<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252007000100016</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A criação literária na biblioteca do escritor]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lopez]]></surname>
<given-names><![CDATA[Telê Ancona]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Instituto de Estudos Brasileiros]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Associação de Pesquisadores do Manuscrito Literário  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<volume>59</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>33</fpage>
<lpage>37</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252007000100016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252007000100016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252007000100016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="5"><b>A CRIA&Ccedil;&Atilde;O LITER&Aacute;RIA NA BIBLIOTECA DO    ESCRITOR</b> </FONT></p>     <p><FONT size="3"><b>Tel&ecirc; Ancona Lopez</b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <font size=5><b>A</b></font>s bibliotecas de escritores t&ecirc;m    se mostrado de capital interesse para a compreens&atilde;o dos caminhos tomados    por poetas, ficcionistas, cr&iacute;ticos ou jornalistas. Como somat&oacute;rio    de t&iacute;tulos, contribuem para a hist&oacute;ria da leitura; como espa&ccedil;o    da cria&ccedil;&atilde;o, ligam-se impl&iacute;cita ou explicitamente &agrave;    g&ecirc;nese de obras, ao nos propor matrizes e, na margin&aacute;lia, materializar    instantes da escritura. Conservadas ou n&atilde;o no seio de acervos completos,    isto &eacute;, conjugadas a arquivos, cole&ccedil;&otilde;es – de quadros, discos,    filmes ou de objetos diversos –, essas bibliotecas, quando mant&ecirc;m cadernos    de registro ao longo da chegada de livros e peri&oacute;dicos, ou selos, carimbos    de livrarias e faturas de compra, historiam fases da pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o.    Quando nos apresentam etiquetas ou fichas que designam recintos nas casas, estantes    e prateleiras, facultam-nos a disposi&ccedil;&atilde;o dos volumes no espa&ccedil;o    original e, nas dedicat&oacute;rias, que em geral carregam, oferecem-nos elementos    relevantes da biografia daqueles a quem estas se endere&ccedil;aram, bem como    informa&ccedil;&otilde;es sobre a vida liter&aacute;ria, o campo cultural da    &eacute;poca a que pertencem. Cartas, cr&ocirc;nicas, di&aacute;rios e depoimentos    desses leitores diferenciados beneficiam sobremodo o estudo de todos os aspectos    aludidos. </font></p>     <p><font size="3">O termo margin&aacute;lia, emprestado do latim, designa o conjunto    das notas que os leitores introduzem nas margens e entrelinhas das p&aacute;ginas,    no verso das capas ou nas folhas de guarda dos livros ou em peri&oacute;dicos    sobre os quais se inclinam, anota&ccedil;&otilde;es as quais, muitas vezes,    se prolongam em folhas manuscritas, recortes de jornais ou revistas, postos    no interior dos volumes. Na margin&aacute;lia apensa, como a denomino. A margin&aacute;lia    define-se como a justaposi&ccedil;&atilde;o do aut&oacute;grafo espont&acirc;neo,    a tinta ou grafite, &agrave;s linhas impressas, configurando um di&aacute;logo    que ali toma corpo. </font></p>     <p><font size="3">Na verdade, o aparecimento de notas aut&oacute;grafas dignifica    as estantes de todo e qualquer leitor. Mas, quando se trata de bibliotecas de    escritores e de intelectuais de todos os naipes, a margin&aacute;lia converte    essas estantes em privilegiado objeto de cogita&ccedil;&otilde;es da cr&iacute;tica    gen&eacute;tica, sobretudo quando n&atilde;o perduram conjuntos de f&oacute;lios    que documentam, com autonomia, o processo criativo. Na margin&aacute;lia e em    certas leituras n&atilde;o assinaladas, ficam, pois, manuscritos rec&ocirc;nditos,    &agrave; espera de uma decodifica&ccedil;&atilde;o escorada na an&aacute;lise    de textos inteiros, de fragmentos e de sinais sobrepostos ao livro, ou nutrida    por cita&ccedil;&otilde;es fora desse contexto, anunciando a indel&eacute;vel    capta&ccedil;&atilde;o por parte do leitor, a ser flagrada pelo cr&iacute;tico.    Essa capta&ccedil;&atilde;o pode espelhar uma lat&ecirc;ncia, no insconsciente,    mem&oacute;ria de uma experi&ecirc;ncia de leitura, a qual, mesmo passado muito    tempo, de repente aflora por for&ccedil;a de associa&ccedil;&otilde;es que retomam,    de modo claro ou n&atilde;o, o di&aacute;logo antigo, para servir a novos prop&oacute;sitos    no decorrer do processo criativo de novas obras. Desse di&aacute;logo restam    vest&iacute;gios: as notas marginais que valem como notas pr&eacute;vias e os    textos de outros autores que escondem matrizes.