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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a13img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P ALIGN="CENTER"><font size=5><b>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></P>     <P align="center"><font size=5><b>QUE MULTICULTURALISMO SE QUER PARA O BRASIL?</b></font></P>     <P ALIGN="CENTER"><font size="3"><b>Livio Sansone</b></font></P>     <p>&nbsp; </P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>E</b></FONT><font size="3">mbora os temas das sociedades    ind&iacute;genas, das rela&ccedil;&otilde;es raciais e, sobretudo, da sociedade    escravocrata e das religi&otilde;es afro-brasileiras tenham sido fundadores    para as ci&ecirc;ncias humanas no Brasil, &eacute; somente nos &uacute;ltimos    anos que as quest&otilde;es &eacute;tico-pol&iacute;ticas levantadas por este    campo de investiga&ccedil;&atilde;o alcan&ccedil;aram visibilidade na sociedade    e, finalmente, dentro de associa&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas como SBPC,    ABA, Anpocs, Anped, Anphur e SBS, assim como na universidade mais em geral.    Duas grandes quest&otilde;es t&ecirc;m contribu&iacute;do para sensibilizar    a sociedade a respeito das desigualdades sociais entre grupos de cor no Brasil:    as propostas de a&ccedil;&atilde;o afirmativa em favor de negros, &iacute;ndios    e egressos da escola p&uacute;blica para acesso &agrave; universidade, e a necessidade    de implementar a Lei Federal 10639 de 2003. Neste segundo caso, trata-se de    uma primeira tentativa, generosa, mas desorganizada e descapitalizada, de criar    um multiculturalismo &agrave; brasileira. </FONT></P>     <p><font size="3">A a&ccedil;&atilde;o afirmativa tem sido a forma que alguns    estados, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, t&ecirc;m escolhido para    reverter, com certa rapidez, um quadro de desigualdades extremas e dur&aacute;veis.    &Iacute;ndia, Mal&aacute;sia, Austr&aacute;lia, &Aacute;frica do Sul, entre    outros, v&ecirc;m experimentando medidas compensat&oacute;rias para castas,    grupos de cor, grupos &eacute;tnicos e outros desfavorecidos como os deficientes    visuais. A Am&eacute;rica Latina &eacute;, de fato, a regi&atilde;o em que experimentos    v&ecirc;m se realizando nesse sentido somente a partir dos anos noventa, que    correspondem &agrave; consolida&ccedil;&atilde;o da re-democratiza&ccedil;&atilde;o    na regi&atilde;o. O fen&ocirc;meno do multiculturalismo surgiu em final dos    anos 1970 como projeto pedag&oacute;gico, sobretudo para a escola e a universidade,    mas tamb&eacute;m para o emprego p&uacute;blico e a vida associativa. Esse surgimento    se deu nos pa&iacute;ses com um Estado social desenvolvido e uma escola p&uacute;blica    que funciona em condi&ccedil;&atilde;o de quase monop&oacute;lio, como forma    de lidar com a diversidade cultural trazida, sobretudo, pelos filhos de imigrantes    na escola, nos bairros e no mercado de trabalho. Pa&iacute;ses com grande experi&ecirc;ncia    nesse sentido s&atilde;o Su&eacute;cia, Canad&aacute;, Austr&aacute;lia, Nova    Zel&acirc;ndia, Holanda e, de alguma forma, Inglaterra e parte dos Estados Unidos.    Em &eacute;poca mais recente, com a id&eacute;ia que a diferen&ccedil;a cultural    pode ser um enriquecimento em lugar de enfraquecimento no conv&iacute;vio social    de uma escola, universidade ou at&eacute; empresa, experimentos multiculturais    est&atilde;o sendo feitos em pa&iacute;ses de imigra&ccedil;&atilde;o mais recente,    por exemplo, na Europa meridional e, finalmente na Am&eacute;rica Latina. Neste    &uacute;ltimo caso, trata-se de experimentos no sentido de ampliar e rever os    curr&iacute;culos escolares, incorporando saberes at&eacute; ent&atilde;o deixados    fora, como aqueles relacionados com o ser ind&iacute;gena ou negro. Etno-educa&ccedil;&atilde;o    (Col&ocirc;mbia, Equador, Nicar&aacute;gua e, em alguma medida, M&eacute;xico)    ou educa&ccedil;&atilde;o &agrave; diversidade (Brasil e Argentina) t&ecirc;m    sido os termos que caracterizam essa nova fase, mais plural, no mundo da educa&ccedil;&atilde;o.    </font></P>     <p><font size="3">Vale a pena acrescentar, como melhor explica a contribui&ccedil;&atilde;o    neste n&uacute;mero da revista de Ramon Grosfoguel sobre os <i>ethnic studies</i>    nos Estados Unidos, que se, por um lado, a id&eacute;ia de multiculturalismo    se expande na Am&eacute;rica Latina, por outro lado, essa id&eacute;ia entra    em crise, sujeita a cr&iacute;ticas de todos os lados, sobretudo da direita    conservadora, nos pa&iacute;ses que come&ccedil;aram com esse experimento. Na    Holanda e na Inglaterra se insiste, novamente, na necessidade das minorias (&eacute;tnicas)    se "integrarem" aos comportamentos da maioria – adotando testes para    medir o grau de "integra&ccedil;&atilde;o s&oacute;cio-cultural"'    de imigrantes para que a eles sejam concedidos o visto permanente. Uma das v&iacute;timas    da "guerra ao terror" tem sido o pr&oacute;prio multiculturalismo,    uma tentativa de pensar um conv&iacute;vio mais harm&ocirc;nico transformando    a dupla negativa diferen&ccedil;a/dist&acirc;ncia na dupla positiva diversidade/toler&acirc;ncia.    