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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n1/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>DROGAS DO ESQUECIMENTO E IMPLANTES CEREBRAIS: A INFORMATIZA&Ccedil;&Atilde;O    DA MEM&Oacute;RIA</b></font></p>     <p><font size="3"> <b>Paula Sibilia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>"E</b></font><font size="3">xperi&ecirc;ncias em laborat&oacute;rio    conseguiram apagar m&aacute;s lembran&ccedil;as". "Drogas que alteram    a mem&oacute;ria podem reescrever seu passado". "Chip cerebral:    um implante otimiza o funcionamento da mem&oacute;ria". "Revelada    a base bioqu&iacute;mica da droga do esquecimento". Manchetes desse tipo    v&ecirc;m sendo apregoadas nos &uacute;ltimos meses, comentando estudos publicados    em revistas prestigiosas do &acirc;mbito cient&iacute;fico. O tema desperta    grande interesse no p&uacute;blico global, n&atilde;o apenas devido &agrave;s    possibilidades inauditas que tais desenvolvimentos prometem, mas tamb&eacute;m    porque evocam assuntos j&aacute; tratados na fic&ccedil;&atilde;o-cient&iacute;fica.    Administrar a mem&oacute;ria humana como se fosse o disco r&iacute;gido de um    computador: eis o fabuloso sonho que tais an&uacute;ncios estimulam, semeando    tanto fasc&iacute;nio como espanto – at&eacute; pouco tempo atr&aacute;s,    uma tal ambi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o teria ultrapassado a mera especula&ccedil;&atilde;o    filos&oacute;fica ou art&iacute;stica.</font></p>     <p><font size="3"> Mas j&aacute; n&atilde;o se trata de um del&iacute;rio de alquimistas    desvairados: diversas equipes cient&iacute;ficas est&atilde;o pesquisando seriamente,    em laborat&oacute;rios universit&aacute;rios e corporativos espalhados pelo    planeta. Todos eles, ali&aacute;s, travam uma disputa t&aacute;cita entre si    e uma corrida contra o tempo, a fim de patentearem tamanha panac&eacute;ia.    At&eacute; os cr&iacute;ticos mais ac&eacute;rrimos desses projetos n&atilde;o    duvidam que "drogas do esquecimento" e "implantes de mem&oacute;ria"    logo estar&atilde;o dispon&iacute;veis no mercado. Daqui a cinco ou dez anos,    prognosticam os cientistas, inclusive aqueles que prefeririam convocar um amplo    debate &eacute;tico pr&eacute;vio aos lan&ccedil;amentos comerciais. "N&atilde;o    h&aacute; d&uacute;vida que a tecnologia para apagar lembran&ccedil;as logo    existir&aacute;", admite Eric Kandel, que obteve o pr&ecirc;mio Nobel    por suas pesquisas sobre a mem&oacute;ria realizadas na Universidade de Columbia.    Contudo, sua posi&ccedil;&atilde;o &eacute; cr&iacute;tica: "acredito    que essas drogas ir&atilde;o nos converter em piores pessoas", disse em    2006, porque inibir&atilde;o as reflex&otilde;es sobre as conseq&uuml;&ecirc;ncias    de nossas a&ccedil;&otilde;es, esfaceladas no nevoeiro do esquecimento(1). J&aacute;    o neurologista Mart&iacute;n Cammarota, envolvido em um desses projetos, alude    &agrave; "possibilidade certa que teremos no futuro – acho que em    20 ou 25 anos – de modificar seletivamente as nossas lembran&ccedil;as".    O pesquisador prev&ecirc; um sucesso garantido: "se existir um jeito de    apagar mem&oacute;rias particulares, a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica n&atilde;o    deixaria de faturar em cima; venderia mais do que Prozac e Viagra juntos"(2).</font></p>     <p><font size="3"> A mem&oacute;ria e o esquecimento s&atilde;o assuntos bastante    debatidos neste in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, tanto nas artes como nos    discursos cient&iacute;ficos, das humanidades &agrave;s ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas.    