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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a02img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>Para remover a palavra <i>ra&ccedil;a</i>    dos prontu&aacute;rios m&eacute;dicos no Brasil </b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><b>S&eacute;rgio D. J. Pena</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5><b>A</b></font> no&ccedil;&atilde;o de <i>ra&ccedil;as</i>    humanas tem sido usada n&atilde;o s&oacute; para estudar e sistematizar as popula&ccedil;&otilde;es    humanas, mas tamb&eacute;m para criar um esquema classificat&oacute;rio que    parece justificar a ordem social e a domina&ccedil;&atilde;o de alguns grupos    por outros. Assim, a persist&ecirc;ncia da cren&ccedil;a na exist&ecirc;ncia    de <i>ra&ccedil;as</i> est&aacute; ligada &agrave; hierarquiza&ccedil;&atilde;o    dos grupos humanos em uma escala de valor. Nesse sentido, tal persist&ecirc;ncia    &eacute; "t&oacute;xica", contamina e enfraquece a sociedade como    um todo. Neste artigo n&oacute;s queremos defender o ponto de vista de que a    classifica&ccedil;&atilde;o em <i>ra&ccedil;as</i> n&atilde;o tem um papel &uacute;til    na avalia&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica do paciente individual e que a medicina    brasileira s&oacute; teria a ganhar banindo-a de seus c&acirc;nones. Como o    espa&ccedil;o dispon&iacute;vel n&atilde;o permitir&aacute; entrar em detalhes    sobre todas as facetas deste complexo problema, sugiro ao leitor interessado    a consulta a outros textos recentes de nossa autoria sobre a mesma tem&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="3"><b>ORIGEM DA ID&Eacute;IA DE RA&Ccedil;AS HUMANAS E AINEXIST&Ecirc;NCIA    BIOL&Oacute;GICA DAS MESMAS</b> &Eacute; relevante lembrar que o conceito de    "ra&ccedil;as humanas" como entidades hier&aacute;rquicas distintas    &eacute; relativamente moderno, s&oacute; tendo emergido de forma expl&iacute;cita    ap&oacute;s o in&iacute;cio do tr&aacute;fico de escravos africanos, talvez    mesmo como uma tentativa de conciliar a consci&ecirc;ncia crist&atilde; com    as pr&aacute;ticas de atrocidades da escravid&atilde;o. A mais influente classifica&ccedil;&atilde;o    racial humana, baseada na diversidade morfol&oacute;gica que caracteriza popula&ccedil;&otilde;es    de diferentes continentes, foi a do antrop&oacute;logo alem&atilde;o Johann    Friedrich Blumenbach (1752- 1840). Em seu livro <i>De generis humani varietate    nativa</i> (Das variedades naturais da humanidade) ele prop&ocirc;s a exist&ecirc;ncia    de cinco principais <i>ra&ccedil;as</i> humanas: a caucas&oacute;ide, a mongol&oacute;ide,    a eti&oacute;pica, a americana e a malaia. A "ra&ccedil;a" que inclu&iacute;a    os nativos da Europa, Oriente M&eacute;dio, Norte da &Aacute;frica e &Iacute;ndia,    foi chamada <i>caucas&oacute;ide</i> porque Blumenbach achava que o "tipo"    humano perfeito era o encontrado nos habitantes das montanhas do C&aacute;ucaso.    Na &oacute;tica de Blumenbach, as ra&ccedil;as eram entidades fixas, quase esp&eacute;cies    diferentes. Vem da&iacute; a express&atilde;o <i>mulato</i> derivada de <i>mula</i>    (um animal h&iacute;brido entre esp&eacute;cies) para designar os filhos de    casamentos entre membros de diferentes grupos continentais humanos. Essa classifica&ccedil;&atilde;o    <i>racial</i> cientificamente obsoleta infelizmente persiste at&eacute; hoje    na medicina, onde a express&atilde;o <i>caucas&oacute;ide</i> ainda &eacute;    comumente usada. </font></p>     <p><font size="3">Os avan&ccedil;os da gen&eacute;tica molecular e o seq&uuml;enciamento    do genoma humano permitiram um exame detalhado da correla&ccedil;&atilde;o entre    a varia&ccedil;&atilde;o gen&ocirc;mica humana, a ancestralidade biogeogr&aacute;fica    e a apar&ecirc;ncia f&iacute;sica das pessoas e mostraram que os r&oacute;tulos    previamente usados para distinguir <i>ra&ccedil;as</i> n&atilde;o t&ecirc;m    significado biol&oacute;gico. Pode parecer f&aacute;cil distinguir fenotipicamente    um europeu de um africano ou de um asi&aacute;tico, mas tal facilidade desaparece    completamente quando procuramos evid&ecirc;ncias destas diferen&ccedil;as <i>raciais</i>    no genoma das pessoas. Uma pletora de linhas independentes de pesquisa molecular    fornece evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas incontrovert&iacute;veis de que    ra&ccedil;as humanas n&atilde;o existem do ponto de vista gen&eacute;tico ou    biol&oacute;gico. Apesar disto, o conceito de <i>ra&ccedil;as</i> persiste como    constru&ccedil;&atilde;o social e cultural em nossa sociedade. </font></p>     <p><font size="3"><b><i>RA&Ccedil;AS</i> HUMANAS NA MEDICINA BRASILEIRA</b> O    problema na medicina &eacute; que as <i>ra&ccedil;as</i> continuam a ser vistas    como verdades biol&oacute;gicas e n&atilde;o como meras constru&ccedil;&otilde;es    sociais! Como exemplo, basta ler a bula no medicamento Cozaar, um bloqueador    do receptor da angiotensina, vendido no Brasil pela Merck Sharp &amp; Dohme,    que cont&eacute;m o seguinte alerta: "Com base no estudo LIFE (Losartan    Intervention For Endpoint Reduction in Hypertension — Interven&ccedil;&atilde;o    com losartan para redu&ccedil;&atilde;o de desfechos na hipertens&atilde;o),    os benef&iacute;cios de COZAAR&reg; (Losartan pot&aacute;ssico, MSD) na morbidade    e mortalidade cardiovascular comparados aos do atenolol n&atilde;o se aplicam    a pacientes negros com hipertens&atilde;o e hipertrofia ventricular esquerda".    Este n&atilde;o &eacute; um exemplo isolado, pois sabemos que Estados Unidos,    bulas de 8% (15 entre 185) dos novos medicamentos introduzidos de 1995 a 1998    continham advert&ecirc;ncias sobre diferen&ccedil;as "raciais" em    sua efic&aacute;cia ou efeitos colaterais. Em 2005 a Food and Drug Administration    (FDA) aprovou o medicamento BiDil&reg; para tratamento da insufici&ecirc;ncia    card&iacute;aca congestiva, mas somente para negros. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Com base nos crit&eacute;rios de autoclassifica&ccedil;&atilde;o    do censo do IBGE, em 2000 a popula&ccedil;&atilde;o brasileira era composta    por 53,4% de brancos, 6,1% de pretos e 38,9% de pardos. O que representam esses    n&uacute;meros em termos de ancestralidade gen&eacute;tica? Essa &eacute; a    pergunta que tentamos responder usando as ferramentas da gen&eacute;tica molecular.    Os nossos estudos demonstraram que no povo brasileiro existe um alto &iacute;ndice    de mistura gen&eacute;tica que torna as caracter&iacute;sticas de apar&ecirc;ncia    f&iacute;sica, como cor da pele, olhos, cabelos, formatos dos l&aacute;bios    e do nariz, em indicadores muito pobres da origem geogr&aacute;fica dos ancestrais    de um determinado indiv&iacute;duo.</font></p>     <p><font size="3">A fauna e flora dependem muito da geografia. Assim, diferentes    origens geogr&aacute;ficas significam exposi&ccedil;&otilde;es diferentes a    elementos t&oacute;xicos do meio ambiente e a diferentes dietas. Como conseq&uuml;&ecirc;ncia,    emergiram polimorfismos gen&eacute;ticos nos genes dos sistemas enzim&aacute;ticos    de detoxifica&ccedil;&atilde;o, representando adapta&ccedil;&otilde;es seletivas    ao padr&atilde;o geogr&aacute;fico de elementos t&oacute;xicos da flora e dieta    locais. Essas varia&ccedil;&otilde;es est&atilde;o hoje em dia sendo detectadas    pelos seus efeitos farmacogen&eacute;ticos, j&aacute; que o nosso corpo usa    os mesmos sistemas enzim&aacute;ticos para metabolizar medicamentos. Podemos    usar em medicina cl&iacute;nica a apar&ecirc;ncia f&iacute;sica, e mais particularmente    a cor da pele, como um substituto dos testes gen&ocirc;micos espec&iacute;ficos?    A resposta &eacute; n&atilde;o, especialmente no Brasil, onde nossos dados mostram    que a correla&ccedil;&atilde;o entre cor e ancestralidade &eacute; muito imperfeita.    Espera-se que possamos em breve ter &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o testes    gen&ocirc;micos que nos permitam tra&ccedil;ar o perfil farmacogen&eacute;tico    do paciente e usar este perfil na decis&atilde;o cl&iacute;nica. At&eacute;    l&aacute;, devemos nos refrear de usar <i>ra&ccedil;a</i> como substituta dos    testes farmacogen&eacute;ticos. </font></p>     <p><font size="3">No consult&oacute;rio m&eacute;dico, o que est&aacute; sendo    examinado &eacute; um paciente individual e n&atilde;o um grupo populacional.    