Tanto em parte da Europa como nos Estados Unidos hoje h&aacute; uma &ecirc;nfase    governamental muito forte, com respaldo de boa parte da opini&atilde;o p&uacute;blica,    contra o apoio p&uacute;blico a institui&ccedil;&otilde;es &eacute;tnicas "outras",    sobretudo quando de origem isl&acirc;mica. Assim pode se ter um pa&iacute;s    como a Inglaterra, onde a linguagem do Estado tem incorporado a linguagem ou    jarg&atilde;o da diversidade, quer dizer, &eacute; importante mostrar uma Inglaterra    multirracial em suas manifesta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas mas onde, de    fato, o grau de toler&acirc;ncia para experimentos multiculturais ou transculturais    na educa&ccedil;&atilde;o est&aacute; reduzido ao m&iacute;nimo (1). O contexto    mundial do multiculturalismo &eacute;, por isso, bastante complexo: existem    pa&iacute;ses que come&ccedil;aram h&aacute; pouco tempo e outros com experi&ecirc;ncia    antiga, h&aacute; novo interesse de uma parte e crise de outra. Por um lado,    temos um &iacute;cone global: o multiculturalismo ou, na terminologia preferida    em &eacute;poca mais recente por Na&ccedil;&otilde;es Unidas, Banco Mundial,    BIRD e outras ag&ecirc;ncias internacionais, a diversidade – significando que    o melhor desenvolvimento &eacute; aquele com e na diversidade. Por outro lado,    temos significados locais ou regionais tanto do termo multiculturalismo como    do termo diversidade – que n&atilde;o podem ser os mesmos em pa&iacute;ses que    come&ccedil;aram este experimento 30 anos atr&aacute;s ou nos &uacute;ltimos    anos, ou em pa&iacute;ses com tradi&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica derivada    do direito romano, de tend&ecirc;ncia universalista, ou pa&iacute;ses com tradi&ccedil;&atilde;o    de <i>common law</i> (direito comunit&aacute;rio), que tendem a dar mais espa&ccedil;o    ao particularismo. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nesse sentido &eacute; muito importante detalhar o que est&aacute;    sendo o multiculturalismo no Brasil, apontando para suas luzes e sombras assim    como para os novos desafios que esse fen&ocirc;meno – de fato, um movimento    embora desorganizado – proporciona para a sociedade brasileira. Este N&uacute;cleo    Tem&aacute;tico n&atilde;o pretende ser exaustivo, mas apontar para algumas    novas tend&ecirc;ncias que dizem respeito, sobretudo, ao meio acad&ecirc;mico.    At&eacute; agora, tem sido sobretudo nesse meio que tem se concentrado os esfor&ccedil;os    de se criar algum tipo de multiculturalismo. Colaboram neste n&uacute;mero da    revista, acad&ecirc;micos comprometidos tanto com o anti-racismo como com a    reforma da universidade no sentido multicultural. Tr&ecirc;s deles integram    ou integraram a Comiss&atilde;o de Rela&ccedil;&otilde;es &Eacute;tnicas e Raciais    (Crer) da ABA enquanto todos colaboram com o Programa F&aacute;brica de Id&eacute;ias    e o Programa Multidisciplinar de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Estudos    &Eacute;tnicos e Africanos da UFBA (Posafro). Essas tr&ecirc;s inst&acirc;ncias    v&ecirc;m debru&ccedil;ando-se sobre como fazer multiculturalismo da forma melhor.    Parte dessa reflex&atilde;o perpassa essa minha introdu&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Um bom exemplo &eacute; o caso da ABA que, embora esteja desde    sua funda&ccedil;&atilde;o em 1950, comprometida com o anti-racismo e a interven&ccedil;&atilde;o    a favor da popula&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena, somente no Congresso de    2002 cria sua Comiss&atilde;o de Rela&ccedil;&otilde;es &Eacute;tnicas e Raciais    (Crer), dando seguimento a uma proposta de um grupo, ainda pequeno, de antrop&oacute;logos.    Naquele tempo, o debate em torno das, assim ditas, cotas para o acesso nas universidades    era muito intenso, sendo levantadas quest&otilde;es &eacute;ticas como aquelas    que surgiram em torno do uso da fotografia como instrumento para definir quem    &eacute; negro e ter assim direito a se beneficiar das cotas. A Crer reagiu    apontando, numa nota que suscitou pol&ecirc;mica, a import&acirc;ncia da autodeclara&ccedil;&atilde;o    nos processos identit&aacute;rios e pelos perigos que o uso de fotos identificat&oacute;rias    implica no momento que se pretende transformar a negritude, de &ocirc;nus hist&oacute;rico    a novo b&ocirc;nus – neste caso, para se ter um maior n&uacute;mero de negros    nas universidades. Na &eacute;poca, a Crer ainda n&atilde;o tinha uma opini&atilde;o    sobre aquela que se chamava de quest&atilde;o das cotas. Seus integrantes tendiam    a ser a favor embora alguns n&atilde;o escondessem um certo ceticismo. Nos &uacute;ltimos    quatro anos o contexto de nosso meio acad&ecirc;mico mudou bastante, proporcionando    para a Crer novos desafios. Saliento tr&ecirc;s mudan&ccedil;as importantes    nesse sentido:</font></P>     <blockquote>        <p><font size="3">1. a aprova&ccedil;&atilde;o de medidas de a&ccedil;&atilde;o      afirmativa em um n&uacute;mero crescente de universidades e sua poss&iacute;vel      transforma&ccedil;&atilde;o em lei federal pelo Congresso Nacional.