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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Humanismo, biopoder e soberania: elementos para uma discussão das biotecnologias contemporâneas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n1/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>HUMANISMO, BIOPODER E SOBERANIA: ELEMENTOS PARA UMA DISCUSS&Atilde;O    DAS BIOTECNOLOGIAS CONTEMPOR&Acirc;NEAS</b></font></p>     <p><font size="3"><b> Jonatas Ferreira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b><font size=5>A</font></b>s recentes inova&ccedil;&otilde;es    promovidas pelas biotecnologias, e especialmente por aquelas que operam em escala    molecular, v&ecirc;m resultando em re-significa&ccedil;&otilde;es consider&aacute;veis    da vida biol&oacute;gica e social. A esse respeito, venho insistindo em algo    simples (1): a mec&acirc;nica n&atilde;o &eacute; mais o paradigma dominante    mediante o qual se promove a compreens&atilde;o dos organismos vivos. A cibern&eacute;tica    ocupou tal posto. A informa&ccedil;&atilde;o e o texto s&atilde;o as novas met&aacute;foras    de ordenamento e dissemina&ccedil;&atilde;o do discurso biotecnol&oacute;gico,    e n&atilde;o mais a engrenagem, a m&aacute;quina. Medicamentos neuropsiqui&aacute;tricos,    moderadores de apetite, medicamentos de tratamento de disfun&ccedil;&atilde;o    er&eacute;til, por exemplo, s&atilde;o elementos de uma guerra informacional    em que &agrave; medicina caberia driblar disposi&ccedil;&otilde;es inconvenientes    do organismo. O corpo &eacute; o palco dessa guerra. A converg&ecirc;ncia entre    &aacute;reas de conhecimento que operam em n&iacute;vel molecular, tais como    a gen&eacute;tica e a nanotecnologia, vem aprofundando essa tend&ecirc;ncia.    De fato, quem n&atilde;o haveria de perceber nos "medicamentos inteligentes"    que come&ccedil;am a ser produzidos pela nanobiotecnologia os mesmos princ&iacute;pios    que orientaram os primeiros experimentos de bal&iacute;stica realizados pela    cibern&eacute;tica. A precis&atilde;o, a capacidade de ajustar trajet&oacute;rias    de forma "inteligente", a orienta&ccedil;&atilde;o para alvos espec&iacute;ficos    s&atilde;o algumas semelhan&ccedil;as marcantes a serem destacadas.</font></p>     <p><font size="3"> A constata&ccedil;&atilde;o de que as novas tecnologias proporcionam    um poder de interfer&ecirc;ncia sem precedentes sobre a vida tem levado muitos    intelectuais a falar de uma interpenetra&ccedil;&atilde;o perigosa entre cultura    e natureza, isto &eacute;, entre esferas cuja oposi&ccedil;&atilde;o tem sido,    ao longo dos s&eacute;culos, elaborada no ocidente como condi&ccedil;&atilde;o    de civiliza&ccedil;&atilde;o. Uma cultura da modera&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica    de humores ainda poderia se compreender plenamente como tal? Anti-depressivos,    segundo esses intelectuais, seriam a evid&ecirc;ncia de que estar&iacute;amos    passando a tratar fen&ocirc;menos culturais como dados naturais (2). Do mesmo    modo, um ser geneticamente modificado n&atilde;o poderia ser categoricamente    definido como natural nem t&eacute;cnico-cultural. Mais uma vez podemos ressaltar    a import&acirc;ncia da cibern&eacute;tica aqui: o que ela entende como comunica&ccedil;&atilde;o,    informa&ccedil;&atilde;o, intelig&ecirc;ncia, controle, sempre pode ser reduzido    &agrave; perfomance, &agrave; operacionalidade. Nesse contexto, uma preocupa&ccedil;&atilde;o    com a oposi&ccedil;&atilde;o cultura-natureza parece fazer menos e menos sentido.    