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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n3/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>BIOCOMBUST&Iacute;VEIS, UMA POL&Ecirc;MICA    DO DESENVOLVIMENTO SOCIOECON&Ocirc;MICO</b> </font></p>     <p align="center"><font size="3"> <b>Marcelo Micke Doti    <br>   Sinclair Mallet Guy Guerra</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>UM TEMA, UMA POL&Ecirc;MICA DE CLASSE</b> Os biocombust&iacute;veis,    em especial o biodiesel, s&atilde;o pol&iacute;ticas p&uacute;blicas j&aacute;    postas &agrave; sociedade. Dir-se-ia implantadas. Mais que isso: ligadas diretamente    &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. Logo, n&atilde;o se trata de    qualquer pol&iacute;tica, mas projeto de governo. A seriedade disso &eacute;    mais que clara. Muitas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas s&atilde;o implantadas.    Decretos, legisla&ccedil;&otilde;es, portarias, etc. Tudo isso &eacute; o cotidiano    e a forma de lidar de maneira oficial com sociedades complexas como &eacute;    a sociedade capitalista, industrial e urbana, caso da brasileira. Dessa maneira,    o cotidiano de um Estado passa por todos esses instrumentos legais como sua    maneira pr&oacute;pria de existir, sua raz&atilde;o de ser. Por&eacute;m, no    emaranhado de todo esse verdadeiro "imp&eacute;rio legal" algumas    quest&otilde;es deixam de ser apenas o cotidiano. Tornam-se pol&iacute;ticas    p&uacute;blicas que, mais que a raz&atilde;o de ser do Estado em seu fazer di&aacute;rio,    assumem um novo patamar.</font></p>     <p><font size="3"> A defini&ccedil;&atilde;o de um projeto pol&iacute;tico &eacute;    ampla e complexa. N&atilde;o deixa de ser, entretanto, importante pelo fato    de demonstrar as orienta&ccedil;&otilde;es de determinado grupo ou elite pol&iacute;tica    em posse das atribui&ccedil;&otilde;es de Estado. &Eacute; o governo que ir&aacute;    implantar seu <i>modus operandi</i> social, econ&ocirc;mico e ideol&oacute;gico.    A reprodu&ccedil;&atilde;o social dentro de determinada maneira de produzir    a materialidade econ&ocirc;mica estar&aacute; assim sendo estimulada e ampliada    ou destru&iacute;da e retardada pelas a&ccedil;&otilde;es governamentais de    posse dos instrumentos e atribui&ccedil;&otilde;es legais que o Estado lhe garante.    O rumo que essas iniciativas tomam configura um projeto pol&iacute;tico. Por&eacute;m,    qualquer sociedade &eacute; formada por classes sociais. O Estado &eacute; parte    dessa sociedade e da estrutura de classes presente. Logo, quase como um silogismo,    &eacute; imposs&iacute;vel um projeto pol&iacute;tico sem conte&uacute;do de    classe. Pelo fato dos biocombust&iacute;veis – e o caso espec&iacute;fico    do biodiesel – serem assumidos diretamente pela Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica,    atrav&eacute;s de sua Casa Civil, pode-se considerar parte do projeto pol&iacute;tico.    N&atilde;o &eacute; o projeto em si. &Eacute; manifesta&ccedil;&atilde;o. Revela    o conte&uacute;do mais profundo. &Eacute; a apar&ecirc;ncia que todo cientista    deve investigar para desvelar sua ess&ecirc;ncia. Sem isso n&atilde;o se entende    a sociedade na qual se vive e seus rumos. Rumos sempre de classe. &Eacute; o    que se pretende esbo&ccedil;ar abaixo para depois obter a confirma&ccedil;&atilde;o    a partir dos dados oficiais. Percebe-se, ent&atilde;o, que &eacute; necess&aacute;ria    uma perspectiva mais ampla. </font></p>     <p><font size="3"><b>OS INTERESSES NO BIOCOMBUST&Iacute;VEL</b> Antes de se desenvolver    coment&aacute;rios sobre os biocombust&iacute;veis, os rumos oficiais que direcionam    o projeto de diversifica&ccedil;&atilde;o da matriz energ&eacute;tica (1), &eacute;    preciso uma an&aacute;lise sobre interesses. Como referido acima, somente uma    an&aacute;lise que constate os interesses de classe envolvidos em um governo    