</font></p>     <p><font size="3">Na esfera da literatura, a margin&aacute;lia aproxima, na intertextualidade,    a mat&eacute;ria impressa e a mat&eacute;ria manuscrita, o tempo da leitura    e o da escritura; a absor&ccedil;&atilde;o e a cr&iacute;tica ou a apropria&ccedil;&atilde;o    criativa. Ent&atilde;o, as notas marginais que selecionam trechos e palavras,    ao recolher, no texto alheio, id&eacute;ias, concep&ccedil;&otilde;es, achados    de estilo, informa&ccedil;&otilde;es, personagens etc concretizam, nas obras    freq&uuml;entadas, um celeiro da cria&ccedil;&atilde;o. As anota&ccedil;&otilde;es    que acrescentam o coment&aacute;rio ou que irrompem como textos paralelos, a    l&aacute;pis ou a caneta, sobre folhas dos livros e sobre f&oacute;lios anexados    a eles, sobre p&aacute;ginas de peri&oacute;dicos, fazem a seara em estantes    assim, pois configuraram novos manuscritos em normalmente curtos, aut&ocirc;nomos    ou parcelas de outros, nos arquivos da cria&ccedil;&atilde;o. Nessa seara, posturas    ou posi&ccedil;&otilde;es coincidentes, afinidades e diverg&ecirc;ncias tamb&eacute;m    afloram. </font></p>     <p><font size="3">Nas influ&ecirc;ncias reconhecidas, nas leituras declaradas,    na presen&ccedil;a de determinadas obras na biblioteca de um escritor, nas notas    aut&oacute;grafas &agrave; margem de leituras ou em folhas apensas e em todas    as formas e fei&ccedil;&otilde;es do trabalho nesse espa&ccedil;o, insinuam-se    matrizes, instaurando o di&aacute;logo que traz a intertextualidade da cria&ccedil;&atilde;o.    As matrizes s&atilde;o principais quando se ligam ao modo de formar; quando    textos ou elementos de um texto – temas, motivos, seq&uuml;&ecirc;ncias, cenas,    personagens, estilo, tratamento do tempo e do espa&ccedil;o etc – enra&iacute;zam    a (re)cria&ccedil;&atilde;o que se afirma com originalidade e autonomia ao integrar    outro contexto. Desse ponto de vista, as matrizes, consolidadas ou n&atilde;o    pela margin&aacute;lia de um escritor, descobertas no circuito de um di&aacute;logo    intertextual, interessam tamb&eacute;m &agrave; literatura comparada. Matrizes    e margin&aacute;lia nos conduzem, por for&ccedil;a da intertextualidade e da    dimens&atilde;o document&aacute;ria, &agrave; tentativa de reconstituir, no    di&aacute;logo, certas inst&acirc;ncias do ato criador enquanto conjun&ccedil;&atilde;o    de leitura e escritura, converg&ecirc;ncia na esfera intelectual; enquanto sutil    passagem da recep&ccedil;&atilde;o &agrave; cria&ccedil;&atilde;o ou alcance    maior da recep&ccedil;&atilde;o que, segundo Daniel Ferrer, se transforma em    produ&ccedil;&atilde;o e se extrema na bricolagem. Di&aacute;logo, enquanto    leitura anotada, implica movimento na pesquisa do artista que se desenrola em    conson&acirc;ncia com suas obsess&otilde;es, reconhec&iacute;veis na obra; subentende    cr&iacute;tica, sele&ccedil;&atilde;o e assimila&ccedil;&atilde;o. A margin&aacute;lia    &eacute;, pois, seara e celeiro convivendo paralelos ou fundidos nos arquivos    da cria&ccedil;&atilde;o. Ao perseguir a g&ecirc;nese de textos e interpretar    as pegadas da cria&ccedil;&atilde;o, o cr&iacute;tico deve saber que lida com    a realidade vis&iacute;vel de um trabalho em processo, com sinais retratando    certos movimentos do desejo do artista. Entender&aacute; ent&atilde;o que, nesse    processo, as marcas do <i>scriptor</i> lhe facultam imaginar uma l&oacute;gica    onde a leitura do artista, os passos de sua impregna&ccedil;&atilde;o, se desnudam.    A margin&aacute;lia, exposta como mem&oacute;ria da cria&ccedil;&atilde;o, com    todos os percal&ccedil;os da n&atilde;o linearidade da mem&oacute;ria, conforma    graficamente, na conjun&ccedil;&atilde;o e sobreposi&ccedil;&atilde;o de dois    textos, o que hoje denominamos hipertexto. E, em tempos de RPG, ganham for&ccedil;a    especial as leituras como ber&ccedil;o da cria&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">As notas marginais aut&oacute;grafas fazem parte do universo    da cria&ccedil;&atilde;o de outros textos e, na medida em que se enquadram no    percurso de uma nova escritura, duplicam a natureza documental do objeto livro    (ou jornal/revista); ao texto impresso existente em uma biblioteca soma-se,    ent&atilde;o, o manuscrito. A combina&ccedil;&atilde;o do texto impresso com    o manuscrito renova o sentido do livro; duplica-lhe a significa&ccedil;&atilde;o.    A transformar ou selecionar, nas margens, a mat&eacute;ria do autor, ao tecer    coment&aacute;rios em uma leitura cr&iacute;tica lateral, e na inven&ccedil;&atilde;o    cont&iacute;gua, o escritor promove uma coexist&ecirc;ncia de discursos. Na    verdade, ao receber o texto impresso como cria&ccedil;&atilde;o de outro, contracena    com um segundo escritor. Esse di&aacute;logo exibe o texto nascente que se defronta    com uma cria&ccedil;&atilde;o acabada, o livro alheio oferecido ao p&uacute;blico    (em uma edi&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o barra imposi&ccedil;&otilde;es de    outros eus, na composi&ccedil;&atilde;o e na revis&atilde;o, durante o processo    de produ&ccedil;&atilde;o industrial). No di&aacute;logo, o escritor/leitor    supera o passado: a obra e o autor sobre o quais se debru&ccedil;a habitam seu    presente, no encontro que ali se cristaliza a cada incurs&atilde;o do l&aacute;pis    ou da caneta. O di&aacute;logo anula uma hierarquia t&aacute;cita ao refutar    o dom&iacute;nio do que parecia terminado, ao desdenhar os limites do espa&ccedil;o    do outro e ao fazer com que o alheio se transmute em mat&eacute;ria adstrita    a um novo dossi&ecirc; de cria&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, em manuscrito;    o outro se torna paradoxalmente determinante e subsidi&aacute;rio. Entendendo,    com Octavio Paz, que a cria&ccedil;&atilde;o vale sempre como elevada express&atilde;o    