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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n3/tendenc.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>FOTOSS&Iacute;NTESE E CANA-ENERGIA</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><b><i>Rog&eacute;rio Cezar de Cerqueira Leite</i></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>U</b></font><font size="3">ma grande como&ccedil;&atilde;o    amea&ccedil;a instalar-se no setor alcooleiro em torno do conceito cana-energia.    Com a emin&ecirc;ncia da viabiliza&ccedil;&atilde;o comercial de tecnologias    de hidr&oacute;lise que permitam a convers&atilde;o de materiais lignocelul&oacute;sicos    em etanol, espera-se uma revolu&ccedil;&atilde;o no setor, uma vez que qualquer    gram&iacute;nea poder&aacute; sobrepujar em produtividade o &aacute;lcool produzido    por via fermentativa da cana. N&atilde;o obstante, para derrotar essa amea&ccedil;a    bastaria hidrolisar o baga&ccedil;o e a palha, integral ou parcialmente.</font></p>     <p><font size="3"> Como conseq&uuml;&ecirc;ncia, pretendem, alguns especialistas,    que o esfor&ccedil;o melhorista para aumentar a produtividade referente ao a&ccedil;&uacute;car    e, por conseq&uuml;&ecirc;ncia, ao &aacute;lcool, tenha comprometido a produtividade    da cana quanto &agrave; fitomassa. Surgem ent&atilde;o, as promessas salvadoras    das ditas canas "monstro", "gigante", etc, que acumulariam    muito mais fitomassa que aquelas que foram desenvolvidas para a m&aacute;xima    produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car e que s&atilde;o as atualmente    utilizadas no Brasil e no exterior. </font></p>     <p><font size="3"> Pois bem, vamos, no que segue, mostrar que possivelmente as    variedades mais utilizadas no Brasil e no exterior j&aacute; est&atilde;o otimizadas    para a produ&ccedil;&atilde;o de biomassa e que, portanto, qualquer esfor&ccedil;o    melhorista na busca da cana-energia ser&aacute; sup&eacute;rfluo. </font></p>     <p><font size="3"> Fa&ccedil;amos uma an&aacute;lise baseada em primeiros princ&iacute;pios.    A constante solar, S, ou seja, o fluxo de radia&ccedil;&atilde;o solar incidente    em um m<sup>2</sup> de um plano perpendicular ao eixo Sol-Terra sobre a superf&iacute;cie    do Globo &eacute; igual a 1,36 KW/m<sup>2</sup>, o que &eacute; equivalente    a S <img src="/img/revistas/cic/v60n3/aprox.gif" align="absmiddle"> 26.000    ton. de biomassa/ ha x ano em que se usou 1g de biomassa <img src="/img/revistas/cic/v60n3/aprox.gif" align="absmiddle">    19 KJ.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Devido &agrave; rota&ccedil;&atilde;o e transla&ccedil;&atilde;o    da Terra e latitude em que est&aacute; situado o cultivar, haver&aacute; uma    perda que, para a regi&atilde;o de S&atilde;o Paulo, &eacute; de ~ 80%, o que    constitui um fator de ganho &#951;<sub>g</sub> = 0,20.</font></p>     <p><font size="3"> Portanto, para um hectare de superf&iacute;cie situado no Tr&oacute;pico    de Capric&oacute;rnio a radia&ccedil;&atilde;o incidente seria S<sub>b</sub>    x &#951;<sub>g</sub> = 5.200 ton/ha x ano em aus&ecirc;ncia    de perdas devido &agrave; atmosfera. Essas perdas, entretanto, s&atilde;o apreci&aacute;veis.    N&atilde;o somente h&aacute; absor&ccedil;&atilde;o pelos gases seus constituintes,    como h&aacute; espalhamentos Rayleigh, Tyndal, al&eacute;m de reflex&atilde;o    por nuvens, particulados, poeiras, etc. Estimativas correntes de fatores de    ganho ha para locais com e sem chuva variam entre 0,48 e 0,58 (dependendo do    regime de nuvens) (1).</font></p>     <p><font size="3"> Tomemos &#951;<sub>a</sub> = 0,53. Com    isso, a radia&ccedil;&atilde;o que atinge a planta&ccedil;&atilde;o &eacute;    equivalente a: S<sub>b</sub> x &#951;<sub>g</sub> x &#951;<sub>a</sub>    = 2.756 ton/ha x ano</font></p>     <p><font size="3"> H&aacute; um limiar para a absor&ccedil;&atilde;o do espectro    solar, no presente caso, de 7.000&#955;.    