Preocupam especialmente suas "falhas": os desvios e anomalias no    ato de lembrar, pois &eacute; assim que costuma ser compreendido cientificamente    o esquecimento. Busca-se descobrir t&eacute;cnicas para administrar a mem&oacute;ria    e otimizar suas capacidades. Assim, por exemplo, o jornal <i>New Scientist</i>    reportou que estariam prestes a serem criadas uma s&eacute;rie de drogas "capazes    de apagar m&aacute;s lembran&ccedil;as", com base em pesquisas realizadas    nos &uacute;ltimos anos que teriam demonstrado a "fluidez" da mem&oacute;ria:    nossas recorda&ccedil;&otilde;es seriam pl&aacute;sticas e, portanto, potencialmente    mold&aacute;veis – ou seja, tecnicamente manipul&aacute;veis. </font></p>     <p><font size="3"> O psiquiatra Roger Pitman e sua equipe da Universidade de Harvard    descobriram que o c&eacute;rebro lida de maneira diferente com as lembran&ccedil;as    dos eventos traum&aacute;ticos ou carregados de emo&ccedil;&otilde;es, utilizando    mecanismos e recursos distintos daqueles ativados nas recorda&ccedil;&otilde;es    comuns. Essas lembran&ccedil;as mais fortes "podem se tornar flex&iacute;veis    se forem recuperadas sob condi&ccedil;&otilde;es emotivas"; portanto,    uma vez descobertos esses mecanismos cerebrais diferenciados, seria poss&iacute;vel    utilizar drogas capazes de "bloquear ou apagar" tais lembran&ccedil;as    no n&iacute;vel molecular. Pois bem, tal droga j&aacute; existe: denomina-se    <i>propranolol</i> e &eacute; um betabloqueante que inibe os efeitos biol&oacute;gicos    na forma&ccedil;&atilde;o dessas "lembran&ccedil;as fortes". Segundo    Pitman, trata-se de "uma das descobertas mais excitantes da hist&oacute;ria    da psicologia", embora certas pol&ecirc;micas tamb&eacute;m se ascendam,    pois se essa droga for realmente eficaz seria poss&iacute;vel "retocar    e ajustar nossas lembran&ccedil;as, removendo vest&iacute;gios de culpa, vergonha    ou pena"(3).</font></p>     <p><font size="3"> Diante desse complexo dilema, h&aacute; quem defenda que "os    indiv&iacute;duos deveriam ter o direito de administrar suas pr&oacute;prias    lembran&ccedil;as", citando acidentes ou estupros, ou mesmo a participa&ccedil;&atilde;o    em guerras ou no holocausto. Viv&ecirc;ncias cujos tra&ccedil;os seria prefer&iacute;vel    "extirpar da mem&oacute;ria" ou, pelo menos, torn&aacute;-los mais    leves e toler&aacute;veis diminuindo o valor de sua "carga emocional".    No entanto, essa droga tamb&eacute;m poderia ser usada para "apagar"    lembran&ccedil;as n&atilde;o desejadas, embora tampouco consideradas patol&oacute;gicas;    tais como epis&oacute;dios humilhantes ou desagrad&aacute;veis da pr&oacute;pria    hist&oacute;ria vital, por&eacute;m tidos como normais. Essa hip&oacute;tese    foi dramatizada no filme <i>Brilho eterno de uma mente sem lembran&ccedil;as</i>,    no qual os personagens contratam os servi&ccedil;os de uma empresa especializada    em realizar esse tipo de opera&ccedil;&otilde;es de apagamento de lembran&ccedil;as    a fim de aliviar o sofrimento de seus clientes, causado por amores frustrados    e outras desgra&ccedil;as mais ou menos cotidianas. Passando da fic&ccedil;&atilde;o    para a realidade, segundo o cientista respons&aacute;vel pelas pesquisas recentemente    divulgadas, qualquer lembran&ccedil;a emocionalmente forte, "desde ganhar    na loteria at&eacute; a morte de um ente querido" poder&aacute; ser apaziguada    atrav&eacute;s do mesmo processo – e logo mais, caberia deduzir, tamb&eacute;m    pelo mesmo pre&ccedil;o. "As lembran&ccedil;as emotivas est&atilde;o excessivamente    fixadas", explica Pitman, "e o <i>propranolol</i> &eacute; capaz    de reduzi-las para que atinjam o n&iacute;vel de uma lembran&ccedil;a ordin&aacute;ria,    n&atilde;o carregada emocionalmente".