</font></p>       <p><font size="3">2. a aprova&ccedil;&atilde;o e paulatina implementa&ccedil;&atilde;o      da Lei Federal 10639 de 2003 que obriga a incorpora&ccedil;&atilde;o das tem&aacute;ticas      hist&oacute;ria e culturas afro-brasileiras e hist&oacute;ria e culturas africanas      em todos os n&iacute;veis de ensino.</font></p>       <p><font size="3">3. o estabelecimento de novas e mais inclusivas metas para      a universidade brasileira, como o lan&ccedil;amento, em 2005, de um novo plano      nacional de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o por parte da Capes. Esse plano      visa induzir o aumento dos n&uacute;meros de doutores no Brasil, tendo como      meta duplicar este n&uacute;mero dentro de cinco anos. Uma das conseq&uuml;&ecirc;ncias      tem sido uma maior disponibilidade por parte do CTC da Capes em aprovar programas      de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o novos, j&aacute; em n&iacute;vel de      doutorado, tamb&eacute;m em &aacute;reas novas e multidisciplinares. Por exemplo,      somente nas &aacute;reas de ci&ecirc;ncias humanas da Ufba, entre 2004 e 2006,      surgiram mais quatro programas de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, todos      integrando tamb&eacute;m antrop&oacute;logos, sendo que um diz muito respeito      aos temas da Crer, o Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Estudos      &Eacute;tnicos e Africanos. O campo da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o      est&aacute; se tornando a nova fronteira para medidas de inclus&atilde;o e      at&eacute; de a&ccedil;&atilde;o afirmativa. O mundo dos docentes, o mais      dif&iacute;cil de mudar por meio de medidas como a a&ccedil;&atilde;o afirmativa      ou a partir de um discurso multiculturalista que valorize a diversidade de      perfis sociais e &eacute;tnico-raciais da popula&ccedil;&atilde;o brasileira,      certamente, ser&aacute; uma pr&oacute;xima fronteira. &Eacute; problem&aacute;tico      pensar numa universidade multi ou transcultural, mais pr&oacute;xima do Brasil      real at&eacute; em suas prioridades de pesquisa, podendo contar com t&atilde;o      poucos docentes negros ou &iacute;ndios.</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">&Eacute; evidente que o aumento do n&uacute;mero de alunos negros    e &iacute;ndios, especialmente nas carreiras at&eacute; ent&atilde;o mais seletivas,    altera equil&iacute;brios antigos. Pensamos no que pode significar o "enegrecimento"    das turmas das faculdades de direito, odontologia ou medicina da Ufba, at&eacute;    h&aacute; pouco talvez as mais alvas: ser&aacute; que esses alunos v&atilde;o    se conformar totalmente &agrave; cultura dessa universidade ou eles, tamb&eacute;m    se conformando at&eacute; um certo ponto, n&atilde;o clamar&atilde;o por novos    espa&ccedil;os, prioridades e linguagem? Tamb&eacute;m &eacute; claro que essa    nova presen&ccedil;a nas turmas dos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o p&otilde;e    novos desafios, porque, sobretudo por causa da baixa renda da fam&iacute;lia    de origem, esses alunos precisam de bolsas e apoio espec&iacute;ficos. Para    al&eacute;m disso, onde a presen&ccedil;a daqueles que hoje chamamos de alunos    cotistas &eacute; mais antiga, como na PUC-Rio, que come&ccedil;ou disponibilizando    bolsas para alunos negros e carentes em alguns cursos j&aacute; h&aacute; quase    uma d&eacute;cada, come&ccedil;aram surgir demandas para a modifica&ccedil;&atilde;o    dos curr&iacute;culos, no sentido de se tornar mais multiculturais – abertos    &agrave; realidade dos brasileiros n&atilde;o brancos e/ou n&atilde;o de classe    m&eacute;dia.</font></P>     <p><font size="3">Por tudo isso, para um futuro pr&oacute;ximo, acredito que intelectuais    engajados com o anti-racismo, em uma universidade mais aberta, dever&atilde;o    ter como fonte principal de a&ccedil;&atilde;o o campo do multiculturalismo.    A necessidade de avan&ccedil;ar na cria&ccedil;&atilde;o de uma educa&ccedil;&atilde;o    contextualizada e anti-racista coloca novas perguntas no uso de termos como    negro, &iacute;ndio, &Aacute;frica, quilombo e cultura negra, por exemplo, em    livros que o MEC pode utilizar em milhares de escolas. Precisamos ficar vigilantes    para evitar que se passe do esquecimento ao exagero. Um exemplo, em outro &acirc;mbito,    de como grupos populacionais at&eacute; ent&atilde;o quase esquecidos, v&ecirc;m    se tornando alvo de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, de forma muito r&aacute;pida    e pouco baseada num debate denso, &eacute; o campo da sa&uacute;de e da "gen&eacute;tica    popular" – onde processos novos de naturaliza&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as    est&atilde;o sendo