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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="5"><b>CR&Iacute;TICA GEN&Eacute;TICA, HIST&Oacute;RIA E SOCIEDADE</b>    </FONT></p>     <p><FONT size="3"><b>Roberto Zular</b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b><font size=5>E</font></b>ntre as muitas maneiras de estabelecer    a rela&ccedil;&atilde;o entre cr&iacute;tica gen&eacute;tica, hist&oacute;ria    e sociedade, este pequeno artigo tratar&aacute; do trabalho com os manuscritos    do ponto de vista das pr&aacute;ticas de escrita. Trata-se, aqui, t&atilde;o    somente de pontuar alguns pressupostos e conseq&uuml;&ecirc;ncias dessa abordagem    das pr&aacute;ticas, tendo como ponto de partida n&atilde;o os pr&oacute;prios    manuscritos, mas as teorias cr&iacute;ticas que abordam aspectos hist&oacute;ricos    e sociais da literatura.</font></p>     <p><font size="3">De Bourdieu a Foucault ou de Benjamin e Adorno a Ant&ocirc;nio    C&acirc;ndido, dificilmente se encontrar&aacute; algu&eacute;m que tenha tentado    pensar a rela&ccedil;&atilde;o entre literatura e sociedade, atravessada pela    hist&oacute;ria, sem considerar em algum momento as pr&aacute;ticas de produ&ccedil;&atilde;o    escrita. Todos eles, ainda que se pesem os diferentes pontos de vista, ao considerarem    essas pr&aacute;ticas de produ&ccedil;&atilde;o, esbarram na an&aacute;lise    dos manuscritos. Afinal, n&atilde;o seriam eles um meio interessante para se    verificar as marcas sociais que permeiam a produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica?</font></p>     <p><font size="3">Falar em pr&aacute;ticas significa estar um passo al&eacute;m    ou aqu&eacute;m dos movimentos liter&aacute;rios, da determina&ccedil;&atilde;o    dos g&ecirc;neros ou das regras ret&oacute;ricas. As pr&aacute;ticas envolvem    essas determina&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o as tomam como pressupostos    te&oacute;ricos <i>in abstrato</i> e, sim, como parte dos materiais que s&atilde;o    colocados em jogo na realiza&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica. Ao pensarmos    nesses pressupostos como materiais, vemos o quanto a forma art&iacute;stica    &eacute; historicamente formada ou, mais ainda, o quanto a forma &eacute; um    processo de auto-organiza&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria, pensada em sua    historicidade radical.</font></p>     <p><font size="3">Pelo fato de a cr&iacute;tica gen&eacute;tica enfatizar o "fazer"    como aspecto fundamental do que quer que se entenda por arte, tem-se que esse    fazer est&aacute; ancorado em um determinado tempo hist&oacute;rico e, por conseq&uuml;&ecirc;ncia,    ligado &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o que ele imp&otilde;e.    Da&iacute; porque, segundo Roberto Schwartz, numa visada materialista da literatura,    grandes escritores, como Machado de Assis, n&atilde;o tendem a se exclu&iacute;rem    dessas pr&aacute;ticas de produ&ccedil;&atilde;o. Ao contr&aacute;rio, procuram    sopesar suas condi&ccedil;&otilde;es sociais, o que, por sua vez, d&aacute;    peso e ossaturas reais &agrave; escrita. </font></p>     <p> <font size="3">"A inspira&ccedil;&atilde;o materialista de nosso trabalho    n&atilde;o deve ter escapado ao leitor. O caminho que tomamos entretanto vai    na dire&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria do habitual. Ao inv&eacute;s do artista    aprisionado em constrangimentos sociais, a que n&atilde;o pode fugir, mostramos    seu esfor&ccedil;o met&oacute;dico e