da liberdade do homem, nessa situa&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica, o homem    renega a dist&acirc;ncia e o sil&ecirc;ncio perante o objeto livro. Ou melhor,    o leitor/escritor materializa, ao anotar, o di&aacute;logo inerente a toda e    qualquer leitura, no dom&iacute;nio da palavra escrita. Entende-se que, na esfera    da cria&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o existem tabus e que &eacute; riqueza l&iacute;cita    zarpar na bricolagem, na glosa; fazer cita&ccedil;&otilde;es, colagens, par&oacute;dias,    cent&otilde;es. O artista da palavra responde, interpela, redimensiona, transcria    na p&aacute;gina graficamente dialogizada, hipertexto. Suas notas marginais,    vistas como notas de trabalho, postas em contato com a obra publicada do artista,    reabrem o confronto com o texto inacabado subjacente e com as edi&ccedil;&otilde;es.    Compreendidas na sobreposi&ccedil;&atilde;o ao texto impresso, enriquecem edi&ccedil;&otilde;es    gen&eacute;ticas e cr&iacute;ticas. A margin&aacute;lia do escritor, portanto,    converte a biblioteca dele em seara e celeiro onde a cria&ccedil;&atilde;o se    supre e viceja, dona de sua pr&oacute;pria din&acirc;mica. </font></p>     <p><font size="3">Por que o grafite, a tinta interrompendo a leitura? Leitura    mais detida e cuidadosa, em que a presen&ccedil;a do sujeito n&atilde;o se cala,    n&atilde;o se esgueira? Viv&ecirc;ncia plena, plen&iacute;ssima do presente,    no ato de ler; desejo/esperan&ccedil;a de regresso &agrave;s mesmas p&aacute;ginas,    sabe-se l&aacute; quando? Prazer de se observar num espa&ccedil;o p&uacute;blico    que &eacute; tamb&eacute;m seu, concretamente? Muitas possibilidades comp&otilde;em    as fei&ccedil;&otilde;es da margin&aacute;lia. </font></p>     <p><font size="3"><b>M&Aacute;RIO ANDRADE, LEITOR E ESCRITOR</b> Este artigo,    que toma a biblioteca de M&aacute;rio de Andrade (1893-1945) como <i>locus creationis</i>,    seara e celeiro, pretende expor inst&acirc;ncias da cria&ccedil;&atilde;o de    <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>, em 1921-1922, recorrendo &agrave; leitura    n&atilde;o anotada e a anota&ccedil;&otilde;es marginais com estatuto de manuscrito.    O projeto tem&aacute;tico, sob minha coordena&ccedil;&atilde;o, destina-se a    investigar a cria&ccedil;&atilde;o andradiana nos manuscritos e na correspond&ecirc;ncia,    assim como na margin&aacute;lia e na composi&ccedil;&atilde;o da biblioteca    que M&aacute;rio nos legou. Desenvolvido no Instituto de Estudos Brasileiros    da Universidade de S&atilde;o Paulo (IEB-USP) a partir de 2003, o projeto –    cuja equipe leva o nome do escritor – representa a evolu&ccedil;&atilde;o de    id&eacute;ias que nortearam trabalhos meus e de estudantes por mim orientados,    desde 1974, as quais, de 1988 em diante, abriram-se &agrave; cr&iacute;tica    gen&eacute;tica. Nos &uacute;ltimos anos tem discutido com pesquisadores do    N&uacute;cleo de Pesquisa em Cr&iacute;tica Gen&eacute;tica da Universidade    de S&atilde;o Paulo (NAPCG-USP) e do Institut des Textes et Manuscrits Modernes    de Centre National de la Recherche Scientifique (ITEM-CNRS) de Paris.</font></p>     <p><font size="3">A biblioteca de M&aacute;rio de Andrade, em termos das &aacute;reas    e t&iacute;tulos, assim como da margin&aacute;lia que a enriquece, come&ccedil;ou    a ser compreendida em um projeto de pesquisa pioneiro, coordenado pelo prof.    dr. Antonio Candido de Mello e Souza, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias    Humanas, da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCH-USP), entre 1963-1968. O    projeto teve como resultado o registro da margin&aacute;lia e as disserta&ccedil;&otilde;es    de mestrado das tr&ecirc;s pesquisadoras participantes, bolsistas da Fapesp    – Maria Helena Grenbecki, Nites T. Feres e eu. Nossos mestrados, na &aacute;rea    de teoria liter&aacute;ria e literatura comparada da FFLCH-USP, convalidam uma    primeira explora&ccedil;&atilde;o direta da biblioteca, cotejando leituras com    a cria&ccedil;&atilde;o de M&aacute;rio modernista. Ap&oacute;s a transfer&ecirc;ncia    do acervo do escritor para o Instituto de Estudos Brasileiros da mesma universidade    (IEB-USP), no segundo semestre de 1968, o processamento da biblioteca de acordo    com as normas vigentes apurou um total de 17.624 volumes, entre livros e peri&oacute;dicos.</font></p>     <p><font size="3">Meu intento, nestas linhas de hoje, &eacute; demonstrar que    a apropria&ccedil;&atilde;o, derivada da leitura de Verhaeren sem anota&ccedil;&otilde;es    manuscritas, e firmada nas margens da poesia do expressionismo alem&atilde;o,    alarga os horizontes do modernismo brasileiro nascente e sust&eacute;m <i>Paulic&eacute;ia    desvairada</i>, em 1922, como o primeiro texto e livro moderno, capaz de se    lan&ccedil;ar com l&uacute;cido humanismo no tema da cidade, tema principal    na literatura do final do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do XX. Essas leituras    afastaram o poeta, por certo, do tentador esquematismo futurista que comprometeu    a produ&ccedil;&atilde;o de outros poetas nossos, no come&ccedil;o do dec&ecirc;nio    de 1920, quando se trata da explora&ccedil;&atilde;o desse tema-chave da modernidade.    