criados, num momento de efervesc&ecirc;ncia de iniciativas    do poder p&uacute;blico para a melhora da sa&uacute;de de grupos etno-racialmente    definidos como negros e &iacute;ndios. Outros grupos est&atilde;o sendo "descobertos",    nessa efervesc&ecirc;ncia em boa parte associada com os governos Lula e seus    esfor&ccedil;os de reverter injusti&ccedil;as, por exemplo, a frente dos imigrantes    e emigrantes – com a elabora&ccedil;&atilde;o de estatutos e medidas de novas    leis que redefinem o papel dos emigrantes e imigrantes. Qui&ccedil;&aacute;    o Brasil de hoje possa ser visto como uma caixa de Pandora, com rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; incorpora&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas referentes    a grupos populacionais espec&iacute;ficos com base na valoriza&ccedil;&atilde;o    de sua distin&ccedil;&atilde;o cultural, ap&oacute;s s&eacute;culos de esquecimento.    Nesse sentido, o debate aqui proposto &eacute; bastante atual e necess&aacute;rio.    Sem presun&ccedil;&atilde;o de abordar toda a riqueza do debate, propomos apontar    os novos desafios que o Brasil ter&aacute; que encarar a partir do momento que    ele foi se proclamando multicultural.</font></P>     <p><font size="3"><b> O ANTI-RACISMO DE UM ANTROP&Oacute;LOGO ETNO-C&Eacute;TICO</b>    Na montagem deste NT tentei mostrar como h&aacute; pontos de vista diferentes    at&eacute; mesmo entre colegas que trabalham nos mesmos projetos. Preciso agora    me posicionar e come&ccedil;o logo com uma declara&ccedil;&atilde;o, digamos    assim, de f&eacute;: sou a favor da a&ccedil;&atilde;o afirmativa e daquelas    que foram chamadas de cotas. Acho que a utiliza&ccedil;&atilde;o do sacrossanto    universalismo como motivo para ser contra, n&atilde;o &eacute; procedente: o    universalismo n&atilde;o pode ser um v&eacute;u, atr&aacute;s do que diferentes    grupos conseguem transformar privil&eacute;gios em direitos de poucos, mas algo    a ser colocado em pr&aacute;tica. Um dos motivos de eu ser criticamente a favor    das cotas &eacute; que sou contra aqueles que s&atilde;o contra. No fundo, como    diz Paul Gilroy, meu universalismo &eacute; estrat&eacute;gico – invertendo    as prioridades e a ret&oacute;rica do essencialismo estrat&eacute;gico como    foi definido por Gaiatri Spivak. </font></P>     <p><font size="3">No movimento que come&ccedil;a com a a&ccedil;&atilde;o afirmativa    e deveria agora levar a uma interven&ccedil;&atilde;o multicultural na universidade    vejo, por&eacute;m, tr&ecirc;s ordens de problemas: a rela&ccedil;&atilde;o    com medidas de cunho social ou, se queremos, de classe e renda; a rela&ccedil;&atilde;o    entre pol&iacute;ticas identit&aacute;rias e medidas reparat&oacute;rias ou    redistributivas; o tipo de conte&uacute;do a ser dado &agrave; eventual transforma&ccedil;&atilde;o    dos curr&iacute;culos no sentido multicultural – o que se entende, por exemplo,    por cultura afro-brasileira ou cultura ind&iacute;gena?</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>a.</b> O movimento na dire&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o    afirmativa e do multiculturalismo n&atilde;o pode servir como forma de evitar    a quest&atilde;o mais ampla das desigualdades extremas e dur&aacute;veis que    parecem caracterizar a modernidade de alguns pa&iacute;ses, entre os quais o    Brasil. A&ccedil;&atilde;o afirmativa sem &ecirc;nfase na luta contra as desigualdades,    &eacute; colocar a &ecirc;nfase no lugar errado. Medidas como as cotas devem    ser vistas como algo experimental, a serem avaliadas constantemente, cujo valor    &eacute;, sobretudo, emblem&aacute;tico, e que precisam andar <i>pari passu</i>    com outras medidas de car&aacute;ter redistributivo. Na realidade n&atilde;o    pode haver a&ccedil;&atilde;o afirmativa sem redistribui&ccedil;&atilde;o, assim    como n&atilde;o podemos falar de diversidade &eacute;tnico-cultural desligada    da quest&atilde;o das desigualdades &eacute;tnico-raciais e sociais. A&ccedil;&atilde;o    afirmativa sem um projeto de Estado social fica pouco efetiva, a n&atilde;o    ser como &uacute;til provoca&ccedil;&atilde;o. Diversidade, em si, n&atilde;o    representa um valor, at&eacute; porque pode significar tudo e nada, embora nos    Estados Unidos <i>diversity</i> acabou representando a vers&atilde;o bushiana    da <i>affirmative action</i>. <i>Affirmative action</i> que pressuponha a altera&ccedil;&atilde;o    dos mecanismos de inclus&atilde;o e exclus&atilde;o. Pregar a import&acirc;ncia    da <i>diversity</i>, al&eacute;m de caracterizar a &uacute;ltima d&eacute;cada    mais do que as d&eacute;cadas relativamente tolerantes de 1980 e 1990 &eacute;,    bem mais simplesmente, insistir na import&acirc;ncia de pessoas fenotipicamente    variadas assumirem especialmente as fun&ccedil;&otilde;es vis&iacute;veis e    de mando, por exemplo, do corpo docente, ou pregar a manuten&ccedil;&atilde;o    da diversidade cultural, insistindo mais no conceito de unidade – de um grupo    – que de liberdade – criatividade e inova&ccedil;&atilde;o (2). </font></P>     <p><font size="3">No contexto brasileiro, e no caso baiano que conhe&ccedil;o    melhor, me preocupa a leveza daqueles que pensam que as cotas podem funcionar    sozinhas, sem medidas e infra-estrutura de apoio. Cota sem bolsa n&atilde;o    d&aacute;. N&atilde;o h&aacute; como pensar medidas etno-raciais que n&atilde;o    sejam acompanhadas por medidas inspiradas na classe/renda. Por assim dizer,    a classe a gente pode at&eacute; tentar esquecer, mas ela nos pega mais adiante.