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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Conhecimento tradicional como patrimônio imaterial: mito e política entre os povos indígenas do rio Negro]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n1/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>CONHECIMENTO TRADICIONAL COMO PATRIM&Ocirc;NIO IMATERIAL:    MITO E POL&Iacute;TICA ENTRE OS POVOS IND&Iacute;GENAS DO RIO NEGRO</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Geraldo Andrello    <br>   Pedro P. Ferreira</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><font size=5><b>U</b></font>ma nova pol&iacute;tica de reconhecimento    dos chamados "bens culturais de car&aacute;ter imaterial" foi institu&iacute;da    pelo governo brasileiro com o Decreto 3551/2000. A partir dessa lei, o Instituto    do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico Nacional (Iphan), &oacute;rg&atilde;o    do Minist&eacute;rio da Cultura, ficou respons&aacute;vel pela implementa&ccedil;&atilde;o    de um sistema de registro e salvaguarda de um novo conjunto de bens culturais.    Se at&eacute; ent&atilde;o, o &oacute;rg&atilde;o cuidava da conserva&ccedil;&atilde;o    do patrim&ocirc;nio edificado, era agora o caso de passar a se haver com as    categorias pelas quais o decreto definiu o patrim&ocirc;nio imaterial: a. celebra&ccedil;&otilde;es;    b. formas de express&atilde;o; c. saberes; e, d. lugares. N&atilde;o se trata,    neste artigo, de avaliar ou fazer um balan&ccedil;o do que at&eacute; aqui se    fez a partir da nova pol&iacute;tica, mas, antes, descrever e comentar a forma    pela qual uma iniciativa nesse &acirc;mbito se desenrolou recentemente entre    grupos ind&iacute;genas do rio Negro. Este caso fornece um exemplo local, por&eacute;m    bastante ilustrativo, dos impasses e poss&iacute;veis implica&ccedil;&otilde;es    pol&iacute;ticas que decorrem da patrimonializa&ccedil;&atilde;o de conhecimentos    tradicionais.</font></P>     <p><font size="3">Inicialmente, &eacute; preciso apontar que o sistema de registro    do patrim&ocirc;nio imaterial brasileiro vem despertando a aten&ccedil;&atilde;o    de outros setores do governo que lidam diretamente com a regulamenta&ccedil;&atilde;o    da Conven&ccedil;&atilde;o da Diversidade Biol&oacute;gica (CDB) no Brasil,    e, em particular, de seu artigo 8J, que trata da prote&ccedil;&atilde;o dos    conhecimentos tradicionais associados &agrave; biodiversidade. No Brasil, esse    assunto vem sendo encaminhado no &acirc;mbito do Conselho de Gest&atilde;o do    Patrim&ocirc;nio Gen&eacute;tico (CGEN), institu&iacute;do por um medida provis&oacute;ria    no &acirc;mbito do Minist&eacute;rio do Meio Ambiente. Nesse sentido, j&aacute;    se est&aacute; cogitando a cria&ccedil;&atilde;o de uma nova categoria de patrim&ocirc;nio    imaterial relacionada aos "sistemas agr&iacute;colas tradicionais",    atrav&eacute;s da qual uma parcela importante dos conhecimentos tradicionais    associados &agrave; biodiversidade – aqueles que promovem agrobiodiversidade    – poderia passar a ser reconhecida oficialmente. Essa medida passa por um entendimento    entre os Minist&eacute;rios da Cultura e do Meio Ambiente, no sentido de avaliar    a possibilidade de se estabelecer um sistema integrado e n&atilde;o fragmentado    de prote&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos tradicionais. Isto &eacute;, um    sistema que fa&ccedil;a jus &agrave;s suas especificidades. Nesse sentido, conv&eacute;m    lembrar que o Brasil, seguindo a tend&ecirc;ncia dominante nas confer&ecirc;ncias    internacionais da CDB, vem defendendo a cria&ccedil;&atilde;o de um sistema    <i>sui generis</i> de prote&ccedil;&atilde;o desses conhecimentos. Ainda que    n&atilde;o se tenha chegado a uma f&oacute;rmula espec&iacute;fica, tal sistema    deveria necessariamente se diferenciar dos sistemas de propriedade intelectual    ou de patentes existentes, pois se trata aqui de direitos intelectuais coletivos,    e n&atilde;o de direitos autorais individuais.