enquanto detentor dos meios legais de se fazer social – ter os instrumentos    de Estado – &eacute; que pode esclarecer os m&oacute;veis da a&ccedil;&atilde;o    social. Inexiste a&ccedil;&atilde;o social, presen&ccedil;a de fatos na sociedade    – em especial, &eacute; claro, quando se trata de uma m&aacute;quina administrativa    como a do Estado, com destaque para o brasileiro e sua atua&ccedil;&atilde;o    econ&ocirc;mica sempre presente – sem que uma determina&ccedil;&atilde;o    seja seu m&oacute;vel. Toda a&ccedil;&atilde;o social tem uma determina&ccedil;&atilde;o    (2) como seu fator de movimenta&ccedil;&atilde;o. Esta sempre ser&aacute; de    classe. Por este motivo &eacute; que se deve proceder ao que existe de m&oacute;vel    classista no projeto pol&iacute;tico do governo atual. A partir dessa amplitude    anal&iacute;tica &eacute; que se poder&aacute; entender de forma precisa, determinada,    o que existe atuando como m&oacute;vel do projeto de governo e sua rela&ccedil;&atilde;o    com o biodiesel – e genericamente os biocombust&iacute;veis.</font></p>     <p><font size="3"><b>A DETERMINA&Ccedil;&Atilde;O DE CLASSE</b> Para estabelecer    com precis&atilde;o o envolvimento de classes existente no projeto pol&iacute;tico    que emana do atual governo e como os biocombust&iacute;veis est&atilde;o presentes    naquele, basta que se atente para a realidade em suas determina&ccedil;&otilde;es    mais factuais. Seria poss&iacute;vel falar em determina&ccedil;&otilde;es prim&aacute;rias,    aquelas mais pr&oacute;ximas do dia-a-dia dos fatos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Neste caso &eacute; interessante lembrar uma ilustrativa passagem    de Ren&eacute; Dreifuss em seu livro <i>O jogo da direita</i>. Ali ele fala    das possibilidades de desvelar atos e projetos pol&iacute;ticos atrav&eacute;s    da leitura atenta dos jornais. Claro que para isso torna-se necess&aacute;ria    uma concep&ccedil;&atilde;o de totalidade amplamente determinada e estruturada    dos elos e cadeias dos eventos. Um fato se junta ao outro e pode constituir    essa totalidade. </font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Seria realmente indispens&aacute;vel recolher documentos      sigilosos, ouvir fontes exclusivas, manter encontros discretos e pesquisa      em arquivos reservados, para desvendar o acontecer pol&iacute;tico?    <br>     (...)    <br>     Na verdade, nenhum de n&oacute;s se sentia atra&iacute;do pelo que logo foi      batizado de "mito do ba&uacute;". Naquela &eacute;poca, uma direita      remo&ccedil;ada emergia com a Nova Rep&uacute;blica, com um modelo rec&eacute;m-testado      de fazer pol&iacute;tica. Seus l&iacute;deres haviam trocado os bastidores      pelo centro do palco, alguns at&eacute; com estrelas do jogo pol&iacute;tico.      De membros discretos de institutos (...) capazes de atuar na penumbra (...)      os homens da ind&uacute;stria haviam se transformado em protagonistas da disputa      (...) E ao leitor comum, antes desavisado, agora cabia apenas um tanto de      persist&ecirc;ncia e observa&ccedil;&atilde;o. Era s&oacute; aprender a ler      o jornal, cruzar as informa&ccedil;&otilde;es e desenrolar o novelo. L&aacute;      estava a trajet&oacute;ria completa da elite brasileira, em sua nova briga      pela dire&ccedil;&atilde;o da empresa no Brasil.    <br>     J&aacute; n&atilde;o se via muito segredo. E eu, de certa forma, andava reagindo      &agrave; id&eacute;ia de que, atr&aacute;s da informa&ccedil;&atilde;o e da      an&aacute;lise, sempre haveria uma fonte oculta e um detalhe n&atilde;o revelado.      O mundo acad&ecirc;mico, em sua grande maioria, sempre pesquisara em segunda      m&atilde;o, aproveitando o trabalho de campo dos jornalistas – tanto      dos que assinam suas mat&eacute;rias, quanto dos an&ocirc;nimos rep&oacute;rteres      e redatores. S&atilde;o eles os verdadeiros analistas do dia-a-dia, que fu&ccedil;am,      questionam e servem, de bandeja – como verdadeiros assistentes de pesquisa      – a mat&eacute;ria-prima aos pensadores de gabinete.     <br>     Nada demais. O problema, no caso, era levar o leitor comum ao h&aacute;bito      de tamb&eacute;m ele juntar as notas, analisar e refletir. Afinal de contas,      j&aacute; n&atilde;o viv&iacute;amos sob o tac&atilde;o da censura. A imprensa      chamada "burguesa" – diversificada e competitiva –      fornecia uma larga colcha de not&iacute;cias, suficientemente conflitivas      para agu&ccedil;ar a nossa capacidade de tirar conclus&otilde;es</i> (3).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A passagem &eacute; ilustrativa sobre o fato de que &eacute;    poss&iacute;vel entender as determina&ccedil;&otilde;es do real, aquilo que    o movimenta, as determina&ccedil;&otilde;es de classe sem recorrer ao "mito    do ba&uacute;" (4). N&atilde;o s&atilde;o necess&aacute;rias as fontes    secretas. Boa leitura e posteriormente o entrosamento certo dos fatos podem    nos revelar os supostos enigmas dos projetos pol&iacute;ticos. Para o entrosamento    dos fatos ou sua articula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel    o mero fluir pela imers&atilde;o simples irracional na realidade das not&iacute;cias.    Isso seria apenas deixar-se levar pela realidade e n&atilde;o "arrancar-lhe"    a raiz para desvendar as estruturas sociais. Cabe aqui lembrar que:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>&Eacute;, sem d&uacute;vida, necess&aacute;rio distinguir      o m&eacute;todo de exposi&ccedil;&atilde;o formalmente, do m&eacute;todo de      pesquisa. A pesquisa tem de captar detalhadamente a mat&eacute;ria, analisar      as suas v&aacute;rias formas de evolu&ccedil;&atilde;o e rastrear sua conex&atilde;o      &iacute;ntima. S&oacute; depois de conclu&iacute;do esse trabalho &eacute;      que se pode expor adequadamente o movimento real. Caso se consiga isso, e      espelhada idealmente agora a vida da mat&eacute;ria, talvez possa parecer      que se esteja tratando de uma constru&ccedil;&atilde;o a priori </i>(5).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os detalhes s&atilde;o pass&iacute;veis de serem captados, em    nosso caso, nas not&iacute;cias, nos eventos, nas falas e discursos pol&iacute;ticos,    em atos simb&oacute;licos ou falas simb&oacute;licas (o Brasil como a "Ar&aacute;bia    Saudita verde do futuro"). Somente a articula&ccedil;&atilde;o de tudo    isso &eacute; que constituir&aacute; a totalidade. Trata-se, claro, de uma totalidade    pensada, elevada &agrave; consci&ecirc;ncia pelo racioc&iacute;nio. &Eacute;    o concreto pensado, mas que procura seguir de perto o fluxo do real. Neste caso,    o maior presente para um cientista das humanidades seria tentar desvelar eventos    futuros. Assim &eacute; que a an&aacute;lise dos biocombust&iacute;veis deve    ser – assim julgam os autores – algo al&eacute;m da an&aacute;lise    pontual, fact&iacute;vel apenas. Esta se revela apenas dentro da totalidade    e o projeto pol&iacute;tico, social e econ&ocirc;mico que traz o atual governo.    E n&atilde;o se trata de mero projeto, mas sim uma concep&ccedil;&atilde;o de    na&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento, que &eacute; o mais significativo.</font></p>     <p><font size="3"> Assim, qual seria o enigma do governo atual? Para muitos de    n&oacute;s, criaturas simples, esperan&ccedil;osas, sempre &aacute;vidas de    um projeto que seja o nacionalismo das for&ccedil;as populares, n&atilde;o o    nacionalismo pr&oacute;prio ao mundo burgu&ecirc;s, o governo atual poderia    ser um enigma. Talvez nem tanto. A verdade &eacute; que se sabia para onde ia.    A verdade, j&aacute; em 2002, n&atilde;o nos enganava. As esperan&ccedil;as,    no entanto sempre foram dos tra&ccedil;os mais fortes de n&oacute;s brasileiros.    