</font></P>     <p><font size="3"><b>b.</b> Um segundo problema se aninha, a meu ver, na dimens&atilde;o    ret&oacute;rico-ideol&oacute;gica da a&ccedil;&atilde;o afirmativa. Preocupa-me    a dimens&atilde;o teatral que o debate em torno da a&ccedil;&atilde;o afirmativa    teve, sobretudo durante a presid&ecirc;ncia de Fernando Henrique Cardoso. Muito    mais opini&otilde;es pr&oacute; e contra, que efetivamente medidas. O debate    foi, geralmente, t&atilde;o abstrato quanto &aacute;cido. Hoje que as cotas    s&atilde;o uma realidade, vale talvez a pena pensar numa composi&ccedil;&atilde;o.    Estou convencido que uma boa parte dos colegas que s&atilde;o contra as cotas    podem muito bem ajudar a pensar em outras solu&ccedil;&otilde;es e/ou como faz&ecirc;-las    funcionar – todos concordamos que os cotistas merecem uma aten&ccedil;&atilde;o    e carinho especial – assim como pensar em uma proposta multicultural que funcione.    Estou convencido que um projeto de efetiva incorpora&ccedil;&atilde;o da Lei    Federal 10639 ao meio acad&ecirc;mico, nosso grande projeto multicultural por    enquanto, funcionar&aacute; muito melhor se for pensado mais como um projeto    anti-racista de educa&ccedil;&atilde;o para a toler&acirc;ncia, que como projeto    &eacute;tnico, centrado no fortalecimento de identidades setoriais por meio    da culturaliza&ccedil;&atilde;o (esclerotizada) da diversidade. &Eacute; isso    que tentamos no Programa F&aacute;brica de Id&eacute;ias e no Posafro. Precisamos    ser vigilantes com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cor e por isso n&atilde;o    proponho uma postura de cegueira frente &agrave; cor (<i>colour blind</i>),    mas entre essa cegueira e um projeto centrado na etno-g&ecirc;nese h&aacute;    solu&ccedil;&otilde;es intermedi&aacute;rias. O Estado deve proteger o cidad&atilde;o    e criar condi&ccedil;&otilde;es para que o processo identit&aacute;rio corra    sem limita&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o pode privilegiar algumas identidades,    reificando-as, ou criar medidas inspiradas por no&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias    estreitas. Garantir as identidades, n&atilde;o imp&ocirc;-las. Admito que esta    minha postura etno-c&eacute;tica apresenta uma contradi&ccedil;&atilde;o: se    n&atilde;o tiv&eacute;ssemos um aumento das pessoas que se declaram negros ou    &iacute;ndios, categorias pol&iacute;tico-&eacute;tnicas, mas somente pretos    e pardos, categorias crom&aacute;ticas ou fenot&iacute;picas, n&atilde;o se    falaria de a&ccedil;&atilde;o afirmativa. Estou, por&eacute;m, me referindo    a no&ccedil;&otilde;es mais complexas que a categoria negro ou &iacute;ndio    que j&aacute; foi incorporada &agrave; cultura popular, como mostram muitas    pesquisas. Penso na dificuldade em operacionalizar, adaptando-as para o ensino    na universidade, no&ccedil;&otilde;es como identidade negra ou ind&iacute;gena    e cultura negra ou ind&iacute;gena. Trata-se de termos de uso nativo que, quando    transformados em categorias anal&iacute;tico-descritivas, sempre acabam funcionando    como um cobertor curto – somente uma parte daqueles que se consideram &iacute;ndios    ou negros se identifica com alguma defini&ccedil;&atilde;o de identidade ou    cultura negra ou ind&iacute;gena. Por isso estou preocupado com a presen&ccedil;a    de ativistas negros nos cargos do governo federal criados para defender os interesses    das popula&ccedil;&otilde;es afro-brasileiras. N&atilde;o porque n&atilde;o    seja justo empregar mais negros, mas porque isto pode acabar isentando a m&aacute;quina    do Estado de um esfor&ccedil;o mais amplo contra o racismo dentro e fora das    institui&ccedil;&otilde;es. Um tipo de coopta&ccedil;&atilde;o parecido est&aacute;    acontecendo com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; lideran&ccedil;a ind&iacute;gena    – num processo que tira o poder da aldeia e enfatiza a associa&ccedil;&atilde;o    translocal ou regional. Se &eacute; injusto idealizar a aldeia como espa&ccedil;o    de democracia de base, algo que est&aacute; em conflito, muitas vezes com os    interesses das jovens gera&ccedil;&otilde;es, tampouco &eacute; justo esquecer    que somente uma parte dos ind&iacute;genas, qui&ccedil;&aacute; os mais "modernos",    se reconhece na vida associativa que a nova abertura do Estado brasileiro tanto    estimula quanto requer.</font></P>     <p><font size="3"><b>c.