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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/tndencia.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>A dif&iacute;cil tarefa de praticar a biosseguran&ccedil;a</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><b><i>Marco Fabio Mastroeni</i></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5><b>A</b></font> preocupa&ccedil;&atilde;o com    os efeitos provocados pelo contato com atividades biol&oacute;gicas, qu&iacute;micas    e f&iacute;sicas &eacute; uma caracter&iacute;stica antiga da humanidade. Os    eg&iacute;pcios acreditavam que as doen&ccedil;as eram propagadas pelo toque,    enquanto os hebreus inclu&iacute;am tamb&eacute;m as roupas e demais objetos    dos doentes como respons&aacute;veis pela dissemina&ccedil;&atilde;o dos males.    Os persas enfatizavam medidas higi&ecirc;nicas e a segrega&ccedil;&atilde;o    dos pacientes com doen&ccedil;as contagiosas. Na Palestina, os guerreiros que    retornavam de um confronto com outros povos permaneciam oito dias isolados e    passavam por um ritual de purifica&ccedil;&atilde;o juntamente com suas espadas,    tratadas com fogo ou &aacute;gua fervente. Em Roma, no primeiro s&eacute;culo    antes de Cristo, Marcus Varro defendia a associa&ccedil;&atilde;o dos p&acirc;ntanos    com as doen&ccedil;as "por albergarem criaturas diminutas, invis&iacute;veis,    que flutuando pelo ar podiam entrar no corpo humano pela boca e nariz, causando    doen&ccedil;as". Al&eacute;m dessas e outras diversas atividades biol&oacute;gicas    da antiguidade, o manuseio de subst&acirc;ncias qu&iacute;micas tamb&eacute;m    era motivo de preocupa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que tamb&eacute;m sabia-se    estar relacionado a certos tipos de males. Na sociedade romana as atividades    de extra&ccedil;&atilde;o de min&eacute;rios como chumbo e enxofre eram executadas    somente pelos escravos, seriamente acometidos por doen&ccedil;as irrecuper&aacute;veis.    Como a vida dos escravos nada valia pouco para os romanos, estes utilizavam    a mat&eacute;ria-prima j&aacute; extra&iacute;da sem se exporem ao risco qu&iacute;mico.    Em outro exemplo, o processo de mumifica&ccedil;&atilde;o dos corpos utilizando    produtos qu&iacute;micos era realizado mediante a prote&ccedil;&atilde;o das    m&atilde;os e do rosto com objetos que evolu&iacute;ram para o que hoje denominamos    Equipamentos de Prote&ccedil;&atilde;o Individual, os EPIs.</font></p>     <p><font size="3">Mesmo com um hist&oacute;rico de mais de dois mil anos de conhecimentos    sobre o manuseio de produtos biol&oacute;gicos, qu&iacute;micos e f&iacute;sicos,    em pleno s&eacute;culo XXI ainda somos surpreendidos por alunos que pipetam    solu&ccedil;&otilde;es com a boca, em uma aula de ensino da gradua&ccedil;&atilde;o    e na presen&ccedil;a do professor! <b>Por que &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil    praticar a biosseguran&ccedil;a?</b> Certamente esta resposta est&aacute; relacionada    a diversas caracter&iacute;sticas, entre as quais destacam-se a idade, a cultura,    a responsabilidade, a cobran&ccedil;a, a cidadania e, principalmente, a educa&ccedil;&atilde;o.    Em um pa&iacute;s onde, infelizmente, v&aacute;rias pessoas ainda seguem a cultura    de fazer a forma mais "f&aacute;cil" ao inv&eacute;s da correta, a    educa&ccedil;&atilde;o &eacute; seguramente o &uacute;nico meio de modificarmos    esse comportamento. Apesar de n&atilde;o ser algo obtido a curto prazo, o resultado    dessa a&ccedil;&atilde;o &eacute; crucial para a garantia da qualidade das atividades    que envolvem diferentes tipos de risco ao indiv&iacute;duo, ao meio ambiente    e ao produto a ser elaborado.</font></p>     <p><font size="3">Assim como em outros pa&iacute;ses do mundo,    a biosseguran&ccedil;a surgiu, principalmente, com o advento da biologia molecular.    