Ora, j&aacute; na d&eacute;cada de 1950, Nobert Wiener (3) chamava a aten&ccedil;&atilde;o    para o fato de a comunica&ccedil;&atilde;o ou informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    ser um fen&ocirc;meno exclusivo de entidades humanas, mas de todo ente capaz    de reagir a um est&iacute;mulo. </font></p>     <p><font size="3"> No livro <i>O futuro da natureza humana</i>, Habermas mostra-se    particularmente preocupado com as conseq&uuml;&ecirc;ncias de uma indetermina&ccedil;&atilde;o    entre cultura e natureza, mais especificamente, com a possibilidade de a "gen&eacute;tica"    vir a determinar caracter&iacute;sticas de organismos humanos. Decis&atilde;o    unilateral e irrevers&iacute;vel, a manipula&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica    acarretaria, segundo Habermas, conseq&uuml;&ecirc;ncias n&atilde;o apenas biol&oacute;gicas,    mas morais: a pessoa submetida a tal tipo de interven&ccedil;&atilde;o teria    inevitavelmente uma compreens&atilde;o desumanizada de si. Do ponto de vista    de sua gera&ccedil;&atilde;o, este indiv&iacute;duo se perceberia como realiza&ccedil;&atilde;o    t&eacute;cnica. Recordemos a influente formula&ccedil;&atilde;o aristot&eacute;lica    acerca da ess&ecirc;ncia da t&eacute;cnica. Na <i>F&iacute;sica</i> ele prop&otilde;e    que, n&atilde;o sendo naturais, os objetos t&eacute;cnicos t&ecirc;m o seu princ&iacute;pio    de produ&ccedil;&atilde;o heteronomamente definidos. Uma &aacute;rvore tem seu    princ&iacute;pio de produ&ccedil;&atilde;o determinado por seu pr&oacute;prio    ser; o banco em que essa &aacute;rvore eventualmente se transforma depende de    uma vontade humana. Entendida como produ&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, negar-se-ia    &agrave; "pessoa programada" um princ&iacute;pio de autodetermina&ccedil;&atilde;o    e a possibilidade de "trocar de papel com seu programador" (4).    Esse problema moral j&aacute; estaria claramente colocado na pr&aacute;tica    de diagn&oacute;sticos gen&eacute;ticos pr&eacute;-implanta&ccedil;&atilde;o.    N&atilde;o precisar&iacute;amos, portanto, esperar os primeiros clones humanos,    ou criaturas p&oacute;s-humanas geneticamente modificadas, para come&ccedil;ar    a nos preocupar.</font></p>     <p><font size="3"> N&atilde;o &eacute; fortuito que discuss&otilde;es acerca da    transg&ecirc;nese, do estatuto ontol&oacute;gico de c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias,    do diagn&oacute;stico gen&eacute;tico pr&eacute;-implanta&ccedil;&atilde;o,    sejam povoadas por tantos impasses culturais. Para muitos, automatiza&ccedil;&atilde;o,    heterodetermina&ccedil;&atilde;o, desumaniza&ccedil;&atilde;o seriam resultantes    necess&aacute;rias da objetifica&ccedil;&atilde;o da vida pelas novas tecnologias:    "a esp&eacute;cie humana poderia estar se empenhando numa esp&eacute;cie    de escrita autom&aacute;tica do mundo, dedicando-se a uma realidade virtual    automatizada e operacionalizada, onde os seres humanos enquanto tais n&atilde;o    t&ecirc;m mais motivos para existir. A subjetividade humana torna-se um conjunto    de fun&ccedil;&otilde;es in&uacute;teis, t&atilde;o in&uacute;teis quanto &eacute;    a sexualidade para os clones" (5). Essas dificuldades nos prop&otilde;em,    de modo radical, uma reflex&atilde;o acerca da rela&ccedil;&atilde;o do ser    humano com sua natureza, com sua ess&ecirc;ncia, e do modo como essa natureza    e ess&ecirc;ncia v&ecirc;m sendo compreendidas no Ocidente ao longo dos s&eacute;culos.