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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="5"><b>EPISTOLOGRAFIA E CR&Iacute;TICA GEN&Eacute;TICA</b></FONT></p>     <p><FONT size="3"><b>Marcos Antonio de Moraes</b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <FONT size="3"><b><font size=5>A</font></b> correspond&ecirc;ncia de escritores,    artistas pl&aacute;sticos e m&uacute;sicos, documenta&ccedil;&atilde;o de car&aacute;ter    privado que vem suscitando grande interesse editorial no Brasil, abre-se para    pelo menos tr&ecirc;s fecundas perspectivas de estudo. Pode-se, inicialmente,    recuperar na carta a express&atilde;o testemunhal que define um perfil biogr&aacute;fico.    Confid&ecirc;ncias e impress&otilde;es espalhadas pela correspond&ecirc;ncia    de um artista, contam a trajet&oacute;ria de uma vida, delineando uma psicologia    singular que ajuda a compreender os meandros da cria&ccedil;&atilde;o da obra.    A segunda possibilidade de explora&ccedil;&atilde;o do g&ecirc;nero epistolar    procura apreender a movimenta&ccedil;&atilde;o nos bastidores da vida art&iacute;stica    de um determinado per&iacute;odo. Nesse sentido, as estrat&eacute;gias de divulga&ccedil;&atilde;o    de um projeto est&eacute;tico, as dissens&otilde;es nos grupos e os coment&aacute;rios    acerca da produ&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea aos di&aacute;logos contribuem    para que se possa compreender que a cena art&iacute;stica (livros e peri&oacute;dicos,    exposi&ccedil;&otilde;es, audi&ccedil;&otilde;es, alterca&ccedil;&otilde;es    p&uacute;blicas) tem ra&iacute;zes profundas nos "bastidores", onde,    muitas vezes, situam-se as linhas de for&ccedil;a do movimento. Um terceiro    vi&eacute;s interpretativo v&ecirc; o g&ecirc;nero epistolar como "arquivo    da cria&ccedil;&atilde;o", espa&ccedil;o onde se encontram fixadas a g&ecirc;nese    e as diversas etapas de elabora&ccedil;&atilde;o de uma obra art&iacute;stica,    desde o embri&atilde;o do projeto at&eacute; o debate sobre a recep&ccedil;&atilde;o    cr&iacute;tica favorecendo a sua eventual reelabora&ccedil;&atilde;o. A carta,    nesse sentido, ocupa o estatuto de cr&ocirc;nica da obra de arte. A cr&iacute;tica    gen&eacute;tica, ao considerar a epistolografia um "canteiro de obras"    ou um "ateli&ecirc;", busca descortinar a trama da inven&ccedil;&atilde;o,    o desenho de um ideal est&eacute;tico, quando examina as faces dos processos    da cria&ccedil;&atilde;o.</FONT></p>     <p><font size="3">Nessa &uacute;ltima dire&ccedil;&atilde;o, tanto mais f&eacute;rtil    ser&aacute; o terreno epistolar, quando os interlocutores definem contratos    mais ou menos expl&iacute;citos, nos quais a troca de opini&atilde;o sobre trabalhos    em desenvolvimento fundamenta os passos da cria&ccedil;&atilde;o, muitas vezes    vista como a&ccedil;&atilde;o compartilhada. Escreve M&aacute;rio de Andrade    ao amigo Manuel Bandeira, em outubro de 1922: "Para mim a melhor homenagem    que se pode fazer a um artista &eacute; discutir-lhe as realiza&ccedil;&otilde;es,    procurar penetrar nelas, e dizer francamente o que se pensa" (1). Em vista    dessa ostensiva abertura para o debate, a produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica,    colocada &agrave; aprecia&ccedil;&atilde;o do outro, se faz, em muitos momentos,    a quatro m&atilde;os, diluindo o conceito de obra como produto