<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252008000100022</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sobre museus e institutos culturais brasileiros]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cipparone]]></surname>
<given-names><![CDATA[Anna]]></given-names>
</name>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Jorge]]></surname>
<given-names><![CDATA[Wanda]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<volume>60</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>52</fpage>
<lpage>54</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252008000100022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252008000100022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252008000100022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n1/a22img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4"><b>ANOTA&Ccedil;&Otilde;ES DE VIAGEM</b></font></p>     <p><font size="4"><b>SOBRE MUSEUS E INSTITUTOS CULTURAIS BRASILEIROS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> Em viagem de estudos feita ao Brasil no final de 2006, dispus-me    a analisar o atual estado de alguns museus locais, evidenciando caracter&iacute;sticas    t&iacute;picas e originais, em compara&ccedil;&atilde;o ao contexto italiano.    A forma&ccedil;&atilde;o dos museus no Brasil, salvo algumas exce&ccedil;&otilde;es,    data do per&iacute;odo p&oacute;s-Primeira Guerra, e o dado mais relevante &eacute;    a variedade de institui&ccedil;&otilde;es museol&oacute;gicas sobre o territ&oacute;rio    nacional, variedade diretamente proporcional &agrave; vastid&atilde;o do patrim&ocirc;nio    art&iacute;stico, hist&oacute;rico e folcl&oacute;rico do pa&iacute;s. Entretanto,    uma das conclus&otilde;es de minha pesquisa &eacute; que tal patrim&ocirc;nio    &eacute;, freq&uuml;entemente, bem pouco conhecido pela popula&ccedil;&atilde;o    local. Circunscrevendo o assunto &agrave;s cidades do Rio de Janeiro e S&atilde;o    Paulo, os museus mais importantes no Rio s&atilde;o - Museu da Cacha&ccedil;a,    Museu Salles Cunha, Museu Naval e Oceanografico do Rio de Janeiro, Museu Internacional    de Arte Naif, Museu Hist&oacute;rico Nacional, Museu do Primeiro Reinado, Museu    da Rep&uacute;blica – no que se refere &agrave; conserva&ccedil;&atilde;o    e difus&atilde;o do patrim&ocirc;nio liter&aacute;rio, hist&oacute;rico, art&iacute;stico    e antropol&oacute;gico do povo brasileiro. Por&eacute;m, meus estudos estiveram    centrados nas seguintes institui&ccedil;&otilde;es cariocas: Museu de Arte Moderna(MAM);    Museu de Arte Contempor&acirc;nea (MAC), de Niter&oacute;i, e Museu Nacional    de Belas Artes. Em S&atilde;o Paulo, menciono o Museu do Imigrante, com o objetivo    de conservar, preservar e difundir documentos, objetos, hist&oacute;rias e mem&oacute;rias    dos imigrantes, independentes de sua nacionalidade e sua etnia; o Museu Bot&acirc;nico,    o Museu de Arqueologia e Etnologia, o Museu de Arte Brasileira, o Museu de Arte    Sacra, o Museu Paulista, este que privilegia a hist&oacute;ria material da socidade    paulista nos s&eacute;culos XIX e XX, e os important&iacute;ssimos Museu de    Arte Moderna (MAM), a Pinacoteca do Estado e o Museu de Arte de S&atilde;o Paulo    (Masp).</font></p>     <p><font size="3"> Os dados recolhidos na pesquisa, al&eacute;m dos bibliogr&aacute;ficos,    s&atilde;o fruto de visitas a esses museus e entrevistas com os diretores e    profissionais ligados diretamente aos setores que me interessavam, que &eacute;    o do sistema educativo dos museus. Por raz&otilde;es de espa&ccedil;o, n&atilde;o    poderei destacar o exemplo da Pinacoteca de S&atilde;o Paulo, excepcional do    ponto de vista das estrat&eacute;gias de marketing utilizadas para se compreender    o potencial do museu e nas propostas art&iacute;sticas efetivadas. Uma particular    aten&ccedil;&atilde;o merece, ainda, o Masp, por sua forma&ccedil;&atilde;o    fruto de um esp&iacute;rito pioneiro e original nos museus brasileiros, por    sua importante cole&ccedil;&atilde;o de n&iacute;vel internacional mas, hoje,    pela dist&acirc;ncia em que se encontra dos objetivos e dinamismo iniciais,    com dificuldades de toda ordem.