Mesmo como intelectuais e assumindo uma vis&atilde;o que seja ou que se queira    mais singularizada, mais matizada da realidade, nada nos afasta de esperan&ccedil;as.    Duro golpe dado? N&atilde;o. Apenas engano de uma avalia&ccedil;&atilde;o muito    mal feita.</font></p>     <p><font size="3"> O trecho abaixo p&otilde;e &agrave;s claras uma compara&ccedil;&atilde;o    entre os projetos governamentais do atual governo e do que o antecedeu:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>O debate dos projetos est&aacute; rebaixado a tal ponto      que o "enfrentamento" entre o governo Lula e seus cr&iacute;ticos      tucanos se restringe apenas a discutir quem &eacute; o melhor gerente. O governo      petista garantiu um pre&ccedil;o nos ped&aacute;gios mais barato – negociou      valores de at&eacute; R$ 0,02 centavos por quil&ocirc;metro para as rodovias</i>      (6).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Exatamente. &Eacute; isso e sempre foi. Um artigo como o acima,    falando da privatiza&ccedil;&atilde;o das rodovias, p&otilde;e em evid&ecirc;ncia    o projeto pol&iacute;tico atual. O ponto anal&iacute;tico &eacute; aqui simples.    N&atilde;o s&atilde;o necess&aacute;rias an&aacute;lises profundas de bastidores    pol&iacute;ticos, como referidos na concep&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica    de Dreifuss. Os atos feitos e praticados, decis&otilde;es tomadas, pol&iacute;tica    econ&ocirc;mica, revelam a ideologia e, por meio desta, a vis&atilde;o de sociedade    e do que se pode esperar quanto ao desenvolvimento econ&ocirc;mico. E sem d&uacute;vida,    o principal: que tipo ou qual desenvolvimento econ&ocirc;mico. </font></p>     <p><font size="3"> Ainda sobre isso, para se esclarecer com toda for&ccedil;a    da propriedade dos atos econ&ocirc;micos reveladores das posturas socioecon&ocirc;micas    mais um trecho do mesmo artigo pode ser n&atilde;o simplesmente esclarecedor,    mas pedag&oacute;gico:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>&Eacute; verdade que o governo Lula preconiza um Estado      forte. Mas a pergunta &eacute;: um Estado forte para quem? A privatiza&ccedil;&atilde;o      das rodovias e o investimento financiado pelo banco p&uacute;blico repetem      a l&oacute;gica das Parcerias P&uacute;blico Privada (PPPs), defendidas tanto      pelo PT como pelo PSDB. O Estado se colocando como um financiador e garantidor      dos neg&oacute;cios privados. Um eficiente gestor dos projetos capitalistas</i>      (7).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Claro como qualquer cristal. O Estado como gestor do capitalismo,    fomentador da economia e seu organizador. Discurso popular (n&atilde;o <i>populista</i>)    que procura falar &agrave;queles que vir&atilde;o a ser os novos universit&aacute;rios,    ser&atilde;o os novos consumidores, enfim &agrave;queles que tamb&eacute;m t&ecirc;m    o direito de "comer macarr&atilde;o com frango no domingo" (8).    Uma sociedade de consumidores felizes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Entre o discurso e a realidade o que se v&ecirc; &eacute; algo    muito diferente. Um discurso sincero sim que procura o capitalismo organizado.    P&ocirc;r ordem na irracionalidade do capital elevando o padr&atilde;o de vida    da sociedade dentro do capital. O problema &eacute; esse, entretanto, ou seja,    a contradi&ccedil;&atilde;o. Tentar controlar um capitalismo que &eacute; formado    pelo monop&oacute;lio e ao mesmo tempo distribuir renda. Todas s&atilde;o pol&iacute;ticas    econ&ocirc;micas e sociais que n&atilde;o avan&ccedil;am um mil&iacute;metro    em propostas que tentem o controle social do capital. Pode ser do Estado o controle.    Mas o Estado est&aacute; profundamente articulado aos monop&oacute;lios. Envernizam    o privatismo (9) neoconservador com pol&iacute;ticas sociais amplas (em n&uacute;mero),    pouco efetivas (ou nada) no que se refere a formas de desenvolvimento socioecon&ocirc;mico    de controle dos meios de produ&ccedil;&atilde;o ou, dentro da l&oacute;gica    destrutiva do capital, com pol&iacute;ticas de desenvolvimento que ao menos    se sustentem socialmente, reproduzam as condi&ccedil;&otilde;es de vida alcan&ccedil;adas.    </font></p>     <p><font size="3"> Neste ponto &eacute; que se deve perceber uma l&oacute;gica    que age em dire&ccedil;&atilde;o a uma sociedade de valores e cultura de classe    m&eacute;dia, mas cujas medidas econ&ocirc;micas reproduzem o grande capital.    Por meio desse simples ato de ceder &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o (10)    temos tamb&eacute;m a clareza da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica e o desenvolvimento    interno da luta de classes. A tomada de decis&atilde;o do Estado com suas pol&iacute;ticas    p&uacute;blicas deixa claro quem ele privilegia dentro da estrutura de classes.    Isso produz efeitos na reprodu&ccedil;&atilde;o social, pois econ&ocirc;mica,    das classes. Com atos desse n&iacute;vel somados a tantos outros (11) v&ecirc;-se    a postura de classe do Estado, seu papel de agente reprodutor dos interesses    do capital monopolista, internacional e associado. Ainda que existam atritos    entre o Estado e este mesmo capital por conta de quest&otilde;es como tributa&ccedil;&atilde;o    e a taxa de juros (12) e outras quest&otilde;es de detalhes, os &uacute;ltimos    governos, de posse dos meios e instrumentos de poder, reproduzem as condi&ccedil;&otilde;es    econ&ocirc;micas de determinado interesse de classe. Isso o p&otilde;e, ent&atilde;o,    dentro de perfil muito bem delineado tamb&eacute;m de classe.</font></p>     <p><font size="3"><b>A MEDIA&Ccedil;&Atilde;O DO ESTADO</b> Apenas como interesse    metodol&oacute;gico, te&oacute;rico e hist&oacute;rico, mas instigante, a leitura    do livro de Perissinotto sobre o capital cafeeiro e o Estado coloca esta quest&atilde;o:    n&atilde;o existe <i>reflexo direto</i> do poder econ&ocirc;mico de classe sobre    o Estado (13). Media&ccedil;&otilde;es s&atilde;o necess&aacute;rias e o Estado    se apresenta assim de acordo com suas posturas pr&oacute;prias dentro de sua    forma espec&iacute;fica de reprodu&ccedil;&atilde;o de poder pol&iacute;tico.    No caso do governo atual o que se pretende &eacute; impingir seu modo de reprodu&ccedil;&atilde;o    da economia, regular o irracional. N&atilde;o deixar que a total e esquizofr&ecirc;nica    forma espec&iacute;fica de destrui&ccedil;&atilde;o voraz do capital monopolista    se assenhoreie de todos os nichos da economia. Processo bastante diferente do    projeto liberal neoconservador; a infernal farra de importa&ccedil;&otilde;es    com c&acirc;mbio supervalorizado e com a "privataria" correndo solta.    A fun&ccedil;&atilde;o deste governo e seu a&ccedil;ambarcamento do Estado foi    colocar ordem no caos irracional. Manter, no entanto, na mesma ordem a reprodu&ccedil;&atilde;o    do capital monopolista. Com pol&iacute;ticas sociais produtoras de parcas esmolas    e dentro da distribui&ccedil;&atilde;o de renda como discurso. Por sinal distribui&ccedil;&atilde;o    p&eacute;ssima. </font></p>     <p><font size="3"> Sendo assim, uma das formas de definir conceitualmente as classes    como forma pela qual os poderes p&uacute;blicos interferem e contribuem para    a reprodu&ccedil;&atilde;o de determinada estrutura social, neste caso o governo    atual tem seu projeto assentado sobre a reprodu&ccedil;&atilde;o do capital    monopolista. O ponto te&oacute;rico aqui interessante &eacute; que a defini&ccedil;&atilde;o    de classe s&oacute; ocorre atrav&eacute;s de interpreta&ccedil;&otilde;es dos    eventos hist&oacute;ricos. O conhecimento e o conceito chegam atrasados. Captam    a exist&ecirc;ncia das classes como organiza&ccedil;&atilde;o e determina&ccedil;&atilde;o    dos fatos a serem articulados mentalmente. A sociedade &eacute; em sua apar&ecirc;ncia    o caos cotidiano. As classes sociais s&atilde;o determina&ccedil;&otilde;es    