inteligente para capt&aacute;-los, chegar-se    a eles, lhes perceber a implica&ccedil;&atilde;o e os assimilar como condicionantes    da escrita &agrave; qual confere ossatura e pesos <i>reais</i>. A prosa disciplinada    pela hist&oacute;ria &eacute; o ponto de chegada do grande escritor, e n&atilde;o    o ponto de partida, este sempre desfibrado, na sociedade moderna, pela conting&ecirc;ncia    e o isolamento do indiv&iacute;duo" (1)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em outras palavras, a realidade social que perpassa a escrita    n&atilde;o &eacute; alheia &agrave; cr&iacute;tica das condi&ccedil;&otilde;es    de possibilidade de um discurso, isto &eacute;, a um processo cr&iacute;tico    interno &agrave;s suas condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o. Nas    palavras de Philippe Willemart, em um vi&eacute;s mais cultural e psicanal&iacute;tico,    o escritor questiona quem o pressiona, remaneja a cultura e lhe d&aacute; outras    dimens&otilde;es (2).</font></p>     <p><font size="3">Se nos permitimos, no par&aacute;grafo acima, aproximar duas    vis&otilde;es muitas vezes tidas como antag&ocirc;nicas na cr&iacute;tica liter&aacute;ria,    &eacute; porque vemos o quanto essa visada materialista (que pressup&otilde;e    um complexo realismo que funciona como ponto de chegada das pr&aacute;ticas    e n&atilde;o como ponto de partida) e a visada cultural ou psicanal&iacute;tica    podem ser vistas a partir de outro &acirc;ngulo. A aproxima&ccedil;&atilde;o    parte de uma concep&ccedil;&atilde;o da linguagem que a toma como uma realidade    em si mesma e que, performativamente, constitui a realidade que enuncia. O realismo,    portanto, dependeria do modo como o peso real da linguagem &eacute; assumido    na din&acirc;mica de suas forma&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, as quais    s&atilde;o tratadas, tamb&eacute;m formalmente, no interior das pr&aacute;ticas.</font></p>     <p><font size="3">Para tirar todas as conseq&uuml;&ecirc;ncias dessa vis&atilde;o    da literatura como parte, ela mesma, de um processo social, precisamos de uma    teoria da linguagem que nos deixe mais perto desse vi&eacute;s liter&aacute;rio    como produ&ccedil;&atilde;o de realidade, isto &eacute;, da literatura como    aquilo que faz, inventa, produz, mais do que representa. Penso, aqui, na teoria    do performativo que prop&otilde;e a exist&ecirc;ncia de determinado tipo de    enunciados que n&atilde;o s&atilde;o nem verdadeiros nem falsos. Esses enunciados    performativos realizam aquilo que enunciam, criam uma realidade a partir de    sua pr&oacute;pria enuncia&ccedil;&atilde;o. Por exemplo, quando digo "eu    prometo", realizo a a&ccedil;&atilde;o de prometer no pr&oacute;prio ato    de enunci&aacute;-la, pouco importando se eu cumprirei a promessa ou n&atilde;o.    No &acirc;mbito da literatura, isto quer dizer que ela faz alguma coisa independentemente    do suposto mundo que representa, mundo esse que, como vimos, est&aacute; entranhado    na historicidade de suas condi&ccedil;&otilde;es de possibilidade.