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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>C<SMALL>URADORIA PRIVADA DE ACERVO P&Uacute;BLICO</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> O recente roubo de importantes obras no Museu de Arte de S&atilde;o    Paulo(Masp), evidenciando a falta de planejamento e de seguran&ccedil;a da institui&ccedil;&atilde;o    que guarda um dos mais importante acervos do pa&iacute;s, colocou em destaque    a insufici&ecirc;ncia de um m&eacute;todo de gest&atilde;o que confia o patrim&ocirc;nio    p&uacute;blico nas m&atilde;os de grupos de particulares sem contemplar a contrapartida    de uma contribui&ccedil;&atilde;o financeira nem um real projeto de curadoria.    Nesta entrevista com o historiador da arte Luciano Migliaccio, professor da    FAU-USP e colaborador da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em hist&oacute;ria    da arte e da cultura do IFCH-Unicamp, realizada antes dos acontecimentos mencionados,    esse debate j&aacute; estava presente. </font></p>     <p><font size="3"> Alguns museus brasileiros disp&otilde;em de acervos invej&aacute;veis    e compar&aacute;veis a seus companheiros internacionais. Por&eacute;m, com a    crise das &uacute;ltimas d&eacute;cadas - de falta de recursos para a administra&ccedil;&atilde;o,    custeio e manuten&ccedil;&atilde;o dos acervos - uma nova pol&iacute;tica de    revigoramento dos museus foi posta em andamento. &Eacute; poss&iacute;vel at&eacute;    estabelecer um marco: a exposi&ccedil;&atilde;o de Rodin na Pinacoteca do Estado,    em 2001. Um importante acervo foi trazido e longas filas de espera foram a marca    de que, enfim, uma exposi&ccedil;&atilde;o de arte ganhava dimens&atilde;o de    grande interesse popular. Estava estabelecido um modelo que v&aacute;rios museus    e institutos culturais, em franca expans&atilde;o naquele momento com o fermento    da lei Rouanet, agarrariam como t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o. Da mesma    forma que os investimentos de tal ordem auxiliaram um impulso efetivo na configura&ccedil;&atilde;o    das atividades desses centros art&iacute;sticos, o desvirtuamento de suas miss&otilde;es    come&ccedil;ou a acelerar. O conceito de curadoria se expandiu a um n&iacute;vel    que, come&ccedil;ou a provocar distor&ccedil;&otilde;es no foco e no tipo de    atividade que cada institui&ccedil;&atilde;o poderia abrigar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n1/a21img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> O empenho dos dirigentes dessas institui&ccedil;&otilde;es    parece ter se fixado na m&aacute;xima de trazer recursos para suas instala&ccedil;&otilde;es    para conseguirem sair das dificuldades infind&aacute;veis de ordem financeira    em que se encontram . Justific&aacute;vel e at&eacute; louv&aacute;vel! Por&eacute;m,    essa abertura indiscriminada do perfil das mostras em troca do sucesso de p&uacute;blico    &eacute; perigosa. J&aacute; se viram museus esconderem o pr&oacute;prio acervo    nos dep&oacute;sitos para hospedar eventos importados. Por outro lado, h&aacute;    o perigo que os grupos privados que gerenciam algumas institui&ccedil;&otilde;es    se sirvam do nome delas para pedir patroc&iacute;nios para projetos de interesse    de alguns membros, deixando as mesmas afundarem em d&iacute;vidas, sem nenhuma    transpar&ecirc;ncia na gest&atilde;o de um patrim&ocirc;nio p&uacute;blico.    Na entrevista, Migliaccio pontua a necessidade de restri&ccedil;&otilde;es a    esse tipo de pol&iacute;tica, danosa a longo prazo.</font></p>     <p><font size="3"><b><i>Que modelo de museu &eacute; bom ao pa&iacute;s?</i></b>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   O que temos hoje &eacute; a ocupa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico    por iniciativas privadas, freq&uuml;entemente alheias &agrave;s origens e natureza    dos museus, deixando acervos maravilhosos escondidos, n&atilde;o trabalhados    e confundindo o p&uacute;blico quanto &agrave; qualidade das exposi&ccedil;&otilde;es.    O movimento de transformar os museus estaduais em funda&ccedil;&otilde;es sem    fins lucrativos, onde o Estado retira sua responsabilidade em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; gest&atilde;o dos acervos – o que acaba ocorrendo quando se limita    a financiar mediante projetos, sem um crit&eacute;rio cient&iacute;fico da qualidade    dos mesmos – &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o de risco. </font></p>     <p><font size="3"><b><i>Mas n&atilde;o seria uma sa&iacute;da para a pen&uacute;ria    em que se encontram alguns museus?