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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a09img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a11fig01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">ENTREVISTA</font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a09img02.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Boaventura de Souza Santos: aten&ccedil;&atilde;o para quest&otilde;es    b&aacute;sicas de defesa da vida</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">O soci&oacute;logo portugu&ecirc;s Boaventura de Sousa Santos,    um dos palestrantes mais freq&uuml;entes do F&oacute;rum Social Mundial (FSM)    acredita na for&ccedil;a do evento como espa&ccedil;o promotor de di&aacute;logo    entre diferentes movimentos. &Eacute; desse di&aacute;logo que ele imagina estejam    saindo as melhores respostas e alternativas ao capitalismo neoliberal, o que    se convencionou chamar movimento contra-hegem&ocirc;nico.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Presente na &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o do FSM, em janeiro    &uacute;ltimo no Qu&ecirc;nia, o soci&oacute;logo falou sobre o di&aacute;logo    intercultural que &eacute; preciso criar entre os movimentos, sobre o neocolonialismo    que atinge os pa&iacute;ses pobres e sobre aquele que &eacute; um dos maiores    problemas do continente africano hoje, a aids.</font></P>     <p><font size="3"><b><i>Qual a import&acirc;ncia de se realizar um FSM na &Aacute;frica?</i></b></font></P>     <p><font size="3">A realiza&ccedil;&atilde;o desse f&oacute;rum no Qu&ecirc;nia    &eacute; uma das grandes vit&oacute;rias do movimento, que se tornou um processo    permanente. Ele teve a capacidade de sair de seu ninho original, que foi a capital    ga&uacute;cha de Porto Alegre, no Brasil, o que muitos consideravam imposs&iacute;vel.    Mumbai, na &Iacute;ndia, em 2004, foi um grande desafio. Mas foi um grande f&oacute;rum,    bem organizado, com a cr&iacute;tica que precis&aacute;vamos ouvir, que s&oacute;    poderia ter sido trazida por eles. L&aacute; foi discutida a quest&atilde;o    do fundamentalismo religioso, que nunca havia sido discutido a s&eacute;rio    antes. </font></P>     <p><font size="3">A quest&atilde;o das castas tamb&eacute;m, e l&aacute; estavam    33 mil dalits, os intoc&aacute;veis. Aqui, em Nairobi, se passa exatamente o    mesmo: tivemos alta presen&ccedil;a africana, o que nunca havia ocorrido e era    uma das grandes defici&ecirc;ncias do f&oacute;rum. Os africamos estiveram mais    presentes nas sess&otilde;es onde foram discutidos assuntos que os tocam e,    com isso, levaram esses temas &agrave; primeira p&aacute;gina do f&oacute;rum.    Que assuntos? A quest&atilde;o da terra, muitos est&atilde;o sendo expulsos    por causa da minera&ccedil;&atilde;o, pela especula&ccedil;&atilde;o urbana,    pelos grandes projetos tur&iacute;sticos. </font></P>     <p><font size="3">Outra quest&atilde;o fundamental &eacute; a &aacute;gua, pois    esse &eacute; um continente com car&ecirc;ncia de &aacute;gua que, inclusive,    est&aacute; sendo privatizada, virando item de lucro, o que agrava ainda mais    a situa&ccedil;&atilde;o. E tem o grave problema do HIV/aids: os suecos t&ecirc;m    uma esperan&ccedil;a de vida de 80 e tantos anos, enquanto em Mo&ccedil;ambique    a esperan&ccedil;a &eacute; de 32. Essa disparidade explodiu aqui neste f&oacute;rum,    com a viol&ecirc;ncia da desigualdade. S&atilde;o quest&otilde;es fundamentais    para serem discutidas e talvez n&atilde;o aparecessem num f&oacute;rum em outro    continente.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a11fig02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b><i>O FSM re&uacute;ne diferentes movimentos sociais de todo    o mundo. Existe alguma causa que os una?</i></b></font></P>     <p><font size="3">A for&ccedil;a do FSM &eacute; a diversidade. A possibilidade    de nos dedicarmos a algumas causas espec&iacute;ficas e sobre elas focarmos    toda a nossa aten&ccedil;&atilde;o tem sido sempre um problema e um fator de    tens&atilde;o. Realizar isso &eacute; muito dif&iacute;cil e exige uma tradu&ccedil;&atilde;o    intercultural. Porque o que &eacute; priorit&aacute;rio para um n&atilde;o &eacute;    para outros, a linguagem que uns usam n&atilde;o &eacute; a mesma usada por    outros. &Eacute; claro que &eacute; poss&iacute;vel algumas a&ccedil;&otilde;es    em comum, como foi o caso dos protestos contra a guerra, em 2003. Uma a&ccedil;&atilde;o    propositiva &eacute; complexa e pode fazer com que alguns movimentos se excluam.    