</font></p>     <p><font size="3"> A efervescente atividade educativa de museus como a Pinacoteca    de S&atilde;o Paulo e o MAC, de Niter&oacute;i, &eacute; uma demonstra&ccedil;&atilde;o    efetiva que, no Brasil, a valoriza&ccedil;&atilde;o e a frui&ccedil;&atilde;o    das institui&ccedil;&otilde;es museol&oacute;gicas &eacute; determinada como    decorr&ecirc;ncia do incentivo dado pelo sistema de educa&ccedil;&atilde;o e    da sua capacidade de satisfazer as exig&ecirc;ncias dos visitantes, uma vez    que possuem cole&ccedil;&otilde;es importantes, de resson&acirc;ncia internacional.</font></p>     <p><font size="3"><b>INSTITUTOS CULTURAIS</b> A revaloriza&ccedil;&atilde;o dos    museus tradicionais &eacute;, todavia, confrontada com a forte tend&ecirc;ncia    de privatiza&ccedil;&atilde;o, provocada pela prolifera&ccedil;&atilde;o de    uma s&eacute;rie de institutos culturais, em sua maioria gestados por bancos,    radicados em todo o territ&oacute;rio nacional e um verdadeiro p&oacute;lo de    atra&ccedil;&otilde;es culturais. Por ser um mecanismo bastante complexo, incentivado    a partir da cria&ccedil;&atilde;o de leis e decretos, resulta que qualquer institui&ccedil;&atilde;o    financeira, especialmente as mais influentes, pode dar vida a uma pr&oacute;pria    funda&ccedil;&atilde;o ou instituto cultural, caracterizado por uma programa&ccedil;&atilde;o    din&acirc;mica e rica de ofertas novas para o cidad&atilde;o brasileiro. N&atilde;o    podendo me referir a todos visitados, destaco o Ita&uacute; Cultural, na avenida    Paulista, cora&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Paulo, e o Instituto Cultural    Banco do Brasil, presente nas duas capitais – Rio e S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font size="3"> Os institutos oferecem uma gama de atividades, com freq&uuml;&ecirc;ncia,    n&atilde;o correlacionadas: exposi&ccedil;&otilde;es de artes, oficinas –    um laborat&oacute;rio de artes pl&aacute;sticas onde o espectador se improvisa    como artista criador –, manifesta&ccedil;&otilde;es musicais, teatrais,    de dan&ccedil;a, fotografia, cinema, ofertas de acordo com a forma&ccedil;&atilde;o    e a exig&ecirc;ncia de seu p&uacute;blico. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> A quest&atilde;o importante &eacute;: qual &eacute; o motivo    do consenso acordado pelo p&uacute;blico dos institutos culturais, ao inv&eacute;s    do que existe com os museus tradicionais? O museu tradicional se mant&eacute;m,    tamb&eacute;m no Brasil, como um ponto de refer&ecirc;ncia imprescind&iacute;vel    pois nasce de um projeto art&iacute;stico pr&eacute;-definido e, ainda, com    a cria&ccedil;&atilde;o de um acervo e de uma cole&ccedil;&atilde;o permanente,    realiza manifesta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas concebidas a partir de    um denominador comum. O instituto cultural n&atilde;o possui, a n&atilde;o ser    em poucos casos, uma cole&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, e a organiza&ccedil;&atilde;o    de exposi&ccedil;&otilde;es fica a cargo, a cada evento, de equipes diferentes,    o que restringe a coer&ecirc;ncia e a homogeneidade do projeto.</font></p>     <p><font size="3"> Alguns exemplos: o museu realiza uma programa&ccedil;&atilde;o    na qual est&atilde;o inclu&iacute;dos, ligados a um fio condutor cient&iacute;fico,    a cole&ccedil;&atilde;o, os eventos e atividades de aprofundamento (um bom exemplo    desse perfil &eacute; a Pinacoteca de S&atilde;o Paulo). Os institutos culturais,    por seu lado, oferecem percursos tecnol&oacute;gicos, que s&atilde;o excepcionais    de um lado, mas com a tend&ecirc;ncia freq&uuml;ente da espetaculariza&ccedil;&atilde;o    dos eventos. Essas institui&ccedil;&otilde;es s&atilde;o, de certa forma, obrigadas    a seguir nessa abordagem para n&atilde;o sofrerem uma redu&ccedil;&atilde;o    dos visitantes, sempre atentos &agrave;s novidades e, sobretudo, &agrave; diversidade    de atividades dos institutos culturais. Dessa forma, o crit&eacute;rio de escolha    das obras n&atilde;o segue, necessariamente, o de sua import&acirc;ncia em si    mas, sim, o grau de atratividade de p&uacute;blico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n1/a22img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> Para aqueles habituados a uma concep&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica    de museu, no sentido de responder a uma exig&ecirc;ncia de conhecimento e aprofundamento,    o desenvolvimento de institutos culturais n&atilde;o pode ser considerado um    grande ganho, uma vez que ao apresentar uma variedade t&atilde;o grande de atividades    (arte, dan&ccedil;a, espet&aacute;culos, m&uacute;sica, cinema etc) diminui,    automaticamente, os princ&iacute;pios de cientificidade, aprofundamento, conseq&uuml;&ecirc;ncia    da atividade e o seu fio condutor. Permito-me enxergar tais institutos como    centros comerciais de cultura, onde se entra sem uma id&eacute;ia precisa do    que se quer, passa-se um dia inteiro de atividades ao t&eacute;rmino das quais    se fica satisfeito pela energia e recursos dispendidos, uma despesa n&atilde;o    programada mas sim induzida pelas ofertas apresentadas. </font></p>     <p><font size="3"> Vamos nos deter, por um momento, em um fen&ocirc;meno "antropol&oacute;gico"    tipicamente brasileiro: os shoppings. As dificuldades urbanas no Brasil, a precariedade    da vida – por causa do clima, da viol&ecirc;ncia, das organiza&ccedil;&otilde;es    civis – minam a tranquilidade do cidad&atilde;o. Mesmo que se deseje gozar    de maior isolamento em atividades culturais, &eacute; imposs&iacute;vel usufruir    da vida na rua e da cultura aberta – pensando em modelos como, por exemplo,    dos museus ao ar livre da It&aacute;lia. Com isso, as pessoas buscam cada vez    mais a prote&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os fechados e, freq&uuml;entemente,    em ambientes de centros comerciais. Esse tipo de estrutura, em pr&eacute;dios    de alguns andares, oferece uma gama de atividades que permite a perman&ecirc;ncia    do cidad&atilde;o por uma jornada de dia inteiro: escolas, centros recreativos,    est&eacute;ticos, de servi&ccedil;os e entretenimento, voltados a v&aacute;rias    camadas sociais da popula&ccedil;&atilde;o, sempre contando com vigil&acirc;ncia    especializada em seguran&ccedil;a. Por&eacute;m, resta uma lacuna n&atilde;o    preenchida por essas estruturas: a da cultura.</font></p>     <p><font size="3"> Visitando esses centros comerciais, pude compreender a real    ess&ecirc;ncia dos institutos culturais e a grande solu&ccedil;&atilde;o que    significam para o p&uacute;blico brasileiro. O instituto cultural com esse perfil    – incompreens&iacute;vel no contexto socio cultural italiano – &eacute;    uma esp&eacute;cie de shopping da cultura, em que n&atilde;o &eacute; garantida    uniformidade nem coer&ecirc;ncia tem&aacute;tica; e, tampouco, nasce como um    lugar para se entrar com um objetivo pr&eacute;-determinado. Neles, assim como    nos centros comerciais, n&atilde;o se tem necessariamente um crit&eacute;rio    de escolha da atividade pois o objetivo priorit&aacute;rio &eacute; oferecer    um leque de atividades o mais amplo poss&iacute;vel, em ambiente de tranquilidade    durante toda a jornada em seu interior. </font></p>     <p><font size="3"> Sem criticar o tipo de oferta que se tem nesses institutos,    &eacute; importante perceber que essa parece ser a melhor resposta &agrave;s    exig&ecirc;ncias da popula&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o tem uma hist&oacute;ria    longa de museus e que, em sua maioria, n&atilde;o tem consci&ecirc;ncia do pr&oacute;prio    percurso hist&oacute;rico e art&iacute;stico. Nascidos com excepcional estrat&eacute;gia    de marketing, esses institutos acabam por cumprir um papel de sustentar e provocar    um aumento tang&iacute;vel de participa&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico em    eventos de natureza cultural e art&iacute;stica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><i>Anna Cipparone    <br>   tradu&ccedil;&atilde;o Wanda Jorge</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Anna Cipparrone</b> ganhou uma bolsa de estudos da Academina    de San Luca (It&aacute;lia) para seus estudos em Paris e Campinas; &eacute;    formada em hist&oacute;ria e conserva&ccedil;&atilde;o de bens culturais e pesquisadora    na &aacute;rea de valoriza&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o do patrim&ocirc;nio    hist&oacute;rico-art&iacute;stico da Calabria junto aos jovens.</i></font> </p>      ]]></body>
</article>