</i></b>    <br>   Ao contr&aacute;rio: a manuten&ccedil;&atilde;o pode tornar-se prec&aacute;ria,    uma vez que esse modelo, de sucesso nos Estados Unidos onde existe uma tradi&ccedil;&atilde;o    do patronato, n&atilde;o tem o respaldo da mesma voca&ccedil;&atilde;o firmada    no Brasil. At&eacute; agora vimos, em muitos casos, os particulares entrarem    nos espa&ccedil;os p&uacute;blicos para angariar recursos para seus pr&oacute;prios    fins. J&aacute; vimos institui&ccedil;&otilde;es virarem devedoras de membros    da pr&oacute;pria diretoria, que deveriam supostamente financi&aacute;-las.    Uma primeira medida seria a presen&ccedil;a de conselhos cient&iacute;ficos,    capazes de criar programas culturais para os museus a partir da natureza dos    seus acervos, e de negociar de forma aberta com os financiadores. A maioria    dos museus brasileiros n&atilde;o tem historiadores trabalhando em seu acervo    e acaba empurrado para refor&ccedil;ar o v&iacute;nculo com a Lei Rouanet que    leva a seguinte equa&ccedil;&atilde;o: s&oacute; vai entrar financiamento para    exposi&ccedil;&atilde;o com grande apelo popular que garanta sucesso de bilheteria.    O museu vira uma m&aacute;quina de agradar p&uacute;blicos, deixa de estar atento    a dialogar com seus acervos e promover o conhecimento e a cultura, esta, sim,    a sua verdadeira natureza.</font></p>     <p><font size="3"><b><i>Como o senhor analisa o uso da Lei Rouanet na &aacute;rea?</i></b>    <br>   H&aacute; grande interesse de institui&ccedil;&otilde;es particulares em promover    eventos com esse perfil, sem curadoria e com baixo aproveitamento do acervo    do museu. Trata-se de uma coloniza&ccedil;&atilde;o dos projetos privados, impostos    muitas vezes por produtoras internacionais, sobre o patrim&ocirc;nio p&uacute;blico.    H&aacute; v&aacute;rios exemplos: as infames exposi&ccedil;&otilde;es sobre    Leonardo da Vinci e sobre o corpo humano no Parque Ibirapuera (muito caras para    o p&uacute;blico e para os patrocinadores, diga-se de passagem); a mostra sobre    Darwin no Masp, no ano passado. Tratou-se de propostas de produtoras, algumas    totalmente improvisadas na &aacute;rea, que vieram prontas para atender projetos    educacionais. O que pode ser bastante louv&aacute;vel, mas o produto final foi    lament&aacute;vel, nos piores casos, e, nos melhores, fora de lugar. </font></p>     <p><font size="3"><b><i>Qual o modelo de museu se forma no Brasil a partir dessa    perspectiva?</i></b>     <br>   A tradi&ccedil;&atilde;o filantr&oacute;pica estadunidense n&atilde;o rebate    da mesma forma, se transportada diretamente para o Brasil onde, o que acaba    ocorrendo em muitos casos &eacute; que a iniciativa privada lucra muito com    esses projetos expositivos ou de infra-estrutura para os museus, mas pouco fica    retido para as institui&ccedil;&otilde;es que os abrigam. Como exemplo, podemos    pensar, al&eacute;m da mostra do Darwin, nas exposi&ccedil;&otilde;es sobre    Leonardo da Vinci e sobre o corpo humano, todas em S&atilde;o Paulo e s&oacute;    para ficar nas mais recentes. Todas tiveram qualidade duvidosa mas representaram    grandes lucros principalmente para os promotores, empresas privadas internacionais    especializadas nesses "pacotes" culturais. No caso da exposi&ccedil;&atilde;o    do corpo humano, por exemplo, ela foi recusada em muito lugares no exterior    onde se apresentava como exposi&ccedil;&atilde;o de arte; aqui veio embalada    no selo de exposi&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Sem v&iacute;nculo com    uma curadoria de arte, o que ocorre &eacute; uma coloniza&ccedil;&atilde;o cultural    da pior esp&eacute;cie.</font></p>     <p><font size="3"><b><i>Como surge esse movimento de patroc&iacute;nio de mostras    internacionais com forte apelo popular e ampla campanha de marketing?