Abaixo de 4.000&#955; praticamente    nenhuma energia do espectro solar chega at&eacute; a planta. Por outro lado,    com a estrat&eacute;gia de distribui&ccedil;&atilde;o verticalizada das folhas,    no caso da cana, e conseq&uuml;entes reflex&otilde;es m&uacute;ltiplas, as perdas    por reflex&atilde;o s&atilde;o minimizadas. Esses dois efeitos d&atilde;o em    conjunto uma perda que resulta em um fator de ganho &#951;<sub>s</sub>    = 0,425 (2) que resulta em um valor para a radia&ccedil;&atilde;o absorvida    igual a: S<sub>b</sub> x &#951;<sub>g</sub>    x &#951;<sub>a</sub> x &#951;<sub>s</sub>    <img src="/img/revistas/cic/v60n3/aprox.gif" align="absmiddle"> 1.171    ton/ha x ano</font></p>     <p><font size="3"> Esse valor seria v&aacute;lido se o canavial estivesse formado    o ano todo, mas h&aacute; a poda, a colheita, o per&iacute;odo juvenil, etc.    H&aacute;, portanto, um outro fator de perda representado pela n&atilde;o intercepta&ccedil;&atilde;o    da radia&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel. As &uacute;nicas medidas que existem    para cana s&atilde;o para cultivos de 500 dias ou mais, em que o per&iacute;odo    de plenitude do canavial &eacute; proporcionalmente maior do que aquele utilizado    no Brasil, para um ano.</font></p>     <p><font size="3"> Esses valores de ganho &#951;<sub>i</sub>    variam entre 0,6 e 0,7 (3;4). Para culturas anuais o valor deveria ser menor.    Todavia, assumiremos o valor mais benevolente poss&iacute;vel para o fator de    ganho &#951;<sub>i</sub> = 0,7.    Com isso, a radia&ccedil;&atilde;o absorvida durante um ano fica sendo: S<sub>b</sub>    x &#951;<sub>g</sub> x &#951;<sub>a</sub>    x &#951;<sub>s</sub> x &#951;<sub>i</sub>    <img src="/img/revistas/cic/v60n3/aprox.gif" align="absmiddle"> 820 ton/ha    x ano</font></p>     <p><font size="3"> Al&eacute;m disso, &eacute; preciso levar em conta o problema    de efici&ecirc;ncia qu&acirc;ntica, ligado &agrave; capacidade dos pigmentos    da planta de converter em energia qu&iacute;mica a energia solar, durante a    fotoss&iacute;ntese. Dos modelos em uso o que d&aacute; menor perda &eacute;    aquele que resulta numa efici&ecirc;ncia qu&acirc;ntica &#951;<sub>q</sub>    = 0,215 (1). Com isso temos uma convers&atilde;o m&aacute;xima poss&iacute;vel    de: S<sub>b</sub> x &#951;<sub>g</sub>    x &#951;<sub>a</sub> x &#951;<sub>s</sub>    x &#951;<sub>i</sub> x &#951;<sub>q</sub> <img src="/img/revistas/cic/v60n3/aprox.gif" align="absmiddle"> 176 ton.</font></p>     <p><font size="3"> Todavia, seria de esperar uma significativa perda de energia    no processo de transfer&ecirc;ncia dos centros de absor&ccedil;&atilde;o para    o centro de convers&atilde;o em energia qu&iacute;mica. </font></p>     <p><font size="3"> A mais benevolente estimativa para perdas devido a satura&ccedil;&atilde;o    &eacute; de 10%, o que corresponde a &#951;<sub>d</sub>    = 0,90. Nesse valor vamos incluir tamb&eacute;m perdas devido a absor&ccedil;&atilde;o    de luz por outros centros, que n&atilde;o participam da fotoss&iacute;ntese.</font></p>     <p><font size="3"> Outro fator de perda &eacute; o que se denomina respira&ccedil;&atilde;o    (5;6), ou seja, a parcela de biomassa (carboidrato) convertida em enrgia e despendida    durante os in'umeros processos metab&oacute;licos da planta, inclu&iacute;do    o pr&oacute;prio processo de crescimento. Medidas em v&aacute;rias culturas    d&atilde;o perdas entre 50% e 75%. N&atilde;o h&aacute;, na literatura, medida    para a cana, ou outra C4. Um outro processo de perda &eacute; a fotorrespira&ccedil;&atilde;o    que parece ser negligenci&aacute;vel para as C4. Tomemos o mais benevolente    valor poss&iacute;vel para a nossa cana ideal, ou seja, um fator de ganho &#951;<sub>r</sub>    = 0,5.