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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a24img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a24img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">C<SMALL>INEMA</small></font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a09linek.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Desemprego: como a vida pode perder o eixo</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">O notici&aacute;rio sobre o desemprego &eacute; farto em &iacute;ndices,    gr&aacute;ficos, tabelas e n&uacute;meros em geral. Poucas vezes, mesmo ao lado    de uma mat&eacute;ria de an&aacute;lise conjuntural ou estrutural da quest&atilde;o    do emprego, o foco &eacute; o desempregado. O impacto que a falta de trabalho    provoca em sua vida, na constru&ccedil;&atilde;o de sua identidade social e    auto-estima s&atilde;o temas pouco abordados na imprensa em geral.</font></P>     <p><font size="3">Na arte, por&eacute;m, a humaniza&ccedil;&atilde;o do tema &eacute;    mais freq&uuml;ente. E o cinema &eacute; um dos g&ecirc;neros que melhor tem    focado a situa&ccedil;&atilde;o. Existem os cl&aacute;ssicos – como <i>Ladr&otilde;es    de bicicleta</i> e <i>Tempos modernos</i> – reconhecidos marcos na abordagem    do p&oacute;s-guerra e da industrializa&ccedil;&atilde;o. Existe, por&eacute;m,    uma filmografia recente que tem conseguido representar a desorganiza&ccedil;&atilde;o    da vida do trabalhador a partir da perda de postos de trabalho, principal desdobramento    da globaliza&ccedil;&atilde;o e da informatiza&ccedil;&atilde;o nos meios de    produ&ccedil;&atilde;o. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Um deles &eacute; o espanhol <i>Segunda-feira ao sol</i>, dirigido    por Fernando Le&oacute;n de Aranoa, que retrata a cotidiano de oper&aacute;rios    ap&oacute;s o fechamento de um estaleiro naval na regi&atilde;o da Gal&iacute;cia,    adquirido por investidores coreanos. Mais do que a dif&iacute;cil sobreviv&ecirc;ncia    material desses metal&uacute;rgicos, a maior devasta&ccedil;&atilde;o decorrente    da aus&ecirc;ncia de trabalho &eacute; tirar o eixo da vida dessas pessoas.    Eles repetem a rotina do encontro, agora num bar chamado Aurora, onde os problemas    pessoais, antes latentes, tomam propor&ccedil;&otilde;es sem controle: quem    apenas bebia regularmente, caminha para o alcoolismo; aquele com tend&ecirc;ncia    &agrave; depress&atilde;o, busca o suic&iacute;dio; problemas de relacionamento    chegam ao div&oacute;rcio. Ao concentrar-se no drama pessoal de cada um, <i>Segunda-feira    ao sol</i> sintetiza um mal maior que afeta o continente europeu.</font></P>     <p><font size="3"><b>O DISCURSO DO DESEMPREGADO</b> Para a soci&oacute;loga da    Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), Nadya Ara&uacute;jo Guimar&atilde;es,    as formas como as pessoas lidam com o desemprego variam bastante. Ao fazer uma    pesquisa comparativa entre tr&ecirc;s regi&otilde;es metropolitanas do mundo    – S&atilde;o Paulo, Paris e T&oacute;quio – ela observou que os discursos e    os dramas vividos pelos desempregados s&atilde;o diferentes. "Quanto mais fraca    &eacute; a institucionaliza&ccedil;&atilde;o do trabalho, mais dificuldade as    pessoas t&ecirc;m de assumir que est&atilde;o desempregadas", diz. </font></P>     <p><font size="3">Em T&oacute;quio e Paris, onde os sistemas de prote&ccedil;&atilde;o    ao trabalhador s&atilde;o fortes, os desempregados recorrem &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es    de amparo que auxiliam na procura de outro emprego, al&eacute;m de oferecerem    um seguro-desemprego. J&aacute; em S&atilde;o Paulo, a situa&ccedil;&atilde;o    &eacute; diferente. "Como n&atilde;o h&aacute; prote&ccedil;&atilde;o, o trabalhador    precisa rapidamente buscar alguma fonte de renda, submetendo-se a ocupa&ccedil;&otilde;es    tempor&aacute;rias e subemprego", diz. Desse modo, muitas pessoas n&atilde;o    se assumem na condi&ccedil;&atilde;o de desempregadas. A soci&oacute;loga entrevistou    7 mil pessoas em