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Assim, aqueles que sofrem de estresse p&oacute;s-traum&aacute;tico,    por exemplo, deveriam ingerir a nova droga quando relembram do epis&oacute;dio    problem&aacute;tico (quando vivenciam um <i>flashback</i>), pois esse seria    o momento em que tais recorda&ccedil;&otilde;es se tornam manipul&aacute;veis.    O que ocorreria, por&eacute;m, se nesse instante o sujeito sob tratamento lembrasse    de um outro evento que n&atilde;o deseja "apagar", mas tamb&eacute;m    aparece "carregado emocionalmente"? Pitman admite que o risco existe:    essa reminisc&ecirc;ncia poderia "se esvaecer entre as demais lembran&ccedil;as    ordin&aacute;rias". E o que aconteceria se fosse poss&iacute;vel apagar    a lembran&ccedil;a de um crime, de modo que seu autor esquecesse de t&ecirc;-lo    cometido? Cabe perguntar, ainda, se ser&aacute; poss&iacute;vel eliminar recorda&ccedil;&otilde;es    alheias, e toda uma s&eacute;rie de quest&otilde;es igualmente complicadas.    </font></p>     <p><font size="3"> Um grupo de pesquisadores sediados no Brasil tamb&eacute;m    apresentou suas descobertas rumo &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de um medicamento    capaz de "apagar lembran&ccedil;as seletivamente". Liderados por    Iv&aacute;n Izquierdo, do Centro de Mem&oacute;ria da PUC-RS, a equipe descobriu    que uma recorda&ccedil;&atilde;o s&oacute; persiste no tempo se algumas horas    depois de ter se configurado, o c&eacute;rebro sintetizar uma prote&iacute;na    que interveio em sua forma&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a a&ccedil;&atilde;o desta    prote&iacute;na, denominada BDNF, no momento desse <i>flashback</i> tendente    a consolidar a lembran&ccedil;a, que poderia ser controlada quimicamente para    que a recorda&ccedil;&atilde;o se torne esquec&iacute;vel. Tamb&eacute;m nesse    caso, o alvo que justifica as pesquisas e os desenvolvimentos farmacol&oacute;gicos    &eacute; a cura do TEPT, ou transtorno do estresse p&oacute;s-traum&aacute;tico.    Mas a droga permitiria alterar qualquer tipo de lembran&ccedil;a, seja considerada    patol&oacute;gica ou n&atilde;o, tanto visando a "apag&aacute;-la"    como a "fix&aacute;-la". </font></p>     <p><font size="3"> Embora esse produto ainda n&atilde;o esteja dispon&iacute;vel    comercialmente, o filme <i>Brilho eterno…</i> mostra que existe uma "demanda    reprimida" para uma tal solu&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica. E n&atilde;o    se trata do &uacute;nico filme recente a tocar no assunto: enquanto o mal de    Alzheimer se espalha como um dos fantasmas mais tem&iacute;veis que assombram    o final de nossas vidas cada vez mais longas – embora ainda sujeitas &agrave;    mec&acirc;nica fatal do envelhecimento e da morte – abundam filmes como    <i>Amn&eacute;sia</i>, <i>Os esquecidos</i>, <i>Total recall</i>, <i>O homem    sem passado</i>, <i>Spider</i> ou <i>Iris</i>, que tamb&eacute;m tematizam a    perda da mem&oacute;ria. Junto com esse apavorante esquecimento, quase sempre    se esfacela a "identidade" do sujeito: perde-se aquilo que se &eacute;.    Como diz o cientista Mart&iacute;n Cammarota, integrante do mencionado Centro    de Mem&oacute;ria da PUC-RS, "n&oacute;s somos o que lembramos que somos";    portanto, se a droga que a sua equipe est&aacute; desenvolvendo de fato funcionar,    poder&iacute;amos deixar mesmo de ser aquilo que supostamente t&iacute;nhamos    sido mas j&aacute; n&atilde;o lembramos (4). </font></p>     <p><font size="3"> Contudo, se antes dissemos que <i>quase</i> sempre a perda    da mem&oacute;ria tematizada no cinema implica uma dissolu&ccedil;&atilde;o    do sujeito nas trevas do nada, &eacute; porque h&aacute; exce&ccedil;&otilde;es,    e estas s&atilde;o muito significativas. Talvez exprimam um desejo de