</font></P>     <p><font size="3">A presente indefini&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica quanto    ao problema da apropria&ccedil;&atilde;o de conhecimentos tradicionais associados    &agrave; biodiversidade se deve, principalmente, ao fato de que essa apropria&ccedil;&atilde;o    se concretiza a partir da tradu&ccedil;&atilde;o desse conhecimento em uma express&atilde;o    biotecnol&oacute;gica suscet&iacute;vel de ser protegida pelo sistema de propriedade    intelectual, e que atualmente sofre distor&ccedil;&otilde;es s&eacute;rias em    conceitos chave como inova&ccedil;&atilde;o (descoberta e patenteamento de DNA,    por exemplo, que n&atilde;o se trata de inven&ccedil;&atilde;o). O registro    do patrim&ocirc;nio imaterial n&atilde;o impede a apropria&ccedil;&atilde;o    de conhecimentos tradicionais que passem por essa "tradu&ccedil;&atilde;o",    mas poderia vir a servir como meio para comprovar que um determinado uso de    planta ou animal j&aacute; &eacute; conhecido; n&atilde;o sendo novo, n&atilde;o    seria em tese patente&aacute;vel. Mas isso depende essencialmente da forma como    o pedido de patente &eacute; apresentado, de maneira que, mesmo no caso de sistemas    agr&iacute;colas reconhecidos como patrim&ocirc;nio imaterial, nada impede que    um pesquisador colete uma semente e desenvolva novos cultivares a partir de    um tra&ccedil;o gen&eacute;tico de interesse. Tanto o tra&ccedil;o gen&eacute;tico    pode ser patenteado como a cultivar pode ser registrada.</font></P>     <p><font size="3">O recente tratado da Unesco sobre patrim&ocirc;nio imaterial,    por exemplo, cont&eacute;m a mesma "cl&aacute;usula padr&atilde;o"    de outras conven&ccedil;&otilde;es como a CDB: de que os direitos reconhecidos    no tratado n&atilde;o afetam ou limitam direitos de propriedade intelectual    de terceiros. Essa cl&aacute;usula &eacute; ponto-chave em qualquer tratado    que trate do tema, porque &eacute; nela que os pa&iacute;ses desenvolvidos se    ap&oacute;iam para legitimar e defender as patentes ou cultivares obtidas a    partir do acesso a conhecimento ou recurso gen&eacute;tico em outros pa&iacute;ses.    Portanto, para que o sistema de registro de patrim&ocirc;nio imaterial venha    realmente a contribuir para a prote&ccedil;&atilde;o de conhecimentos tradicionais    associados &agrave; biodiversidade, &eacute; preciso que inclua, entre outras    salvaguardas, o reconhecimento de direitos intelectuais aos atores sociais respons&aacute;veis    pela manuten&ccedil;&atilde;o de um bem imaterial reconhecido. Uma vez reconhecido    esse direito, seria preciso ainda definir um tipo de licen&ccedil;a de acesso    (<i>Creative Commons, copy-left</i>) que regulasse tanto o acesso ao conhecimento    como tamb&eacute;m ao material gen&eacute;tico correspondente (sementes e outros).    Reconhecidas essas duas premissas, seria juridicamente poss&iacute;vel controlar    o uso desse material, autorizando determinados usos e coibindo outros. Tal licen&ccedil;a    poderia, por exemplo, permitir que as sementes circulem livremente, desde que    n&atilde;o sejam usadas para fins comerciais ou para desenvolvimento de novas    variedades pass&iacute;veis de prote&ccedil;&atilde;o intelectual.