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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/brasil.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>APRENDIZADO</b></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v60n2/line_bk.gif"></p>     <p><font size="4">Crian&ccedil;as com dificuldades na escola: onde mora o problema?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Alunos com dificuldades de aprendizagem que chegam ao final    do ensino m&eacute;dio com s&eacute;rias problemas de leitura e escrita, ou    praticamente n&atilde;o alfabetizados, representam 50% das crian&ccedil;as brasileiras,    segundo dados do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o (MEC). A escola,    sem saber lidar com esses casos, muitas vezes, alega que a origem do quadro    &eacute; patol&oacute;gica. Esse quadro &eacute; mais comum do que se imagina:    cerca de 30% desses alunos s&atilde;o diagnosticados como portadores de uma    defici&ecirc;ncia, para justificar seu mau desempenho escolar. Dislexia, hiperatividade,    d&eacute;ficit de aten&ccedil;&atilde;o, d&eacute;ficit do processamento auditivo    e defici&ecirc;ncia mental s&atilde;o os nomes mais comuns dados ao problema.</font></p>     <p><font size="3">Embora os n&uacute;meros ainda n&atilde;o sejam formalmente    reconhecidos pelo MEC, eles fomentam uma s&eacute;rie de estudos que avalia    a situa&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o brasileira e procura entender    o que impede a aprendizagem de uma parcela t&atilde;o grande de alunos. </font></p>     <p><font size="3">O insucesso da crian&ccedil;a na escola, por&eacute;m, se deve    a um conjunto de fatores que n&atilde;o s&atilde;o considerados pela maioria    das pesquisas – e mesmo pela maioria das institui&ccedil;&otilde;es de ensino.    "Alguns termos cient&iacute;ficos escorregam de sua &aacute;rea de origem para    um uso popular, o que contribui para que ocorra um aumento indevido do uso de    determinados r&oacute;tulos. Nesses tempos modernos, os termos ‘hiperatividade’    e ‘dislexia’ me parecem campe&otilde;es", avalia S&ocirc;nia Sellin Bordin,    fonoaudi&oacute;loga que tem estudado e trabalhado com crian&ccedil;as com dificuldades    de leitura e escrita que receberam um "diagn&oacute;stico" para tentar explicar    seu mau desempenho escolar. Segundo a pesquisadora, a internet colabora para    que esses diagn&oacute;sticos se multipliquem. "Basta consultar um site espec&iacute;fico    desses dist&uacute;rbios para que um grande n&uacute;mero de crian&ccedil;as    seja reconhecido como tal. No entanto, boa parte dos crit&eacute;rios apontados    nessas descri&ccedil;&otilde;es serve tamb&eacute;m para uma crian&ccedil;a    normal ou portadores de outros dist&uacute;rbios que n&atilde;o esses", pondera.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/a06img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O que acaba acontecendo &eacute; uma m&aacute; interpreta&ccedil;&atilde;o    da postura do aluno na escola – como lentid&atilde;o ao realizar uma tarefa,    c&oacute;pia sem compreens&atilde;o, ou mesmo o esquecimento do que acabou de    aprender – como sintomas de uma enfermidade. "Nenhum caso de diagn&oacute;stico    de dislexia ou de dist&uacute;rbio de aprendizagem recebido por n&oacute;s confirmou-se",    revela Maria Irma Hadler Coudry, professora livre-docente do Instituto de Estudos    da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma das    fundadoras do Centro de Conviv&ecirc;ncia de Linguagens – grupo que se destina    ao acompanhamento de crian&ccedil;as e jovens aos quais foi atribu&iacute;do    um diagn&oacute;stico m&eacute;dico para justificar o mau desempenho escolar.    A especialista lamenta que alguns educadores cheguem a informar aos pais dessas    crian&ccedil;as que o melhor a fazer &eacute; desistir e tir&aacute;-las da    escola, j&aacute; que o trabalho com elas indica, quase sempre, que n&atilde;o    h&aacute; qualquer dist&uacute;rbio e que a volta &agrave; escola e a conclus&atilde;o    do ensino m&eacute;dio s&atilde;o poss&iacute;veis.  </font></p>     <p><font size="3"><b>EPIDEMIA</b> N&atilde;o h&aacute; dados oficiais que    indiquem a quantidade exata de diagn&oacute;sticos errados atribu&iacute;dos    a crian&ccedil;as com dificuldade de aprendizagem, mas Maria Irma acredita que    seja superior a 90%. "Acho importante esclarecer que em nenhum momento negamos    a exist&ecirc;ncia real dessas patologias, o que negamos &eacute; que elas tenham    se tornado uma epidemia. Quando fazemos isso queremos propor que as escolas,    as fam&iacute;lias e a sociedade se percebam como produtoras dessa determinada    crian&ccedil;a que se caracteriza por ser hiperativa e com dist&uacute;rbio    de aprendizagem, por um lado, enquanto, por outro lado, passa horas jogando    v&iacute;deo-game ou em frente ao computador assimilando regras e informa&ccedil;&otilde;es    a todo instante", destaca S&ocirc;nia.