evitar    esse desconforto de "perder-se" junto com a pr&oacute;pria mem&oacute;ria    – t&atilde;o et&eacute;rea, t&atilde;o fr&aacute;gil, t&atilde;o amea&ccedil;ada    na vertigem contempor&acirc;nea. Essa exce&ccedil;&atilde;o &eacute; constitu&iacute;da    pelos filmes de fic&ccedil;&atilde;o-cient&iacute;fica. Ou melhor, por todos    aqueles nos quais interv&ecirc;m m&aacute;quinas inform&aacute;ticas: computadores    e outros dispositivos do g&ecirc;nero – &eacute; o caso de <i>Brilho eterno</i>,    mas tamb&eacute;m de <i>Johnny Mnemonic</i>, <i>O vingador do futuro</i>, <i>Estranhos    prazeres</i>, <i>O pagamento</i>, <i>Matrix</i> e <i>Minority report</i>. Os    aparelhos digitais poder&atilde;o nos salvar, ao que parece, dessa perda fatal.    E talvez a tecnologia consiga ainda mais: dotar-nos de novas mem&oacute;rias,    belas lembran&ccedil;as customizadas e encomendadas &agrave; medida para cada    um de n&oacute;s, e inclusive aplacar aquelas recorda&ccedil;&otilde;es indesej&aacute;veis    que teimosamente guardamos por a&iacute;. </font></p>     <p><font size="3"> Mas esses sonhos n&atilde;o afloram apenas no cinema: as met&aacute;foras    computacionais para aludir ao funcionamento da mem&oacute;ria brotam por toda    parte, tanto nas pesquisas neurocient&iacute;ficas como nas conversas cotidianas.    Quando Cammarota explica o ato de lembrar, por exemplo, v&aacute;rias imagens    desse tipo ornam seu relato. No momento em que uma lembran&ccedil;a antiga vem    &agrave; tona para assistir na compreens&atilde;o do presente, diz o cientista    que "o c&eacute;rebro a reabre para modific&aacute;-la e depois guard&aacute;-la    de novo". &Eacute; justamente nesse mecanismo t&atilde;o equipar&aacute;vel    ao gesto cotidiano com que abrimos e fechamos arquivos em nossos computadores,    que uma eventual "droga do esquecimento" poderia fazer efeito, pois    esse processo requer a produ&ccedil;&atilde;o de uma s&eacute;rie de prote&iacute;nas    cuja composi&ccedil;&atilde;o poderia ser alterada artificialmente (5). J&aacute;    o psic&oacute;logo Alain Brunet, da Universidade McGill, diz que nesse momento    em que a lembran&ccedil;a &eacute; reorganizada e arquivada novamente, ela se    torna vulner&aacute;vel a altera&ccedil;&otilde;es: "durante esse processo,    algum tipo de interfer&ecirc;ncia ocorre, e a lembran&ccedil;a se degrada"    (6). Cammarota ainda acrescenta que a prolongada "falta de uso"    de uma recorda&ccedil;&atilde;o aumenta suas chances de ser esquecida –    talvez em algum velho disquete mofado, poder&iacute;amos adicionar, que se tornou    obsoleto na troca do <i>drive</i>.</font></p>     <p><font size="3"> Met&aacute;foras bem mais audazes pontilham os discursos de    cientistas como Hans Moravec, Marvin Minsky, Kevin Warwick y Ray Kurzweil, que    defendem abertamente a <i>compatibilidade</i> entre a mente humana e os aparelhos    inform&aacute;ticos, na procura de m&eacute;todos para "turbinar"    nossa cogni&ccedil;&atilde;o. As pesquisas desenvolvidas sob a dire&ccedil;&atilde;o    de Hans Moravec, por exemplo, visam a descobrir um m&eacute;todo eficaz para    "fazer <i>download</i>" das informa&ccedil;&otilde;es supostamente    contidas dentro do c&eacute;rebro humano, a fim de transferir as mem&oacute;rias    para um suporte inform&aacute;tico. "Dentro de quarenta anos, todos os    tra&ccedil;os da vida mental de uma dada pessoa poder&atilde;o ser inteiramente    simulados por programas de computador", comenta o soci&oacute;logo portugu&ecirc;s    Herm&iacute;nio Martins em seus ensaios de filosofia da t&eacute;cnica, aludindo    a projetos como o de Moravec, "conseq&uuml;entemente, se poderia continuar    a existir como uma mente sem o c&eacute;rebro que antes suportava a vida mental"    (7). Sob essa perspectiva, nossa ess&ecirc;ncia seria constitu&iacute;da por    esse "software cerebral" que cont&eacute;m tamb&eacute;m as nossas    lembran&ccedil;as, e que seria t&atilde;o <i>edit&aacute;vel</i>, reproduz&iacute;vel    e transfer&iacute;vel como a informa&ccedil;&atilde;o administrada pelos computadores.