solipsista ou    composta sob a &eacute;gide rom&acirc;ntica do "g&ecirc;nio". Tamb&eacute;m    o contrato da amizade formulado pelo artista pl&aacute;stico H&eacute;lio Oiticica,    em carta &agrave; sua colega de of&iacute;cio Lygia Clark, em 1 de fevereiro    de 1964 – "voc&ecirc; &eacute; realmente uma amiga insubstitu&iacute;vel,    uma das pouqu&iacute;ssimas pessoas com quem consigo me comunicar" (2)    – propicia a formula&ccedil;&atilde;o de intenso di&aacute;logo em torno da    arte e da vida art&iacute;stica brasileira e europ&eacute;ia, o que n&atilde;o    exclui momentos de tens&atilde;o no plano das rela&ccedil;&otilde;es pessoais.    Essas cartas tornam-se espa&ccedil;os testemunhais que logram tanto historiar    fases do pensamento est&eacute;tico dos interlocutores, quanto dar contornos    cr&iacute;tico-interpretativos ao momento art&iacute;stico de 1964 a 1974.</font></p>     <p><font size="3">Na <i>Correspond&ecirc;ncia M&aacute;rio de Andrade &amp; Manuel    Bandeira</i>, os exemplos de interven&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua nas etapas    do processo criativo s&atilde;o contundentes, abarcando desde a sugest&atilde;o    de troca de palavras em um poema, passando pela proposta de reconstru&ccedil;&atilde;o    estrutural na obra, como &eacute; o caso do romance/raps&oacute;dia <i>Macuna&iacute;ma</i>,    julgado em certo ponto do entrecho "descosido" por Bandeira, at&eacute;    o apagamento total de um texto, considerada a opini&atilde;o inteiramente desfavor&aacute;vel    do interlocutor. Essa correspond&ecirc;ncia t&atilde;o prof&iacute;cua de situa&ccedil;&otilde;es    relevantes ao debate sobre o processo de cria&ccedil;&atilde;o ainda prop&otilde;e    uma reflex&atilde;o a respeito da dilui&ccedil;&atilde;o do conceito de autor.    Manuel Bandeira insere em "Camel&ocirc;s" um verso de poema que M&aacute;rio    decidiu seq&uuml;estrar, n&atilde;o o publicando. Pede "licen&ccedil;a    para o pl&aacute;gio", em carta de 2 de dezembro de 1924: "Me d&aacute;    aquele ‘chi que engra&ccedil;ado’?" M&aacute;rio de Andrade, na carta-resposta,    aprova a inser&ccedil;&atilde;o daquela frase t&atilde;o coloquial no poema,    desqualificando o sentido estrito de autoria: "O ‘Chi que engra&ccedil;ado!’    afinal de contas n&atilde;o &eacute; meu, Manuel. Toda a gente diz isso no Brasil.    Eu j&aacute; em v&aacute;rios artigos empreguei o que engra&ccedil;ado &#91;…&#93;,    estou me lembrando. ‘Camel&ocirc;s’ &eacute; uma del&iacute;cia. Conserva o    ‘Chi, que engra&ccedil;ado’ que &eacute; de toda a gente." (3) Nessa correspond&ecirc;ncia    imp&otilde;e-se o conceito de alter ego. Situados no mesmo plano intelectual    e art&iacute;stico, M&aacute;rio e Bandeira puderam estabelecer o di&aacute;logo    franco da cr&iacute;tica, capaz de interferir na produ&ccedil;&atilde;o de ambos.    "Aqui v&atilde;o de volta os teus poemas", escreve Bandeira em outubro    de 1924. "Li-os, reli-os e, como fiz de outras vezes cortei, emendei, ajuntei,    pintei o sete! Tudo, por&eacute;m, a l&aacute;pis e lev&iacute;ssimo, de sorte    que facilmente se apagam! Fiz como se os versos fossem feitos s&oacute; para    mim e muitas vezes mesmo por mim. Sou o teu maior admirador, mas a minha admira&ccedil;&atilde;o    &eacute; rabugenta e resmungona."(4).