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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>CINEMA</b></font></P>     <P><font size="4"><b>M<small>ONSTRO BRASILEIRO REVIVE EM</small> 3D</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Uma c&oacute;pia digital em terceira dimens&atilde;o do filme    <i>O monstro da lagoa negra</i> (1954), de Jack Arnold, foi exibida no pen&uacute;ltimo    dia do X Encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema (Socine), que    ocorreu em outubro passado na cidade mineira de Ouro Preto. A exibi&ccedil;&atilde;o    contou com a apresenta&ccedil;&atilde;o de Leonardo Andrade, professor da Universidade    Federal de S&atilde;o Carlos (Ufscar) e diretor da restaura&ccedil;&atilde;o    digital do filme em 3D. O resultado p&ocirc;de ser conferido pelo p&uacute;blico    da Socine, que reagiu com bom humor &agrave;s investidas do monstro "fora"    da tela. </font></P>     <p><font size="3"><i>O monstro da lagoa negra</i> &eacute; um dos filmes de fic&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica mais interessantes dos anos 1950. A est&oacute;ria se passa    na Amaz&ocirc;nia brasileira, quando um grupo de cientistas americanos chega    &agrave; "Lagoa Negra" para investigar uma curiosa descoberta arqueol&oacute;gica.    L&aacute; eles se deparam com uma estranha criatura, misto de homem e anf&iacute;bio,    que vem atacando pessoas na regi&atilde;o. Tem in&iacute;cio uma aventura no    estilo <i>King Kong</i> ou <i>A bela e a fera</i>, com o monstro irremediavelmente    atra&iacute;do pela mocinha.</font></P>     <p><font size="3">O filme de Jack Arnold traz cenas memor&aacute;veis como a do    nado de Kay (Julia Adams) na lagoa, espelhado pela criatura submersa. Esse epis&oacute;dio    notadamente er&oacute;tico, "uma representa&ccedil;&atilde;o estilizada    de rela&ccedil;&atilde;o sexual", segundo John Baxter aponta em seu livro    <i>Science fiction in the cinema</i>, de 1970, &eacute; pass&iacute;vel de uma    bela leitura psicanal&iacute;tica e traz a matriz do medo explorado anos depois    por Steven Spielberg em <i>Tubar&atilde;o</i> (1977). Sensibilidade ecol&oacute;gica    e preconceito com rela&ccedil;&atilde;o aos pa&iacute;ses perif&eacute;ricos,    tamb&eacute;m, est&atilde;o presentes em <i>O monstro da lagoa negra</i>. No    conjunto, o filme fornece um discurso colonialista recorrente no cinema at&eacute;    hoje: aquele dos cientistas anglo-sax&otilde;es que levam civiliza&ccedil;&atilde;o    e esclarecimento a regi&otilde;es primitivas do mundo. &Agrave; parte esse discurso,    o filme de Arnold tem muitos encantos, em especial para os f&atilde;s de fic&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica e horror. &Eacute; prov&aacute;vel que esteja em <i>O monstro    da lagoa negra</i>, e n&atilde;o em <i>2001, uma odiss&eacute;ia no espa&ccedil;o</i>    (1968), de Stanley Kubrick, a maior elipse da hist&oacute;ria do cinema. Enquanto    no filme de Kubrick a elipse compreende um hiato entre a pr&eacute;-hist&oacute;ria    e o ano de 2001, quando o homem conquista o espa&ccedil;o, o filme de Arnold    abre com imagens e <i>voice over</i> que remetem ao processo de forma&ccedil;&atilde;o    do globo terrestre, para depois saltar at&eacute; a d&eacute;cada de 50 do s&eacute;culo    XX.</font></P>     <p><font size="3">P&eacute;rola dos est&uacute;dios da Universal, <i>O monstro    da lagoa negra</i> &eacute; representativo do hibridismo gen&eacute;rico entre    fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e horror, sendo respons&aacute;vel por    um <i>revival</i> de toda a franquia de monstros do est&uacute;dio de Carl Laemmle.    Longe de ser um <i>trash movie</i>, mobilizou recursos t&eacute;cnicos sofisticados    para a &eacute;poca em que foi lan&ccedil;ada, como uma caixa isolante especial    para as duas c&acirc;meras empregadas nas filmagens submersas. </font></P>     <p><font size="3"> <i>O monstro da lagoa negra</i> deu origem a duas seq&uuml;&ecirc;ncias,    <i>A vingan&ccedil;a do monstro</i> (<i>Revenge of the creature</i>, 1955),    tamb&eacute;m dirigido por Jack Arnold, e <i>O monstro anda entre n&oacute;s</i>    (<i>The creature walks among us</i>, 1956), de John Sherwood. Os filmes de Arnold    foram concebidos originalmente como filmes para exibi&ccedil;&atilde;o em 3D.    Foi com o objetivo de recriar essa experi&ecirc;ncia que entraram em cena Leonardo    Andrade e sua equipe de alunos do curso de imagem e som da Ufscar. Eles criaram    um m&eacute;todo digital eficaz e economicamente vi&aacute;vel de restaurar    filmes em 3D.