</b> Com rela&ccedil;&atilde;o ao tipo de conte&uacute;do    de nosso multiculturalismo, aquilo que concretamente teremos que ensinar – em    tratando de &iacute;cones carregados de valores e emo&ccedil;&otilde;es como    &Aacute;frica, africanos, "ra&ccedil;as", negritude, racismo, ser    &iacute;ndio e pensamento ind&iacute;gena – acho determinante enfatizar a pluralidade,    mais do que insistir em falar de cultura e identidade no singular. A reconstru&ccedil;&atilde;o    dos curr&iacute;culos deve ser no sentido de mostrar a variedade de formas culturais    e processos identit&aacute;rios, fazendo que, exatamente nessa variedade, seja    visto um fator de for&ccedil;a e criatividade. De acordo com as no&ccedil;&otilde;es    mais modernas as ci&ecirc;ncias humanas, "cultura" e "identidade",    mais do que como entidades, devem ser vistas e analisadas como projetos e processos.    Por isso &eacute; importante que, em lugar de insistir em definir o que seria,    por exemplo, a cultura afro-brasileira, por meio de infindas listas de &iacute;tens    e tra&ccedil;os que nunca conseguem incorporar a imensa variedade de orienta&ccedil;&otilde;es    da grande popula&ccedil;&atilde;o afro-brasileira, tornando est&aacute;tico    algo que est&aacute; sempre em movimento, se desenvolvam m&eacute;todos que    ilustrem como diferentes atores t&ecirc;m produzido cultura, resist&ecirc;ncia    e identidade em contextos diversos. O verdadeiro desafio &eacute; aplicar essas    no&ccedil;&otilde;es mais modernas daquilo que &eacute; cultura e identidade    em todos os n&iacute;veis do ensino, fugindo da pr&aacute;xis que tem deixado    a sofistica&ccedil;&atilde;o intelectual para a universidade, e feito da escola    prim&aacute;ria e secund&aacute;ria um ambiente onde cultura e identidade, quando    abordadas, s&atilde;o tratadas de forma demasiada tradicional e r&iacute;gida    – contribuindo para uma perda de interesse por essas tem&aacute;ticas entre    muitos alunos que, com um m&eacute;todo de ensino mais din&acirc;mico, poderiam    muito bem estar interessados. De fato, ensinar, por exemplo, hist&oacute;rias    e culturas africanas pode ser algo muito divertido e estimulante, mas pode tamb&eacute;m    ser algo bastante "chato", como dizem os alunos, se feito sem a devida    sofistica&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Al&eacute;m dessa multiplicidade, vale a pena insistir tamb&eacute;m    numa maior aten&ccedil;&atilde;o na individualidade e nos indiv&iacute;duos.    N&atilde;o acho oportuno sempre e somente falar de afro-brasileiras ou ind&iacute;genas    enquanto popula&ccedil;&otilde;es, porque isso sugere que negro e &iacute;ndio    somente funcionam como entidades coletivas e jamais tamb&eacute;m como indiv&iacute;duos,    com toda singularidade que caracteriza o ser humano. Precisamos de uma linguagem    no ensino do tema hist&oacute;ria e culturas africanas e hist&oacute;ria e culturas    afro-brasileiras que d&ecirc;em conta tanto de demandas e experi&ecirc;ncias    coletivas como de trajet&oacute;rias e desejos individuais – que sejam de personagens    exemplares (por exemplo, figuras ilustres como Milton Santos ou Manuel Querino)    ou de negros e &iacute;ndios, por assim dizer, comuns e at&eacute; agora "sem    nome". </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a13fig01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Isso nos leva a uma aut&ecirc;ntica contradi&ccedil;&atilde;o.    No fundo, o vocabul&aacute;rio do multiculturalismo est&aacute; centrado na    no&ccedil;&atilde;o de maioria versus minoria, assim como de comunidade e identidade    &eacute;tnica, porque ele se origina em sociedades onde essas pr&aacute;ticas    est&atilde;o pensadas como forma de lidar e incorporar &agrave; sociedade civil    aquelas que foram definidas como minorias &eacute;tnicas, das quais se pressup&otilde;e    que se organizem e se comportem como uma comunidade, se n&atilde;o residencial    pelo menos em termos de comportamento. No contexto brasileiro, onde a popula&ccedil;&atilde;o    negro-mesti&ccedil;a representa, em muitas regi&otilde;es, a maioria ou uma    "grande minoria", fica dif&iacute;cil aproveitar o termo comunidade    ou minoria, e o termo identidade tem sido historicamente utilizado mais para    se referir &agrave; (busca de uma) identidade nacional do que para se referir    a grupos espec&iacute;ficos. Se o termo identidade &eacute; um termo relativamente    novo nas ci&ecirc;ncias humanas (3), isto &eacute; mais ainda o caso na academia    brasileira. Talvez seja preciso pensar numa terminologia centrada em torno da    no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o-inclus&atilde;o: &eacute; preciso pensar    o Brasil de uma forma culturalmente, al&eacute;m de socialmente, mais inclusiva.    Mais uma vez, talvez o vi&eacute;s mais forte devesse ser aquele de uma educa&ccedil;&atilde;o    na e para a toler&acirc;ncia, mais do que uma &ecirc;nfase numa diversidade    cultural de parte da popula&ccedil;&atilde;o deste pa&iacute;s. Se enfatizarmos    a diversidade cultural, temos que tomar cuidado de como definirmos no&ccedil;&otilde;es    como cultura afro-brasileira ou cultura ind&iacute;gena. Existem diferen&ccedil;as    regionais fortes, assim como entre urbano e rural e entre classes sociais diferentes.    