</font></p>     <p><font size="3"> Os filmes antes mencionados recriam essa t&atilde;o sonhada    <i>compatibilidade</i> entre os dispositivos inform&aacute;ticos e os circuitos    mentais, ambos partilhando a mesma l&oacute;gica digital. Em muitas dessas fic&ccedil;&otilde;es,    as lembran&ccedil;as transitam como fluxos de dados entre os c&eacute;rebros    dos personagens e as m&aacute;quinas. Os roteiros costumam recorrer a capacetes    conectados a computadores, equipados com programas capazes de escanear o conte&uacute;do    do c&eacute;rebro, de modo semelhante a como fazem as tomografias por emiss&atilde;o    de positrones (PET) e os aparelhos de resson&acirc;ncia magn&eacute;tica (MRI),    utilizados nas pesquisas dos neurocientistas e nos consult&oacute;rios m&eacute;dicos.    Gra&ccedil;as &agrave; conex&atilde;o com esses dispositivos, pode-se n&atilde;o    apenas decifrar a informa&ccedil;&atilde;o inscrita no c&eacute;rebro humano,    mas tamb&eacute;m edit&aacute;-la, apagando e inserindo novos dados. </font></p>     <p><font size="3"> Para al&eacute;m de sua veracidade ou viabilidade, tanto essas    fic&ccedil;&otilde;es como essas realidades parecem sucumbir &agrave; sedu&ccedil;&atilde;o    de uma mem&oacute;ria totalmente sob controle, que possa ser programada e otimizada.    Isso s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel se a mem&oacute;ria for informatizada,    permitindo a digitaliza&ccedil;&atilde;o dos "conte&uacute;dos mentais"    e o processamento desses dados com a ajuda de computadores, e ultrapassando    assim as "limita&ccedil;&otilde;es" do organismo humano. &Agrave;    luz desses sonhos tecnocient&iacute;ficos, adquire novos matizes o "esquecimento    feliz" proposto por Nietzsche para combater a hipertrofia da mem&oacute;ria    e a febre historicista que vigoravam nos remotos finais do s&eacute;culo XIX    (8). Nesse contexto, o homem n&atilde;o era capaz de "aprender o esquecimento":    por se fixar sempre ao passado, "por mais r&aacute;pido que ele corra,    a corrente a que est&aacute; agrilhoado sempre o acompanhar&aacute;" (9).    Hoje em dia, por&eacute;m, esses grilh&otilde;es que nos prendem ao passado    individual (para n&atilde;o mencionar o coletivo), talvez estejam se afrouxando    – com a ajuda das solu&ccedil;&otilde;es prometidas pela tecnoci&ecirc;ncia.    Ser&aacute; que nos libertaremos do fardo da lembran&ccedil;a e aprenderemos,    enfim, o esquecimento feliz?</font></p>     <p><font size="3"> Tanto nos filmes como nas pesquisas neurocient&iacute;ficas    aqui citadas, alude-se a uma mem&oacute;ria gravada no c&eacute;rebro humano    cujos "conte&uacute;dos" podem ser recortados, editados, <i>deletados</i>,    copiados e retocados digitalmente. Nada mais distante das vis&otilde;es de pensadores    do s&eacute;culo XIX, como Bergson e Nietzsche, que apresentam outras maneiras    de <i>digerir</i> a mem&oacute;ria do tempo vivido e criar o presente. Sob a    perspectiva de Henri Bergson, a fun&ccedil;&atilde;o do c&eacute;rebro n&atilde;o    consiste em "arquivar lembran&ccedil;as" mas em "suspender    a mem&oacute;ria", uma suspens&atilde;o interessada que &eacute; uma forma    do esquecimento necess&aacute;rio &agrave; vida e &agrave; a&ccedil;&atilde;o    (10). Mas suspender n&atilde;o equivale a <i>deletar</i>, de modo algum, pois    tudo permanece na virtualidade do esp&iacute;rito e tudo pode, sempre, retornar.    