Brasil. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>La&iacute;s Abramo</b> &eacute; diretora do escrit&oacute;rio    da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>NOTAS</b></font></P>     <p><font size="3">1. Essa an&aacute;lise est&aacute; baseada nos dados da PNAD    de 1992 a 2003, processados pela OIT.</font></P>     <p><font size="3">2. Nesse conjunto se incluem os assalariados sem carteira assinada,    os ocupados na microempresa, os trabalhadores por conta pr&oacute;pria, com    exce&ccedil;&atilde;o dos profissionais e t&eacute;cnicos, os ocupados sem remunera&ccedil;&atilde;o    e os trabalhadores no servi&ccedil;o dom&eacute;stico.</font></P>      ]]></body>
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