Dou prosseguimento, aqui, a dois estudos meus: "Arlequim e modernidade",    de 1995 (Lopez, Tel&ecirc; Ancona. <i>In Mariodeandradiando</i>. S&atilde;o    Paulo: Hucitec, pp. 17-35) e "A biblioteca de M&aacute;rio de Andrade:    seara e celeiro da cria&ccedil;&atilde;o", de 2002, na colet&acirc;nea    de Roberto Zular, <i>Cria&ccedil;&atilde;o em processo - ensaios de cr&iacute;tica    gen&eacute;tica</i> (S&atilde;o Paulo: Fapesp/ Iluminuras/ Capes, pp. 45-72).</font></p>     <p><font size="3"><b>A REC&Ocirc;NDITA ESCRITURA</b> &Eacute; curioso pensar que    o mesmo M&aacute;rio de Andrade guardi&atilde;o pontual da mem&oacute;ria, cust&oacute;dio    severo de um sem-n&uacute;mero de documentos em seu acervo ou o criador do Servi&ccedil;o    do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico Nacional, tenha apagado    os rastros mais evidentes da cria&ccedil;&atilde;o de praticamente tudo que    antecede as primeiras edi&ccedil;&otilde;es de livros seus – notas de trabalho,    esquemas, vers&otilde;es etc –; descartado manuscritos e se esquecido dos originais    entregues a gr&aacute;ficas e editoras. Essa, por&eacute;m, &eacute; a realidade    que seu arquivo estratifica, nunca por ele aventada em cartas ou depoimentos,    realidade que frustra a expectativa de estudos gen&eacute;ticos amparados em    conjuntos de f&oacute;lios ou dossi&ecirc;s como os que ali se prendem a obras    inacabadas ou interrompidas por diversas raz&otilde;es e, principalmente, pela    morte que o colheu muito cedo, aos 51 anos. Todavia, manuscritos de muitos poemas    e elos na escritura de muitas obras escondem-se em suas anota&ccedil;&otilde;es    em livros ou na leitura de autores, enquanto que alus&otilde;es &agrave; cria&ccedil;&atilde;o    remanescem na correspond&ecirc;ncia, em entrevistas e em outros textos publicados,    principalmente nas cr&ocirc;nicas. </font></p>     <p><font size="3">No caso de <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>, sabe-se que o    livro recebeu duas edi&ccedil;&otilde;es em vida, ambas em S&atilde;o Paulo:    em 1922, no volumezinho ilustrado, impresso &agrave;s expensas do autor, na    Casa Mayen&ccedil;a e, em 1941, na colet&acirc;nea <i>Poesias</i>, tirada pela    Livraria Martins Editora. Para Poesias convergiram, com raras altera&ccedil;&otilde;es    no texto, os t&iacute;tulos publicados a partir do ano do estouro modernista    at&eacute; 1930, e os novos conjuntos "A costela do Gr&atilde; C&atilde;o"    e "Livro azul". No arquivo de M&aacute;rio de Andrade, n&atilde;o    h&aacute; aut&oacute;grafos ou datiloscritos que preludiam <i>Paulic&eacute;ia</i>,    os outros livros do per&iacute;odo 1922-1930 e os poemas coligidos em 1941.    N&atilde;o se acham planos, esquemas, notas de trabalho, rascunhos, vers&otilde;es,    documentos de processo enfim, enquanto f&oacute;lios ou dossi&ecirc;s aut&ocirc;nomos.    &Eacute; preciso, portanto, escavar, na biblioteca, a mem&oacute;ria desses    textos, nos rumos da atualiza&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica procurada pelo    modernista, no momento da cria&ccedil;&atilde;o. Vale dizer, remontar a obras    dos mestres das vanguardas e &agrave; produ&ccedil;&atilde;o das pr&oacute;prias    vanguardas do s&eacute;culo XX. </font></p>     <p><font size="3">Entre as primeiras est&aacute; <i>Les villes tentaculaires preced&eacute;es    de Les campagnes hallucin&eacute;es</i>, 18ª edi&ccedil;&atilde;o da Mercure    de France, Paris, 1920, do belga &Eacute;mile Verhaeren (1855-1916), crist&atilde;o    de aspira&ccedil;&otilde;es socialistas, consagrado como o primeiro poeta da    vida moderna. Documento hoje isolado, mereceu, possivelmente, registro tang&iacute;vel    no dossi&ecirc; dos manuscritos de <i>Paulic&eacute;ia</i> quando este se concretizava    em f&oacute;lios com notas, esbo&ccedil;os ou vers&otilde;es, entre 1920 e 1921.    Leitura talvez oriunda do curso de literatura universal da Faculdade de Filosofia    do mosteiro de S&atilde;o Bento, associado &agrave; Universidade de Louvain,    assistido como ouvinte pelo futuro modernista por volta de 1910, a contribui&ccedil;&atilde;o    de Verhaeren &eacute; por ele admitida, mais tarde, na correspond&ecirc;ncia    enviada a Manoel Bandeira, S&eacute;rgio Milliet, Anita Malfatti e Ribeiro Couto.    Mas, ao contr&aacute;rio do que se poderia supor, o exemplar de <i>Les villes    tentaculaires preced&eacute;es de Les campagnes hallucin&eacute;es</i> n&atilde;o    guarda anota&ccedil;&otilde;es manuscritas. Apesar disso, a obra merece ser    classificada como matriz geradora de <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i> no di&aacute;logo    que, entre 1920 e 1922, une os anseios de modernidade de nosso poeta &agrave;    vis&atilde;o da cidade moderna, esposada pelo simbolista belga – a urbe dominadora,    &aacute;spera, sem euforia. Anseios de modernidade do tupi do ala&uacute;de    que, nesse momento, realiza seu crivo cr&iacute;tico, antropofagia <i>avant    la lettre</i>, associando conquistas formais tanto dos simbolistas como dos    futuristas, &agrave; tem&aacute;tica humanista de Verhaeren e dos expressionistas,    &agrave; irrever&ecirc;ncia dad&aacute; e a elementos do purismo da revista    <i>L’ Esprit Nouveau</i>. Crivo que, em <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>,    desvia da modernolatria futurista o enfoque da cidade, mostrando-se moderno    pela reflex&atilde;o cr&iacute;tica voltada para o tema e para o pr&oacute;prio    artefazer, se pensarmos com Henri Lefebvre a quest&atilde;o da modernidade.