Eis uma maneira de "processar" as pr&oacute;prias viv&ecirc;ncias,    bem diferente do modo com que os nossos computadores e a internet processam    informa&ccedil;&otilde;es, uma modalidade mais pr&oacute;xima dos metabolismos    org&acirc;nicos ao gosto nietszchiano. Essa suspens&atilde;o bergsoniana teria    o objetivo de filtrar as pr&oacute;prias percep&ccedil;&otilde;es e lembran&ccedil;as,    a fim de nos proteger do afluxo avassalador que paralisava Funes, por exemplo,    aquele memorioso personagem do conto de Borges que n&atilde;o conseguia esquecer    de nada. Assim compreendido, "o c&eacute;rebro n&atilde;o serve para guardar    ou ‘arquivar’ lembran&ccedil;as mas, ao contr&aacute;rio, para suspend&ecirc;-las,    para evitar que nos a&ccedil;odem, impedindo-nos de agir no mundo" (11).</font></p>     <p><font size="3"> As propostas atuais de otimizar tecnicamente uma mem&oacute;ria    informatizada contrastam com esses olhares filos&oacute;ficos, segundo os quais    seria t&atilde;o imposs&iacute;vel como indesej&aacute;vel desenvolver uma mem&oacute;ria    <i>edit&aacute;vel</i> do puro instante, ou mesmo uma mem&oacute;ria total capaz    de fundir dura&ccedil;&atilde;o e instante. "Duas ou tr&ecirc;s vezes    tinha reconstru&iacute;do um dia inteiro", relata Borges a respeito de    Irineo Funes, "nunca duvidara, mas cada reconstru&ccedil;&atilde;o lhe    demandara um dia inteiro" (12). Pois apesar de sua prodigiosa mem&oacute;ria    e sua aguda percep&ccedil;&atilde;o, esse personagem era incapaz de pensar:    no abarrotado mundo de Funes "n&atilde;o havia sen&atilde;o detalhes quase    imediatos", enfileirados um ap&oacute;s o outro e todos igualmente importantes.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Para poder pensar, agir e viver, &eacute; preciso "exercer    a mais alta atividade do esp&iacute;rito", nietzchianamente falando: esquecer.    Ou, mais bergsonianamente: suspender. Ou, como diria Borges: esquecer diferen&ccedil;as,    generalizar, abstrair. Mas a defini&ccedil;&atilde;o desse esquecimento que    esses autores sugerem &eacute; bem mais complexa do que o simples "apagamento    de lembran&ccedil;as" procurado pela nossa tecnoci&ecirc;ncia digitalizante.    Neste caso, esquecer significa ruminar e digerir; filtrar, escolher, selecionar,    decidir e suspender; enfim, agir e criar. Nada mais distante de apagar, editar    ou copiar, eliminando algumas cenas e retocando outras com a ajuda de programas    como o <i>PhotoShop</i> ou a tecla <i>Delete</i>.</font></p>     <p><font size="3"> Entretanto, se essa mem&oacute;ria inform&aacute;tica triunfa    hoje em dia e se torna alvo de tantas pesquisas, &eacute; porque ela &eacute;    politicamente &uacute;til no projeto de sociedade em que estamos imersos. Essa    mem&oacute;ria n&atilde;o &eacute; apenas <i>compat&iacute;vel</i> com nossas    m&aacute;quinas, ela tamb&eacute;m &eacute; <i>compat&iacute;vel</i> com nosso    mundo. Assim como os seq&uuml;enciadores de DNA s&atilde;o capazes de ler a    informa&ccedil;&atilde;o que codifica os genomas dos seres vivos, os PET-Scan    e os aparelhos de resson&acirc;ncia magn&eacute;tica tamb&eacute;m l&ecirc;em    o conte&uacute;do de nossos c&eacute;rebros. As novas "ci&ecirc;ncias    da vida" criaram e demandam essa <i>compatibilidade</i> entre nossos corpos    e tais aparelhos. As m&aacute;quinas que se conectam a nossos organismos s&atilde;o    capazes de decifrar a informa&ccedil;&atilde;o neles inscrita, dados que definem    a "identidade" de cada sujeito: nossa ess&ecirc;ncia individual,    aquilo que nos faz ser o que somos.