Mas o que ocorre? Diferentes movimentos est&atilde;o concentrando sua for&ccedil;a    em diferentes &aacute;reas. A quest&atilde;o da &aacute;gua, por exemplo, n&atilde;o    existia h&aacute; cinco anos e hoje &eacute; um dos focos. A quest&atilde;o    ind&iacute;gena aqui &eacute; fraca, mas na Am&eacute;rica Latina foi muito    importante na constru&ccedil;&atilde;o do f&oacute;rum e das agendas pol&iacute;ticas    regionais. Veja o impacto dela, de modo indireto, na Bol&iacute;via, no Equador    e um pouco no Peru. Acho muito importante essa diversidade das a&ccedil;&otilde;es,    pois acaba aproveitando consensos regionais, como a luta contra a &Aacute;rea    de Livre Com&eacute;rcio das Am&eacute;ricas (Alca), uma das lutas intercontinentais    de maior &ecirc;xito.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b><i>A quest&atilde;o devastadora da aids pode ser uma for&ccedil;a    criativa para a luta social na &Aacute;frica?</i></b></font></P>     <p><font size="3">Isso eu chamo de novos b&aacute;sicos. Estamos num processo    que, ao mesmo tempo que discutimos as quest&otilde;es mais avan&ccedil;adas,    que inclui os direitos econ&ocirc;micos e sociais pelos quais temos que continuar    a lutar, temos que prestar aten&ccedil;&atilde;o em coisas t&atilde;o b&aacute;sicas    como a perda da vida perante a viol&ecirc;ncia. Tivemos aqui relatos apresentados    sobre crian&ccedil;as de seis anos, de Uganda, que s&atilde;o obrigadas &agrave;    prostitui&ccedil;&atilde;o; ou sobre a viola&ccedil;&atilde;o da integridade    f&iacute;sica constante que &eacute; a mutila&ccedil;&atilde;o genital. Ou seja,    ainda &eacute; preciso tratar do que &eacute; mais b&aacute;sico para a dignidade    humana e o HIV, para os africanos, acaba sendo um tema agregador, pois diz respeito    &agrave;s fam&iacute;lias, &agrave;s escolas, &agrave; pol&iacute;tica, a todas    as inst&acirc;ncias da vida. Toca a pol&iacute;tica para a juventude pois, num    pa&iacute;s em que a grande maioria s&atilde;o jovens, n&atilde;o pode haver    uma pol&iacute;tica para idosos como a europ&eacute;ia e sim uma pol&iacute;tica    para os jovens. Muitas organiza&ccedil;&otilde;es internacionais n&atilde;o    entenderam isso e tentam aplicar aqui modelos europeus o que, para mim, &eacute;    um novo tipo de colonialismo.</font></P>     <p><font size="3"><b><i>Um F&oacute;rum na &Aacute;frica enfoca o colonialismo    mais fortemente?</i></b></font></P>     <p><font size="3">Sim, e &eacute; preciso pensar que o processo de descoloniza&ccedil;&atilde;o    aqui foi diferente do da Am&eacute;rica Latina, onde a independ&ecirc;ncia foi    mais voltada para os descendentes dos colonos, n&atilde;o para as popula&ccedil;&otilde;es    nativas. Aqui foi para as popula&ccedil;&otilde;es nativas. &Eacute; um processo    pol&iacute;tico distinto, que ocorre mais de um s&eacute;culo depois. Aqui,    a maioria dos pa&iacute;ses europeus, quando descolonizaram, a partir dos anos    1950, estabeleceram em seu lugar um pacto neocolonial. Perceberam que &eacute;    mais f&aacute;cil explorar, expropriar, atrav&eacute;s das rela&ccedil;&otilde;es    comerciais com pa&iacute;ses livres do que mant&ecirc;-los como col&ocirc;nias    dispendiosas. O mesmo se d&aacute; com o Banco Mundial que promove a democracia,    um bom sistema para o capitalismo atual. </font></P>     <p><font size="3">O &uacute;nico colonialismo que escapou a isso foi o portugu&ecirc;s,    porque veio mais tarde e porque, em Portugal, a descoloniza&ccedil;&atilde;o    ocorreu durante a Revolu&ccedil;&atilde;o dos Cravos, em 1974. Um sinal disso    foi que os dois &uacute;nicos governos que foram, digamos, socialistas por algum    tempo na &Aacute;frica foram ex-col&ocirc;nias portuguesas, Angola e Mo&ccedil;ambique.</font></P>     <p><font size="3">Portanto, tudo &eacute; muito recente, estamos falando de 30    anos, e h&aacute; uma forma de colonialismo que ainda persiste. Ali&aacute;s,    muitas das ONGs que est&atilde;o aqui s&atilde;o dos mesmos pa&iacute;ses que    colonizaram o continente, s&atilde;o as mesmas miss&otilde;es das igrejas cat&oacute;lica    e protestante. Claro, ainda bem, est&atilde;o numa posi&ccedil;&atilde;o progressista,    com uma agenda antineoliberal, na luta contra a pobreza. Por&eacute;m, no fundo,    as mesmas rela&ccedil;&otilde;es neocoloniais ainda est&atilde;o presentes.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Rafael Evangelista</i>    <BR>   colaborou Renato Rovai</font></P>      ]]></body>
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