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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>CENTEN&Aacute;RIO</b></font></P>     <P><font size="4"><b>A <SMALL>PINTURA DE</small> C<SMALL>&Eacute;ZANNE: VIDA SIMPLES,    ARTISTA PRIMOROSO</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">C&eacute;zanne ocupa um lugar m&aacute;ximo na hist&oacute;ria    da arte. N&atilde;o &eacute;, dentre seus grandes contempor&acirc;neos, o mais    popular: Renoir, Monet, van Gogh t&ecirc;m uma audi&ecirc;ncia maior. Por&eacute;m,    al&eacute;m de todos, C&eacute;zanne tem um lugar inabal&aacute;vel, tanto no    seu papel hist&oacute;rico, quanto na qualidade alt&iacute;ssima e sem desn&iacute;veis    de sua produ&ccedil;&atilde;o: &eacute; assim uma esp&eacute;cie de Johann Sebastian    Bach da pintura. Pouco reconhecido em seu tempo, viveu o suficiente, no entanto,    para perceber que sua obra se impunha. Em 1895, o marchand Ambroise Vollard    organizou a primeira grande exposi&ccedil;&atilde;o que o revelou aos contempor&acirc;neos.    Foram artistas jovens, &Eacute;mile Bernard ou Maurice Denis, que viram nele    ao mesmo tempo um mestre e um precursor. Vieram as cr&iacute;ticas perspicazes,    inteligentes, po&eacute;ticas de Gustave Geoffroy, Claude Roger Marx, Heine.    Os colecionadores iniciais tamb&eacute;m ajudaram a confirmar a estatura do    artista.</font></P>     <p><font size="3">Um dos problemas na abordagem de C&eacute;zanne &eacute; o fato    de que ele n&atilde;o se insere no fluxo de um movimento (sua participa&ccedil;&atilde;o    junto aos impressionistas &eacute; secund&aacute;ria) e de que ele se disp&otilde;e    como articula&ccedil;&atilde;o entre o s&eacute;culo XIX (Courbet) e XX (cubistas);    ou entre o romantismo de Delacroix e a serenidade de Poussin.</font></P>     <p><font size="3">Sobretudo a rela&ccedil;&atilde;o com o cubismo, por mais valorizadora    que seja, &eacute; um instrumento de perturba&ccedil;&atilde;o para se perceber    sua obra. C&eacute;zanne n&atilde;o pode ser reduzido ao papel de precursor:    C&eacute;zanne &eacute; C&eacute;zanne, um pintor com solu&ccedil;&otilde;es    prodigiosamente novas e est&aacute;veis, para uma obra cujo princ&iacute;pio    repousa na beleza de um equil&iacute;brio que se descobre em cada quadro como    novo problema a ser resolvido. Ele pr&oacute;prio certamente n&atilde;o gostaria    dessa situa&ccedil;&atilde;o, temeroso que era de qualquer recupera&ccedil;&atilde;o,    de qualquer explica&ccedil;&atilde;o que se encontrasse fora de seus pr&oacute;prios    quadros.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a28img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A pintura foi para C&eacute;zanne um trabalho de oper&aacute;rio,    um trabalho solit&aacute;rio, praticado quotidianamente, com esfor&ccedil;o,    com const&acirc;ncia, e sem a efervesc&ecirc;ncia da inspira&ccedil;&atilde;o    rom&acirc;ntica. A arte, para ele, tinha o papel de uma miss&atilde;o exemplar:    queria fazer quadros "que sejam uma li&ccedil;&atilde;o", como escreveu. Quanto    mais avan&ccedil;ava em idade, mais suas telas tornavam-se frutos amadurecidos    longamente pela reflex&atilde;o. Submetia-se &agrave; natureza, mas para trat&aacute;-la    como um jogo de tens&otilde;es a ser exasperado at&eacute; o equil&iacute;brio    mais alto.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Sua vida correu no oposto dos dramas aventurosos, no oposto    da trajet&oacute;ria de um van Gogh ou Gauguin. Nasceu e viveu na Proven&ccedil;a,    em Aix, teve poucas passagens por Paris e pela regi&atilde;o da &Icirc;le-de-France.    Teve amizades fortes, mas que se rompiam com freq&uuml;&ecirc;ncia – o mais    espetacular e radical sendo o corte que ele imp&ocirc;s &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es    com Zola, seu colega de escola, quando este &uacute;ltimo publicou <i>A obra</i>,    romance no qual C&eacute;zanne se reconheceu como o protagonista Claude Lantier.    