</font></p>     <p><font size="3">Matriz principal, as duas partes dessa obra de Verhaeren associam-se    ao tema da cidade microcosmos andradiana. Duplicam os la&ccedil;os com o Baudelaire    de "Les tableaux parisiens" (<i>Les fleurs du mal</i>), poesia da    proximidade de Verhaeren e leitura antiga do poeta paulistano. Enra&iacute;zam    a cria&ccedil;&atilde;o/ apropria&ccedil;&atilde;o que se afirma com originalidade    e autonomia ao integrar outro contexto. Di&aacute;logo sem notas de margem,    virtual, sugere a pesquisa e as afinidades de M&aacute;rio, crist&atilde;o que    valoriza a caridade, com as id&eacute;ias socialistas de &Eacute;mile Verhaeren.    </font></p>     <p><font size="3">A busca da presen&ccedil;a de Verhaeren na g&ecirc;nese de <i>Paulic&eacute;ia    desvairada</i>, a partir de leituras sucessivas, em 1920, 1921, realizadas pelo    poeta no seu exemplar da edi&ccedil;&atilde;o que re&uacute;ne <i>Les campagnes    hallucin&eacute;es e Les villes tentaculaires</i>, n&atilde;o conta apenas com    o rastro virtual do <i>scriptor</i>, o qual leva o cr&iacute;tico a distinguir    determinados elementos em um processo criativo complexo, que se firmou ao longo    de descobertas e transforma&ccedil;&otilde;es. Entre as cr&ocirc;nicas de M&aacute;rio    em "De S&atilde;o Paulo", na revista carioca <i>Illustra&ccedil;&atilde;o    Brazileira</i> entre novembro de 1920 e maio de 1921, s&eacute;rie que coexiste    com a reda&ccedil;&atilde;o e se apropria, na prosa, de certos versos de <i>Paulic&eacute;ia    desvairada</i>, o quinto texto (ano 8, nº 6), em fevereiro desse &uacute;ltimo    ano, atesta a leitura de dois poetas cultores da cidade: "E se eu entremear    a cr&ocirc;nica com um ou dois versos de Verhaeren e de Copp&eacute;e, e uma    anedota, que se n&atilde;o existir inventa-se, t&iacute;nhamos uma cr&ocirc;nica,    que algum M&aacute;rio de Alencar, piedoso e amigo, poria em livro depois da    minha morte". De Fran&ccedil;ois Copp&eacute;e (1842-1906), poesia ainda    parnasiana da vida parisiense, nada restou na biblioteca do poeta leitor, que    n&atilde;o mais a mencionar&aacute;, enquanto que Emile Verhaeren tem a fun&ccedil;&atilde;o    de matriz de <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i> – "livro de cabeceira"    –, por ele distinguida na carta ao amigo Manuel Bandeira, em 16 de agosto de    1931 (Moraes, Marcos Antonio de, org. <i>Correspond&ecirc;ncia M&aacute;rio    de Andrade &amp; Manuel Bandeira</i>. S&atilde;o Paulo: IEB/ Edusp, 2001, pp.    519). E confirmada publicamente, em 1942, na confer&ecirc;ncia "O movimento    modernista" (<i>In: Aspectos da Literatura Brasileira</i>. 2ª ed. S&atilde;o    Paulo; Martins, p. 233-34), depoimento e an&aacute;lise de propostas e conquistas,    quando M&aacute;rio de Andrade j&aacute; &eacute; um nome j&aacute; consagrado    em nossa literatura. Assim procede quando evoca e encena o eclodir dos poemas    como uma esp&eacute;cie de resposta &agrave; incompreens&atilde;o da fam&iacute;lia    diante da cabe&ccedil;a de Cristo de linhas contempor&acirc;neas, escultura    de Brecheret, que ele brandira exultante, depois de comprar:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="3">"Eu passara esse ano de 1920 sem fazer poesia mais. Tinha      cadernos e cadernos de coisas parnasianas e algumas timidamente simbolistas,      mas tudo acabara por me desagradar. Na minha leitura desarvorada, j&aacute;      conhecia at&eacute; alguns futuristas de &uacute;ltima hora, mas s&oacute;      ent&atilde;o descobrira Verhaeren. E fora o deslumbramento. Levado em principal      pelas <i>Villes tentaculaires</i>, concebi imediatamente fazer um livro de      poesias ‘modernas’, em verso-livre, sobre a minha cidade. Tentei, n&atilde;o      veio nada que me interessasse. Tentei mais, e nada. Os meses passavam numa      ang&uacute;stia, numa insufici&ecirc;ncia feroz. Ser&aacute; que a poesia      tinha se acabado em mim?… &#91;…&#93;</font></p>       <p><font size="3">&#91;…&#93;</font></p>       <p><font size="3">"Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era      bater. Jantei por dentro, num estado inimagin&aacute;vel de estra&ccedil;alho.      Depois subi para o meu quarto, era noitinha, na inten&ccedil;&atilde;o de      me arranjar, sair, espairecer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo.      Me lembro que cheguei &agrave; sacada, olhando sem ver o meu largo &#91;do Pai&ccedil;andu&#93;.      Ru&iacute;dos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Eu estava      aparentemente calmo, como que indestinado. N&atilde;o sei o que me deu. Fui      at&eacute; a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o t&iacute;tulo em que      jamais pensara, <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>. O estouro chegara afinal,      depois de quase ano de ang&uacute;stias interrogativas. Entre desgostos, trabalhos      urgentes, d&iacute;vidas, brigas, em pouco mais de uma semana estava jogado      no papel um canto b&aacute;rbaro, duas vezes maior talvez do que isso que      o trabalho de arte deu num livro".