</font></p>     <p><font size="3">Essa no&ccedil;&atilde;o de performativo, t&atilde;o cheia de    tens&otilde;es na formula&ccedil;&atilde;o de seu pr&oacute;prio inventor, John    Langshaw Austin, foi largamente discutida por te&oacute;ricos da literatura    como Culler, Compagnon, Costa Lima, entre outros. Deixando de lado as diverg&ecirc;ncias    entre eles, a vis&atilde;o performativa da linguagem ataca o bin&ocirc;mio literatura    e sociedade para mostrar o quanto a pr&aacute;tica liter&aacute;ria &eacute;    por si mesma um fato social. Basta que imaginemos a quase infinita cadeia de    condi&ccedil;&otilde;es sociais que a tornam poss&iacute;vel: o aprendizado    da l&iacute;ngua e da escrita, o desenvolvimento de materiais para que essa    escrita seja efetivada (papel, tinta, escrivaninha, computador, etc.), os meios    de circula&ccedil;&atilde;o dessa escrita (cartas, livros, jornais, internet,    etc.), a exist&ecirc;ncia de um p&uacute;blico leitor, a cria&ccedil;&atilde;o    de uma institui&ccedil;&atilde;o chamada literatura, o lugar social do escritor,    o universo de discursos no qual algo como um discurso liter&aacute;rio pode    surgir…</font></p>     <p><font size="3">Essa vis&atilde;o performativa, por sua vez, ao atentar para    as condi&ccedil;&otilde;es de enunciabilidade da literatura, exige sua compreens&atilde;o    dentro de uma historicidade radical: n&atilde;o se pode entend&ecirc;-la sen&atilde;o    a partir de suas situa&ccedil;&otilde;es de enuncia&ccedil;&atilde;o, as quais,    por sua vez, envolvem suas condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas de produ&ccedil;&atilde;o    e de leitura. Dessa maneira, sequer podemos falar de "literatura"    como um termo aplic&aacute;vel a todas as produ&ccedil;&otilde;es escritas de    todas as &eacute;pocas. Como tem insistido Jo&atilde;o Adolfo Hansen, a institui&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o bastante recente que se    configura a partir do s&eacute;culo XVIII. Mais do que isso, ela est&aacute;    ligada &agrave; pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de ficcionalidade, termo    criado para distinguir a literatura da hist&oacute;ria e que s&oacute; pode    ser entendido dentro de um amplo rol de atos performativos que estruturam as    sociedades democr&aacute;ticas, como, por exemplo, os atos constituintes do    universo pol&iacute;tico, geralmente compilados em Constitui&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, essa historicidade permite respeitar a especificidade    de contextos de produ&ccedil;&atilde;o que pressup&otilde;em determina&ccedil;&otilde;es    ret&oacute;ricas e sistemas de g&ecirc;neros (que alteram por completo os horizontes    de produ&ccedil;&atilde;o e de leitura), como tamb&eacute;m permite respeitar    concep&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, que envolvem outros dispositivos,    muitas vezes pautados em experi&ecirc;ncias religiosas ou m&iacute;sticas, como    as de S&atilde;o Jo&atilde;o da Cruz ou mesmo de Mallarm&eacute;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a17img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A despeito do interesse que a cr&iacute;tica gen&eacute;tica    desperta na concep&ccedil;&atilde;o de uma teoria das pr&aacute;ticas de produ&ccedil;&atilde;o    escrita, a efic&aacute;cia de sua realiza&ccedil;&atilde;o depende do afastamento    de crit&eacute;rios anacr&ocirc;nicos muitas vezes tidos como universais. Isto    &eacute;, a &ecirc;nfase que a cr&iacute;tica gen&eacute;tica d&aacute; ao fazer    liter&aacute;rio, pressup&otilde;e um cuidado com a especificidade dos modos    de produ&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A cr&iacute;tica gen&eacute;tica, ao explorar a materialidade    dos vest&iacute;gios dos atos de produ&ccedil;&atilde;o e mesmo os horizontes    de expectativa t&eacute;cnicos e ret&oacute;ricos que envolvem esses atos, tem    uma peculiaridade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras pr&aacute;ticas    cr&iacute;ticas, por alterar