</i></b>    <br>   No final da d&eacute;cada de 1990 se percebeu que a exposi&ccedil;&atilde;o    apresentada como evento era uma receita com potencial muito grande de atra&ccedil;&atilde;o    de p&uacute;blico. No caso pioneiro at&eacute; ent&atilde;o no Brasil, a de    Rodin na Pinacoteca de S&atilde;o Paulo, o curador Emanoel Ara&uacute;jo soube    estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o vantajosa de troca e foi muito bem-sucedido,    garantindo recursos para a revitaliza&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o    que dirigia, assim como garantiu uma curadoria competente do evento. Quando    a mostra da obra do impressionista Monet impulsionou as visitas ao Masp anos    depois, dentro do mesmo modelo, a f&oacute;rmula, contudo, n&atilde;o se repetiu:    o museu n&atilde;o recebeu nada, o grande evento n&atilde;o serviu para revigorar    sua produ&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea e a exposi&ccedil;&atilde;o de    seu acervo. Ele acabou virando palco para uma seq&uuml;&ecirc;ncia de mostras,    poucas boas ou muito boas, algumas sofr&iacute;veis, outras francamente p&iacute;fias,    sempre anunciadas como grandes eventos de massa, retirando a ess&ecirc;ncia,    a raz&atilde;o de existir do museu desde a sua concep&ccedil;&atilde;o formulada    por Pietro e Lina Bo Bardi.</font></p>     <p><font size="3"><b><i>O argumento para defender essa posi&ccedil;&atilde;o –    "abrir o museu para camadas populares" – ser&aacute; que se    sustenta?</i></b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Em minha opini&atilde;o, seria mais importante estabelecer um conjunto de a&ccedil;&otilde;es    consistentes e constantes com o p&uacute;blico, o que se constituiria, a&iacute;    sim, numa verdadeira a&ccedil;&atilde;o educativa. Foi este o perfil concebido    para o Masp, mas o modelo que se est&aacute; implantando leva ao esvaziamento.    Os museus t&ecirc;m uma depend&ecirc;ncia do p&uacute;blico das escolas de mais    de 50%, portanto priorizar uma atua&ccedil;&atilde;o nesse sentido &eacute;    quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia. Alguns, incluso o Masp, tem se dotado    de excelentes servi&ccedil;os educativos, mas o museu n&atilde;o &eacute; uma    sucursal da escola. Deve ser visto como centro de elabora&ccedil;&atilde;o cultural    e de identidade para toda a comunidade, facilitando o acesso dos cidad&atilde;os    ao melhor da cultura est&eacute;tica, cient&iacute;fica, tecnol&oacute;gica    que se produz no mundo. </font></p>     <p><font size="3"> <i><b>Como controlar e estabelecer um padr&atilde;o de qualidade    para todas essas propostas que j&aacute; chegam prontas &agrave;s nossas institui&ccedil;&otilde;es?</b></i>        <br>   Com uma verdadeira curadoria, inst&acirc;ncia que analise o n&iacute;vel e a    utilidade cultural das exposi&ccedil;&otilde;es dentro de uma linha coerente    com a institui&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o extempor&acirc;nea a ela. &Eacute;    preciso criar uma forma&ccedil;&atilde;o ampla na &aacute;rea da hist&oacute;ria    da arte e da gest&atilde;o dos bens culturais. &Eacute; preciso criar uma carreira    de historiador da arte, que ainda inexiste no Brasil; formar esse profissional    respons&aacute;vel pela manuten&ccedil;&atilde;o e curadoria do acervo. A a&ccedil;&atilde;o    dos historiadores como grupo tende a se concentrar na &aacute;rea acad&ecirc;mica.    Existe o muse&oacute;logo, muitas vezes oriundo de uma forma&ccedil;&atilde;o    t&eacute;cnica, que cuida da quest&atilde;o de gest&atilde;o operacional mas    n&atilde;o &eacute; curador - esse papel &eacute; do historiador da arte.</font></p>     <p><font size="3"><b><i>A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; igual em todo Brasil?</i></b>    <br>   No Rio de Janeiro, outro centro cultural importante, n&atilde;o &eacute; diferente.    Ali existe um conjunto de museus federais, com funcion&aacute;rios que ganham    uma mis&eacute;ria, s&atilde;o altru&iacute;stas em manter o trabalho apesar    da baixa remunera&ccedil;&atilde;o, do pouco apoio que recebem e das greves    que acabam ocorrendo. A &uacute;ltima durou mais de dois meses, e pouco ou nada    saiu na imprensa: os museus n&atilde;o s&atilde;o prioridades da pol&iacute;tica    nacional. Os recursos obtidos sempre s&atilde;o destinados a projetos e n&atilde;o    chegam para melhorar a condi&ccedil;&atilde;o de seus profissionais. A evid&ecirc;ncia    &eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o tendente &agrave; terceiriza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Wanda Jorge</i></font></p>      ]]></body>
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