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Essa alternativa jur&iacute;dica est&aacute; come&ccedil;ando    a ser aventada, devendo ainda ser objeto de prolongadas reflex&otilde;es – poderiam    as licen&ccedil;as CC contemplar direitos intelectuais coletivos? Mas, para    al&eacute;m da quest&atilde;o jur&iacute;dica, resta uma outra, talvez mais    intricada: como definir a coletividade que &eacute; o sujeito desse direito?    O caso que relatamos abaixo &eacute; um exemplo da complexidade dessa quest&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3"><b>PATRIM&Ocirc;NIO IMATERIAL</b> Em maio de 2004, a Federa&ccedil;&atilde;o    das Organiza&ccedil;&otilde;es Ind&iacute;genas do Rio Negro (FOIRN), em atendimento    a uma solicita&ccedil;&atilde;o do Iphan, abriu as portas da grande maloca existente    em sua sede na cidade de S&atilde;o Gabriel da Cachoeira (AM) para a realiza&ccedil;&atilde;o    de uma reuni&atilde;o destinada a iniciar uma discuss&atilde;o sobre patrim&ocirc;nio    cultural com os grupos ind&iacute;genas do rio Negro. O pano de fundo da reuni&atilde;o    dizia respeito &agrave; nova pol&iacute;tica de registro dos chamados "bens    culturais de car&aacute;ter imaterial", instaurada pelo Iphan ap&oacute;s    a promulga&ccedil;&atilde;o do Decreto 3551/2000.</font></P>     <p><font size="3">O alto rio Negro foi escolhido como local da reuni&atilde;o    por v&aacute;rios motivos, dentre eles, a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia da    FOIRN, talvez a organiza&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena de maior destaque    na Amaz&ocirc;nia, e de sua parceria consolidada h&aacute; mais de dez anos    com o Instituto Socioambiental (ISA). Al&eacute;m disso, &eacute; uma regi&atilde;o    essencialmente ind&iacute;gena, com uma popula&ccedil;&atilde;o de mais de 30    mil pessoas subdividida em mais de vinte grupos. Trata-se, com efeito, de um    extenso complexo cultural que ultrapassa as fronteiras nacionais. A reuni&atilde;o    contou com a presen&ccedil;a de grupos que v&ecirc;m se dedicando &agrave; implanta&ccedil;&atilde;o    de escolas ind&iacute;genas diferenciadas, como os Tukano e os Tuyuka do rio    Tiqui&eacute; e os Baniwa do alto rio I&ccedil;ana, mas tamb&eacute;m dos Tariano    de Iauaret&ecirc;, que embora n&atilde;o participem de um projeto formal de    educa&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena, v&ecirc;m manifestando vivo interesse    em registrar suas hist&oacute;rias de origem, levantar uma maloca e retomar    antigas pr&aacute;ticas rituais.</font></P>     <p><font size="3">Embora o assunto apresentasse alguns aspectos jur&iacute;dicos    estranhos &agrave; plat&eacute;ia, os grupos presentes demonstraram grande interesse    pelo tema. De modo geral, a sensibilidade &agrave; proposta trazida pelo Iphan    reflete um amplo interesse por parte dos grupos ind&iacute;genas dos rios Uaup&eacute;s    e I&ccedil;ana em registrar a "cultura dos antigos" para as novas    gera&ccedil;&otilde;es, que lhes parecem cada vez mais voltadas para as coisas    da cidade e dos brancos. De fato, algumas experi&ecirc;ncias que a FOIRN vem    apoiando buscam responder a esse dilema, especialmente a publica&ccedil;&atilde;o    da Cole&ccedil;&atilde;o <i>Narradores Ind&iacute;genas do Rio Negro</i> (j&aacute;    com oito volumes publicados de mitologia – Desana, Tariano, Baniwa e Tukano).    Esse material se soma &agrave;s in&uacute;meras cartilhas e livros did&aacute;ticos    e a uma s&eacute;rie de CDs elaborados pelos Tuyuka com seus cantos cerimoniais.    </font></P>     <p><font size="3">Pode-se dizer que essas experi&ecirc;ncias forneceram uma chave    de leitura &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o apresentada por funcion&aacute;rios    do Iphan &agrave; audi&ecirc;ncia ind&iacute;gena ent&atilde;o reunida na maloca    da FOIRN. Houve um grande interesse pelo trabalho proposto pelo Iphan que foi    interpretado como uma iniciativa oficial que vem respaldar e fortalecer as pr&oacute;prias    iniciativas ind&iacute;genas. Como disseram os Tariano: "agora o governo    tamb&eacute;m est&aacute; querendo apoiar o trabalho que j&aacute; estamos fazendo".    Al&eacute;m disso, no quadro legal institu&iacute;do pelo Decreto 3551, lugares    tamb&eacute;m podem ser patrim&ocirc;nio cultural. Ora, para os Tariano, Tukano    e demais grupos do alto rio Negro isso certamente n&atilde;o &eacute; nenhuma    novidade, pois, como tentaram demonstrar nos meses seguintes: "nossa hist&oacute;ria    est&aacute; escrita nas pedras da cachoeira de Iauaret&ecirc;". Por ocasi&atilde;o    da demarca&ccedil;&atilde;o das terras ind&iacute;genas na regi&atilde;o, entre    1997 e 1998, v&aacute;rias lideran&ccedil;as j&aacute; diziam que "nossa    &aacute;rea j&aacute; &eacute; marcada, a demarca&ccedil;&atilde;o &eacute;    mais uma confirma&ccedil;&atilde;o", referindo-se ent&atilde;o &agrave;    vasta gama de significados m&iacute;ticos atribu&iacute;dos &agrave;s pedras    das in&uacute;meras corredeiras dos rios da &aacute;rea, muitas delas apresentando    inscri&ccedil;&otilde;es rupestres. Eram esses "lugares sagrados"    que os &iacute;ndios pretendiam agora registrar como patrim&ocirc;nio cultural    reconhecido pelo governo.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n1/a17img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>CONHECIMENTO TRADICIONAL</b> Os Tariano, embora participem    do sistema de exogamia ling&uuml;&iacute;stica que liga os diferentes povos    do rio Uaup&eacute;s entre si, ocupam a&iacute; uma posi&ccedil;&atilde;o peculiar.    Diferentemente dos demais, eles s&atilde;o origin&aacute;rios da bacia do I&ccedil;ana,    ao norte, tendo se fixado no Uaup&eacute;s ainda em per&iacute;odo pr&eacute;-colonial.    Vieram ent&atilde;o a ocupar uma extensa &aacute;rea no territ&oacute;rio dos    grupos tukano, dos quais passaram n&atilde;o apenas a obter esposas na troca    de irm&atilde;s, mas tamb&eacute;m progressivamente a adotar a l&iacute;ngua.    O centro da &aacute;rea dos Tariano no Uaup&eacute;s &eacute; Iauaret&ecirc;-cachoeira,    localidade que faz parte das hist&oacute;rias de origem dos v&aacute;rios grupos    que ali residem atualmente. Nessas extensas narrativas, o surgimento e crescimento    dos diferentes grupos do Uaup&eacute;s e de seus territ&oacute;rios s&atilde;o    tematizados na forma de sucessivos deslocamentos espa&ccedil;o-temporais de    seus ancestrais. </font></P>     <p><font size="3">Essas narrativas falam de um mundo em forma&ccedil;&atilde;o,    um mundo povoado por divindades criadoras que buscavam fazer surgir rios, animais,    plantas e verdadeiros seres humanos, e &eacute; por meio dela que os Tariano    explicam como a cachoeira de Iauaret&ecirc; veio a se constituir. A palavra    Iauaret&ecirc;, "cachoeira de on&ccedil;a", &eacute; um top&ocirc;nimo    que faz alus&atilde;o a uma "gente-on&ccedil;a", <i>ya&iacute;-masa</i>,    grupo canibal que ali vivia e representava um empecilho para o povoamento do    rio Uaup&eacute;s. &Eacute; a partir dessa narrativa m&iacute;tica que os Tariano    fundamentam suas reivindica&ccedil;&otilde;es como moradores leg&iacute;timos    de Iauaret&ecirc;, pois ali se conta a origem de v&aacute;rias das lajes, pedrais,    ilhas e paran&aacute;s dessa cachoeira na forma de sucessivas transforma&ccedil;&otilde;es    de um demiurgo chamado Okomi a quem os Tariano se referem como "nosso av&ocirc;".    