a pr&oacute;pria materialidade dos textos, os quais    passam a ser lidos conjuntamente com os manuscritos. Da&iacute; porque &eacute;    dif&iacute;cil separ&aacute;-la da est&eacute;tica da recep&ccedil;&atilde;o,    seja por essa transforma&ccedil;&atilde;o do modo de leitura dos textos, seja    por perscrutar os horizontes de expectativa que acompanham as pr&aacute;ticas    de produ&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido, ao menos desde a <i>Forma&ccedil;&atilde;o    da literatura brasileira</i>, tem atentado para a din&acirc;mica envolvida no    movimento basculante entre produ&ccedil;&atilde;o e recep&ccedil;&atilde;o que    estaria em jogo na configura&ccedil;&atilde;o de uma literatura nacional. Independentemente    desse crit&eacute;rio de nacionalidade, &eacute; poss&iacute;vel ver a cr&iacute;tica    gen&eacute;tica como um dispositivo cr&iacute;tico interessante para tratar    desse sistema din&acirc;mico que se forma entre autores, obras e leitores, dispositivo    que implica uma reconceitua&ccedil;&atilde;o dessas categorias constitutivas    do sistema.</font></p>     <p><font size="3">Os estudos gen&eacute;ticos, pensados na chave da vis&atilde;o    performativa, desconfiam da no&ccedil;&atilde;o de autoria ao perceberem que    ela funciona muito mais como crit&eacute;rio de recep&ccedil;&atilde;o, isto    &eacute;, na vis&atilde;o de Foucault em <i>O que &eacute; um autor</i> (3),    como crit&eacute;rio que estabelece modos de sele&ccedil;&atilde;o, valora&ccedil;&atilde;o    e circula&ccedil;&atilde;o de determinados textos. A &ecirc;nfase passa ent&atilde;o    do autor para as pr&aacute;ticas produtivas, as quais, ao seu turno, desestabilizam    a no&ccedil;&atilde;o de obra como um todo fechado e acabado. Isto n&atilde;o    quer dizer que entramos no universo p&oacute;s-moderno de total dessubjetiva&ccedil;&atilde;o    e de um culto ao inacabado, ao vol&aacute;til, ao ef&ecirc;mero. </font></p>     <p><font size="3">Primeiramente, a cr&iacute;tica gen&eacute;tica permite trabalhar    a subjetividade como um dos vetores que entram em jogo na escrita e que, muitas    vezes, n&atilde;o &eacute; pressuposto dela, mas uma resultante. As pr&aacute;ticas    de escrita podem ser vistas como um modo de produ&ccedil;&atilde;o de subjetividade,    hip&oacute;tese que Philippe Willemart vem desenvolvendo h&aacute; tempos. </font></p>     <p><font size="3">Ao deixar a autoria como uma vari&aacute;vel a mais no jogo    da escritura, Willemart separa a autoria da subjetividade, como tamb&eacute;m    distingue o narrador ou a inst&acirc;ncia de enuncia&ccedil;&atilde;o de um    poema da presen&ccedil;a fantasm&aacute;tica do autor. Em um vi&eacute;s lacaniano    pr&oacute;ximo de Willemart, essa destrui&ccedil;&atilde;o do pequeno eu imagin&aacute;rio    (impl&iacute;cita no artif&iacute;cio da autoria) est&aacute; ligada &agrave;    puls&atilde;o de morte que, nos termos de Wladimir Safatle: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">"(…) marca a dissolu&ccedil;&atilde;o do <i>poder organizador</i>      do Simb&oacute;lico que, no limite, nos leva &agrave; ruptura do <i>eu</i>      como forma&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria. Neste ponto, Lacan est&aacute;      muito pr&oacute;ximo de Deleuze, outro que procurou compreender a puls&atilde;o      de morte para al&eacute;m da repeti&ccedil;&atilde;o compulsiva do instinto      bruto de destrui&ccedil;&atilde;o. Pois &eacute; de Deleuze a afirma&ccedil;&atilde;o,      absolutamente central para aceitarmos a estrat&eacute;gia lacaniana, de que      a morte procurada pela puls&atilde;o &eacute; : "o estado de diferen&ccedil;as      livres quando elas n&atilde;o s&atilde;o mais submetidas &agrave; forma que      lhes era dada por um Eu; quando elas excluem <i>minha</i> pr&oacute;pria coer&ecirc;ncia,      assim como de outra identidade qualquer. H&aacute; sempre um ‘morre-se’ mais      profundo do que um ‘morro’. Desta forma, <i>o negativo da morte pode aparecer      como figura do n&atilde;o-id&ecirc;ntico</i>. " (4).