econ&ocirc;micas, mas que s&oacute; se tornam claras atrav&eacute;s de muitas    outras determina&ccedil;&otilde;es: sindicatos patronais ou de trabalhadores,    associa&ccedil;&otilde;es de classe, ideologia, revistas, intelectuais org&acirc;nicos    que estimulam a classe a pensar sobre si e chegar ao seu para si, etc. A forma    como o Estado atua &eacute; outra forma de definir a classe hegem&ocirc;nica    e seu poder. Sua maneira de atuar reflete, com media&ccedil;&otilde;es as mais    complexas, o jogo entre classes e elites pol&iacute;ticas, mas n&atilde;o deixa    de se revelar em sua espec&iacute;fica forma classista. Por este motivo &eacute;    que os atos de Estado na forma de pol&iacute;ticas – como as pol&iacute;ticas    econ&ocirc;mica, energ&eacute;tica, de transportes, etc. – definem quem    "hegemoniza" o mesmo e delineia tamb&eacute;m a compreens&atilde;o    das classes que se reproduzem com suas medidas econ&ocirc;micas e administrativas.    Trata-se de uma a&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica com o lado econ&ocirc;mico    e social, pr&aacute;xis imediata, na forma da reprodu&ccedil;&atilde;o da classe    e ao mesmo tempo cogni&ccedil;&atilde;o, compreens&atilde;o intelectual e delineamento    dos interesses e classes hegem&ocirc;nicas.</font></p>     <p><font size="3"> O "comer frango com macarr&atilde;o" pode configurar    um sonho "mediano" de classe. &Eacute; o sonho de uma sociedade    de consumidores satisfeitos em sua exist&ecirc;ncia privada e privatista, beneficiando-se    dos poucos recursos econ&ocirc;micos dispon&iacute;veis, dos parcos excedentes    gerados e a elas – classes famintas de eletrodom&eacute;sticos –    distribu&iacute;dos. Mas isto n&atilde;o configura a posse do poder e da condu&ccedil;&atilde;o    do poder estatal por essas classes. A reprodu&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica    e social n&atilde;o leva essas classes &agrave; prioridade na condu&ccedil;&atilde;o    do Estado. Em outros termos, essas classes teriam poder de condu&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica na medida em que tivessem a hegemonia das    pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, das pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas como    forma de demonstrar os interesses aos quais o Estado atende como anteriormente    definido. O que se tem s&atilde;o formas pelas quais o Estado assumiu a postura    de inst&acirc;ncia privilegiada de "comandante" da reprodu&ccedil;&atilde;o    do capital monopolista internacional e associado &agrave; alta burguesia do    Brasil (jamais nacional ou brasileira). Ao longo do per&iacute;odo conduziu-se    a pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas sempre beneficiando o Estado. A pequena    burguesia apenas seguiu seu caminho atrelado aos mesmos interesses <i>subordinados</i>.    Fique bem esclarecido este ponto. Desde que os interesses das classes m&eacute;dias    e pequena burguesia n&atilde;o desafiassem ou entrassem em contradi&ccedil;&atilde;o    com o monop&oacute;lio econ&ocirc;mico do dom&iacute;nio do grande capital,    e seus interesses pr&oacute;prios capitaneados pelo Estado, &eacute; que se    poderia falar em seus interesses atendidos. Por isso <i>subordinados</i>. O    crescimento da economia, o desenvolvimento econ&ocirc;mico produziu concentra&ccedil;&atilde;o    e centraliza&ccedil;&atilde;o de capitais. Estes tinham que inevitavelmente    produzir classes de gerenciadores, trabalhadores mais qualificados e tamb&eacute;m    pequenos burgueses em uma sociedade mais complexa. Estas, ent&atilde;o, ficavam    com alguns poucos louros do crescimento. A massa trabalhadora tinha emprego.    &Agrave;s vezes tinha servi&ccedil;o. Algumas vezes comida. Nunca autonomia    e recursos. O crescimento do crime organizado est&aacute; aqui e sua import&acirc;ncia    como forma de diluir reivindica&ccedil;&otilde;es, dispersar ideologias tamb&eacute;m.    