</font></p>     <p><font size="3"><b>O HUMANISMO COMO BIOPODER</b> De que exatamente tratamos    quando falamos "humanismo"? Da busca empreendida para identificar    uma ess&ecirc;ncia n&atilde;o negoci&aacute;vel do ser humano. Raz&atilde;o,    fala, transcend&ecirc;ncia seriam respostas a essa pergunta e busca. Por&eacute;m,    antes de tudo cabe perguntar: devemos aceitar como dado de partida que o ser    humano possua uma ess&ecirc;ncia pass&iacute;vel de ser identificada? Em <i>A    condi&ccedil;&atilde;o humana</i>, Hannah Arendt (6) argumenta que tal aceita&ccedil;&atilde;o    equivaleria a tratar um <i>quem</i> como um <i>qu&ecirc;</i>, como coisa. Por    outro lado, poder&iacute;amos ainda considerar que se n&atilde;o h&aacute; nem    nunca houve uma ess&ecirc;ncia humana, algo que lhe seja pr&oacute;prio, as    bases &eacute;ticas e pol&iacute;ticas sobre as quais uma atitude cr&iacute;tica    ao desenvolvimento tecnol&oacute;gico poderia ser esbo&ccedil;ada parecem se    tornar inst&aacute;veis. Essas dificuldades definem um campo de reflex&atilde;o    humanista: "pois, humanismo &eacute; isto: meditar, e cuidar para que    o homem seja humano e n&atilde;o des-humano, inumano, isto &eacute;, situado    fora de sua ess&ecirc;ncia" (7). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Acredito que uma das tentativas mais sistem&aacute;ticas de    pensar acerca do humanismo no contexto das transforma&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas    contempor&acirc;neas, em especial aquelas que dizem respeito ao controle, disciplina    e regula&ccedil;&atilde;o da vida, vem sendo empreendida sob a rubrica "biopoder".    Esse &eacute; o conceito que em grande medida faz a ponte entre as preocupa&ccedil;&otilde;es    "antropol&oacute;gicas" e "geneal&oacute;gicas" de Michel    Foucault; entre o desejo de entender como o ser humano passou a ser objeto da    ci&ecirc;ncia, por um lado, e a compreens&atilde;o de que a ci&ecirc;ncia estaria    associada a uma forma espec&iacute;fica, moderna de poder, por outro. A este    poder que investe sobre a vida biol&oacute;gica do ser humano Foucault chamar&aacute;    biopoder. Recordemos de modo breve esta no&ccedil;&atilde;o. No primeiro volume    da <i>Hist&oacute;ria da sexualidade</i> (8), Foucault op&otilde;e a id&eacute;ia    de biopol&iacute;tica &agrave; forma soberana de exerc&iacute;cio do poder.    O soberano obt&eacute;m obedi&ecirc;ncia de seus s&uacute;ditos mediante a amea&ccedil;a    constante de confisco sobre seus meios de vida e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia,    pelo temor de que este venha a lhes decretar a morte. "O soberano faz    morrer e deixa viver", &eacute; a f&oacute;rmula que explica essa l&oacute;gica    pol&iacute;tica. Em contraste, o biopoder reside em fazer viver, em fazer proliferar    a vida, mediante o seu controle ou sua regulamenta&ccedil;&atilde;o, e deixar    morrer quando uma a&ccedil;&atilde;o produtiva sobre a vida biol&oacute;gica    n&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel. A modernidade inauguraria uma forma    nova de fazer pol&iacute;tica cuja legitimidade j&aacute; n&atilde;o mais se    estabelece prioritariamente no terreno da cultura, mas por meio de um controle    sobre a vida biol&oacute;gica (9).</font></p>     <p><font size="3"> Em grande medida, Hannah Arendt e Heidegger abriram caminho    para essas reflex&otilde;es. Arendt o faz ao criticar o que ela julga ser uma    redu&ccedil;&atilde;o das possibilidades do pol&iacute;tico &agrave;s quest&otilde;es    econ&ocirc;micas da sobreviv&ecirc;ncia biol&oacute;gica, imediata – redu&ccedil;&atilde;o    da "<i>vida ativa</i> ao <i>labor</i>", para usarmos o seu jarg&atilde;o.    