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</front><body><![CDATA[ <p><FONT size="4"><b>LITERATURA</b></FONT></p>     <p><font size="4"><b>D<SMALL>EU A LOUCA NA NARRATIVA INFANTIL?</small></b> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Diversas gera&ccedil;&otilde;es dos mais diferentes lugares    do mundo t&ecirc;m em comum a mem&oacute;ria de cenas cl&aacute;ssicas dos grandes    contos infantis, como aquela em que Chapeuzinho Vermelho chega &agrave; casa    de sua av&oacute; com uma cesta de doces e encontra o lobo, na cama, disfar&ccedil;ado    de vovozinha. O di&aacute;logo que se segue, com algumas varia&ccedil;&otilde;es,    indaga sobre as m&atilde;os e as orelhas grandes dessa estranha vov&oacute;;    e a persegui&ccedil;&atilde;o que o lobo faz &agrave; Chapeuzinho inquietou    crian&ccedil;as de todas as &eacute;pocas. Por&eacute;m, se de repente a verdadeira    vov&oacute; sai de dentro do arm&aacute;rio toda enrolada em cordas e, em seguida,    surge um lenhador – equivalente ao ca&ccedil;ador das vers&otilde;es mais tradicionais    do conto – e os quatro se p&otilde;em a gritar? E se essa cena &eacute; interrompida    e a narrativa recome&ccedil;a com a casa da vov&oacute; cercada pela pol&iacute;cia    e um interrogat&oacute;rio em que cada um dos quatro personagens principais    (Chapeuzinho, lobo, lenhador e vov&oacute;) &eacute; suspeito do roubo das receitas    de doces da floresta. Voc&ecirc; diria:- "Deu a louca na Chapeuzinho"?</font></p>     <p><font size="3">Este &eacute; o t&iacute;tulo da vers&atilde;o brasileira do    filme de anima&ccedil;&atilde;o <i>Hoodwinked</i>, da Blue Yonder Films, dirigido    por Cory Edwards, a mais recente adapta&ccedil;&atilde;o do tema. Embora a caracteriza&ccedil;&atilde;o    das personagens em <i>Hoodwinked</i> d&ecirc; comicidade ao conto cl&aacute;ssico    – o lobo &eacute; um c&iacute;nico rep&oacute;rter investigativo e a vov&oacute;,    al&eacute;m de excelente doceira, tamb&eacute;m pratica esportes radicais –,    o filme mant&eacute;m os conflitos humanos e sua capacidade de simbolizar anseios,    medos e necessidades das crian&ccedil;as, o que &eacute; pr&oacute;prio das    narrativas infantis. Essa &eacute; a opini&atilde;o da psicopedagoga paulista    Andrea Magnanelli, que viu o filme e gostou. Ela critica desenhos da Disney    que tentam ser "fi&eacute;is" aos contos infantis "originais",    mas amenizam ou suprimem situa&ccedil;&otilde;es mais dram&aacute;ticas, para    evitar chocar a crian&ccedil;a. Esta op&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, retira    a for&ccedil;a que os contos infantis t&ecirc;m que &eacute; justamente elaborar    solu&ccedil;&otilde;es para conflitos internos existentes na inf&acirc;ncia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a28img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Mesmo a cena inicial de <i>Hoodwinked</i> sendo facilmente associada    &agrave; hist&oacute;ria cl&aacute;ssica, &eacute; apenas mais uma das diferentes    vers&otilde;es do conto da Chapeuzinho Vermelho: o historiador norte-americano    Robert Darnton descobriu 35 diferentes vers&otilde;es que circularam somente    no norte da Fran&ccedil;a, durante a Idade M&eacute;dia. A maioria era de relatos    orais da tradi&ccedil;&atilde;o popular, que Charles Perrault recolheu e alterou    em alguns pontos, publicando em 1697 sua vers&atilde;o com o final tr&aacute;gico    em que a av&oacute; e a Chapeuzinho s&atilde;o devoradas pelo lobo. No s&eacute;culo    XIX, surge a vers&atilde;o dos irm&atilde;os alem&atilde;es Jacob e Wilhelm    Grimm, com o final em que o ca&ccedil;ador salva a menina, tira a av&oacute;    da barriga do lobo e coloca pedras no lugar. Esta se tornou a vers&atilde;o    mais famosa do conto, a partir da qual o compositor brasileiro Braguinha fez    a vers&atilde;o mais conhecida por aqui, com cantigas da Chapeuzinho, do lobo    e do ca&ccedil;ador.