</font></p>     <p><font size="3">Mas, se essa "epidemia" de defici&ecirc;ncia de aprendizagem    n&atilde;o &eacute; real, o fato de que quase metade das crian&ccedil;as chega    ao ensino m&eacute;dio com graves problemas de leitura e escrita &eacute; bem    verdadeiro. "&Eacute; comum ouvirmos dos pais a queixa de que seu filho est&aacute;    na quarta s&eacute;rie ou frequenta a oitava s&eacute;rie e n&atilde;o sabe    ler nem escrever", afirma a fonoaudi&oacute;loga. Ent&atilde;o, onde mora o    problema? De acordo com as pesquisadoras, o problema est&aacute; no que as pesquisas    n&atilde;o revelam. O n&atilde;o acesso a livros, gibis, jornais e revistas;    a responsabilidade precoce de ter que ficar sozinho em casa cuidando dos irm&atilde;os,    ou at&eacute; mesmo de trabalhar para ajudar a fam&iacute;lia; a falta de comunica&ccedil;&atilde;o    entre a escola e os alunos; o despreparo e a sobrecarga dos professores; a falta    de recursos material e humano das institui&ccedil;&otilde;es de ensino s&atilde;o    alguns dos fatores apontados pelas especialistas que acabam dificultando a aprendizagem.    "S&atilde;o tantas barreiras e empecilhos que chega a ser incr&iacute;vel que    algumas crian&ccedil;as consigam aprender num ambiente t&atilde;o flagelado",    afirma Maria Irma.</font></p>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m fica de fora dos estudos uma an&aacute;lise profunda    das tarefas escolares, em sua forma e conte&uacute;do. Exerc&iacute;cios descontextualizados,    tarefas fragmentadas, enunciados equivocados e atividades mec&acirc;nicas (como    ditados, c&oacute;pia e listas de palavras) constituem a base do ensino de portugu&ecirc;s,    mas que n&atilde;o exigem reflex&atilde;o e n&atilde;o fazem sentido para os    alunos. "O 'n&atilde;o sentido' &eacute; um sintoma de um ensino padronizado    que deixa de levar em considera&ccedil;&atilde;o as experi&ecirc;ncias de vida,    a hist&oacute;ria e a comunidade (cultura) da qual a crian&ccedil;a faz parte",    diz Michelli Alessandra da Silva, ling&uuml;ista e pesquisadora do Grupo de    Estudos em Neurolingu&iacute;stica (GEN) do IEL. Isso acaba criando um c&iacute;rculo    vicioso dif&iacute;cil de ser rompido: as crian&ccedil;as n&atilde;o entendem,    ent&atilde;o "erram", para tentar sanar o problema, a escola prop&otilde;e a    repeti&ccedil;&atilde;o dos exerc&iacute;cios nos mesmos moldes, que os alunos    continuam n&atilde;o entendendo e, conseq&uuml;entemente, n&atilde;o acertando.</font></p>     <p><font size="3"><b>ESTIGMA </b>Ao afirmar que o aluno com mau desempenho escolar    possui uma enfermidade, o problema torna-se ainda mais complexo. "O 'r&oacute;tulo'    atribu&iacute;do &agrave; crian&ccedil;a repercute de forma negativa em sua    vida, pois refor&ccedil;a apenas o que ela n&atilde;o &eacute; capaz de fazer;    mexendo com sua auto-estima e a desencorajando, desestimulando, desanimando    ainda mais a aprender", aponta a ling&uuml;ista Michelli.</font></p>     <p><font size="3">Antes de culpar a escola ou os professores pelo insucesso escolar    de uma crian&ccedil;a, por&eacute;m, &eacute; preciso cuidado j&aacute; que    a pr&oacute;pria escola p&uacute;blica brasileira enfrenta um processo "patol&oacute;gico",    enfatiza S&ocirc;nia Bordin. "O professor n&atilde;o tem mais autoridade para    decidir a rela&ccedil;&atilde;o aluno/aprendizagem/ensino. Al&eacute;m disso,    muitas vezes, em uma mesma sala de aula ele precisa abrigar crian&ccedil;as    com problemas de leitura e escrita, na maioria das vezes simples, que se agravam    porque recebem atividades/aten&ccedil;&atilde;o diferentes das outras crian&ccedil;as.    A escola, dessa maneira, perde a dimens&atilde;o social, perde-se o respeito    com a profiss&atilde;o mais importante de um pa&iacute;s", declara.</font></p>     <p><font size="3">O problema do mau desempenho escolar de grande parte das crian&ccedil;as    &eacute; complexo e delicado de se lidar. Mas, &eacute; fundamental ressaltar    que &eacute; preciso cuidado ao diagnosticar uma crian&ccedil;a com dificuldade    de aprendizado. "Mais do que isso, &eacute; necess&aacute;rio que o ensino estabele&ccedil;a    essa ponte da vida com a escola, da escola com a vida; sem isso o ensino n&atilde;o    apenas se torna sem sentido, mas deixa efetivamente de ocorrer", diz Michelli    Silva, do IEL da Unicamp.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Chris Bueno</i></font></p>      ]]></body>
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