Bom para os poderes p&uacute;blicos. Para a reprodu&ccedil;&atilde;o do grande    capital tamb&eacute;m. Para as classes m&eacute;dias e a pequena burguesia um    horror.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n3/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> Por todos estes argumentos &eacute; que se pode definir o projeto    pol&iacute;tico atual como tentativa de ordem no capital monopolista irracional,    com controles definidos e mais bem delineados das privatiza&ccedil;&otilde;es,    com ordem econ&ocirc;mica do crescimento, centralizando riquezas, ado&ccedil;ando    os lucros dos monop&oacute;lios. Doura-se a p&iacute;lula com bosquejos sociais    e com figuras populares e carism&aacute;ticas. Isso &eacute; o que confere a    todas as quest&otilde;es acima um "enigma". Basta verificar o crescimento    econ&ocirc;mico dos &uacute;ltimos anos e a proje&ccedil;&atilde;o para este.    Um projeto de ordena&ccedil;&atilde;o do capitalismo, mas resvalando alguns    vint&eacute;ns para as classes m&eacute;dias, algumas oportunidades de neg&oacute;cios    para a pequena burguesia, perifericamente esmolas sociais e do resto o capit&atilde;o    Nascimento (14) deve cuidar.</font></p>     <p><font size="3"> Foi proposta uma hip&oacute;tese. &Eacute; poss&iacute;vel    observar por artigos dos jornais, na enorme gal&aacute;xia de informa&ccedil;&otilde;es    que nos &eacute; disposta, os delineamentos espec&iacute;ficos que configuram    e d&atilde;o forma &agrave; referida reprodu&ccedil;&atilde;o de interesses    monop&oacute;licos. Entre eles os setores de produ&ccedil;&atilde;o de energia    (15). Como tamb&eacute;m referido, isso s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel atrav&eacute;s    da an&aacute;lise de uma totalidade estruturada. Assim &eacute; poss&iacute;vel    mais uma evid&ecirc;ncia do sonho de consumo atrav&eacute;s da seguinte inser&ccedil;&atilde;o:    "consumo das fam&iacute;lias puxa resultado" (16). No entanto, o    lucro de v&aacute;rias atividades, principalmente do setor financeiro, dos bancos    sobe (17). Assim ocorre que os parcos programas sociais formam uma camada assistida    e destr&oacute;i a&ccedil;&otilde;es de movimentos sociais como o dos trabalhadores    rurais sem-terra (MST) (18). Na avalia&ccedil;&atilde;o da comiss&atilde;o interministerial    sobre o biodiesel, em linha alguma das quinze p&aacute;ginas se fala de reforma    agr&aacute;ria. Mas os programas sociais cumprem seu papel de desarticular um    dos poucos movimentos sociais de crescimento no Brasil. Como bem avalia um dos    integrantes da reportagem citada, um agricultor de 54 anos: "O tucano    criava um monte de dificuldade, fez medida provis&oacute;ria para criminalizar    o movimento. O Lula conseguiu com esse Bolsa Fam&iacute;lia o que o Fernando    Henrique tentou, tentou e n&atilde;o conseguiu, que &eacute; deixar as pessoas    fora das ocupa&ccedil;&otilde;es" (19). Ao avaliar os biocombust&iacute;veis    pouco destaque se tem dado justamente ao aspecto aqui referido: o monop&oacute;lio.    Em outros termos, nenhuma fonte renov&aacute;vel e alternativa ser&aacute; posta    no mercado a n&atilde;o ser que esteja devidamente monopolizada. A produ&ccedil;&atilde;o    energ&eacute;tica &eacute;, junto com o trabalho, a raiz da produ&ccedil;&atilde;o    do valor. No capitalismo a democratiza&ccedil;&atilde;o daquela seria a destrui&ccedil;&atilde;o    do monop&oacute;lio e do pr&oacute;prio capitalismo (20).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Posta a quest&atilde;o assim em seus aspectos de desenvolvimento    econ&ocirc;mico dentro do padr&atilde;o monopolizado do capitalismo, o governo    atual e sua pol&iacute;tica energ&eacute;tica ficam evidenciados. Isso vale    tamb&eacute;m para o biodiesel. Logo o exposto at&eacute; aqui foi apenas a    sombra do le&atilde;o do capital monopolizador. Esta &eacute; a caracter&iacute;stica    do projeto pol&iacute;tico: manter o padr&atilde;o de acumula&ccedil;&atilde;o    com parcos recursos distribu&iacute;dos &agrave; sociedade. A hip&oacute;tese    &eacute; que isso tamb&eacute;m se coloca para o biodiesel.