</font></p>     <p><font size="3">As vers&otilde;es possibilitam diferentes leituras: "varia    de crian&ccedil;a para crian&ccedil;a, de lugar para lugar", diz a psicopedagoga.    "E a crian&ccedil;a n&atilde;o cria raiz num papel s&oacute;, n&atilde;o    precisa se identificar com uma s&oacute; personagem, mas pode relacionar com    a sua realidade a imagem de uma av&oacute; que n&atilde;o &eacute; s&oacute;    aquela que faz tric&ocirc; e doces", continua. Andrea destaca em <i>Hoodwinked</i>    o fato de cada um dos quatro principais personagens dar a sua vers&atilde;o    da hist&oacute;ria. Isso permite trabalhar com a crian&ccedil;a a id&eacute;ia    de que as pessoas andam por variados caminhos, cada um com sua hist&oacute;ria    e pontos de vista diferentes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"Essa id&eacute;ia tamb&eacute;m aparece na literatura,    em <i>A verdadeira hist&oacute;ria dos tr&ecirc;s porquinhos</i>", lembra    Andrea, referindo-se &agrave; vers&atilde;o de Jon Scieszka para outro cl&aacute;ssico    infantil, cujo personagem principal &eacute; o lobo, que bate na porta de um    porquinho e pede uma x&iacute;cara de a&ccedil;&uacute;car para fazer um bolo    de anivers&aacute;rio para a sua av&oacute;; mas o lobo espirra, porque est&aacute;    resfriado, e acaba derrubando a casa de palha do porquinho. Assim como <i>Hoodwinked</i>,    essa hist&oacute;ria tamb&eacute;m tem elementos jornal&iacute;sticos: os rep&oacute;rteres    acharam que essa vers&atilde;o do lobo n&atilde;o daria boas manchetes e n&atilde;o    venderia os jornais e, por isso, decidiram alterar a not&iacute;cia, criando    a vers&atilde;o em que o lobo tenta comer os porquinhos, o que possibilita mostrar    &agrave;s crian&ccedil;as que al&eacute;m de existirem diferentes pontos de    vista, eles n&atilde;o s&atilde;o imparciais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a28img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Essas narrativas que dialogam com os cl&aacute;ssicos, parecendo    subvert&ecirc;-los, na verdade abordam conflitos, medos e anseios que muitas    pessoas trazem desde a inf&acirc;ncia e com os quais podem conviver mesmo na    fase adulta. No cinema, o filme <i>Shrek</i>, que &eacute; apontado nas resenhas    como o maior exemplo de ironiza&ccedil;&atilde;o de contos infantis, tamb&eacute;m    traz conflitos humanos. O protagonista, um ogro que vive isolado em um p&acirc;ntano,    teve seu sossego interrompido, porque os personagens de contos de fadas foram    banidos de um feudo e condenados a viver ali. Para se livrar deles, o ogro precisa    libertar uma princesa para ela se casar com um nobre. O isolamento de um sujeito    feio e a descoberta de que ele pode ter amigos e at&eacute; mesmo se apaixonar    e ser correspondido s&atilde;o elementos desse filme que tocam diretamente em    conflitos infanto-juvenis.</font></p>     <p><font size="3">O mesmo pode-se dizer para <i>Hoodwinked</i> que, embora pare&ccedil;a    ter virado a narrativa infantil de cabe&ccedil;a para baixo, como sugere o t&iacute;tulo    da anima&ccedil;&atilde;o em portugu&ecirc;s, aborda conflitos como o desejo    de Chapeuzinho de ser independente e de conhecer outros lugares, ou o da av&oacute;,    que quer ser algo mais do que a melhor doceira da floresta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Rodrigo Cunha</i></font></p>      ]]></body>
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