A autoclassifica&ccedil;&atilde;o ou a avalia&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica    do grupo racial de um paciente n&atilde;o tem nenhum valor em decis&otilde;es    sobre o diagn&oacute;stico, o tratamento farmacol&oacute;gico ou outras terapias.    Isto n&atilde;o quer dizer que a pigmenta&ccedil;&atilde;o da pele do (a) paciente    e outras caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas n&atilde;o devem ser observadas    e devidamente anotadas. Elas s&atilde;o partes integrais do exame f&iacute;sico    e podem ter implica&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas. O que queremos defender    &eacute; a retirada da express&atilde;o <i>ra&ccedil;a</i> dos prontu&aacute;rios    m&eacute;dicos no Brasil. </font></p>     <p><font size="3">Alguns autores t&ecirc;m argumentado que as <i>ra&ccedil;as</i>    podem constituir-se em sub-rogadas de vari&aacute;veis n&atilde;o-gen&eacute;ticas    sociais e culturais, e que abrir m&atilde;o dessa classifica&ccedil;&atilde;o    significaria perda de correla&ccedil;&otilde;es ambientais e preju&iacute;zo    para a medicina e a popula&ccedil;&atilde;o. Mas essa utilidade hipot&eacute;tica    da classifica&ccedil;&atilde;o racial deve ser considerada no contexto dos seus    poss&iacute;veis riscos, sob uma &oacute;tica de rela&ccedil;&atilde;o risco-benef&iacute;cio,    como tudo em medicina. Temos de tomar cuidado de n&atilde;o dar legitimidade    a falsos indicadores e fazer todo o esfor&ccedil;o para abandonar essas t&ecirc;nues    correla&ccedil;&otilde;es, atacando com firmeza as verdadeiras vari&aacute;veis    gen&eacute;ticas e ambientais que afetam sa&uacute;de e doen&ccedil;a. </font></p>     <p><font size="3"><b>PELO BANIMENTO DO CONCEITO</b> Assim, o conceito de ra&ccedil;a    lembra uma casca de banana: vazio e perigoso. Vazio, porque sabemos que ra&ccedil;as    humanas n&atilde;o existem como entidades biol&oacute;gicas. Perigoso, porque    no passado, a cren&ccedil;a de que <i>ra&ccedil;as</i> humanas possu&iacute;am    diferen&ccedil;as biol&oacute;gicas substanciais e bem demarcadas contribuiu    para justificar discrimina&ccedil;&atilde;o, explora&ccedil;&atilde;o e atrocidades,    mesmo no contexto m&eacute;dico. </font></p>     <p><font size="3">Existe consenso entre geneticistas e antrop&oacute;logos que    a &uacute;nica divis&atilde;o biologicamente coerente da esp&eacute;cie humana    &eacute; em bilh&otilde;es de indiv&iacute;duos e n&atilde;o em um punhado de    <i>ra&ccedil;as</i>. Esse fato deve ser absorvido pela sociedade e incorporado    &agrave;s suas convic&ccedil;&otilde;es e atitudes morais. Vimos acima que independente    da cor, a vasta maioria dos brasileiros tem simultaneamente um grau significativo    de ancestralidade africana, europ&eacute;ia e amer&iacute;ndia. O genoma de    cada brasileiro &eacute; um mosaico altamente vari&aacute;vel e individual formado    por contribui&ccedil;&otilde;es das tr&ecirc;s ra&iacute;zes ancestrais. Assim,    n&atilde;o faz sentido falar em afrodescendentes ou eurodescendentes porque    a maior parte dos brasileiros tem uma propor&ccedil;&atilde;o significativa    de ascend&ecirc;ncia africana, europ&eacute;ia e amer&iacute;ndia. Al&eacute;m    disso, por causa da pobre correla&ccedil;&atilde;o entre cor e ancestralidade,    n&atilde;o faz sentido falar sobre "popula&ccedil;&otilde;es" de brasileiros    brancos ou de brasileiros negros. Assim, a &uacute;nica maneira de lidar eticamente    com a variabilidade gen&eacute;tica dos brasileiros &eacute; individualmente,    como seres humanos &uacute;nicos e singulares nos seus genomas mosaicos e nas    suas hist&oacute;rias de vida. Do ponto de vista m&eacute;dico, esta conscientiza&ccedil;&atilde;o    nos leva a propor que o conceito de <i>ra&ccedil;a</i> deveria ser banido da    medicina brasileira e que a palavra <i>ra&ccedil;a</i> deve ser eliminada dos    nossos prontu&aacute;rios cl&iacute;nicos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="3"><i><b>S&eacute;rgio D. J. Pena</b> &eacute; docente do Departamento    de Bioqu&iacute;mica e Imunologia, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)</i></FONT></p>      ]]></body>
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