</font></p>     <p><font size="3">A correspond&ecirc;ncia ativa e passiva do pol&iacute;grafo    M&aacute;rio de Andrade afirma-se de modo singular na epistolografia brasileira,    como rica seara onde se logra facilmente surpreender os "arquivos da cria&ccedil;&atilde;o",    termo hoje vinculado &agrave; cr&iacute;tica gen&eacute;tica. Nas cartas assinadas    pelo autor de <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>, conhecidas parcialmente em    quase trinta volumes e objeto da pesquisa "Correspond&ecirc;ncia Reunida    de M&aacute;rio de Andrade", coordenada pelo signat&aacute;rio deste artigo,    divisa-se a formula&ccedil;&atilde;o de consistentes e tentaculares projetos    de car&aacute;ter intelectual, art&iacute;stico e pol&iacute;tico. Na cr&ocirc;nica    "Amadeu Amaral", no <i>Estado de S. Paulo</i>, em 24 de dezembro de    1939, M&aacute;rio define o espectro da carta a partir dos anos de 1920, capaz    de ser o ve&iacute;culo e o lugar prop&iacute;cio a discuss&otilde;es de v&aacute;rias    ordens, discurso fundado em uma linguagem nova, bastante sedutora porque recusa    a ret&oacute;rica vazia e a afeta&ccedil;&atilde;o. Para o escritor, que a si    pr&oacute;prio, ludicamente, chamou-se de "epistoloman&iacute;aco",    as "cartas com assunto, falando mal dos outros, xingando, contando coisas,    dizendo palavr&otilde;es, discutindo problemas est&eacute;ticos e sociais, cartas    de pijama, onde as vidas se vivem, sem mandar respeitos &agrave; excelent&iacute;ssima    esposa do pr&oacute;ximo nem descrever crep&uacute;sculos, sem dan&ccedil;ar    minuetos sobre elei&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas e doen&ccedil;as do f&iacute;gado:    s&oacute; mesmo com o modernismo se tornaram uma forma de vida em nossa literatura".    (5).</font></p>     <p><font size="3">O processo de cria&ccedil;&atilde;o espelha-se com nitidez nas    cartas de M&aacute;rio. Em algumas delas, o escritor empreende o relato testemunhal    do ato de cria&ccedil;&atilde;o, tendo por modelo o conhecido ensaio do poeta    e ensa&iacute;sta norte-americano Edgar Allan Poe, "A filosofia da composi&ccedil;&atilde;o",    de 1845. Contudo, o contar-se do escritor modernista, embora sempre minucioso,    difere substancialmente do texto elaborado pelo autor de <i>O corvo</i>, que    afirma a express&atilde;o de autodom&iacute;nio e da precis&atilde;o milim&eacute;trica    nas escolhas de imagens e de palavras. M&aacute;rio, contrariamente, assume    a impossibilidade de abarcar todos os n&iacute;veis de conhecimento do arte-fazer    que se encontra inelutavelmente mergulhado nos turvos escanhinhos da psique:    "Est&aacute; claro que certas palavras, certos vocativos, por mais que    eu me psicanalise, n&atilde;o consigo descobrir donde me vieram &#91;…&#93;. Mas vibram    como palavras, s&atilde;o express&otilde;es-palavras que me parecem sugestivas    e por isso deixei elas assim mesmo"(6).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O desejo de conhecer o mecanismo da cria&ccedil;&atilde;o imp&otilde;e-se    ao escritor, ao recusar a id&eacute;ia de processo criativo domesticado. M&aacute;rio    de Andrade parece impor a moral do artista verdadeiro: o ser fatalizado, consciente    de sua t&eacute;cnica expressiva e insaci&aacute;vel pelo conhecimento dos subterr&acirc;neos    de si e de sua arte. "Faz uns dois anos ou pouco mais me apaixonei pelo    fen&ocirc;meno da cria&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica" (7), escreve M&aacute;rio    a Carlos Drummond