</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a16img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Neste seu historiar do modernismo, o conferencista se esqueceu    da poesia pacifista de Verhaeren, a qual, assim como a de Heine do mesmo teor,    havia iluminado seu livro de estr&eacute;ia, em 1917, <i>H&aacute; uma gota    de sangue em cada poema</i>. Ele freq&uuml;entara Verhaeren em <i>Po&egrave;mes</i>    (9ª ed., 3 v.; Paris: Mercure de France, 1913), quando seu l&aacute;pis de leitor    e artista dep&ocirc;s, naquelas p&aacute;ginas, sinais de sua capta&ccedil;&atilde;o    de sinestesias, de imagens inusitadas e vis&otilde;es apocal&iacute;ticas, sinais    que relatam, ainda que de forma indel&eacute;vel, o surgimento de certos versos,    conforme estudei em "Leituras e cria&ccedil;&atilde;o: fragmentos de um    di&aacute;logo de M&aacute;rio de Andrade", artigo programado para o pr&oacute;ximo    n&uacute;mero de <i>Manuscritica</i>, revista da Associa&ccedil;&atilde;o de    Pesquisadores de Cr&iacute;tica Gen&eacute;tica.</font></p>     <p><font size="3"><b>O INTERESSANT&Iacute;SSIMO DESVAIRISMO</b> O desvairismo,    vanguarda brasileira fundada em 1922, restringe-se ao "Pref&aacute;cio    interessant&iacute;ssimo" e &agrave; poesia de <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>.    O primeiro, de t&iacute;tulo montado na <i>blague</i> dada&iacute;sta, articula    uma teoria modernista devedora de muitas formula&ccedil;&otilde;es colhidas    em obras na biblioteca de M&aacute;rio de Andrade e n&atilde;o est&aacute; no    foco do presente artigo. A segunda, enquanto proposta, abebera-se nos temas    de Verhaeren e revitaliza determinadas solu&ccedil;&otilde;es do estilo do mestre,    como o uso do refr&atilde;o, transitando tamb&eacute;m, com liberdade, por <i>Les    fleurs du mal</i>, pelo expressionismo, futurismo, espritonovismo e dad&aacute;,    ao mesmo tempo que busca o nacionalismo do rom&acirc;ntico Gon&ccedil;alves    Dias e outras fontes que n&atilde;o cumpre agora discriminar. O modernista brasileiro,    deixando ou n&atilde;o notas marginais em suas leituras, supera na s&iacute;ntese    e no crivo cr&iacute;tico a chancela limitadora dos "ismos" que concorrem    para a realiza&ccedil;&atilde;o de seu texto. Ambiciona desvelar uma nova dimens&atilde;o    da cidade na era industrial, a dimens&atilde;o de um mundo tecnizado cheio de    duras contradi&ccedil;&otilde;es sociais e alheio &agrave; ang&uacute;stia da    alma do homem. Nesse espa&ccedil;o e nessa hora, o eu l&iacute;rico, guiado    por funda consci&ecirc;ncia, incumbe-se da den&uacute;ncia, profeta ou louco.    Mescla o sarcasmo e a vis&atilde;o apocal&iacute;ptica da cidade, vincados por    Verhaeren, com esses mesmos tra&ccedil;os repetidos nos expressionistas e com    a irrever&ecirc;ncia dos dada&iacute;stas, no ataque comum &agrave; burguesia,    ao capitalismo, mas, paralelamente, comunga o lirismo de Soffici e Luciano Folgore    perante a cidade veloz do s&eacute;culo XX. N&atilde;o teme a solid&atilde;o    em suas posi&ccedil;&otilde;es; &eacute; Verhaeren, ali&aacute;s, quem fornece    ao poeta a ep&iacute;grafe para o "Pref&aacute;cio interessant&iacute;ssimo",    convalidando, juntamente com as antinomias, o papel do pioneiro, "primitivo    de uma nova era": "<i>Dans mon pays de fiel et d’or j’en suis la loi</i>".    </font></p>     <p><font size="3">No t&iacute;tulo <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>, o livro    composto de um "Pref&aacute;cio interessant&iacute;ssimo", 21 poemas    e um orat&oacute;rio profano reveste-se de especial ironia, se for lembrada    a incompreens&atilde;o de Monteiro Lobato, em 1917, &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o    de Anita Malfatti, marco em nosso modernismo. O desvairismo, est&eacute;tica    que sabe armar uma base te&oacute;rica coerente, contesta, de certo modo, a    pergunta "paran&oacute;ia ou mistifica&ccedil;&atilde;o?", feita pelo    cr&iacute;tico de <i>O Estado de S. Paulo</i>, para invalidar a legitimidade    da arte moderna, no artigo "A prop&oacute;sito da exposi&ccedil;&atilde;o    Malfatti" (S&atilde;o Paulo, 20 dez., 1917).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O mais importante, contudo, no momento da cria&ccedil;&atilde;o    da poesia do modernista brasileiro &eacute; o di&aacute;logo com Emile Verhaeren,    <i>Les villes tentaculaires preced&eacute;es de Les campagnes hallucin&eacute;es</i>.    Da primeira parte da obra, deriva o t&iacute;tulo <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>,    e a ado&ccedil;&atilde;o da loucura, enquanto vis&atilde;o liberada, prof&eacute;tica    lucidez que contesta a ordem estabelecida na sociedade e define a postura do    eu l&iacute;rico, principalmente nos poemas "Religi&atilde;o" "O    rebanho" e em duas das personagens do orat&oacute;rio profano "As    enfibraturas do Ipiranga". Do conjunto das duas partes, como for&ccedil;a    motriz, adv&eacute;m a vis&atilde;o da cidade moderna tentacular, isso &eacute;,    expandida e sufocante nas contradi&ccedil;&otilde;es que a conformam. Tanto    o reverenciar da loucura, como a cidade agressiva juntam-se, no &acirc;mbito    da leitura e da inven&ccedil;&atilde;o de M&aacute;rio, &agrave; poesia do expressionismo    da colet&acirc;nea organizada por Kurt Pintus, <i>Menschheitsd&auml;mmerung</i>:    Symphonie J&uuml;ngster Dichtung (Berlim, Ernst Rewohlt, 1920), volume na biblioteca    do escritor, crivado de anota&ccedil;&otilde;es tra&ccedil;adas entre 1920 e    1921.