</font></P>     <p>&nbsp;</P> <table width="580" border="0" align="center" cellpadding="5" cellspacing="5" bgcolor="#FFFFCC">   <tr>      <td>    <P><font size="3"><b>E<small>NTREVISTA -</small> L<small>EONARDO</small>          A<small>NDRADE</small></b></font></P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><i>Como funciona o cinema em 3D?</i>    <br>         Existem dois m&eacute;todos consolidados de visualiza&ccedil;&atilde;o          em tr&ecirc;s dimens&otilde;es para exibi&ccedil;&otilde;es coletivas,          como &eacute; o caso do cinema. O m&eacute;todo mais antigo &eacute; o          anagl&iacute;fico. A primeira experi&ecirc;ncia cinematogr&aacute;fica          tridimensional com esse m&eacute;todo foi em 1922, com o filme <i>The          power of love</i> (dirigido por Nat G. Deverich e Harry K. Fairall). Essa          t&eacute;cnica consiste em conferir duas cores diferentes para cada imagem          referente aos olhos esquerdo e direito, de modo que o espectador, ao utilizar          &oacute;culos com lentes que filtrem as cores desejadas, possa separar          cada uma das imagens mescladas na tela.    <br>         Outro m&eacute;todo utilizado nos anos 1950 &eacute; o da estereoscopia          por filtragem de luz polarizada: duas c&acirc;meras cinematogr&aacute;ficas          sincronizadas, montadas &agrave; dist&acirc;ncia interocular (cerca de          6,5 cm), produzem dois filmes referentes respectivamente &agrave; vis&atilde;o          do olho esquerdo e do olho direito. Em uma tela metalizada &eacute; feita          proje&ccedil;&atilde;o sincronizada das duas pel&iacute;culas, usando-se          filtros polarizadores.     <BR>         O espectador assiste ao filme de &oacute;culos, com filtros polarizadores          iguais aos da proje&ccedil;&atilde;o. Dessa forma, as imagens referentes          a cada um dos olhos s&atilde;o filtradas, de maneira que cada olho percebe          somente a imagem referente &agrave; sua lateralidade. Em sistemas mais          aprimorados, uma &uacute;nica c&acirc;mera, atrav&eacute;s de uma objetiva          especial anam&oacute;rfica, forma duas imagens sobre uma &uacute;nica          pel&iacute;cula. Depois, um projetor tamb&eacute;m equipado com uma objetiva          semelhante reproduz aquela pel&iacute;cula, gerando duas imagens separadas          e polarizadas sobre tela metalizada. Da mesma forma, &oacute;culos polarizadores          s&atilde;o necess&aacute;rios para a separa&ccedil;&atilde;o dos dois          tipos de imagem.</font></P>           <P><font size="3"><i>Por que o cinema 3D anda desaparecido nos &uacute;ltimos          tempos?</i>    <br>         A &eacute;poca de ouro foi a d&eacute;cada de 1950. Com o surgimento da          televis&atilde;o, as produtoras cinematogr&aacute;ficas norte-americanas          procuraram formas de atrair a aten&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico.          Telas de grande formato (cinemascope), filmes coloridos, e tamb&eacute;m          o cinema 3D foram usados nessa reconquista do espa&ccedil;o que estava          sendo perdido para a TV. Nessa &eacute;poca foram produzidos filmes como          A casa de cera (<i>House of wax</i>) dirigido por Andre de Toth em 1953,          O monstro da lagoa negra (<i>Creature from the black lagoon</i>), e <i>Disque          M para matar</i> (<i>Dial M for murder</i>), dirigido por Alfred Hitchcock          em 1954.    <br>         Infelizmente, o custo de produ&ccedil;&atilde;o de um filme em 3D, com          capta&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o em pel&iacute;cula, ainda          &eacute; muito elevado. Atualmente, os cinemas I-Max norte-americanos          realizam produ&ccedil;&otilde;es cinematogr&aacute;ficas em tr&ecirc;s          dimens&otilde;es, mas com filmes focados apenas em entretenimento.</font></P>           <P><font size="3"><i>Como foi o processo de restaura&ccedil;&atilde;o?</i>    <br>         Comecei a trabalhar com estereoscopia digital com o aux&iacute;lio do          H&eacute;lio Godoy, ent&atilde;o na Ufscar e hoje na UFMS. O primeiro          passo foi desenvolver um software, que serviu de base para o atual, que          trabalhava apenas com a mixagem de duas imagens est&aacute;ticas para          obten&ccedil;&atilde;o de uma imagem estereosc&oacute;pica anagl&iacute;fica          verde-vermelho.     <br>         Realizando pesquisas sobre esterescopia, descobri que o filme do qual          sou f&atilde;, <i>O monstro da lagoa negra</i>, havia sido filmado em          3D, al&eacute;m de ter diversas cenas subaqu&aacute;ticas. Consegui uma          c&oacute;pia em DVD, para ser vista com um aparelho que controla &oacute;culos          especiais (denominados "obturador"), que fecha a vis&atilde;o          do olho complementar ao ser exibida na tela da TV uma imagem para um determinado          olho. As imagens contidas nesse DVD s&atilde;o entrela&ccedil;adas, ou          seja, a imagem do olho direito e a do olho esquerdo comp&otilde;em um          &uacute;nico quadro dividido em linhas pares e &iacute;mpares (sistema          de estereoscopia de chaveamento de imagens). Foi extremente frustrante          ter em m&atilde;os uma m&iacute;dia que continha informa&ccedil;&otilde;es          digitais em tr&ecirc;s dimens&otilde;es, mas n&atilde;o ter o aparelho          para visualiza&ccedil;&atilde;o.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>         A partir da c&oacute;pia digital do filme (em resolu&ccedil;&atilde;o          baixa, cerca de 360 x 480 pixels para cada quadro), foi produzido um software          para ampliar a resolu&ccedil;&atilde;o dos quadros e mixar seus canais          de cor, para obten&ccedil;&atilde;o de quadros ciano-vermelho. Essa t&eacute;cnica          anagl&iacute;fica foi escolhida pela facilidade de proje&ccedil;&atilde;o          (usa apenas um projetor digital e &oacute;culos com filtros de cor para          os expectadores).    <br>         Ap&oacute;s desenvolver o software, todo o material digital foi processado          para obter uma nova c&oacute;pia. O pr&oacute;ximo passo foi resolver          a sincroniza&ccedil;&atilde;o do &aacute;udio. Para esta fun&ccedil;&atilde;o          e para a aquisi&ccedil;&atilde;o dos &oacute;culos para os espectadores,          surgiu a id&eacute;ia de realizar um projeto de extens&atilde;o universit&aacute;ria          dentro da Ufscar. Foi contratado um bolsista (Daniel Roviriego, do curso          de gradua&ccedil;&atilde;o em imagem e som), que realizou a sincroniza&ccedil;&atilde;o          do som com &aacute;udio dublado em portugu&ecirc;s. Se o material original          fosse uma c&oacute;pia 35mm digital, ao inv&eacute;s de um DVD, a resolu&ccedil;&atilde;o          do produto final seria muito superior.</font></P>           <P><font size="3"><i>Esse processo representa uma alternativa mais vi&aacute;vel          para cinema 3D?</i>    <br>         O processo desenvolvido transforma duas imagens captadas em uma &uacute;nica,          sendo que essa nova imagem possui canais de cores separados, possibilitando          a exibi&ccedil;&atilde;o a partir de um &uacute;nico projetor. Outro fato          importante &eacute; que as novas tecnologias de capta&ccedil;&atilde;o          digital de alta defini&ccedil;&atilde;o j&aacute; possuem profundidade          de campo suficiente para produzir um efeito tridimensional fact&iacute;vel.          Mesmo usando duas c&acirc;meras digitais para capta&ccedil;&atilde;o,          o custo atual &eacute; imensamente inferior em virtude das novas tecnologias          apresentadas.</font></P>           <P><font size="3"><i>No exterior, quem mais realiza projetos desse tipo?</i>    <br>         No inicio da d&eacute;cada de 1990, foi lan&ccedil;ado o filme <i>A hora          do pesadelo 6 – o pesadelo final</i>, sob dire&ccedil;&atilde;o de Rachel          Talalay, no qual os minutos finais apresentam cenas em tr&ecirc;s dimens&otilde;es.          H&aacute; pouco tempo os est&uacute;dios Disney realizaram <i>Pequenos          espi&otilde;es 3D (Spy kids 3D)</i> dirigido por Robert Rodriguez, exibido          quase totalmente em 3D. Tamb&eacute;m em 2003, o diretor James Cameron          realizou <i>Ghosts of abyss</i>, para ser exibido em 3D nos cinema I-Max.          Mas al&eacute;m dos projetos de grandes produtoras, existem filmes tridimensionais          com or&ccedil;amentos menores feitos de modo experimental pelo mundo todo,          tendo em vista que ainda n&atilde;o existe um padr&atilde;o de capta&ccedil;&atilde;o          e codifica&ccedil;&atilde;o de imagens estereosc&oacute;picas.</font></P>           <P><font size="3"><i>H&aacute; previs&atilde;o de restauro de outros filmes          3D no futuro?</i>    <br>         Estamos pensando em trabalhar em <i>Disque M para matar</i>, de Alfred          Hithcock, al&eacute;m de realizar novos filmes captados com c&acirc;meras          digitais estereosc&oacute;picas.</font></P>           <P>&nbsp;</P>           <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Alfredo de Oliveira Suppia</i></font></P></td>   </tr> </table>     ]]></body>
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