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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n4/brasil.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">ECOLOGIA</font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v59n4/line_bk.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Formigas e plantas: troca de favores e benef&iacute;cios    m&uacute;tuos</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Policarpo Quaresma se assustou ao ver as laranjeiras negras    de seu s&iacute;tio, tomadas de imensas sa&uacute;vas: "Havia delas &agrave;s    centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam    como em ruas transitadas e vigiadas a popula&ccedil;&atilde;o de uma grande    cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropelos, de confus&atilde;o,    de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta." O personagem    ufanista de Lima Barreto acabou perdendo a batalha travada com as sa&uacute;vas    que atacaram as suas provis&otilde;es, num exemplo de associa&ccedil;&atilde;o    antagonista, onde as &uacute;nicas privilegiadas foram as formigas.</font></P>     <P><font size="3">No entanto, fora da literatura, plantas e formigas estabelecem    tamb&eacute;m intera&ccedil;&otilde;es mutualistas, onde as duas esp&eacute;cies    se beneficiam. &Eacute; o que mostra o livro <i>The ecology and evolution of    ant-plant interactions</i>, escrito por Victor Rico-Gray e Paulo S&eacute;rgio    Oliveira, publicado este ano pela editora da Universidade de Chicago, nos Estados    Unidos.</font></P>     <P><font size="3">Foi nas dunas de Xalapa, no estado mexicano de Veracruz, que    Oliveira e Rico-Gray iniciaram uma prof&iacute;cua colabora&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica. O ano era 1997. Tendo o Golfo do M&eacute;xico ao fundo,    areia escura, vulc&acirc;nica, esses cientistas se lan&ccedil;aram ao estudo    da associa&ccedil;&atilde;o de formigas com um cacto suculento (<i>Opuntia stricta</i>)    que cresce nas dunas e tem nect&aacute;rios extraflorais. Essas estruturas,    presentes em diversas esp&eacute;cies de planta, produzem, fora das flores,    subst&acirc;ncias a&ccedil;ucaradas que atraem, principalmente, formigas. Em    troca, esses insetos sociais protegem as plantas de predadores e herb&iacute;voros.    S&atilde;o bem conhecidos e at&eacute; testados, experimentalmente, diversos    sistemas em que a prote&ccedil;&atilde;o pelas formigas se reflete sobre a sobreviv&ecirc;ncia    e/ou reprodu&ccedil;&atilde;o dos vegetais.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n4/a06img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Para saber se o cacto se beneficia da presen&ccedil;a das formigas,    os pesquisadores montaram um experimento no qual impediram as formigas de subir    nos galhos de uma parte dos cactos com uma subst&acirc;ncia pegajosa, Tanglefoot&reg;.    Observaram que os cactos "isolados" de suas guardi&atilde;s produziram    menos frutos do que os "controles" — plantas visitadas normalmente    pelas perambulantes formigas. E produziram, assim, o primeiro relato do efeito    ben&eacute;fico direto das formigas no sucesso reprodutivo dos cactos. Elas,    de fato, garantem que os inimigos naturais dos frutos e dos bot&otilde;es ataquem    menos.</font></P>     <P><font size="3">A parceria entre o ec&oacute;logo Paulo S. Oliveira, da Universidade    Estadual de Campinas, e o pesquisador mexicano, Victor Rico-Gray, do Instituto    de Ecologia de Xalapa, continuou, agora cada um em sua terra natal: orientaram    em conjunto uma aluna mexicana e passaram a escrever o livro por 5 anos, um    longo per&iacute;odo que acabou por consolidar a amizade. "N&atilde;o t&iacute;nhamos    a ambi&ccedil;&atilde;o de fazer um livro imenso, e sim um apanhado, da literatura,    de tudo que tinha sido feito sobre isso, mas com um tratamento evolutivo moderno",    conta Oliveira. Embora ambos estudem formigas, suas bagagens cient&iacute;ficas    s&atilde;o diferentes, por&eacute;m complementares — Oliveira tem forma&ccedil;&atilde;o    em zoologia e ecologia, e Rico-Gray, em bot&acirc;nica — o que se mostrou fundamental    na estrutura&ccedil;&atilde;o do livro.