de Andrade, em 24 de julho de 1944. Essa afirma&ccedil;&atilde;o    brotava como desdobramento de uma carta anterior, de 23 de junho, na qual M&aacute;rio    descrevia a g&ecirc;nese de "Num filme de B. de Mille", versos destinados    ao <i>Lira paulistana</i>, livro que marcava para ele uma "fase nova e    combativa". O aprofundamento nas complexas engrenagens do texto liter&aacute;rio    definia o retrato de um tempo de ebuli&ccedil;&atilde;o l&iacute;rica (a "louca"),    no qual, confidenciava o escritor, pudera, em uma s&oacute; semana, escrever    16 poemas, a partir da descoberta de algumas notas tomadas em 1936, em um caderninho    de bolso.</font></p>     <p><font size="3">A singularidade dessas duas extensas cartas e de uma outra endere&ccedil;ada    ao jovem jornalista Carlos Lacerda, em 5 de abril de 1944, na qual M&aacute;rio    procurava descortinar o emaranhado psicol&oacute;gico que desencadeou a elabora&ccedil;&atilde;o    do longo poema "O carro da mis&eacute;ria", situa-se na proposi&ccedil;&atilde;o    de reflexividade sobre o pr&oacute;prio ato de criar, em sua dimens&atilde;o    multif&aacute;ria. "Principiei dando aten&ccedil;&atilde;o mais cuidadosa    aos meus processos de cria&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o pra modificar coisa    nenhuma, n&atilde;o por reconhecer a menor insinceridade nos meus processos    de cria&ccedil;&atilde;o, mas para verific&aacute;-los". Nesse sentido,    o discurso epistolar de M&aacute;rio de Andrade acolhe, para al&eacute;m das    pegadas da cria&ccedil;&atilde;o, o olhar sobre o pr&oacute;prio processo.</font></p>     <p><font size="3">Ao lado desse trabalho de sondagem do trajeto criativo, tendo    em vista a obra em sua &uacute;ltima vers&atilde;o, localiza-se na correspond&ecirc;ncia    de M&aacute;rio de Andrade uma constela&ccedil;&atilde;o de depoimentos que    permitem ao estudioso da cr&iacute;tica gen&eacute;tica acompanhar o tortuoso    processo de produ&ccedil;&atilde;o de um texto, em suas diversas etapas. <i>Macuna&iacute;ma</i>,    por exemplo, "se conta" em uma quantidade consider&aacute;vel de missivas    a diversos remetentes. A partilha do projeto liter&aacute;rio em processo de    escrita, as inten&ccedil;&otilde;es sub-rept&iacute;cias da narrativa e da personagem,    o trabalho de reelabora&ccedil;&atilde;o de vers&otilde;es, e a recep&ccedil;&atilde;o    cr&iacute;tica da obra encontram guarida nas cartas. O depoimento circunstanciado    do remetente sobre o pr&oacute;prio trabalho instiga a participa&ccedil;&atilde;o    do destinat&aacute;rio, favorecendo debates que contribuem para que o autor    possa ter um conhecimento cr&iacute;tico de seu texto. O interlocutor &eacute;,    ali&aacute;s, chamado muitas vezes a colaborar: "Olhe, &#91;Manuel Bandeira&#93;    pergunte como coisa de voc&ecirc;, pro Gilberto &#91;Freyre&#93; se ele sabe o nome    de alguma rendeira c&eacute;lebre de Pernambuco ou do Nordeste qualquer &#91;…&#93;.    &Eacute; pro <i>Macuna&iacute;ma</i>" (8). A carta tamb&eacute;m logra    apontar matrizes da cria&ccedil;&atilde;o do romance, remetendo o pesquisador    a notas marginais em livros da biblioteca de M&aacute;rio, onde se poder&aacute;    recuperar uma fase escondida do percurso gen&eacute;tico. Assim, a carta sinaliza    a obra Vom <i>Roraima zum Orinoco</i> de Kock Grueberg; e nas p&aacute;ginas    desse volume, desvelam-se anota&ccedil;&otilde;es &agrave;s margens do texto    em alem&atilde;o, configurando-se como notas pr&eacute;vias de <i>Macuna&iacute;ma</i>.    