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Para Willemart, essa figura&ccedil;&atilde;o do n&atilde;o-id&ecirc;ntico    se atualiza em um movimento cont&iacute;nuo entre v&aacute;rias inst&acirc;ncias    que se retro-alimentam: escritor, <i>scriptor</i>, narrador e autor. Assim,    o escritor emp&iacute;rico, aquele que realiza as pr&aacute;ticas, &eacute;    subsumido por uma inst&acirc;ncia em que prepondera a escritura e que determina    de fora os caminhos (o <i>scriptor</i>), passando pelo foco de um narrador e    dependendo do olhar constante do autor – primeiro leitor, n&atilde;o esque&ccedil;amos    – que admite os efeitos produzidos, concluindo as v&aacute;rias etapas at&eacute;    a efetiva publica&ccedil;&atilde;o, posi&ccedil;&atilde;o esta que pode ser    ocupada por outro sujeito. Dessa forma, Willemart respeita e integra num espa&ccedil;o    de rela&ccedil;&otilde;es a figura emp&iacute;rica do escritor (ligada &agrave;    experi&ecirc;ncia, &agrave;s formas de percep&ccedil;&atilde;o, sua posi&ccedil;&atilde;o    social), uma inst&acirc;ncia determinada pelo jogo com a linguagem; outra, sempre    em regime de retro-alimenta&ccedil;&atilde;o, que opera a media&ccedil;&atilde;o    por um narrador ou enuncia&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica, na qual o imagin&aacute;rio    &eacute; fundamental e as situa&ccedil;&otilde;es de enuncia&ccedil;&atilde;o    respondem a situa&ccedil;&otilde;es constru&iacute;das ficcionalmente; e, por    fim, a inst&acirc;ncia da autoria no interior do processo (como aceita&ccedil;&atilde;o    de efeitos de sentido), &agrave; qual acrescentar&iacute;amos uma inst&acirc;ncia    exterior, isto &eacute;, a fun&ccedil;&atilde;o-autor que trata Foucault no    texto antes citado.</font></p>     <p><font size="3">O mesmo tipo de reflex&atilde;o – que n&atilde;o nega a inst&acirc;ncia    da autoria, mas que tamb&eacute;m n&atilde;o se subsume a ela – pode ser desenvolvido    no que toca &agrave; no&ccedil;&atilde;o de obra, cuja completude e totalidade    &eacute; posta em quest&atilde;o pelas delimita&ccedil;&otilde;es das pr&aacute;ticas    e suas configura&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, que exigem novas formas    de inteligibilidade. Um modo de atravessar sucintamente essa desestabiliza&ccedil;&atilde;o    da no&ccedil;&atilde;o de obra &eacute; pensar as r&aacute;pidas mudan&ccedil;as    que t&ecirc;m ocorrido nos meios digitais ou, em um passado nem t&atilde;o distante,    os efeitos causados pela generaliza&ccedil;&atilde;o do uso da imprensa, fortemente    ligados ao surgimento de formas liter&aacute;rias como o conto e o romance.    