</font></p>     <p><font size="3">Deste modo, no orat&oacute;rio profano "As enfibraturas    do Ipiranga", as Juvenilidades Auriverdes, tenores, "loucos, sublimes",    almejam a atualiza&ccedil;&atilde;o para a arte e a vida em um compasso brasileiro,    olhos postos na "integraliza&ccedil;&atilde;o da vida no Universal!",    bebida por certo tamb&eacute;m nas p&aacute;ginas de Romains e Whitman, ingrediente    que n&atilde;o deve ser ignorado no am&aacute;lgama que a poesia de <i>Paulic&eacute;ia</i>    configura. Proclamam: "Ventem nossos desvarios fervorosos!/ Fulgurem nossos    desvarios dadivosos!/ Clangorem nossas palavras prof&eacute;ticas/ na grande    profecia virginal! Somos as Juvenilidades Auriverdes!/ A passiflora! O espanto!    A loucura! O desejo!/ Cravos ! mais cravos para a nossa cruz!" (versos    136-142). Enfrentam os passadistas e tombam exaustas no sono, embaladas pelo    canto vaticinador da personagem Minha Loucura, soprano ligeiro, solista, que    aponta duros embates e a distante consolida&ccedil;&atilde;o das transforma&ccedil;&otilde;es    sonhadas. </font></p>     <p><font size="3">Na loucura como forma de percep&ccedil;&atilde;o mais acurada,    "coroa de luz" do eu l&iacute;rico em "Religi&atilde;o"    e atributo do mesmo em "O rebanho", a alucina&ccedil;&atilde;o ganha    foro de ilumina&ccedil;&atilde;o, fecundada pela segunda "Chanson du fou"    de "Les campagnes hallucin&eacute;es" (<i>In op. cit</i>., pp. 30-32).    A apropria&ccedil;&atilde;o de M&aacute;rio transmuta a degrada&ccedil;&atilde;o    do campo ante o avan&ccedil;o da cidade, vivenciada pelo "fou" de    Verhaeren, na grotesca <i>passeggiata</i> urbana, na qual, a animaliza&ccedil;&atilde;o    dos deputados em S&atilde;o Paulo satiriza os pol&iacute;ticos de cartola, no    vi&eacute;s da cr&iacute;tica &agrave; burguesia, preconizada pelo expressionismo:    "Oh! Minhas alucina&ccedil;&otilde;es!/ Vi os deputados, chap&eacute;us    altos,/ sob o p&aacute;lio vesperal, feito de mangas-rosas,/ Sa&iacute;rem de    m&atilde;os dadas do Congresso…/ Como um possesso num acesso em meus aplausos/    aos salvadores do meu estado amado!…// "Desciam, inteligentes, de m&atilde;os    dadas,/ entre o trepidar dos t&aacute;xis vascolejantes,/ a rua Marechal Deodoro…//    "Oh! Minhas alucina&ccedil;&otilde;es!/ Como um possesso num acesso em    meus aplausos/ Aos her&oacute;is do meu estado amado!…// "E as esperan&ccedil;as    de ver tudo salvo!/ Duas mil reformas, tr&ecirc;s projetos…/ Emigram os futuros    noturnos…/ E verde, verde, verde!…/ Oh! minhas alucina&ccedil;&otilde;es!/ Mas    os deputados, chap&eacute;us altos,/ mudavam-se pouco a pouco em cabras!/ Crescem-lhe    os cornos, descem-lhes as barbinhas…// "E vi que os chap&eacute;us altos    do meu estado amado,/ com tri&acirc;ngulos de madeira no pesco&ccedil;o,/ nos    verdes esperan&ccedil;as, sob as franjas de oiro da tarde,/ se punham a pastar/    rente do pal&aacute;cio do senhor presidente…/ Oh! Minhas alucina&ccedil;&otilde;es!"    (<i>In Poesias completas</i>. S&atilde;o Paulo: Martins, &#91;1955&#93;, pp. 40-41).    O refr&atilde;o "Oh! minhas alucina&ccedil;&otilde;es!", revestido    de ironia, como bem se observa, reitera a den&uacute;ncia.</font></p>     <p><font size="3">A associa&ccedil;&atilde;o fecunda, desencadeada talvez pelo    equ&iacute;voco em um imediato traduzir de <i>chanvre</i> (c&acirc;nhamo) por    ch&egrave;vre (cabra que possui barbicha), marca a transposi&ccedil;&atilde;o    modernista brasileira dos quatro primeiros versos da "Chanson du fou"    ("<i>Je les ai vus, je les ai vus,/ ils passaient par les sentes,/ avec    leurs yeux, comme des fentes,/ et leurs barbes, comme du chanvre</i>.")    (<i>In op. cit</i>., pp. 30). A cria&ccedil;&atilde;o de M&aacute;rio de Andrade    efetua a metamorfose dos sofridos seres rurais que marcham fantasmag&oacute;ricos    ("<i>Deux bras de paille,/ un dos de foin,/ bless&eacute;s, trou&eacute;s,    disjoints,/ ils s’ en venaient des loins,/ comme d’ une bataille.// "Un    chapeau mou sur leur oreille,/ un habit vert comme l’ oseille;/ ils &eacute;taient    deux, ils &eacute;taient trois,/ j’ en ai vu dix, qui revenaient du bois</i>."    – versos 5-13, pp. 30-31) nos deputados que desfilam grotescos na cidade e se    mudam no animal de apetite voraz; desenvolve, assim, a s&aacute;tira expressionista    &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es burguesas. Esta s&aacute;tira intensifica-se    ao apelar para a figura da cabra que ataca os "verdes esperan&ccedil;as,    sob as franjas de oiro da tarde," clara met&aacute;fora do Brasil, situada    na literatura de circunst&acirc;ncia da explora&ccedil;&atilde;o do aqui e agora    postulada pelo modernista, tamb&eacute;m com apoio no expressionismo alem&atilde;o.    