As novas t&eacute;cnicas de trabalho desenvolvidas junto aos produtos a serem    manipulados exigiram a elabora&ccedil;&atilde;o de normas e procedimentos que    pudessem proporcionar a execu&ccedil;&atilde;o de qualquer atividade com o m&iacute;nimo    de risco. Quando s&atilde;o manipuladas mol&eacute;culas como os &aacute;cidos    nucl&eacute;icos, capazes de alterar o curso "normal" da vida dos    seres vivos a partir de combina&ccedil;&otilde;es entre as mesmas ou entre diferentes    esp&eacute;cies, torna-se imprescind&iacute;vel utilizar mecanismos que evitem    a ocorr&ecirc;ncia de combina&ccedil;&otilde;es indesejadas. Mas, indiferente    do que se deseja manipular, sejam &aacute;cidos nucl&eacute;icos, microrganismos,    produtos qu&iacute;micos, subst&acirc;ncias radioativas ou outro tipo de material    que provoque dano ao ser vivo, a pr&aacute;tica de trabalhar com e em seguran&ccedil;a    deve ser a mesma, tanto no ensino m&eacute;dio, como no superior e em outras    atividades potencialmente geradoras de acidentes.</font></p>     <p><font size="3"><b>REGISTRO DE ACIDENTES</b> A import&acirc;ncia de se estudar    o mapeamento de riscos e de acidentes relacionados a laborat&oacute;rios de    pesquisa tomou corpo a partir da d&eacute;cada de 1940. De l&aacute; at&eacute;    1970, dois pesquisadores americanos publicaram uma s&eacute;rie de estudos envolvendo    cerca de 4 mil casos de infec&ccedil;&otilde;es adquiridas em laborat&oacute;rios    de todo o mundo e que resultaram em 168 mortes. Os estudos revelaram que o manuseio    de agulhas e seringas foi o principal tipo de acidente respons&aacute;vel pelas    contamina&ccedil;&otilde;es, seguido de respingo, aerossol e derramamento de    solu&ccedil;&otilde;es. Atualmente, a manipula&ccedil;&atilde;o de agulhas e    objetos perfurocortantes continua sendo a maior causa de acidentes na &aacute;rea    da sa&uacute;de, mesmo quase quarenta anos ap&oacute;s os estudos dos americanos.    Somente nos Estados Unidos h&aacute; uma estimativa de 800 mil casos de acidentes    a cada ano envolvendo o manuseio de agulhas e seringas, tendo como conseq&uuml;&ecirc;ncia    aproximadamente 16 mil indiv&iacute;duos contaminados pelo v&iacute;rus HIV.    Danos provocados pelo manuseio de agulhas e seringas respondem por mais de 80%    dos acidentes envolvendo sangue. No Brasil, estudos envolvendo acidentes gerados    em laborat&oacute;rios de pesquisa e servi&ccedil;os de sa&uacute;de ainda s&atilde;o    incipientes, mas j&aacute; existem nobres atitudes relacionadas ao tema. Uma    equipe de pesquisadores da &aacute;rea da sa&uacute;de criou um site sobre "risco    biol&oacute;gico" e, atrav&eacute;s deste, desenvolveu um sistema de vigil&acirc;ncia    para acidentes envolvendo profissionais de sa&uacute;de que opera desde 2002.    Nesse sistema, profissionais contribuem com relatos dos acidentes gerados em    seu local de trabalho/institui&ccedil;&atilde;o obtendo-se, assim, um retrato    dos acidentes no pa&iacute;s. Apesar de ser uma estimativa, os dados s&atilde;o    preocupantes: no per&iacute;odo 2002-2008 foram registrados 2.675 acidentes,    cerca de 24% destes ocorridos com estudantes e estagi&aacute;rios. O tipo de    exposi&ccedil;&atilde;o prevalente foi a percut&acirc;nea (80,6%), sendo 55,8%    dos casos ocorridos com agulha hipod&eacute;rmica e em 80,7% tendo o sangue    como ve&iacute;culo de transmiss&atilde;o. Como era de se esperar, as m&atilde;os    foram a &aacute;rea corporal mais atingida, 73,3%. Diante desse quadro, como    identificar os motivos que levaram aos acidentes? Ser&aacute; que a informa&ccedil;&atilde;o    sobre biosseguran&ccedil;a foi passada? Se foi, os indiv&iacute;duos realmente    compreenderam a gravidade de se expor a um determinado risco sem seguran&ccedil;a?    O que fazer para conscientizar as atuais e pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es    de profissionais de sa&uacute;de? Uma das respostas a essas perguntas est&aacute;    relacionada a treinamento. Em um estudo desenvolvido com 177 formandos de quatro    cursos da &aacute;rea da sa&uacute;de, na Universidade do Contestado (UnC),    investigou-se o conhecimento em biosseguran&ccedil;a desses futuros profissionais.    