</font></p>     <p><font size="3"> Por isso, essa informa&ccedil;&atilde;o revelada nos <i>pixels</i>    das imagens do c&eacute;rebro ou no c&oacute;digo gen&eacute;tico &eacute; compar&aacute;vel    com a velha alma, ou com a mente e o psiquismo. Mas &eacute; manipul&aacute;vel    por meio de t&eacute;cnicas bem diferentes das que serviam para interpelar aquelas    entidades mais antigas – tais como a psican&aacute;lise, a introspec&ccedil;&atilde;o,    as artes ou o cat&aacute;logo completo das ci&ecirc;ncias humanas e sociais.    Os dispositivos que servem para acessar e decifrar a nova informa&ccedil;&atilde;o    vital s&atilde;o variados, por&eacute;m todos respondem ao horizonte digital    e eletr&ocirc;nico que orienta esses novos saberes, irmanados por uma vontade    de <i>digitaliza&ccedil;&atilde;o</i> da vida: de tudo transformar em informa&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <p><font size="3"> E as novas t&eacute;cnicas s&atilde;o – ou almejam ser    – bem mais eficazes que aqueles m&eacute;todos <i>anal&oacute;gicos</i>    que procuraram interpretar a mente e esculpir a alma ao longo da era industrial.    Pois aquela velha subst&acirc;ncia imaterial, a alma, que de algum modo era    <i>compat&iacute;vel</i> com os antigos saberes e dispositivos anal&oacute;gicos,    n&atilde;o era apenas r&iacute;gida, opaca e resistente &agrave; penetra&ccedil;&atilde;o    t&eacute;cnica, mas al&eacute;m disso era misteriosa por defini&ccedil;&atilde;o:    escondia teimosamente seus segredos, que jamais se revelariam por inteiro. J&aacute;    a informa&ccedil;&atilde;o inscrita em nossas c&eacute;lulas &eacute; bem mais    acess&iacute;vel: seus enigmas est&atilde;o sendo decifrados. E, por serem compat&iacute;veis    com nossos artefatos digitais, o grande sonho da tecnoci&ecirc;ncia &eacute;    que todos esses c&oacute;digos e sinais logo ser&atilde;o transparentes: totalmente    decifr&aacute;veis e, portanto, male&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="3"> Mas, por que tamanha vontade de controlar a pr&oacute;pria    mem&oacute;ria? &Eacute; sob o custo de simplificar demais a complexidade da    condi&ccedil;&atilde;o humana que se torna poss&iacute;vel manipul&aacute;-la    tecnicamente, reduzindo a mem&oacute;ria &agrave;s suas bases neurais e tratando-a    como um mero dispositivo gerenciador de informa&ccedil;&otilde;es. Nesse projeto    puramente t&eacute;cnico, busca-se a efic&aacute;cia – e, n&atilde;o raro,    ela costuma ser encontrada. Mas, por que desejamos editar nossas lembran&ccedil;as,    apagando algumas e implantando outras? Para sermos felizes. Eis a resposta:    para melhorar nossa "qualidade de vida". Essa promessa &eacute;    sublinhada no filme <i>Brilho eterno…</i>, onde basta confessar a pr&oacute;pria    infelicidade para merecer a opera&ccedil;&atilde;o que <i>deleta</i> as lembran&ccedil;as    indesejadas. O servi&ccedil;o vendido pela empresa Lacuna &eacute; justamente    esse: solu&ccedil;&otilde;es para a "infelicidade" mais trivial    que possa afetar o prezado cliente. Em um plano menos fict&iacute;cio, uma pesquisa    recente conseguiu que um grupo de volunt&aacute;rios "suprimisse com sucesso    uma lembran&ccedil;a". No entanto, o pr&oacute;prio neurocientista que    liderou a experi&ecirc;ncia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, John    Gabrieli, admitiu que os resultados ainda s&atilde;o modestos, por&eacute;m    a descoberta seria leg&iacute;tima se conseguisse "tornar um paciente    20% mais feliz" (13).</font></p>     <p><font size="3"> Esse consenso e essa insist&ecirc;ncia em torno desse ideal    de felicidade podem evocar, com perturbadora exatid&atilde;o, o amb&iacute;guo    bem-estar que imperava no romance <i>Admir&aacute;vel mundo novo</i>, de Aldous    Huxley, c&eacute;lebre retrato de uma sociedade geneticamente administrada.    