Segundo contam, a gente-on&ccedil;a j&aacute; sabia que Okomi viria a dar origem    a um grupo numeroso que iria dominar o rio Uaup&eacute;s – os Tariano. Por esse    motivo, ele foi capturado em sua pr&oacute;pria casa (situada no que &eacute;    hoje uma eleva&ccedil;&atilde;o onde se localiza o bairro de Cruzeiro) e o sacrificaram    at&eacute; a morte. Com as on&ccedil;as em seu encal&ccedil;o, Okomi buscava    despist&aacute;-las transformando-se em animais e plantas. Todas as formas que    assumiu at&eacute; ser morto tornaram-se pedras da cachoeira que hoje se prestam    &agrave; coloca&ccedil;&atilde;o de armadilhas de pesca – uma heran&ccedil;a    ancestral de grande import&acirc;ncia para o manejo contempor&acirc;neo dos    recursos aqu&aacute;ticos. Em suma, grande parte da topon&iacute;mia de Iauaret&ecirc;    refere-se &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es de Okomi, um dos seres do come&ccedil;o    dos tempos que foi devorado pela gente-on&ccedil;a. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em novembro de 2004 os Tariano definiram, junto com uma equipe    de pesquisadores, um conjunto de mais de vinte locais m&iacute;ticos para serem    visitados em fevereiro ou mar&ccedil;o do ano seguinte, quando as &aacute;guas    do Uaup&eacute;s estivessem em seu n&iacute;vel mais baixo. Eles insistiram    para que, quando retornassem, os pesquisadores viessem munidos de instrumentos    que permitissem um registro daquilo que seria visto: paralelamente &agrave;    narrativa que se faria <i>in loco</i>, seria preciso fotografar e, se poss&iacute;vel,    filmar aquelas pedras junto com os pr&oacute;prios Tariano contando o que cada    qual significava, pois se tratava de um testemunho vis&iacute;vel das prerrogativas    que reivindicam sobre o lugar. Na data prevista para o retorno, os Tariano colocaram-se    inteiramente &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dos pesquisadores e os levaram    aos lugares sagrados escolhidos que aqueles queriam registrar com o apoio do    Iphan. As pedras da cachoeira constitu&iacute;ram o principal cen&aacute;rio    no qual, ao longo de dez dias, os Tariano forneceram uma vers&atilde;o extremamente    detalhada de seu mito de origem. Ao longo desses dias, realizaram um esfor&ccedil;o    not&aacute;vel, debatendo entre si e recitando de maneira formal e solene uma    hist&oacute;ria que se passou em Iauaret&ecirc; muito tempo antes do surgimento    da atual humanidade. </font></P>     <p><font size="3"><b>MITO E POL&Iacute;TICA</b> H&aacute;, em Iauaret&ecirc;,    uma pol&ecirc;mica nem sempre expl&iacute;cita referente &agrave;s prerrogativas    reivindicadas pelos Tariano e pelos demais grupos de l&iacute;ngua tukano quanto    a quem s&atilde;o os "moradores leg&iacute;timos" do lugar. O debate    refere-se diretamente &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de urbaniza&ccedil;&atilde;o    e &agrave; conviv&ecirc;ncia incontorn&aacute;vel que a nova situa&ccedil;&atilde;o    imp&ocirc;s a esses grupos. O fato ineg&aacute;vel &eacute; que Iauaret&ecirc;    &eacute; uma localidade do rio Uaup&eacute;s onde se cruzam as trajet&oacute;rias    dos Tariano e dos Tukano, dois dos principais grupos ind&iacute;genas da regi&atilde;o.    </font></P>     <p><font size="3">Por definir titularidade, o registro do patrim&ocirc;nio imaterial    como preconizado pelo Iphan corresponde a um sistema de propriedade intelectual    externo que vem incidir sobre um sistema local. Cientes disso, lideran&ccedil;as    da FOIRN que come&ccedil;aram a participar de f&oacute;runs de discuss&atilde;o    sobre prote&ccedil;&atilde;o de conhecimentos tradicionais passaram a propor    que qualquer benef&iacute;cio advindo do uso externo de conhecimentos tradicionais    do rio Negro deveria ser compartilhado por todos os grupos da regi&atilde;o.    </font></P>     <p><font size="3">Proceder ao registro da cachoeira de Iauaret&ecirc; como patrim&ocirc;nio    imaterial tariano implicaria privilegiar uma apropria&ccedil;&atilde;o particular    desse mito, que aparece noutras vers&otilde;es entre outros grupos ind&iacute;genas    da regi&atilde;o, reificando, isto &eacute;, legitimando como bem reconhecido    pelo Estado, suas prerrogativas face &agrave;s outras etnias presentes em Iauaret&ecirc;.    Implicava, enfim, extrair a narrativa de seu contexto usual de enuncia&ccedil;&atilde;o    e negocia&ccedil;&atilde;o. Seria como que tomar partido, e reconhecer aos Tariano    a propriedade intelectual sobre um mito de ampla difus&atilde;o na &aacute;rea,    consignando-lhes ascend&ecirc;ncia sobre a cachoeira de Iauaret&ecirc;. </font></P>     <p><font size="3">Para confirmar esse inc&ocirc;modo, o l&iacute;der geral de    Iauaret&ecirc;, o primeiro Tukano que ocupou o cargo desde sua institui&ccedil;&atilde;o    na d&eacute;cada de 1970, diante das atividades de registro em andamento, fez    notar que a hist&oacute;ria que os Tariano estavam a relatar n&atilde;o era    a &uacute;nica, sendo antes objeto de disputas e vers&otilde;es concorrentes.    De fato, o mito da aniquila&ccedil;&atilde;o da gente-on&ccedil;a &eacute;,    em verdade, parte importante das narrativas m&iacute;ticas de v&aacute;rios    outros grupos da regi&atilde;o, com categorias e estruturas partilhadas por    todos eles. O que parecer mudar &eacute;, principalmente, o modo como cada grupo    atual elabora sua conex&atilde;o com o mundo descrito no mito, i.e., o modo    pelo qual cada um deles obteve no passado aquilo que chamam de <i>katir&oacute;</i>,    sua "for&ccedil;a de vida". Todos, por&eacute;m, admitem que se tratam    de processos paralelos, e que ocorrem a um s&oacute; tempo, em um mesmo espa&ccedil;o    ainda em forma&ccedil;&atilde;o. Por isso mesmo, tais relatos se tocam em muitas    partes, freq&uuml;entemente repetindo e encadeando de maneiras variadas um mesmo    epis&oacute;dio. Pessoas de outros grupos poderiam, dessa maneira, fornecer    interpreta&ccedil;&otilde;es alternativas a v&aacute;rios motivos do relato    Tariano que estava sendo registrado, e mesmo entre os pr&oacute;prios cl&atilde;s    Tariano haviam disputas. Por tudo isso, ao final do processo, o pedido de registro    da cachoeira foi assinado por lideran&ccedil;as Tariano e Tukano e foi feito    em nome de todas as etnias de Iauaret&ecirc;.</font></P>     <p><font size="3">O Iphan reconheceu a cachoeira de Iauaret&ecirc; como patrim&ocirc;nio    cultural brasileiro no dia 05/08/2006, em nome de todas as etnias do distrito    de Iauaret&ecirc;. Al&eacute;m disso, os Tariano lograram obter apoio do Iphan    para a finaliza&ccedil;&atilde;o de uma maloca e para a realiza&ccedil;&atilde;o    de uma grande festa de inaugura&ccedil;&atilde;o, para a qual convidaram v&aacute;rios    grupos. Eles j&aacute; contam tamb&eacute;m com um extenso registro audiovisual    de sua hist&oacute;ria, que poder&aacute; ser exibido futuramente em v&aacute;rias    ocasi&otilde;es em Iauaret&ecirc; – o v&iacute;deo-document&aacute;rio de