A cr&iacute;tica heideggeriana ao humanismo segue as mesmas pegadas. Na <i>Carta    sobre o humanismo</i> (7) Heidegger deixa isso claro: "A metaf&iacute;sica    pensa o homem a partir do <i>animalitas</i>, ela n&atilde;o pensa em dire&ccedil;&atilde;o    da sua <i>humanitas</i>". E j&aacute; no <i>Ser e tempo</i> ele afirmava    que "o Dasein n&atilde;o deve jamais ser ontologicamente definido considerando-o    como (ontologicamente indefinido) vida mais algo mais" (10). Foucault    depreende desse tipo de considera&ccedil;&atilde;o algo importante, a saber,    a oportunidade de pensar a din&acirc;mica pol&iacute;tica moderna n&atilde;o    mais a partir de uma refer&ecirc;ncia jur&iacute;dica, tal como encontramos    na teoria da soberania, mas a partir da id&eacute;ia de administra&ccedil;&atilde;o    biol&oacute;gica da vida, ou seja, da administra&ccedil;&atilde;o dos corpos    e das esp&eacute;cies. A biologia, n&atilde;o o direito, &eacute; a refer&ecirc;ncia    pol&iacute;tica com a qual nos deparamos a partir do s&eacute;culo XVIII. Ao    Estado cabe garantir que o cidad&atilde;o possa viver mais, de modo mais saud&aacute;vel    e n&atilde;o mais estruturar sua a&ccedil;&atilde;o a partir da quest&atilde;o:    "que vida devemos julgar como digna de ser vivida?".</font></p>     <p><font size="3"> Fa&ccedil;amos aqui um pequeno e necess&aacute;rio excurso.    A teoria da soberania concebeu o exerc&iacute;cio do poder pol&iacute;tico a    partir das dificuldades com as quais Kant j&aacute; se deparara no final do    s&eacute;culo XVIII ao tentar legitimar o ato de julgar. O leitor haver&aacute;    de se lembrar do problema que est&aacute; na origem da <i>Cr&iacute;tica do    julgamento</i> (11) e me permitir&aacute; uma simplifica&ccedil;&atilde;o consider&aacute;vel.    Esse problema &eacute;: como julgar na aus&ecirc;ncia de regras pr&eacute;-estabelecidas?    Ou, varia&ccedil;&atilde;o do tema: como aplicar uma regra pr&eacute;-estabelecida    ao caso particular sem que infinitas regras de aplica&ccedil;&atilde;o da regra    proliferem? Ora, esse &eacute; precisamente o problema que, no come&ccedil;o    do s&eacute;culo XX, Carl Schmitt eleger&aacute; como centro de suas reflex&otilde;es    pol&iacute;ticas sobre o ato soberano. Para ele, formas parlamentares, liberais    de exerc&iacute;cio do poder seriam irrealiz&aacute;veis por n&atilde;o perceberem    que o poder &eacute; em sua ess&ecirc;ncia um ato de exce&ccedil;&atilde;o,    "um milagre", como ele mesmo afirmou. &Agrave;s aporias do julgamento    ele responde com um golpe de for&ccedil;a. Todo exerc&iacute;cio de poder soberano    &eacute; uma <i>decis&atilde;o</i> – no sentido etimol&oacute;gico da    palavra, isto &eacute;, um corte, uma ruptura – imposs&iacute;vel de ser    justificada que determina uma separa&ccedil;&atilde;o entre amigo e inimigo,    entre o que deve viver e o que deve morrer. "Todos os conceitos significantes    da moderna teoria do Estado s&atilde;o conceitos teol&oacute;gicos secularizados    n&atilde;o apenas por conta de seu desenvolvimento hist&oacute;rico –    no qual eles foram transferidos da teologia para a teoria do Estado, em cujo    contexto, por exemplo, o Deus onipotente se tornou o legislador onipotente –    mas tamb&eacute;m por sua estrutura sistem&aacute;tica, cujo reconhecimento    &eacute; necess&aacute;rio para uma considera&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica    destes conceitos"(12).</font></p>     <p><font size="3"><b>BIOPODER E SOBERANIA</b> Se para Foucault a morte dos indiv&iacute;duos    &eacute; o embara&ccedil;o do Estado moderno, caso o concebamos como estrutura    biopol&iacute;tica, para a teoria da soberania, a morte (do inimigo interno    ou externo) &eacute; uma dimens&atilde;o inextric&aacute;vel do pr&oacute;prio    exerc&iacute;cio do poder. Embora seja poss&iacute;vel encontrar elementos tanatol&oacute;gicos    nas formas biopol&iacute;ticas, estes n&atilde;o definiam mais seu elemento    primordial. A prolifera&ccedil;&atilde;o da vida biol&oacute;gica era sua estrat&eacute;gia    fundamental; o coma cerebral, seu limite. Ora, essas observa&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o importantes se considerarmos o aporte do filos&oacute;fo italiano    Giorgio Agamben a essa discuss&atilde;o. Dois elementos saltam aos olhos na    apropria&ccedil;&atilde;o que ele realiza da genealogia de Michel Foucault.    