Jos&eacute;-Luis Diaz, em seu importante ensaio "Qual gen&eacute;tica para    a correspond&ecirc;ncia", sugere a organiza&ccedil;&atilde;o desse material    heterog&ecirc;neo, ao pensar a necessidade de se "compreender sobre quais    ‘momentos’ da g&ecirc;nese as trocas epistolares convergem preferencialmente:    elabora&ccedil;&atilde;o pr&eacute;-escritural (<i>inventio</i>), organiza&ccedil;&atilde;o    (<i>dispositio</i>), formula&ccedil;&atilde;o estil&iacute;stica (<i>elocutio</i>),    ou ainda &#91;…&#93; ap&oacute;s o evento da publica&ccedil;&atilde;o. (O que nos lembra    que a g&ecirc;nese &eacute; um processo intermin&aacute;vel, que n&atilde;o    se conclui nem mesmo ap&oacute;s a morte do autor, e que se prolonga por toda    a pesquisa gen&eacute;tica posterior &#91;…&#93;"(9). Resta, finalmente, ao estudioso    da cr&iacute;tica gen&eacute;tica, diante de um dossi&ecirc; amplo de confid&ecirc;ncias    e reflex&otilde;es, superar as contradi&ccedil;&otilde;es presentes nos relatos,    bem como as eventuais fic&ccedil;&otilde;es da g&ecirc;nese e as armadilhas    do memorialismo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a15img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A correspond&ecirc;ncia passiva de M&aacute;rio de Andrade,    composta de 6.951 documentos, indexada em projetos coordenados pela professora    doutora Tel&ecirc; Ancona Lopez, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade    de S&atilde;o Paulo, revela igualmente grande potencial de pesquisa no campo    dos "arquivos da cria&ccedil;&atilde;o". Considerando a din&acirc;mica    e a consist&ecirc;ncia dos di&aacute;logos constru&iacute;dos pelo autor de    <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>, seus interlocutores – artistas pl&aacute;sticos,    m&uacute;sicos, ficcionistas, poetas, jovens ou nomes consolidados no panorama    art&iacute;stico brasileiro – encontram campo aberto para mergulhos na cria&ccedil;&atilde;o.    Os pintores Di Cavalcanti, Anita Malfatti e C&iacute;cero Dias, assim com o    escultor Victor Brecheret plantam no terreno da carta a express&atilde;o essencial    de seu trabalho, desenhos como express&atilde;o l&uacute;dica e esbo&ccedil;os    de obras em processo ou conclu&iacute;das, desejando compartilhar o trabalho    de inven&ccedil;&atilde;o e ao mesmo tempo, de certa maneira, aspirando a eventuais    sugest&otilde;es do amigo que, em muitos momentos, atuou como cr&iacute;tico    de arte na imprensa. Essas cartas, trazendo <i>croquis</i> que sugerem debates    e outras que apenas exibem ilustra&ccedil;&otilde;es aut&ocirc;nomas ou vinculadas    &agrave;s mensagens, ganham estatuto de obra de arte, com a mesma import&acirc;ncia    da tela ou de outro suporte apropriado &agrave; pintura e ao desenho, porque    s&atilde;o documentos &uacute;nicos. No campo da m&uacute;sica, as cartas de    Francisco Mignone, Luciano Gallet e Camargo Guarnieri a M&aacute;rio de Andrade    acolhem partituras e conceitos est&eacute;tico-musicais, incitando a cr&iacute;tica    e a cria&ccedil;&atilde;o conjunta daquele que lecionava no Conservat&oacute;rio    Dram&aacute;tico e Musical de S&atilde;o Paulo e se batia por uma express&atilde;o    musical de car&aacute;ter brasileiro.