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Com isso nossa produ&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima de biomassa    fica sendo igual a:</font></p>     <p><font size="3"> S<sub>b</sub> x &#951;<sub>g</sub> x    &#951;<sub>a</sub> x &#951;<sub>s</sub>    x &#951;<sub>i</sub> x &#951;<sub>q</sub>    x &#951;<sub>d</sub> x &#951;<sub>r</sub>    = 79 ton/ha x ano</font></p>     <p><font size="3"> Ora, as mais confi&aacute;veis informa&ccedil;&otilde;es de    colheitas &oacute;timas ficam em torno de 110 toneladas/ha de colmos <i>in natura</i>    (50% de &aacute;gua), o que corresponderia a aproximadamente 80 ton. de biomassa    a&eacute;rea seca/ ha x ano (aqui inclu&iacute;mos a palha).</font></p>     <p><font size="3"> Os c&aacute;lculos acima devem ser vistos como simples avalia&ccedil;&atilde;o    aproximada, mas mostram que n&atilde;o h&aacute; muito espa&ccedil;o para aumento    de produtividade. Sen&atilde;o vejamos: &#951;<sub>g</sub>    e &#951;<sub>a</sub> s&atilde;o fixos.</font></p>     <p><font size="3"> &#951;<sub>s</sub> para ser ampliado    exigiria a introdu&ccedil;&atilde;o de pigmentos atuando fora da regi&atilde;o    entre 4.000 e 7.000&#955;, pois no interior desta faixa    praticamente todos os f&oacute;tons j&aacute; s&atilde;o absorvidos. Acima de    7.000&#955; encontra-se uma parcela significativa de energia    solar, mas a densidade de luz solar por unidade de comprimento de onda diminui    rapidamente. A coleta nessa regi&atilde;o, para ser significativa, envolveria    uma s&eacute;rie enorme de novos pigmentos. A natureza soube escolher.</font></p>     <p><font size="3"> &#951;<sub>q</sub>, a efici&ecirc;ncia    qu&acirc;ntica, nos parece "imex&iacute;vel". Apenas recentemente    com a descoberta de coer&ecirc;ncia duradoura entre os estados excitados dos    cloroplastos, respons&aacute;veis pela absor&ccedil;&atilde;o da luz e aqueles    onde a excita&ccedil;&atilde;o eletr&ocirc;nica &eacute; convertida em energia    qu&iacute;mica, &eacute; que se pode entender a j&aacute; elevada efici&ecirc;ncia    qu&acirc;ntica observada (7;8).</font></p>     <p><font size="3"> &#951;<sub>i</sub>, este talvez seja    o &uacute;nico par&acirc;metro que admita algum incremento, pois observa-se    que o crescimento da biomassa &eacute; reduzido e mesmo estagnado em sua &uacute;ltima    fase, quando o a&ccedil;&uacute;car est&aacute; sendo produzido. Isso sugere    que talvez possam ser realizadas duas colheitas por ano, uma vez que o a&ccedil;&uacute;car    original j&aacute; n&atilde;o &eacute; essencial. Todavia, o espa&ccedil;o de    manobra n&atilde;o seria muito grande, pois &#951;<sub>i</sub>    j&aacute; &eacute; 0,7 e n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel deixar de colher    e crescer e, portanto, de reduzir a intercepta&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3"> Restam-nos &#951;<sub>d</sub> e &#951;<sub>r</sub>,    ambos refletindo mecanismos intr&iacute;nsecos &agrave; vida da planta e cuja    modifica&ccedil;&atilde;o interferiria em sua estrutura fisiol&oacute;gica b&aacute;sica.    N&atilde;o ser&aacute; com cruzamentos gen&eacute;ticos tradicionais que alguma    melhoria poder&aacute; ser alcan&ccedil;ada. E mesmo com muita engenharia gen&eacute;tica    o sucesso parece long&iacute;nquo. E uma amplia&ccedil;&atilde;o da produtividade    que seja compensadora, digamos de uns 50%, parece-nos inalcan&ccedil;&aacute;vel.    &Eacute; tamb&eacute;m reconhecido que a produtividade depende de outros fatores,    tais como temperatura, regime pluviom&eacute;trico, press&atilde;o de CO<sub>2</sub>,    disponibilidade de nitrog&ecirc;nio e outros nutrientes, etc. Parece que os    v&aacute;rios fatores &#951; correspondentes est&atilde;o    otimizados para a cana-de-a&ccedil;&uacute;car e, portanto, s&atilde;o muito    pr&oacute;ximos de 1. Em nossa an&aacute;lise eles s&atilde;o, portanto, exclu&iacute;dos.</font></p>     <p><font size="3"> E, enfim, uma palavra sobre relatos de enormes produtividades,    chegando a 300 toneladas de colmos <i>in natura</i>/ha x ano. Na maioria das    vezes trata-se de cultura dita de "jardinagem" em que a quantidade    de insola&ccedil;&atilde;o lateral pode suplantar aquela que incide na superf&iacute;cie    da cultura, ficando as correntes extrapola&ccedil;&otilde;es prejudicadas.</font></p>     <p><font size="3"> Em conclus&atilde;o, a busca da cana-energia deve ser avaliada    com muito cuidado antes que se realize um esfor&ccedil;o infrut&iacute;fero    de melhoria por maior produtividade, embora o advento da hidr&oacute;lise possa    proporcionar oportunidade para o desenvolvimento de novas esp&eacute;cies com    crescimento mais r&aacute;pido ou mais facilmente adapt&aacute;veis a condi&ccedil;&otilde;es    de solo e de clima diversos dos atuais que atuam na "matura&ccedil;&atilde;o"    da cana. Entretanto, do ponto de vista da produ&ccedil;&atilde;o de biomassa    podemos concluir que j&aacute; temos a cana-energia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Rog&eacute;rio Cezar de Cerqueira Leite</b> &eacute; professor    em&eacute;rito da Unicamp, presidente do Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o    da ABTLuS, Ordem Nacional do M&eacute;rito da Fran&ccedil;a, pesquisador em&eacute;rito    do CNPq, membro do Conselho Editorial do Jornal Folha de S&atilde;o Paulo, Membro    do Conselho Nacional de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> <i>Dispon&iacute;veis na vers&atilde;o online do artigo em:    <a href="http://cienciaecultura.bvs.br">http://cienciaecultura.bvs.br</a></i></font><!-- ref --><p><font size="3">1. Monteith, J. L. "Solar radiation and productivity in    tropical ecosystems". <i>J. Appl. Ecol.</i>, vol. 9, pp. 747-766, 1972.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 2. Monteith, J. L. In: Eastin J. D. <i>Physiological aspects    a crop yield</i>. American Society of Agronomy, pp. 89-109, 1970.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 3. Muchow, R.C.; Spillman, M.F.; Woor, A.W.; Thomas, M.R. Aust.    "Radiation interception and biomass accumulation in a sugarcane crop grown    under irrigated tropical conditions". <i>J. Agric. Res.</i> vol. 45, pp.    37-49, 1994.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 4. Muchow, R.C. et al " Yield accumulation in irrigated    sugarcane: II. Utilization of intercepted radiation". <i>Ag. J.</i> vol.    89, pp. 646, 1997.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 5. Robertson, M.J.; Wood, A.W.; Muchow, R.C. "Growth    of sugarcane under high input conditions in tropical Australia. I. Radiation    use, biomass accumulation and partitioning". <i>Field Crops Research</i>,    v.48, p.11-25, 1996. </font><!-- ref --><p><font size="3"> 6. Shinano, T.; Osaki, M.; Tadano, T. "Comparison of    production efficiency among field crops related to nitrogen nutrition and application".    <i>Plant Soil</i>, pp. 155-156 / 207-210, 1993.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 7. Lee, H.; Cheng, Y.C.; Fleming, G.R. "Coherence dynamics    in photosynthesis: protein protection of excitonic coherence". <i>Science</i>    – vol. 316, pp. 1462, 2007.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 8. Parson, W.W. "Long live electronic coherence!"    <i>Science</i>, vol. 316, pp. 1438, 2007. </font> ]]></body><back>
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