S&aacute;tira que continua atual&iacute;ssima, pode-se dizer entre par&ecirc;nteses…</font></p>     <p><font size="3">Ros&acirc;ngela Asche de Paula, em sua tese de doutoramento    "O expressionismo na biblioteca de M&aacute;rio de Andrade: da leitura    &agrave; cria&ccedil;&atilde;o" (2006; bolsista da Fapesp e participante    do projeto tem&aacute;tico citado), coloca "O rebanho" na chave da    recria&ccedil;&atilde;o de "Weltende", de Jakob van Hoddis (1887-1942),    por parte autor de <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>. Segundo esta estudiosa    do nosso modernismo, o di&aacute;logo com "Weltende" ("O fim    do mundo"), primeiro poema da antologia <i>Menschheitsd&auml;mmerung</i>,    alia o esbo&ccedil;o de uma tradu&ccedil;&atilde;o, sobreposto a l&aacute;pis    ao texto impresso, &agrave; reverbera&ccedil;&atilde;o de imagens que, em "O    rebanho" e "Ode ao burgu&ecirc;s", se afinam com a s&aacute;tira,    com o esc&aacute;rnio expressionista ao burgu&ecirc;s. O primeiro verso do apocal&iacute;ptico    "Weltende" – "O chap&eacute;u do burgu&ecirc;s voa da cabe&ccedil;a    pontuda (chifruda)" – ressoa nos versos em que o poeta de <i>Paulic&eacute;ia    desvairada</i>, no ep&iacute;teto "chap&eacute;us altos" (cartolas),    qualifica os deputados. A alucina&ccedil;&atilde;o/ lucidez extrema-se ao recorrer    ao animal, e parte assim para a invectiva ao pol&iacute;tico burgu&ecirc;s,    cuja cartola lhe esconde os cornos, invectiva que continuar&aacute;, sem peias,    conforme a percuciente an&aacute;lise da jovem cr&iacute;tica, na "Ode    ao burgu&ecirc;s", no mesmo livro de 1922. Com uma pitada do humor dada&iacute;sta,    acrescenta-se.</font></p>     <p><font size="3">&Eacute; preciso ainda lembrar que a loucura que denuncia e    vaticina, linha de for&ccedil;a em <i>Paulic&eacute;ia desvairada</i>, ser&aacute;    condensada na fun&ccedil;&atilde;o do vate, poeta/profeta, conferida ao eu l&iacute;rico,    na poesia da maturidade de M&aacute;rio de Andrade, em 1937, no nono verso de    "Bras&atilde;o" – " ‘Eu sou aquele que veio do imenso rio’ "    –, em "A costela do Gr&atilde; C&atilde;o" (<i>In Poesias completas</i>;    ed. cit., pp. 352). Vir&aacute; ainda na endeixa vision&aacute;ria da M&atilde;e,    em <i>Caf&eacute;</i>, concep&ccedil;&atilde;o melodram&aacute;tica em tr&ecirc;s    atos, conclu&iacute;da em 1942 (<i>In op cit</i>., pp. 476-478), na qual esta    personagem redimensiona a solista Minha Loucura, do orat&oacute;rio de 1922.    "Eu sou aquele que" e "eu sou aquela que disse" dialogam    com o refr&atilde;o da terceira "Chanson du fou" em "Les campagnes    hallucin&eacute;es" (<i>In op. cit</i>., pp. 71-74), "<i>Je suis celui    qui vaticine/ comme les tours tocsinnent</i>.", revelador, ali&aacute;s,    da leitura de Verhaeren do profeta Isa&iacute;as (cap&iacute;tulo 51, vers&iacute;culo    12) e do <i>Apocalipse</i> (cap&iacute;tulo 1, vers&iacute;culo 23). </font></p>     <p><font size="3">A loucura e o vatic&iacute;nio convivem em <i>Paulic&eacute;ia    desvairada</i> com a express&atilde;o "arlequinal", adjetivo e adv&eacute;rbio    que se incumbe de traduzir a cidade multif&aacute;ria, na qual o di&aacute;logo    com Verhaeren reaparece no veloz verso harm&ocirc;nico em "Rua de S&atilde;o    Bento" – "A cain&ccedil;alha… A Bolsa… As jogatinas…" –, da condena&ccedil;&atilde;o    da bolsa de valores, esteio do capitalismo em todas as metr&oacute;poles, captada    em "La bourse", em <i>Les villes tentaculaires</i> (<i>In op. cit</i>.,    pp. 156-162). Arlequinal ou brasileiro traje de losangos, na verdade, espelha    a constru&ccedil;&atilde;o dessa obra, para a qual concorrem tantas leituras.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><i><b>Tel&ecirc; Ancona Lopez</b> &eacute; professora titular    da &aacute;rea de literatura brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros    da Universidade de S&atilde;o Paulo e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias    Humanas da mesma universidade. Foi presidente da Associa&ccedil;&atilde;o de    Pesquisadores do Manuscrito Liter&aacute;rio (APML), na gest&atilde;o 1997-1999.</i></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</b></FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Batles, Matthew. <i>A conturbada hist&oacute;ria das bibliotecas</i>.    Trad. Jo&atilde;o Verg&iacute;lio Gallerani. S&atilde;o Paulo: Planeta, 2003.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Canfora, Luciano. <i>Livro e liberdade</i>. Rio de Janeiro/    S&atilde;o Paulo: Casa da Palavra/ Ateli&ecirc;, 2003.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">D’Iorio, Paolo e Ferrer, Daniel (org.) <i>Biblioth&egrave;ques    d’&eacute;crivains</i>. Paris, CNRS, 2001.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Jackson, H. J. <i>Margin&aacute;lia: readers writing in books</i>.    New Haven/ London, Yale University, 2001.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Lopez, Tel&ecirc; Ancona. "A biblioteca de M&aacute;rio    de Andrade: seara e celeiro da cria&ccedil;&atilde;o". <i>In</i>: Zular,    Roberto, org. <i>Cria&ccedil;&atilde;o em processo</i>:<i> Ensaios de cr&iacute;tica    gen&eacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo, Iluminuras/ Fapesp, 2002, p. 45-72.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Neefs, Jacques. "Marges d’ombre". <i>In</i>:<i> Hugo    dans les marges</i>. Lucien D&auml;llenbach et Laurent Jenny (org.). Paris,    Zo&euml;, p.91-117.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Rouveyre, Edouard. <i>Dos livros</i>. Trad. Claire Levys. Rio    de Janeiro. Casa da Palavra, 2003.</FONT></p>      ]]></body>
</article>