</font></p>     <p><font size="3">O ficcionista e o poeta, ao colocar em marcha, na carta, o seu    instrumento cotidiano, a escrita, promove, em muitos momentos, o tr&acirc;nsito    entre o discurso liter&aacute;rio e o epistolar. A carta torna-se, assim, territ&oacute;rio    da cria&ccedil;&atilde;o. Sob essa perspectiva, deve ser compreendida a carta    de Oswald de Andrade a M&aacute;rio, de 1 de mar&ccedil;o de 1923, escrita em    Paris, na qual o texto epistologr&aacute;fico acolhe a personagem Serafim Ponte    Grande e suas perip&eacute;cias no oriente, narrativa depois inserida no romance    de mesmo nome, s&oacute; publicado em 1933. O mesmo se d&aacute; em carta de    Manuel Bandeira a M&aacute;rio, no que se refere &agrave; g&ecirc;nese do poema    "Porquinho-da-&iacute;ndia" que, &agrave; primeira vista, parece ter    nascido no pr&oacute;prio corpo da carta, ou melhor, no fluxo da escrita e das    lembran&ccedil;as do poeta (10).</font></p>     <p><font size="3">Esse caso, especificamente, traz &agrave; tona uma pertinente    quest&atilde;o levantada por Jos&eacute;-Luis Diaz. O ensa&iacute;sta nos alerta    que devemos "desconfiar da g&ecirc;nese ‘exibicionista’, mais ou menos    truncada e encenada". Nessa dire&ccedil;&atilde;o, passamos a colocar em    permanente suspei&ccedil;&atilde;o a narrativa testemunhal vazada em correspond&ecirc;ncia.    A cr&iacute;tica gen&eacute;tica precisa dar passos cautelosos no universo da    epistolografia, assim como os estudiosos do memorialismo e os historiadores    levam em conta que toda carta propicia a formula&ccedil;&atilde;o de <i>personae</i>,    pois o sujeito molda-se como personagem em face do interlocutor. Essa inven&ccedil;&atilde;o    de si (<i>mise-en-sc&egrave;ne</i>), da qual o remetente pode ter maior ou menor    grau de consci&ecirc;ncia, forja sempre estrat&eacute;gias de sedu&ccedil;&atilde;o.    Tornando ainda mais complexa a natureza do g&ecirc;nero epistologr&aacute;fico,    deve-se considerar que a carta encontra-se ancorada em um ponto da trajet&oacute;ria    de vida do sujeito. Em vista disso, uma id&eacute;ia solidamente defendida em    certo momento poder&aacute; ser reformulada ao longo da correspond&ecirc;ncia,    modificando-se at&eacute; atingir o campo diametralmente oposto. Nesse ambiente    movedi&ccedil;o, a verdade que a carta eventualmente cont&eacute;m – a do sujeito    em determinada inst&acirc;ncia, premido por inten&ccedil;&otilde;es e desejos    – &eacute; datada, cambiante e prenhe de idiossincrasias.</font></p>     <p><font size="3">Tomo como exemplo emblem&aacute;tico da poss&iacute;vel exist&ecirc;ncia    de uma "g&ecirc;nese ‘exibicionista’" a carta de Manuel Bandeira a    M&aacute;rio de Andrade, remetida do Rio de Janeiro, em 23 de mar&ccedil;o de    1926. Transcrevo o trecho inicial dela: "M&aacute;rio./N&atilde;o gostei    que o Dante &#91;Milano&#93; tivesse dado o meu madrigal pra Germaninha &#91;Bittencourt&#93;.    Isso me aporrinhou. Agora o mal est&aacute; feito. Acabei uma carta assim. Depois    vi que era um poema e mandei pro Dante com o t&iacute;tulo de ‘Madrigal mon&oacute;stico    em ritmo inumer&aacute;vel’. Por ca&ccedil;oada. Mas aquilo deve se chamar ‘Madrigal    t&atilde;o engra&ccedil;adinho’, n&atilde;o acha? Gosto muito dele porque recorda    o meu porquinho da &Iacute;ndia, deslumbramento inesquec&iacute;vel da minha    inf&acirc;ncia. Que dor de cora&ccedil;&atilde;o eu tinha porque o bichinho    s&oacute; queria estar debaixo do fog&atilde;o! Eu levava pra sala, pros lugares    mais bonitos, mais gostosos. Ele n&atilde;o se importava o que queria era estar    debaixo do fog&atilde;o. N&atilde;o fazia caso nenhum das minhas ternurinhas.    /O meu porquinho da &Iacute;ndia foi a minha primeira namorada. &#91;Nota &agrave;    margem:&#93; Isto &eacute; um poema. O 1º verso ser&aacute;: ‘Quando eu tinha 6    anos ganhei um porquinho da &Iacute;ndia’".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Uma leitura superficial do trecho permite armar a hip&oacute;tese    de que a evoca&ccedil;&atilde;o de um poema efetivamente nascido no ato da escrita    da carta ("Acabei um carta assim") (11) teria desencadeado novamente    o mesmo processo. Ou seja, a lembran&ccedil;a do porquinho-da-&iacute;ndia suscitou    no poeta novas imagens da inf&acirc;ncia, contaminando o discurso epistolar.    At&eacute; que, envolvido pela ambi&ecirc;ncia l&iacute;rica, o poeta se d&aacute;    conta de que constru&iacute;a, entranhado na carta, um poema. Nesse momento,    reconhecendo a legitimidade da obra l&iacute;rica ("Isto &eacute; um poema"),    agrega a ele o primeiro verso. Todas as pe&ccedil;as encaixam-se perfeitamente    nesse quebra-cabe&ccedil;a, exceto pelo aviso de Diaz que ressoa, incomodando:    n&atilde;o se trataria, neste caso, de uma engenhosa inven&ccedil;&atilde;o    do poeta, dando a impress&atilde;o de que o poema nascera no fluxo da escrita?</font></p>     <p><font size="3">Efetivamente, tamb&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel supor que    o poema j&aacute; estivesse pronto e o entranhamento na carta tenha sido proposital.    Ao escrever "Este &eacute; um poema &#91;…&#93;", Bandeira sugere a exist&ecirc;ncia    pr&eacute;via do artefato l&iacute;rico. Diferente, talvez, do uso do verbo    no futuro "Este ser&aacute; um poema", que indicaria o instante da    reda&ccedil;&atilde;o e a decis&atilde;o contempor&acirc;nea de nomear os versos.    No caso da inven&ccedil;&atilde;o do ato criativo, perder-se-ia inteiramente    o encanto de captar o poema <i>ab</i> ovo, de perceber o processo de cria&ccedil;&atilde;o,    movido pela mem&oacute;ria afetiva. De todo modo, desfeita essa poss&iacute;vel    ilus&atilde;o, a cr&iacute;tica gen&eacute;tica ainda sairia lucrando, ao se    propor uma an&aacute;lise cuidadosa dessa carta. Trocar&iacute;amos, primeiro,    o "encantamento" pela percep&ccedil;&atilde;o problem&aacute;tica    da rela&ccedil;&atilde;o entre epistolografia e cr&iacute;tica gen&eacute;tica.    Al&eacute;m disso, ganhar-se-ia com a observa&ccedil;&atilde;o das variantes    que o poema "Porquinho-da-&iacute;ndia" apresenta em rela&ccedil;&atilde;o    ao texto publicado em <i>Libertinagem</i>, em 1930.</font></p>     <p><font size="3">A carta como "arquivo da cria&ccedil;&atilde;o" proporciona    valiosos elementos de fonte prim&aacute;ria para os estudiosos da literatura    e de outras artes, da mesma forma que fornece subs&iacute;dios para as percep&ccedil;&otilde;es    te&oacute;ricas da cr&iacute;tica gen&eacute;tica. Apresenta, contudo, como    vimos, problem&aacute;tica espec&iacute;fica, que nos faz recusar solu&ccedil;&otilde;es    interpretativas f&aacute;ceis ou ing&ecirc;nuas, resultantes de deslumbramentos.    