A partir de um question&aacute;rio contendo 15 perguntas sobre diferentes &aacute;reas    da biosseguran&ccedil;a, o estudo revelou que o curso com maior n&uacute;mero    de aulas pr&aacute;ticas em seu curr&iacute;culo foi o que apresentou melhor    m&eacute;dia nas respostas. Seguindo esse racioc&iacute;nio, um curso com maior    n&uacute;mero de disciplinas envolvendo o tema biosseguran&ccedil;a, necessariamente,    n&atilde;o &eacute; aquele que prepara melhor o aluno, mas sim o que possui    maior n&uacute;mero de aulas pr&aacute;ticas, onde o aluno presencia o risco    diante do conhecimento do professor. A educa&ccedil;&atilde;o em biosseguran&ccedil;a    deve ser relacionada a atividades pr&aacute;ticas, a partir de situa&ccedil;&otilde;es    de risco associadas ao trabalho di&aacute;rio dos profissionais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>O FATOR HUMANO</b> Sabidamente, a principal causa de acidentes    &eacute; o pr&oacute;prio ser humano. N&atilde;o basta construir laborat&oacute;rios    com equipamentos adequados de &uacute;ltima gera&ccedil;&atilde;o e disponibilizar    material de seguran&ccedil;a sem investir em educa&ccedil;&atilde;o e treinamento,    os quais devem ser considerados instrumentos cont&iacute;nuos, e n&atilde;o    tempor&aacute;rios. A vis&atilde;o impressa na educa&ccedil;&atilde;o deve ser    coletiva, e jamais individual. Muitos acidentes acontecem devido a erros de    outros indiv&iacute;duos, como colegas de trabalho desatentos, profissionais    rec&eacute;m contratados sem experi&ecirc;ncia e atividades executadas por estagi&aacute;rios    sem orienta&ccedil;&atilde;o e treinamento. Cursos e treinamentos em biosseguran&ccedil;a    s&atilde;o fundamentais para se aprimorar a seguran&ccedil;a em atividades da    sa&uacute;de, mas s&atilde;o insuficientes quando o colega que trabalha ao lado    n&atilde;o executa suas tarefas de forma segura. Certamente n&atilde;o h&aacute;    como impor ao colega atualizar-se no quesito seguran&ccedil;a, mas cabe a cada    um, seja propriet&aacute;rio, chefe, coordenador, pesquisador, t&eacute;cnico,    aluno ou estagi&aacute;rio mostrar que a forma correta deve prevalecer sobre    a forma mais f&aacute;cil, sempre! &Eacute; bom lembrar que os acidentes, geralmente,    provocam afastamentos, &agrave;s vezes tempor&aacute;rios e &agrave;s vezes    permanentes. Segundo dados do Datasus, no per&iacute;odo 2000-2005 na regi&atilde;o    Sul houve uma m&eacute;dia de 10,6 casos a cada 10 mil trabalhadores que foram    cobertos contra incapacidade laborativa decorrente de riscos ambientais do trabalho,    e no Sudeste a taxa foi de 11,7. Estas altas taxas fazem o pa&iacute;s gastar    com afastamentos quando, na verdade, deveria estar produzindo. Contornar a situa&ccedil;&atilde;o    ap&oacute;s o acidente &eacute; sempre mais caro do que preveni-la. A falta    de uma cultura prevencionista tem sido o principal obst&aacute;culo para as    pessoas agirem com precau&ccedil;&atilde;o em suas atividades de trabalho. A    maior prote&ccedil;&atilde;o que qualquer institui&ccedil;&atilde;o pode oferecer    a um trabalhador s&atilde;o a informa&ccedil;&atilde;o e o treinamento. A educa&ccedil;&atilde;o    em biosseguran&ccedil;a deve ser iniciada nas escolas, principalmente no ensino    m&eacute;dio. Criando-se uma cultura de preven&ccedil;&atilde;o na base do conhecimento,    a mesma ser&aacute; repassada com facilidade &agrave;s pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es.    Vale a pena investir em preven&ccedil;&atilde;o visto que, mesmo quando o acidente    n&atilde;o causa dano f&iacute;sico permanente, o dano psicol&oacute;gico permanece.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i>Marco Fabio Mastroeni &eacute; doutor em sa&uacute;de p&uacute;blica    pela USP, docente do programa de mestrado em sa&uacute;de e meio ambiente da    Universidade da Regi&atilde;o deJoinville (Univille) e organizador do livro</i>    Biosseguran&ccedil;a aplicada a laborat&oacute;rios e servi&ccedil;os de sa&uacute;de,    <i>Ed. Atheneu.</i></font></p>      ]]></body>

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