Com os processos biol&oacute;gicos sob controle e sem imprevistos de nenhum    tipo, nesse "mundo feliz" todas as ang&uacute;stias, tristezas e    d&uacute;vidas podiam ser eliminadas gra&ccedil;as aos eficazes produtos da    ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica. Hoje convertida em objeto de uma disciplina    cient&iacute;fica com fins pr&aacute;ticos, a felicidade tornou-se uma <i>commodity</i>    muito bem cotada: todo o mundo quer e est&aacute; disposto a compr&aacute;-la,    mesmo tendo que recorrer ao credi&aacute;rio. Em 1932, a ep&iacute;grafe do    livro de Huxley profetizava: "As utopias s&atilde;o realiz&aacute;veis.    A vida avan&ccedil;a rumo &agrave;s utopias. Pode ser que um novo s&eacute;culo    comece…" (14). O mencionado Eric Kandel, neurocientista laureado    com o Pr&ecirc;mio Nobel no emblem&aacute;tico ano 2000 por suas pesquisas sobre    a mem&oacute;ria, afirmou que "assim como o s&eacute;culo XX foi da gen&eacute;tica,    o s&eacute;culo XXI ser&aacute; das neuroci&ecirc;ncias" (15). Ao que    parece, o mais novo <i>admir&aacute;vel mundo novo</i> est&aacute; s&oacute;    come&ccedil;ando.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Paula Sibilia</b> &eacute; professora adjunta do Departamento    de Estudos Culturais e M&iacute;dia, do Instituto de Artes e Comunica&ccedil;&atilde;o    Social da Universidade Federal Fluminense (IACS-UFF). &Eacute; autora do livro</i>    O Homem p&oacute;s-org&acirc;nico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> <b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Vince, G. "Memory-altering drugs may rewrite your past".    Londres, <i>New Scientist</i>, n. 2528, 03/12/2005.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 2. Garcia, R. "Estudo revela base qu&iacute;mica de ‘droga    do esquecimento’". <i>Folha de S. Paulo</i>, S&atilde;o Paulo, 18/01/2007.    </font><p><font size="3"> 3. Vince, G.; <i>op. cit</i>. </font></p>     <p><font size="3"> 4. Garcia, R.; <i>op. cit</i>.</font></p>     <p><font size="3"> 5. Garcia, R. <i>op.cit</i>.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 6. Singer, E. "Erasing memories", <i>Technology    Review</i>, MIT, 13 Jul 2007.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 7. Martins, H. <i>Hegel, Texas e outros ensaios de teoria social</i>.    Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es S&eacute;culo XXI, 1996; p. 195.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 8. Nietzsche, F. <i>Segunda considera&ccedil;&atilde;o intempestiva:    da utilidade e desvantagem da hist&oacute;ria para a vida</i>. Rio de Janeiro:    Relume Dumar&aacute;, 2003.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 9. Franco Ferraz, M.C. "Mem&oacute;ria, esquecimento    e corpo em Nietzsche". <i>In: Nove varia&ccedil;&otilde;es sobre temas    nietzschianos</i>. Rio de Janeiro: Relume Dumar&aacute;, 2002; p. 59.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 10. Bergson, H. <i>Mat&eacute;ria e mem&oacute;ria: ensaio    sobre a rela&ccedil;&atilde;o do corpo com o esp&iacute;rito</i>. S&atilde;o    Paulo: Martins Fontes, 1999.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 11. Franco Ferraz, M.C. "Tecnologias, mem&oacute;ria    e esquecimento: da modernidade &agrave; contemporaneidade". <i>Comp&oacute;s    2005</i>. UFF, Niter&oacute;i, 2005.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 12. Borges, J.L. "Funes, el memorioso". <i>In:    Obras completas</i>, v. 1. 2.ed. Buenos Aires: Emec&eacute;, 1999. p. 485-490.</font><p><font size="3"> 13. Singer, E.; <i>op. cit</i>.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 14. Huxley, A. <i>Admir&aacute;vel mundo novo</i>. S&atilde;o    Paulo: Globo, 2001.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 15. Ehrenberg, A. "Le sujet cerebral". <i>Esprit</i>,    n. 309, Nov 2004, p. 130-155. </font> ]]></body><back>
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