Por exemplo, a iconografia da negritude, presente nos relativamente poucos experimentos    multiculturais desenvolvidos at&eacute; ent&atilde;o, reflete principalmente    a realidade de duas &uacute;nicas cidades, Salvador e Rio de Janeiro, e, quase    de forma exclusiva, das classes sociais baixas. A t&iacute;tulo de ilustra&ccedil;&atilde;o,    quero mencionar os resultados da minha atual pesquisa no munic&iacute;pio de    S. Francisco do Conde, a somente 80 km de Salvador. Ao entrevistarmos 500 pessoas,    por amostra, encontramos, por exemplo, muita mais aceita&ccedil;&atilde;o das    rezadeiras que do candombl&eacute;, e muito interesse no ensino da hist&oacute;ria    da &Aacute;frica na escola secund&aacute;ria, at&eacute; mesmo entre aqueles    que disseram n&atilde;o gostarem de candombl&eacute;. Isso mostra uma grande    variedade de pontos de vista sobre o que seria tipicamente "ser negro"    ou "cultura afro-brasileira" que precisa ser levada em conta quando,    com as melhores inten&ccedil;&otilde;es, se opera uma simplifica&ccedil;&atilde;o    desse universo para transform&aacute;-lo em conte&uacute;do de textos ou aulas    para a escola.</font></P>     <p><font size="3">Pela necessidade de garantir uma pluralidade de express&otilde;es,    e n&atilde;o for&ccedil;ar, mais uma vez, as pessoas a se identificarem com    constru&ccedil;&otilde;es daquilo que &eacute; ser negro ou &iacute;ndio que    s&atilde;o externas &agrave; realidade dessas pessoas, estou convencido da necessidade    de pensar o processo identit&aacute;rio o poss&iacute;vel como um assunto de    Estado. Se uma educa&ccedil;&atilde;o anti-racista e com toler&acirc;ncia cultural    e religiosa &eacute; sempre algo emancipador, que pode e deve ser amparada pelo    Estado, devendo este garantir a liberdade de express&atilde;o cultural, religiosa,    de orienta&ccedil;&atilde;o sexual e at&eacute; &eacute;tnica, n&atilde;o se    pode, em si, dizer o mesmo de um tipo de educa&ccedil;&atilde;o centrada no    fortalecimento de algum tipo de identidade &eacute;tnica. O que &eacute;, afinal,    identidade &eacute;tnica? Trata-se de um sentimento tanto individual como coletivo    de pertencimento a um grupo definido ou imaginado como tendo uma &uacute;nica    ascend&ecirc;ncia. &Eacute; uma op&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, quase sempre,    uma escolha. Em termos de princ&iacute;pio, se &eacute; a favor de concess&atilde;o    de (novos) direitos, tamb&eacute;m de direitos culturais, para todos aqueles    grupos e indiv&iacute;duos que tiveram uma hist&oacute;ria de discrimina&ccedil;&atilde;o    &eacute;tnico-racial, mas gostaria de que sejam estes mesmos grupos e indiv&iacute;duos    que digam quais direitos culturais reclamar e de que forma. Minha impress&atilde;o    &eacute; que, na maioria dos casos, eles clamar&atilde;o por igualdade mais    do que enfatizando o fato de serem (culturalmente) diferentes. Neste sentido,    o Estado deve ficar atendo a essas demandas, mas n&atilde;o se antecipar. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>O CONTE&Uacute;DO DESTE NT</b> Este N&uacute;cleo Tem&aacute;tico    &eacute; composto por contribui&ccedil;&otilde;es de um grupo de pesquisadores    comprometidos com a a&ccedil;&atilde;o afirmativa, de diferentes formas, e todos    ligados ao Programa F&aacute;brica de Id&eacute;ias, que tem sido uma das bases    do Posafro, ambos sediados no Centro de Estudos Afro-Orientais da Faculdade    de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Federal da Bahia. O Posafro    &eacute; um programa multidisciplinar de estudos &eacute;tnicos e africanos    que pretende formar pesquisadores voltados teoricamente para o contexto africano    e para as popula&ccedil;&otilde;es definidas como afro-americanas, embora, em    geral, o programa enfatize o processo de constru&ccedil;&atilde;o das identidades    &eacute;tnicas e raciais tanto na &Aacute;frica como na Am&eacute;rica Latina.    Nosso principal foco tem&aacute;tico &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o do    Outro e da diversidade, em seus desdobramentos representados pelas "ra&ccedil;as",    grupos e identidades &eacute;tnicas, id&eacute;ias e representa&ccedil;&otilde;es    em torno da no&ccedil;&atilde;o de nacionalidade. A constru&ccedil;&atilde;o    dessas no&ccedil;&otilde;es e representa&ccedil;&otilde;es tem sido muito mais    internacional e transatl&acirc;ntica do que, normalmente, tem postulado a produ&ccedil;&atilde;o    acad&ecirc;mica no &acirc;mbito das ci&ecirc;ncias humanas no Brasil. No&ccedil;&otilde;es    como tribo, etnia, grupos &eacute;tnicos, "ra&ccedil;a", negro, branco,    e, de algum modo, &iacute;ndio, t&ecirc;m circulado durante s&eacute;culos entre    as diferentes &aacute;reas do Atl&acirc;ntico. A F&aacute;brica de Id&eacute;ias,    que este ano chega &agrave; sua d&eacute;cima edi&ccedil;&atilde;o, &eacute;    