O primeiro, diz respeito &agrave; reintrodu&ccedil;&atilde;o de algumas categorias    da teoria da soberania na pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o do que seria    biopoder. Com efeito, Foucault tinha em mente um tipo de poder que funcionaria    de modo bem menos centralizado que a id&eacute;ia de um poder soberano. Agamben,    por seu turno, acredita que o conceito original de biopoder n&atilde;o pensa    suficientemente o papel da morte nas estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas contempor&acirc;neas,    al&eacute;m de n&atilde;o dar suficiente aten&ccedil;&atilde;o &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o    de poder pol&iacute;tico que elas promovem. Lembremos algumas oportunidades    recentes de pensar a centralidade desse poder, a desumaniza&ccedil;&atilde;o    do inimigo e o recurso &agrave; morte e ao terror como t&eacute;cnica de subjuga&ccedil;&atilde;o:    Abu-Ghraib, Guant&aacute;namo e, de resto, a pol&iacute;tica anti-terror americana    sob George W. Bush.</font></p>     <p><font size="3"> Em segundo lugar, aquilo que Foucault entende como biopoder    &eacute; algo que, devidamente ajustado, diria respeito n&atilde;o apenas &agrave;    pol&iacute;tica moderna, mas ao pr&oacute;prio projeto humanista tal como ele    se desenvolve no Ocidente desde os gregos. Valendo-se de uma categoria do direito    pol&iacute;tico romano, o homem sagrado, ou <i>homo sacer</i>, Agamben (13)    pretende sustentar a tese de a vida biol&oacute;gica, a "vida nua",    sempre foi um elemento central das estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas ocidentais.    O ser humano em estado de emerg&ecirc;ncia, cuja vida se poderia dispor sem    cometer assassinato, mas que n&atilde;o poderia ser sacrificada, &eacute; a    figura liminar que articula as esferas de cultura e natureza. O <i>homo sacer</i>    teria assim uma afinidade pol&iacute;tica essencial com o <i>Muselman</i>, com    o cigano, com os homossexuais nos campos de concentra&ccedil;&atilde;o, ou com    o prisioneiro condenado &agrave; pena capital. S&atilde;o seres humanos reduzidos    &agrave; condi&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica: deles n&atilde;o se pode arrancar    por completo a humanidade, nem afirm&aacute;-la; s&atilde;o seres humanos em    estado de exce&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o prisioneiros torturados em Abu-Ghraib    ou em pris&otilde;es secretas na Europa. Bebendo diretamente na obra de Carl    Schmitt, mas tamb&eacute;m em Heidegger, Agamben afirma que o humanismo n&atilde;o    consegue afirmar a dignidade do ser humano num terreno mais elevado que o <i>animalitas</i>.    Nesse ponto, poder-se-ia afirmar que o projeto que o humanismo define sempre    esteve atrelado precisamente &agrave;quilo que ele tem de negar constantemente,    aquilo que ele n&atilde;o consegue pensar suficientemente, ou seja, ao biol&oacute;gico,    ao natural.</font></p>     <p><font size="3"> O pr&oacute;prio Heidegger n&atilde;o conseguiu se livrar do    fantasma de uma defini&ccedil;&atilde;o biologizante de nossa condi&ccedil;&atilde;o.    