</font></P>     <P><font size="3"><b>POR QUE FORMIGAS?</b> &Eacute; tarefa f&aacute;cil justificar    a import&acirc;ncia de estudar formigas: s&atilde;o abundantes e interagem com    in&uacute;meras esp&eacute;cies de plantas, animais e microorganismos. Se pud&eacute;ssemos    colocar em uma balan&ccedil;a todos os animais de determinado ambiente terrestre,    como j&aacute; foi estimado pelos ec&oacute;logos alem&atilde;es E. Fittkau    &amp; H. Klinge, em 1973, para a Amaz&ocirc;nia, cerca de 30% da biomassa viria    de formigas e cupins. As formigas sozinhas representariam de 10 a 15% da biomassa    total.</font></P>     <P><font size="3">No imagin&aacute;rio popular, formigas s&atilde;o sin&ocirc;nimo    de sa&uacute;vas, "comedoras" de folhas. No entanto, formigas n&atilde;o s&atilde;o    capazes de comer folhas. Elas cortam folhas para, dentro do formigueiro, cultivar    os fungos dos quais se alimentam. As que comem fungos s&atilde;o aquelas da    Tribo Attini (cerca de 190 esp&eacute;cies), a qual pertecem as 15 esp&eacute;cies    de sa&uacute;vas. Dentre as outras 10 mil esp&eacute;cies conhecidas da fam&iacute;lia    <i>Formicidae</i>, a dieta &eacute; amplamente diversificada. Podem ser carn&iacute;voras,    ou seja, matar para comer (predar) outros bichos, inclusive outras formigas.    Algumas s&atilde;o frug&iacute;voras, e coletam o material carnoso dos frutos    e das sementes, contribuindo para a dispers&atilde;o das sementes. Podem tamb&eacute;m    se associar com animais que sugam a seiva da planta e exudam ("jogam fora")    got&iacute;culas de a&ccedil;&uacute;car das quais as formigas se alimentam.    A abund&acirc;ncia e as m&uacute;ltiplas intera&ccedil;&otilde;es surtem um    efeito muito grande na comunidade terrestre. "O estudo da ecologia e evolu&ccedil;&atilde;o    das formigas &eacute; importante para entender comunidades biol&oacute;gicas    terrestres, uma vez que v&aacute;rias setas de energia passam por elas", aponta    Oliveira. O campo de estudo das intera&ccedil;&otilde;es de formigas e plantas    &eacute; vasto e crescente. Pode-se destacar, como um marco, a pesquisa experimental    que o bi&oacute;logo Daniel H. Janzen fez, na d&eacute;cada de 1960, sobre a    associa&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria entre <i>Acacia cornigera</i> e    formigas <i>Pseudomyrmex ferrugineus</i>, no M&eacute;xico: as formigas defendem    as plantas contra herb&iacute;voros e trepadeiras, e, estas, fornecem casa e    alimento para elas.</font></P>     <P><font size="3"><b>SOBRE O LIVRO</b> Em meio &agrave;s mais de mil refer&ecirc;ncias    citadas no livro, Rico-Gray e Oliveira se preocuparam com estudos que tivessem    evid&ecirc;ncias experimentais e n&atilde;o apenas observa&ccedil;&otilde;es    anat&ocirc;micas e comportamentais. Com este norte e fortemente influenciados    pelo livro <i>Interaction and coevolution</i> (1982) de John N. Thompson, se    perguntaram: como e por que as formigas interagem?</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n4/a06img02.jpg"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Al&eacute;m disso, os autores procuraram resumir padr&otilde;es    gerais da ecologia e evolu&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre    plantas e formigas, fazendo um apanhado das intera&ccedil;&otilde;es, divididas    em antagonistas, mutualistas e oportunistas. Com mais de 100 milh&otilde;es    de anos de hist&oacute;ria evolutiva cruzada, as associa&ccedil;&otilde;es antagonistas    entre plantas e formigas deviam ser, inicialmente, mais freq&uuml;entes; ap&oacute;s    o aparecimento de novas estruturas nas plantas, as intera&ccedil;&otilde;es    mutualistas evolu&iacute;ram. Hoje em dia, o mutualismo &eacute; muito mais    comum do que o antagonismo entre plantas e formigas.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Cristina Caldas</i></font></P>      ]]></body>
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