Poucas rela&ccedil;&otilde;es no quotidiano, fam&iacute;lia reduzida: esposa,    filho, pais, irm&atilde; e cunhado. Suficientemente rico para viver de rendas,    para n&atilde;o se preocupar com o p&atilde;o de cada dia, n&atilde;o teve que    lutar por sua carreira de pintor. Contentou-se em fazer o que queria, sem dar    satisfa&ccedil;&otilde;es nem ao p&uacute;blico, nem &agrave; cr&iacute;tica.    N&atilde;o participava dos ambientes intelectuais de sua &eacute;poca, n&atilde;o    cultivava as mundanidades. Quando a notoriedade, bem tardia, come&ccedil;ou,    temia e evitava os importunos. Poucas confid&ecirc;ncias em mat&eacute;ria de    arte, e muito menos em mat&eacute;ria pessoal.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n4/a28img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Sua vida n&atilde;o foi excepcional em nada: ela apoiava-se    na rotina e na introspec&ccedil;&atilde;o que ofereciam tranq&uuml;ilidade para    o trabalho art&iacute;stico. Come&ccedil;ou a se formar na Escola de Desenho    municipal de Aix-en-Provence, freq&uuml;entava o museu da cidade. Foi para Paris,    fez estudos de nus na Acad&eacute;mie Suisse, que dispunha modelos para jovens    artistas, sem um ensino efetivo. Sua arte, nesse momento, parte de Courbet,    como testemunha o not&aacute;vel <i>Negro Cipi&atilde;o</i>, do Masp. Fascina-se    pelos venezianos, por Delacroix, por Daumier. Entra em contato com os impressionistas.    Desde 1863 tenta, sistematicamente, expor no Sal&atilde;o oficial, conseguindo    ser aceito apenas uma &uacute;nica vez, com um retrato, em 1882.</font></P>     <p><font size="3"><b>QUADROS SEM DATAS</b> Os especialistas com freq&uuml;&ecirc;ncia    divergem sobre os momentos e locais de execu&ccedil;&atilde;o de muitas telas.    &Eacute; dif&iacute;cil estabelecer uma evolu&ccedil;&atilde;o precisa; as divis&otilde;es    em per&iacute;odos que os historiadores da arte praticaram s&atilde;o bastante    grosseiras. A primeira &eacute;poca de sua obra, parisiense, que ele chamava    de "<i>peinture couillarde</i>" (o que pode ser traduzido livremente por "pintura    de bund&atilde;o"), mostra uma pincelada violenta, empastada, trabalhada com    a esp&aacute;tula, numa mat&eacute;ria pictural generosa, em que os negros s&atilde;o    muito presentes, sem evitar os efeitos crom&aacute;ticos contrastantes.</font></P>     <p><font size="3">Mas o trabalho vai se tornando cada vez mais reflexivo e lento    (C&eacute;zanne submetia seus modelos &agrave; tortura de horas em imobilidade,    e dezenas de sess&otilde;es de pose). Clareia e ilumina sua paleta progresssivamente    ("as sombras s&atilde;o azuis", dizia). Nos anos de 1880, percorre, a p&eacute;,    muitos quil&ocirc;metros di&aacute;rios no entorno de Aix-en-Provence consagrando-se    sobretudo &agrave; pintura da montanha de Santa Vit&oacute;ria, enorme rochedo    claro, que se destaca na terra vermelha. Com ela atinge o que se poderia chamar    de um classicismo do equil&iacute;brio. &Eacute; com os retratos, com as naturezas-mortas    e com a paisagem que esse dom&iacute;nio pictural se instala. Na consci&ecirc;ncia    do pintor esse dom&iacute;nio, no entanto, nunca existiu. Pintar para ele sempre    foi doloroso e frustrante. Pouco antes de morrer, em 1906, escreve a seu filho:    "Enfim, eu te diria que me torno, como pintor, mais l&uacute;cido diante da    natureza, mas que em mim, a realiza&ccedil;&atilde;o das sensa&ccedil;&otilde;es    &eacute; sempre muito penosa. N&atilde;o consigo chegar &agrave; intensidade    que se desenvolve diante dos meus sentidos, n&atilde;o tenho essa magn&iacute;fica    riqueza de colora&ccedil;&atilde;o que anima a natureza". </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Jorge Coli</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i><b>Jorge Coli</b> &eacute; cr&iacute;tico de arte e professor    de hist&oacute;ria da arte do Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas    (IFCH), da Unicamp.</i></font></P>      ]]></body>

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