<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252007000200022</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ficção pós-colonial retrata conflitos contemporâneos]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cantarino]]></surname>
<given-names><![CDATA[Carolina]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<volume>59</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>54</fpage>
<lpage>56</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252007000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252007000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252007000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>LITERATURA</b></font></P>     <P><font size="4"><b>F<small>IC&Ccedil;&Atilde;O P&Oacute;S-COLONIAL RETRATA CONFLITOS    CONTEMPOR&Acirc;NEOS</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Salman Rushdie. V. S. Naipaul. J. M. Coetzee. Wole Soyinka.    Ghita Metha. Mia Couto. Arundhati Roy. A fic&ccedil;&atilde;o desses e de muitos    outros escritores tem sido chamada de p&oacute;s-colonial. Como todos os r&oacute;tulos,    o p&oacute;s-colonial n&atilde;o deixa de ser uma generaliza&ccedil;&atilde;o    que corre o risco de desconsiderar as especificidades das obras e de seus autores.    "A literatura p&oacute;s-colonial difere, consideravelmente, conforme o    pa&iacute;s e a cultura em que se manifesta. Mas n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas    de que h&aacute; tra&ccedil;os em comum a partir mesmo do fato de existir o    eixo dominador/dominado (ou colonizador/colonizado, eu/outro), t&iacute;pico    da condi&ccedil;&atilde;o colonial e p&oacute;s-colonial", explica Anna    Beatriz da Silveira Paula, pesquisadora do Grupo de Estudos de G&ecirc;nero    da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR).</font></P>     <p><font size="3">O termo p&oacute;s-colonial se refere, de modo geral, ao processo    de descoloniza&ccedil;&atilde;o que marcou, mesmo que de formas muito diferentes,    tanto os pa&iacute;ses colonizados como aqueles que foram os colonizadores.    Ou seja, o termo quer enfatizar que a coloniza&ccedil;&atilde;o nunca foi um    fato "externo" &agrave;s metr&oacute;poles imperiais, estando inscrita    nas suas pr&oacute;prias culturas – assim como as culturas imperiais tamb&eacute;m    se inscreveram nas culturas dos colonizados. Pensar nessa ambival&ecirc;ncia    posta pelo encontro colonial implica, assim, em deslocar uma s&eacute;rie de    no&ccedil;&otilde;es como centro/periferia, n&oacute;s/eles, dentro/fora, rompendo    com essas oposi&ccedil;&otilde;es bin&aacute;rias para pensar as rela&ccedil;&otilde;es    sociais de modo mais complexo, m&uacute;ltiplo e transversal.</font></P>     <p><font size="3">Boa parte da chamada literatura p&oacute;s-colonial foi produzida    pelo chamados <i>migrant writers</i>, autores que imigraram para antigas metr&oacute;poles    (como Londres e Paris), seja por op&ccedil;&atilde;o profissional, seja por    ex&iacute;lio pol&iacute;tico. Autores como Salman Rushdie, Monica Ali e Zadie    Smith passaram a problematizar, em sua literatura, sua condi&ccedil;&atilde;o    de subalterno, a partir dessa experi&ecirc;ncia de viver no espa&ccedil;o do    antigo colonizador: os dilemas da integra&ccedil;&atilde;o dos imigrantes aparecem    em muitas dessas produ&ccedil;&otilde;es liter&aacute;rias.</font></P>     <p><font size="3">Outro elemento trabalhado por diversos escritores &eacute; a    quest&atilde;o ling&uuml;&iacute;stica. "Seja polarizando o dialeto com    o idioma do colonizador, seja demonstrando o conflito que ocorre quando o idioma    integrador da na&ccedil;&atilde;o &eacute; o do colonizador", lembra Anna    Beatriz. Al&eacute;m desse conflito ling&uuml;&iacute;stico, em diversas ex-col&ocirc;nias,    denunciar as atrocidades cometidas durante o colonialismo permitiu que as minorias    pol&iacute;ticas adquirissem condi&ccedil;&otilde;es de luta. Nesse contexto    &eacute; que as mulheres ganharam relev&acirc;ncia, por exemplo, na literatura    indiana contempor&acirc;nea.</font></P>     <p><font size="3"><b>RESIST&Ecirc;NCIA SILENCIOSA</b> L&iacute;ng&uuml;a e g&ecirc;nero    s&atilde;o dois elementos importantes na obra da escritora indiana Arundathi    Roy, que se tornou conhecida mundialmente com seu romance <i>O deus das pequenas    coisas</i> (1997). A narrativa se passa no estado de Kerala – onde fica Calicute,    cidade a partir da qual Vasco da Gama descobriu "as &Iacute;ndias".    