Vincent    Carelli "Iauaret&ecirc;, Cachoeira das On&ccedil;as", por exemplo,    que relata todos os epis&oacute;dios desse caso, foi lan&ccedil;ado em abril    de 2006. Eles pretendem ainda publicar um livro com suas falas, fartamente ilustrado    com o material fotogr&aacute;fico gerado ao longo do processo. </font></P>     <p><font size="3">A inten&ccedil;&atilde;o agora &eacute; a de investir em um    extenso "plano de salvaguarda", isto &eacute;, em um conjunto de a&ccedil;&otilde;es    voltadas para a conserva&ccedil;&atilde;o desse "bem cultural" reconhecido.    N&atilde;o h&aacute; receita pronta para isso, e os funcion&aacute;rios do Iphan    envolvidos mostram-se abertos a acatar as sugest&otilde;es e apoiar as iniciativas    de grupos Tariano e Tukano que est&atilde;o mais ativamente participando do    processo. Ou seja, as rela&ccedil;&otilde;es que v&ecirc;m sendo estabelecidas    entre os &iacute;ndios do Uaup&eacute;s e &oacute;rg&atilde;o oficial de patrim&ocirc;nio    cultural no Brasil est&atilde;o a dar curso, e a aportar recursos, a iniciativas    que se inserem em um movimento mais amplo na regi&atilde;o, e que envolve v&aacute;rios    grupos interessados em registrar sua "cultura" em novos suportes.    Para apresent&aacute;-la para fora, &eacute; certo, mas sobretudo para oper&aacute;-la    para dentro. </font></P>     <p><font size="3">A rela&ccedil;&atilde;o entre o dentro e o fora parece, com    efeito, ser central aqui, pois o reconhecimento de Iauaret&ecirc; como patrim&ocirc;nio    cultural pelo Iphan constitui, muito mais do que a satisfa&ccedil;&atilde;o    de um novo desejo ind&iacute;gena, a continuidade de um esfor&ccedil;o ancestral    para se manter na condi&ccedil;&atilde;o de sujeito em contextos de negocia&ccedil;&otilde;es    com exterior, i.e., os "outros", dentre os quais se destaca a sociedade    nacional. Isso explica, por exemplo, a import&acirc;ncia do registro em v&iacute;deo    das rochas m&iacute;ticas da cachoeira de Iauaret&ecirc;, afinal, povos ind&iacute;genas    de todas as regi&otilde;es do mundo t&ecirc;m, principalmente a partir dos anos    1980, se mobilizado no sentido de se apropriar de novos meios capazes de compensar    a visibilidade perdida dos antigos rituais. Ou seja, almejam novas formas de    apresenta&ccedil;&atilde;o do mundo implicado em sua cultura: novas formas de    atualizar rela&ccedil;&otilde;es sociais com o exterior (a floresta e o rio,    os outros grupos humanos e os esp&iacute;ritos e divindades), que hoje mostram-se    inelutavelmente pautadas pelo dom&iacute;nio de novas m&aacute;quinas, t&eacute;cnicas    e institui&ccedil;&otilde;es. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Geraldo Andrello</b> &eacute; mestre e doutor em antropologia    pela Unicamp, tem experi&ecirc;ncia de pesquisa junto a povos ind&iacute;genas    de Roraima e do alto do rio Negro. &Eacute; autor de</i> Cidade do &Iacute;ndio:    transforma&ccedil;&otilde;es e cotidiano em Iauaret&ecirc; <i>(Unesp/ISA/Nuti,    2006) e atualmente &eacute; coordenador adjunto do Programa Rio Negro do ISA.</i></font><font size="3"><i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b>Pedro P. Ferreira</b> &eacute; doutor em ci&ecirc;ncias sociais pela Unicamp    com pesquisa sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre m&uacute;sica eletr&ocirc;nica    e xamanismo, se interessa por quest&otilde;es ligadas a din&acirc;micas sociot&eacute;cnicas    e participa atualmente do Programa de Forma&ccedil;&atilde;o de Quadros Profissionais    do Cebrap.</i></font></P>      ]]></body>

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