V&aacute;rios estudos gen&eacute;ticos, como os de Jos&eacute; Alcides Ribeiro,    v&ecirc;m mostrando as transforma&ccedil;&otilde;es pelas quais passam diversos    romances quando publicados em peri&oacute;dicos ou em formato de livro. </font></p>     <p><font size="3">Fa&ccedil;amos uma pequena parada antes de continuarmos. Do    que foi tratado at&eacute; aqui, podemos dizer que, em suma, trata-se de deslocar    os problemas te&oacute;ricos da formula&ccedil;&atilde;o de um conceito de "processo    de cria&ccedil;&atilde;o" para uma teoria das pr&aacute;ticas de escrita,    pr&aacute;ticas essas que, a nosso ver, est&atilde;o intrinsecamente ligadas    &agrave;s configura&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas e sociais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Desse sum&aacute;rio resulta que a rela&ccedil;&atilde;o entre    literatura, hist&oacute;ria e sociedade que propomos, evita confundir a historicidade    com estabelecimento simplista de paralelos entre acontecimentos liter&aacute;rios    e fatos hist&oacute;ricos, que muitas vezes, pretendendo falar da realidade,    n&atilde;o &eacute; mais que a aplica&ccedil;&atilde;o de lugares comuns do    discurso hist&oacute;rico e social aos textos liter&aacute;rios. De fato, o    que muitas vezes se trata como "a realidade" representada pela literatura,    &eacute; um artif&iacute;cio intertextual (tantas vezes tido como oposto ao    realismo!) entre sociologia, hist&oacute;ria e cr&iacute;tica liter&aacute;ria.</font></p>     <p><font size="3">Ao trabalharmos com a din&acirc;mica das inst&acirc;ncias, procuramos    desvincular as pr&aacute;ticas liter&aacute;rias de uma rela&ccedil;&atilde;o    puramente imagin&aacute;ria entre leitor e autor, de um universo pr&eacute;-ed&iacute;pico    ou paradis&iacute;aco que possibilitaria, depois da derrocada da teoria, uma    rela&ccedil;&atilde;o imediata e acr&iacute;tica com os textos, muitas vezes    equivocadamente chamada de "leitura imanente". Nesse ponto, n&atilde;o    por acaso, confluem a psican&aacute;lise e a cr&iacute;tica social, ao separarem    a nossa pequena exist&ecirc;ncia individual de leitores das din&acirc;micas    subjetivas e sociais que pressup&otilde;em uma media&ccedil;&atilde;o pela alteridade,    chame-se ela "Outro" (na formula&ccedil;&atilde;o de Lacan), ou sociedade.    No dizer de Adorno:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">"O <i>totum</i> das for&ccedil;as investidas na obra      de arte, aparentemente algo de subjetivo apenas, &eacute; a presen&ccedil;a      potencial do coletivo na obra, em propor&ccedil;&atilde;o com as for&ccedil;as      produtivas dispon&iacute;veis: cont&eacute;m a m&ocirc;nada sem janelas. &Eacute;      o que se manifesta de maneira mais dr&aacute;stica nas corre&ccedil;&otilde;es      cr&iacute;ticas do artista. Em cada melhoramento, a que se v&ecirc; obrigado,      freq&uuml;entemente em conflito com o que ele considera o primeiro impulso,      trabalha ele como agente da sociedade, indiferente quanto &agrave; consci&ecirc;ncia      desta. (d.m.)" (5)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A entrada no interior das pr&aacute;ticas nos leva a uma alteridade    irredut&iacute;vel, a um falar que diz mais do que diz, a uma enuncia&ccedil;&atilde;o    que transcende o enunciado, a uma determina&ccedil;&atilde;o que nos vem de    fora e na qual tanto jogamos quanto somos jogados. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o fosse essa alteridade, esse limite negativo, esse    processo que leva para algo al&eacute;m dele mesmo, qual seria a necessidade    da arte? Para simplesmente desvelar ou expressar o que j&aacute; estava l&aacute;?    Isto &eacute;, n&atilde;o seria mais produtivo pensar a arte como aquilo que    exige de n&oacute;s cria&ccedil;&atilde;o para que possamos dar a ele realidade?    Como aquilo a que nos aproximamos somente pela constru&ccedil;&atilde;o formal?    </font></p>     <p><font size="3">Um dos maiores desafios que se coloca para a cr&iacute;tica    gen&eacute;tica reside na compreens&atilde;o desse terreno movedi&ccedil;o e    f&eacute;rtil que surge na passagem das pr&aacute;ticas &agrave;s formas. Ora,    se admitimos a forma como algo que est&aacute; para al&eacute;m do seu processo    de forma&ccedil;&atilde;o, como esse salto no abismo que extrapola as determina&ccedil;&otilde;es    das pr&aacute;ticas ainda que intrinsecamente relacionada a elas, somos obrigados    a pensar nos limites &eacute;ticos da pr&aacute;tica do geneticista. Essa &eacute;tica    das formas n&atilde;o &eacute; estranha &agrave; postulada por Lezama Lima:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">"O secreto desenvolvimento de uma obra, anterior a seu      surgimento e justificativa, permanece como cerrado feudo de conduta. Como      incorpor&aacute;-lo &agrave; obra de arte? Talvez esse mecanismo n&atilde;o      possa ser transmitido, pois para obter seu ganho &eacute;tico, sempre ser&aacute;      preciso come&ccedil;&aacute;-lo de novo, e ent&atilde;o ver&iacute;amos esse      trabalho mec&acirc;nico como uma obra realizada, mas cujos recursos generantes      seriam sempre inadvertidos enquanto se produzem" (6).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3"><b>COMO INCORPOR&Aacute;-LO &Agrave; OBRA DE ARTE?</b> Eis a    quest&atilde;o que perpassa o movimento das pr&aacute;ticas &agrave; forma:    quanto ou o qu&ecirc; do processo de produ&ccedil;&atilde;o deve ser exposto?    Quais os limites para configura&ccedil;&atilde;o de um objeto que se pretenda    aut&ocirc;nomo em rela&ccedil;&atilde;o ao seu modo produtivo? Do que vimos    at&eacute; aqui, creio ficar claro que a id&eacute;ia de "autonomia relativa"    da arte &eacute; uma abstra&ccedil;&atilde;o que s&oacute; faz sentido quando    pensada como uma postura &eacute;tica – de recusas, de rigor, de desprendimento    – que s&oacute; pode se dar no interior das pr&aacute;ticas. Creio que n&atilde;o    temos como fugir da aporia: a busca de autonomia, muitas vezes contr&aacute;ria    &agrave;s pr&aacute;ticas, s&oacute; pode ser pensada a partir delas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Por outro lado, &eacute; cada vez mais evidente, nas pr&aacute;ticas    contempor&acirc;neas, um movimento contr&aacute;rio ao da autonomia e que chega    mesmo a fundir as pr&aacute;ticas de produ&ccedil;&atilde;o com os modos de    exposi&ccedil;&atilde;o. Esse movimento pode ser visto como a radicaliza&ccedil;&atilde;o    de um grande arco hist&oacute;rico que come&ccedil;a com a quest&atilde;o da    reflexividade nos primeiros rom&acirc;nticos alem&atilde;es, passando, por exemplo,    pelos manifestos modernistas (que s&atilde;o em boa parte discuss&otilde;es    sobre pr&aacute;ticas de produ&ccedil;&atilde;o) e pela publica&ccedil;&atilde;o    de manuscritos pelos pr&oacute;prios escritores (como no caso de Francis Ponge).    A cr&iacute;tica gen&eacute;tica, de certa forma, apenas responde a essa demanda    de reflex&atilde;o sobre as pr&aacute;ticas produtivas da pr&oacute;pria literatura.</font></p>     <p><font size="3">No entanto, &eacute; na cultura contempor&acirc;nea que a quest&atilde;o    dos limites se faz ainda mais necess&aacute;ria diante do desejo de transpar&ecirc;ncia,    do culto da auto-exposi&ccedil;&atilde;o ou da const&acirc;ncia da pergunta    "como voc&ecirc; escreve?". Quando n&atilde;o h&aacute; qualquer coisa    que seja produzida na intimidade que n&atilde;o alcance um valor mercadol&oacute;gico    no instante seguinte (prem&ecirc;ncia que sofrem com muita for&ccedil;a os manuscritos    de trabalho, as cartas, etc.), seria interessante que o cr&iacute;tico gen&eacute;tico    se perguntasse pelos limites de sua pr&oacute;pria pesquisa. Isto &eacute;,    o trabalho do geneticista, com mais for&ccedil;a do que qualquer outro trabalho    cr&iacute;tico, &eacute; um trabalho que depende do questionamento constante    de seus pr&oacute;prios pressupostos.