Partindo das contradi&ccedil;&otilde;es que caracterizam a hist&oacute;ria desse    lugar, o romance faz uma s&eacute;rie de alus&otilde;es &agrave; fragmenta&ccedil;&atilde;o    da pr&oacute;pria &Iacute;ndia, seja no que diz respeito ao seu sistema de castas,    seja em rela&ccedil;&atilde;o ao modo como uma &Iacute;ndia rica e cosmopolita    se mescla com uma &Iacute;ndia miser&aacute;vel e provinciana. Enfim, a pluralidade    que caracteriza a &Iacute;ndia contempor&acirc;nea. </font></P>     <p><font size="3">Roy prioriza o universo familiar e adota uma perspectiva mais    subjetiva e intimista para problematizar a condi&ccedil;&atilde;o da mulher    em seus aspectos mais simb&oacute;licos: a forma como o preconceito e a exclus&atilde;o    social, caracter&iacute;sticos da situa&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-colonial,    manifestam-se tamb&eacute;m atrav&eacute;s da tradi&ccedil;&atilde;o cultural    indiana (para a qual a mulher &eacute; inferior ao homem) e nas rela&ccedil;&otilde;es    intercastas; e o modo como as mulheres indianas lidam com tudo isso. "Em    vez de sustentar a condi&ccedil;&atilde;o da dupla coloniza&ccedil;&atilde;o    a que as mulheres indianas (e de outras culturas) est&atilde;o submetidas, Arundathi    Roy demonstra como o feminino tem uma semiose que lhe &eacute; pr&oacute;pria    na cultura daquele pa&iacute;s, sustentando-se no sil&ecirc;ncio" afirma    Paula. Em sua tese de doutorado, intitulada "Margens silenciosas: a escritura    da mulher na literatura indiana contempor&acirc;nea", a pesquisadora trabalhou    com essa dupla refer&ecirc;ncia: &agrave;s mulheres indianas silenciadas pelo    colonialismo; e &agrave; inscri&ccedil;&atilde;o silenciosa dessas mesmas mulheres    em sua cultura. Uma resist&ecirc;ncia silenciosa.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a22fig01.gif" border="0" usemap="#Map">    <map name="Map">     <area shape="rect" coords="67,199,203,222" href="http://www.letras.ufmg.br/literafro/" target="_blank">     <area shape="rect" coords="10,223,76,241" href="http://www.letras.ufmg.br/literafro/" target="_blank">   </map> </P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Brasil p&oacute;s-colonial? Mas, afinal, qual seria o alcance    do termo p&oacute;s-colonial? Faria sentido aplic&aacute;-lo &agrave; nossa    literatura? "O que falta &eacute; uma teoriza&ccedil;&atilde;o do nosso    p&oacute;s-colonial para que o r&oacute;tulo de literatura p&oacute;s-colonial    possa ser atribu&iacute;do a diversas produ&ccedil;&otilde;es brasileiras. A    quest&atilde;o que nos fica &eacute; at&eacute; que ponto isso seria, efetivamente,    v&aacute;lido para n&oacute;s", adverte Anna Beatriz Paula.</font></P>     <p><font size="3">Intelectuais portugueses como o soci&oacute;logo Boaventura    de Souzas Santos e o antrop&oacute;logo Miguel Vale de Almeida t&ecirc;m se    debru&ccedil;ado sobre as diferen&ccedil;as da experi&ecirc;ncia p&oacute;s-colonial    dos pa&iacute;ses do norte e os do sul e, mais do que isso, dos pa&iacute;ses    que foram colonizados por Portugal. O projeto colonial portugu&ecirc;s tem sido    comumente representado como um colonialismo cordial, baseado na miscigena&ccedil;&atilde;o    e que, por isso n&atilde;o seria racista. Esses seriam, supostamente, os aspectos    caracter&iacute;sticos da experi&ecirc;ncia colonial dos pa&iacute;ses de l&iacute;ngua    portuguesa. Para esses autores, a tarefa p&oacute;s-colonial &eacute; complexificar    essas representa&ccedil;&otilde;es. Nesse sentido, a miscigena&ccedil;&atilde;o    deve ser pensada, necessariamente, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; escravid&atilde;o,    &agrave; viol&ecirc;ncia embutida nas rela&ccedil;&otilde;es entre senhores    e escravos e &agrave;s suas conseq&uuml;&ecirc;ncias nas desigualdades sociais,    raciais e de g&ecirc;nero que perduram ainda hoje no Brasil.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a22fig02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Se n&atilde;o se fala, aqui, numa literatura p&oacute;s-colonial,    se fala em literatura negra ou afro-brasileira. "Desde o per&iacute;odo    colonial, o trabalho dos afro-brasileiros se faz presente em praticamente todos    os campos da atividade art&iacute;stica, mas nem sempre obtendo o reconhecimento    devido. No caso da literatura, essa produ&ccedil;&atilde;o sofre impedimentos    &agrave; sua divulga&ccedil;&atilde;o, a come&ccedil;ar pela pr&oacute;pria    materializa&ccedil;&atilde;o em livro", lembra Eduardo de Assis Duarte,    professor da Faculdade de Letras da UFMG.</font></P>     <p><font size="3">Duarte &eacute; coordenador do projeto "Afro-descend&ecirc;ncias:    ra&ccedil;a/etnia na cultura brasileira". Sua inten&ccedil;&atilde;o &eacute;    divulgar e estimular estudos sobre a produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria    de escritores negros, j&aacute; que essa literatura carece tanto de uma hist&oacute;ria    como de um <i>corpus</i> consolidado que esbarra, muitas vezes, na resist&ecirc;ncia    do pr&oacute;prio campo acad&ecirc;mico em reconhecer uma literatura que se    postula como negra. Em artigo publicado no portal <i>Literafro</i>, Duarte diz    que essa resist&ecirc;ncia tem o argumento de que arte e literatura "n&atilde;o    tem sexo, nem cor". Para ele, a arte concebida sem adjetivos &eacute; baseada    a id&eacute;ia de ess&ecirc;ncia do belo, que seria pretensamente universal:    o c&acirc;none liter&aacute;rio hegem&ocirc;nico &eacute; masculino, branco,    ocidental e crist&atilde;o e, por isso, deixa de reconhecer ou valorizar obras    que n&atilde;o se encaixem nele. Por isso &eacute; que ele deve ser revisto    e questionado a partir de outras identidades.</font></P>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="right"><font size="3"><i>Carolina Cantarino</i></font></P>      ]]></body>
</article>