O correspondente epistolar, embora nem sempre se d&ecirc; conta disso, &eacute;    sempre um manipulador de sensa&ccedil;&otilde;es e de realidades. Como nos ensina    Diaz, caminhamos em terreno inst&aacute;vel, cheio de surpresas e de perigos…    E n&atilde;o &eacute; isso que torna a epistolografia ainda mais instigante    quando relacionada &agrave; cr&iacute;tica gen&eacute;tica?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><i><b>Marcos Antonio de Moraes</b> &eacute; professor de literatura    brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade    de S&atilde;o Paulo. Membro da equipe M&aacute;rio de Andrade no Instituto de    Estudos Brasileiros (IEB) – USP; coordenador do N&uacute;cleo de Estudos da    Epistolografia Brasileira e atual presidente da Associa&ccedil;&atilde;o dos    Pesquisadores do Manuscrito Liter&aacute;rio (AMPL).</i></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">1. Andrade, M. &amp; Bandeira, M. <i>Correspond&ecirc;ncia</i>.    Organiza&ccedil;&atilde;o, introdu&ccedil;&atilde;o e notas de Marcos Antonio    de Moraes. S&atilde;o Paulo: Edusp/IEB, p. 72. 2000.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">2. Clark, L. &amp; Oticica, H. <i>Cartas</i> 1964-74. 2.ed.    Org. Luciano Figueiredo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, p.21. 1998.</FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">3. Andrade, M. &amp; Bandeira, M. <i>Op. cit</i>., p. 158; 160.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">4. Andrade, M. &amp; Bandeira, M. <i>Op. cit</i>., p. 130.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">5. Andrade, M. <i>O empalhador de passarinho</i>. 3ª edi&ccedil;&atilde;o,    S&atilde;o Paulo, Martins/Instituto Nacional do Livro, p. 182-3. 1972.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">6. Carta a Carlos Lacerda, 5 abril 1944. Em: Andrade, M. 71    <i>Cartas a M&aacute;rio de Andrade</i>. Org. Lygia Fernandes. Rio de Janeiro:    Livraria S&atilde;o Jos&eacute;, s.d., p.91.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">7. Andrade, M. <i>A li&ccedil;&atilde;o do amigo</i>. Cartas    de M&aacute;rio de Andrade a Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro, Jos&eacute;    Olympio, p.231. 1982.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">8. Andrade, M. &amp; Bandeira, M. <i>Op. cit</i>., p. 372. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">9. Diaz, J.-L. "Quelle g&eacute;n&eacute;tique pour les    correspondances?". <i>Genesis. Revue internationale de critique g&eacute;n&eacute;tique</i>,    nº 13, Paris, p. 15. 1999.Tradu&ccedil;&atilde;o de Cl&aacute;udio Hiro e Maria    S&iacute;lvia Ianni.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">10. Em 1998, apresentei com Tel&ecirc; Ancona Lopez e Tatiana    Longo dos Santos, o p&ocirc;ster "Les archives de la cr&eacute;tion dans    la correspondance de M&aacute;rio de Andrade", no Deuxi&eacute;me Congr&egrave;s    International de critique Genetique. Esse trabalho coligiu muitos dos exemplos    de "arquivos da cria&ccedil;&atilde;o" aqui expostos, tendo ainda    proporcionado o debate sobre o tema.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">11. Trata-se do poema "Madrigal t&atilde;o engra&ccedil;adinho",    inserido em <i>Libertinagem</i> (1930): "Teresa, voc&ecirc; &eacute; a    coisa mais bonita que eu vi at&eacute; hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-&iacute;ndia    que me deram quando eu tinha seis anos"</FONT></p>      ]]></body>
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