</font></p>     <p><font size="3">Cr&iacute;tica da cr&iacute;tica ou escrever sobre escrever,    esse movimento reflexivo que embaralha as pr&aacute;ticas de escrita e de leitura    – do qual Borges tirou as conseq&uuml;&ecirc;ncias ficcionais mais ir&ocirc;nicas    e paradoxais – para n&atilde;o se perder no infinito – ou para sair do xeque-mate    da nova reflexividade tratada como um drama da leitura por Borges – depende    de um olhar atento &agrave; especificidade dos objetos, posto que est&eacute;ticos,    em torno dos quais as pr&aacute;ticas se formalizam.</font></p>     <p><font size="3">A forma vista a partir das pr&aacute;ticas e da performatividade    da linguagem, torna-se, assim, ela mesma uma quest&atilde;o social e hist&oacute;rica,    num movimento cr&iacute;tico capaz de questionar as constru&ccedil;&otilde;es    simb&oacute;licas que emergem em dada configura&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica    e social. </font></p>     <p><font size="3">Nesse quadro, a cr&iacute;tica gen&eacute;tica tem uma dificuldade    suplementar que adv&eacute;m da percep&ccedil;&atilde;o de sua intr&iacute;nseca    rela&ccedil;&atilde;o com as pr&aacute;ticas art&iacute;sticas que lhe s&atilde;o    contempor&acirc;neas. Da&iacute; pensarmos em uma &eacute;tica das formas ou,    em termos foucaultianos, em um trabalho com os limites no limite mesmo da opacidade    dos objetos: "penso que &eacute; sempre necess&aacute;rio um trabalho sobre    os nossos limites, isto &eacute;, um trabalho paciente que d&aacute; forma &agrave;    impaci&ecirc;ncia da liberdade" (g.m.).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><i><b>Roberto Zular</b> &eacute; docente do Departamento de    Teoria Liter&aacute;ria e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras    e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Organizou    o livro</i> Cria&ccedil;&atilde;o em processo. Ensaios de cr&iacute;tica gen&eacute;tica    <i>e, com Claudia Amigo Pino, publicar&aacute; em breve, pela Martins Fontes,</i>    Escrever sobre escrever. Uma introdu&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica &agrave;    cr&iacute;tica gen&eacute;tica. </FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">1. Schwarz, Roberto. <i>Um mestre na periferia do capitalismo    – Machado de Assis</i>. S&atilde;o Paulo: Duas Cidades, 1991, p.225.</font></p>     <p><font size="3">2. Willemart, Philippe. <i>Universo da cria&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria</i>. S&atilde;o Paulo: Edusp, 1996.</font></p>     <p><font size="3">3. Foucault, Michel. <i>O que &eacute; um autor?</i>. Lisboa:    Passagens, 1992.</font></p>     <p><font size="3">4. Safatle, Wladimir. <i>A paix&atilde;o do negativo. Lacan    e a dial&eacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Unesp, p.277. 2006.</font></p>     <p><font size="3">5. Adorno, T.W. <i>Teoria est&eacute;tica</i>. Portugal, Edi&ccedil;&otilde;es    70, p. 68. 1992.</font></p>     <p><font size="3">6. Lima, Lezama. <i>A dignidade da poesia</i>. S&atilde;o Paulo:    &Aacute;tica, p. 38. 1996.</font></p>      ]]></body>
</article>