um curso avan&ccedil;ado, em n&iacute;vel de doutorado, que visa contribuir    para o treinamento de pesquisadores que estudam processos de racializa&ccedil;&atilde;o    e forma&ccedil;&atilde;o de identidades &eacute;tnicas. &Ecirc;nfase especial    &eacute; dada &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es branco-negro e &agrave; produ&ccedil;&atilde;o    de culturas negras na Am&eacute;rica Latina, &Aacute;frica e, em geral, di&aacute;spora    africana. Por&eacute;m rela&ccedil;&otilde;es &eacute;tnicas e raciais em outras    partes do mundo tamb&eacute;m s&atilde;o contempladas. O curso adota uma perspectiva    comparativa, explora v&aacute;rios aspectos das rela&ccedil;&otilde;es raciais,    a partir do contato com a produ&ccedil;&atilde;o intelectual brasileira e internacional,    e espera promover o interc&acirc;mbio de estudantes e professores de diversas    regi&otilde;es do Brasil e de outros pa&iacute;ses. A pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o    de uma f&aacute;brica de id&eacute;ias, cujo alimento &eacute; o encontro entre    jovens intelectuais, em sua maioria negro-mesti&ccedil;os de todo Brasil, da    Am&eacute;rica Latina, Caribe e da &Aacute;frica, com um grupo de professores,    comprometido com uma rela&ccedil;&atilde;o intensa com esses estudantes, durante    tr&ecirc;s semanas, &eacute; de fato um projeto inspirado pelo multi e trans-culturalismo:    muitos sotaques, l&iacute;nguas, origens, perspectivas te&oacute;ricas, trajet&oacute;rias    e desejos se encontram para produzir algo novo, transformando-se. Tanto a F&aacute;brica    de Id&eacute;ias como o Posafro acreditam que as diferentes tradi&ccedil;&otilde;es    de estudos afro-americanos, africanos, ind&iacute;gena e &eacute;tnicos em geral    devem manter um estreito di&aacute;logo entre si. Qui&ccedil;&aacute;, essa    seja um das novidades do Brasil, se comparados, sobretudo, com os Estados Unidos,    onde a discusss&atilde;o sobre o multi-culturalismo, quando perpassa a universidade,    tende a se isolar dentro de uma &uacute;nica tradi&ccedil;&atilde;o de pesquisa    – com os <i>ethnic</i>, <i>African-American</i> e <i>African studies</i> em    constante estado de tens&atilde;o entre si.</font></P>     <p><font size="3">O conte&uacute;do deste NT &eacute; variado, com contribui&ccedil;&otilde;es    de tr&ecirc;s antrop&oacute;logos, dois soci&oacute;logos, um historiador e    uma pedagoga: Maria Ros&aacute;rio de Carvalho aborda uma realidade ainda fora    da universidade, a dos jovens ind&iacute;genas que pressionam por um saber que    a academia poderia oferecer, mas n&atilde;o oferece. Trata-se, provavelmente,    de um dos grupos de futuros atores na universidade brasileira. Ramon Grosfoguel    nos conta o contexto balcanizado do meio acad&ecirc;mico estadounidense – onde    a institucionaliza&ccedil;&atilde;o de um saber chamado de estudos &eacute;tnicos    tem se transformado num projeto &eacute;tnico em si, mais do que num projeto    pedag&oacute;gico multi- ou transcultural. A situa&ccedil;&atilde;o dos acad&ecirc;micos    negros, as perip&eacute;cias da transforma&ccedil;&atilde;o de objeto em sujeito,    &eacute; o tema do texto que Angela Figueiredo escreveu junto com Ram&oacute;n    Grosfoguel. Joc&eacute;lio Teles dos Santos e Delcele Mascarenhas Queiroz contabilizam    a realidade de quem pode ser o grande motor de uma abertura multicultural: os    alunos cotistas, vistos como conformistas ou subversores embora, mais do que    nada, estudantes "normais". A necessidade de "africanizar"    as ci&ecirc;ncias humanas no Brasil, de como dar um justo lugar &agrave; &Aacute;frica,    e de porque isso &eacute; importante tamb&eacute;m para os n&atilde;o especialistas,    representa o cerne do artigo de Valdemir Zamparoni.</font></P>     <p><font size="3">Esperamos que esses ensaios contribuam para abrir um debate    sobre o que pode e deve ser o multiculturalismo no Brasil, que seja pelo menos    t&atilde;o amplo como o debate a respeito das cotas, mas se caracterize por    uma postura mais construtiva, norteada pela conscientiza&ccedil;&atilde;o que    precisa acontecer – uma revis&atilde;o tanto criteriosa quanto profunda, da    forma pela qual o Brasil e suas culturas t&ecirc;m sido representados na escola    e na universidade.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Livio Sansone</b> &eacute; pesquisador do Centro de Estudos    Afro-Orientais da Faculdade de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade    Federal da Bahia</i></font></P>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Girloy, P. <i>Post-colonial melancholia</i>. New York:    Columbia University Press, 2006.</font><!-- ref --><p><font size="3">2. Appiah, A. K. <i>The ethics of identity</i>, Princeton,    NJ: Princeton University Press, 2005. </font><!-- ref --><p><font size="3">3. Gleason, P. "Identifying identity: a semantic history"    <i>in The Journal of American History</i> 69, 4: 910-931, 1983.</font> ]]></body><back>
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