Para ele, "o <i>lethe</i> que domina o centro da <i>aletheia</i> –    a inverdade que tamb&eacute;m pertence originariamente &agrave; verdade –    &eacute; impossibilidade de desvelamento, a n&atilde;o-abertura do animal. A    disputa insol&uacute;vel entre o revelado e o n&atilde;o-revelado, entre revela&ccedil;&atilde;o    e oculta&ccedil;&atilde;o, que define o mundo humano, &eacute; a luta interna    entre o homem e o animal" (14). Tamb&eacute;m em Heidegger, nossa humanidade    &eacute; obtida mediante uma suspens&atilde;o da animalidade – e a modernidade    que nos condiciona tecnicamente, que nos animaliza, priva-nos de nossas potencialidades    existenciais mais dignas. O ser humano &eacute; uma abertura para a indetermina&ccedil;&atilde;o    de ser, &eacute; aquele que se mant&eacute;m "aberto ao fechamento do    animal", &agrave; pobreza e determina&ccedil;&atilde;o com que ele &eacute;    no mundo, &agrave; sua impossibilidade de abertura para o mundo, ao seu ser    condicionado, &agrave; sua n&atilde;o exist&ecirc;ncia. Em que sentido o pensamento    de Heidegger escapa &agrave; primazia metaf&iacute;sica do <i>animalitas</i>?,    pergunta-se Agamben. N&atilde;o escapa – essa &eacute; sua resposta (14).</font></p>     <p><font size="3"> Apresentarei aqui tr&ecirc;s cr&iacute;ticas feitas &agrave;    id&eacute;ia de biopoder proposta por Agamben. Primeiro, que o <i>homo sacer</i>    seja uma figura paradigm&aacute;tica do pensar pol&iacute;tico no Ocidente &eacute;    algo que necessita ser demonstrado. Isto demandaria um esfor&ccedil;o de reconstitui&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica bem maior do que Agamben empreendeu at&eacute; agora. Segundo,    o mesmo pode ser dito acerca do uso de categorias centrais da teoria da soberania    (15). Elas s&oacute; fazem sentido no &acirc;mbito de uma defini&ccedil;&atilde;o    da din&acirc;mica pol&iacute;tica que em &uacute;ltima inst&acirc;ncia se reduz    ao ato discricion&aacute;rio – estabelecendo uma separa&ccedil;&atilde;o    entre amigo e inimigo, entre o que deve viver e o que deve morrer. Foucault    nos abre uma perspectiva mais interessante ao perceber formas de exerc&iacute;cio    do controle, da regula&ccedil;&atilde;o e da disciplina que n&atilde;o prov&ecirc;m    necessariamente de uma pol&iacute;tica centrada na id&eacute;ia de identidade,    da exclus&atilde;o ou repress&atilde;o da alteridade. Sobretudo em seus &uacute;ltimos    escritos, o poder &eacute; para ele produtivo e n&atilde;o apenas repressivo.    Por isso, embora n&atilde;o se possa negar que o campo de concentra&ccedil;&atilde;o    &eacute; uma possibilidade do moderno, n&atilde;o precisamos afirmar que ele    seja sua ess&ecirc;ncia ou express&atilde;o mais acabada. Por &uacute;ltimo,    h&aacute; de se considerar que se, por um lado, as pondera&ccedil;&otilde;es    feitas por Agamben acerca do exerc&iacute;cio pol&iacute;tico contempor&acirc;neo    mostram que a morte e a exce&ccedil;&atilde;o ainda devem ser consideradas quest&otilde;es    fundamentais do humanismo, outras dimens&otilde;es do biopoder podem ser consideradas.</font></p>     <p><font size="3"> Retorno &agrave;s considera&ccedil;&otilde;es sobre as tecnologias    da vida que abriram este texto. Na verdade, as biotecnologias de base molecular    v&ecirc;m tornando uma delimita&ccedil;&atilde;o clara entre o vivo e o morto    problem&aacute;tica. Tomemos a nanobiotecnologia como ilustra&ccedil;&atilde;o.    No n&iacute;vel de apreens&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria    em que ela atua j&aacute; n&atilde;o podemos afirmar que h&aacute; uma separa&ccedil;&atilde;o    clara entre o org&acirc;nico e o inorg&acirc;nico, entre o animado e o inanimado.    