S&atilde;o Paulo e percebeu que esse discurso de n&atilde;o    assumir o desemprego &eacute; muito recorrente. "As pessoas costumam dizer que    est&atilde;o 'se virando'", diz. </font></P>     <p><font size="3">Outra situa&ccedil;&atilde;o percebida durante a pesquisa foi    a mudan&ccedil;a constante de emprego ou o desemprego recorrente. Para Nadya    Guimar&atilde;es, com a fraca institucionaliza&ccedil;&atilde;o do trabalho    o fluxo de indiv&iacute;duos dentro do mercado de trabalho &eacute; grande,    &eacute; comum que um trabalhador passe por diferentes &aacute;reas. Um filme    que ilustra bem a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; o ingl&ecirc;s <i>Ou tudo    ou nada (The full monty)</i>, dirigido por Peter Cattaneo. Pela via do humor,    o filme exp&otilde;e o drama de seis oper&aacute;rios desempregados, que vivem    em Sheffield, outrora centro industrial do a&ccedil;o na Inglaterra, que, ap&oacute;s    v&aacute;rias tentativas frustradas de busca de emprego, encaram como &uacute;ltimo    recurso protagonizar um show de strip-tease masculino. A com&eacute;dia centra-se    na perda da identidade subjetiva do trabalhador e as conseq&uuml;&ecirc;ncias    em sua vida</font></P>     <p><font size="3"><b>FUGA DA REALIDADE</b> Em alguns casos, o aparecimento de    dist&uacute;rbios e doen&ccedil;as transforma a situa&ccedil;&atilde;o, que    j&aacute; &eacute; dif&iacute;cil, em completa desorganiza&ccedil;&atilde;o    da vida. &Eacute; o que retrata o filme franc&ecirc;s <i>A agenda</i>, de Laurente    Cantet. O medo de assumir, frente &agrave; fam&iacute;lia, a perda do emprego,    leva o personagem central a manter sua rotina inalterada. Todos os dias ele    sai para trabalhar e inventa hist&oacute;rias para sustentar a farsa. Essa situa&ccedil;&atilde;o,    retratada nas telas, &eacute; mais comum do que se imagina, diz Vanilda Paiva,    pedagoga e soci&oacute;loga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),    assim como o surgimento, tamb&eacute;m, de outros dist&uacute;rbios como a depress&atilde;o,    ang&uacute;stia e baixa auto-estima. </font></P>     <p><font size="3">"Os problemas se agravam &agrave; medida que o desemprego perdura    por longo tempo. Al&eacute;m das quest&otilde;es de ordem econ&ocirc;mica, o    sofrimento ps&iacute;quico que, n&atilde;o raro, acompanha esse processo, &eacute;    um dos aspectos mais duros do desemprego. A idade tamb&eacute;m &eacute; um    fator de extrema import&acirc;ncia. Um jovem pode, ainda, voltar para a casa    dos pais, devolver algo comprado a presta&ccedil;&atilde;o e manter elevada    a expectativa de conseguir outro trabalho. Pessoas com mais idade e com carreiras    anteriores encontram mais dificuldades, freq&uuml;entemente por serem consideradas    menos flex&iacute;veis no desempenho das novas tarefas, por pretenderem empregos    protegidos socialmente", diz Vanilda. </font></P>     <p><font size="3">Nadya Guimar&atilde;es acrescenta que problemas de relacionamento    podem ser real&ccedil;ados com o desemprego. Em um dos casos pesquisados, um    casal trabalhava em uma mesma empresa at&eacute; o marido ser despedido. Como    n&atilde;o aceitava o fato da mulher ter ficado, o marido pressionou a esposa    at&eacute; ela pedir demiss&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Casos extremos, presentes no cotidiano real, tamb&eacute;m s&atilde;o    bem retratados na fic&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o caso do recente <i>O corte</i>,    filme do grego Costa-Gavras, que conta a hist&oacute;ria de um executivo franc&ecirc;s    que ap&oacute;s ficar por dois anos desempregado, decide matar o ocupante de    seu antigo cargo e todos os que se candidatarem ao posto que deseja recuperar.    Uma situa&ccedil;&atilde;o limite que est&aacute; presente como possibilidade    sempre que o notici&aacute;rio retrata, de forma impessoal, os &iacute;ndices    de desemprego.</font> </P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Cau&ecirc; Nunes</i></font></P>     ]]></body>
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