Da&iacute; hoje se comece a pesquisar a possibilidade de sintetizar a vida,    por interm&eacute;dio da nanobiotecnologia. Craig Venter, por exemplo, o Fausto    da gen&ocirc;mica, vem investindo na produ&ccedil;&atilde;o de formas sint&eacute;ticas    de vida. C&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias congeladas nos laborat&oacute;rios    de fertiliza&ccedil;&atilde;o humana devem ser consideradas vivas? Caso as consideremos    ao menos como vida potencial, devemos consider&aacute;-las como humanas? Se    o segundo desses exemplos pode ser pensado dentro dos limites daquilo que Agamben    julga como sendo a ess&ecirc;ncia biopol&iacute;tica do humanismo, n&atilde;o    &eacute; pois fortuito que as pesquisas com c&eacute;lulas-tronco sejam objeto    de legisla&ccedil;&atilde;o dos Estados, o enquadramento do primeiro exemplo    nesse espa&ccedil;o n&atilde;o &eacute; t&atilde;o simples. O momento de decis&atilde;o    &eacute; aqui corro&iacute;do junto com o estabelecimento de uma continuidade    entre o animado e o inanimado. N&atilde;o sei em que medida o humanismo &eacute;    ainda capaz de pensar essa dimens&atilde;o do pol&iacute;tico que faz proliferar    n&atilde;o o momento de ruptura, mas a met&aacute;stase da mat&eacute;ria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Jonatas Ferreira</b> &eacute; professor adjunto do Programa    de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia da UFPE e pesquisador financiado    pelo CNPq. </i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Ferreira, J. "A produ&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria    biotecnol&oacute;gica e suas conseq&uuml;&ecirc;ncias culturais". <i>Revista    Brasileira de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>. 18, 53: 97-109. 2003.    <!-- ref --> Ferreira, J.    e Amaral, A. <i>Mem&oacute;ria eletr&ocirc;nica e desterritorializa&ccedil;&atilde;o.    Pol&iacute;tica e</i> Sociedade. 1, 4: 137:166. 2004. </font><!-- ref --><p><font size="3"> 2. Fukuyama, F. <i>Nosso futuro p&oacute;s-humano. Conseq&uuml;&ecirc;ncias    da revolu&ccedil;&atilde;o da biotecnologia</i>. Rio de Janeiro, Rocco. 2003.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 3. Wiener, N. <i>Cibernetics or control and comunication in    the animal and the machine</i>. Cambridge, Massachussets, MIT Press. 1971.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 4. Habermas, J. <i>O futuro da natureza humana</i>. S&atilde;o    Paulo, Graal. 2004</font><!-- ref --><p><font size="3"> 5. Baudrillard, J. <i>A ilus&atilde;o vital</i>. Rio de Janeiro,    Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira. p71. 2001.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 6. Arendt, H. <i>A condi&ccedil;&atilde;o humana</i>. Rio de    Janeiro, Forense-Universit&aacute;ria. 2000.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 7. Heidegger, M. – <i>Cartas sobre o humanismo</i>. Lisboa,    Guimar&atilde;es Editores. p41. 1987.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 8. Foucault, M. <i>Hist&oacute;ria da sexualidade</i>, Vol.    1. S&atilde;o Paulo, Graal. 2003.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 9. Rosa, P. e Ferreira, J. "Biossociabilidade e biopol&iacute;tica:    reconfigura&ccedil;&otilde;es e controv&eacute;rsias em torno dos h&iacute;bridos    nanotecnol&oacute;gicos". SBS – XIII Congresso Brasileiro de Sociologia,    UFPE, Recife (PE).</font><!-- ref --><p><font size="3"> 10. Heidegger, M. <i>Being and time</i>. Oxford e Cambridge,    Blackwell. p75. 1993. </font><!-- ref --><p><font size="3"> 11. <i>Kant, E. Critique of judgment</i>. Hackett, Indiana.    1987.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 12. Schmitt, C. <i>Political theology</i>. Massachussets, MIT    Press. p.36. 1988.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 13. Agamben, G. <i>Homo Sacer. Le pouvoir souverain et la vie    nue</i>. Vol. 1. Paris, Seuil. 1997.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 14. Agamben, G. <i>The open. Man and animal</i>. Stanford,    Stanford University Press. p69. 2004. </font><!-- ref --><p><font size="3"> 15. Agamben, G. <i>Estado de exce&ccedil;&atilde;o</i>. Rio    de Janeiro, Boitempo. 2004. </font> ]]></body><back>
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