</font></p>     <p><font size="3"><b>AN&Aacute;LISE DOS EVENTOS E DO DOCUMENTO DA COMISS&Atilde;O    INTERMINISTERIAL</b> Em 2 de julho de 2003 o governo federal emitiu decreto    que instituiu o grupo de trabalho para avaliar a viabilidade do uso de biodiesel    como fonte de energia renov&aacute;vel e que pudesse al&ccedil;ar patamares    de programa federal de desenvolvimento. No dia 23 de dezembro do mesmo ano institui-se    o decreto pelo qual uma comiss&atilde;o executiva interministerial estaria encarregada    da implementa&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es direcionadas &agrave;    produ&ccedil;&atilde;o e ao uso do biodiesel no Brasil. Em 13 de janeiro de    2005 o governo federal promulgava a Lei do Biodiesel (21). A lei fixa percentuais    m&iacute;nimos obrigat&oacute;rios para a adi&ccedil;&atilde;o de biodiesel    ao &oacute;leo diesel comercializado aos consumidores finais. Este percentual    m&iacute;nimo dever&aacute; ser de 2,0% de 2008 a 2012 at&eacute; atingir 5,0%    em 2013.</font></p>     <p><font size="3"> Entre as datas limites acima colocadas foi institu&iacute;do    um grupo encarregado de avaliar as potencialidades, impactos ambientais, fator    de desenvolvimento, gera&ccedil;&atilde;o de renda, etc do programa do biodiesel.    Trata-se de um grupo interministerial de estudos para avaliar todas essas quest&otilde;es.    A import&acirc;ncia do programa para o governo federal reside em dois fatos    que se pode interpretar no emaranhado at&eacute; aqui apresentado: um estudo    feito por doze minist&eacute;rios e coordenado pela Casa Civil. Logo &eacute;    poss&iacute;vel verificar a import&acirc;ncia central do programa para o governo    federal. Em outros termos, n&atilde;o &eacute; mais uma portaria, decreto, etc    do cotidiano administrativo como referido anteriormente. Trata-se de uma dos    programas centrais, pilares do projeto pol&iacute;tico atual. N&atilde;o se    est&aacute;, ent&atilde;o, navegando em qualquer mar, mas em quest&otilde;es    de grande porte. Oceanos pol&iacute;ticos. Dentro dessa perspectiva seria poss&iacute;vel,    atrav&eacute;s desse programa, confirmar as hip&oacute;teses acima relevadas.    Caso o resultado seja positivo pode-se dizer que dois objetivos foram cumpridos:    a avalia&ccedil;&atilde;o do governo e seu projeto pol&iacute;tico e o programa    do biodiesel. No caso deste, seu lugar de destaque naquele.</font></p>     <p><font size="3"> Para isso, o recurso foi um documento que se julgou muito oportuno.    Trata-se do "Relat&oacute;rio Final do Grupo de Trabalho Interministerial    Encarregado de Apresentar Estudos sobre a Viabilidade de Utiliza&ccedil;&atilde;o    de &Oacute;leo Vegetal – Biodiesel como Fonte Alternativa de Energia"    (22). A interpreta&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias passagens deste documento    torna poss&iacute;vel entender quest&otilde;es do escopo do programa posto dentro    do projeto pol&iacute;tico referido. Pode-se idealizar como um programa energ&eacute;tico    e sua fun&ccedil;&atilde;o dentro do projeto inclusive na imagem de um conjunto    no qual o primeiro est&aacute; contido no segundo. O Relat&oacute;rio que ora    ser&aacute; analisado para evidenciar o grupo de conceitos e determina&ccedil;&otilde;es    anteriormente expostas para formar a totalidade que se pretende &eacute; datado    de 4 de dezembro de 2003, portanto, praticamente intermedi&aacute;rio entre    as datas acima limites.</font></p>     <p><font size="3"> Logo em suas primeiras p&aacute;ginas &eacute; colocado o escopo    do Relat&oacute;rio:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Os artigos 1º e 4º do Decreto Presidencial, de 2 de julho      de 2003, disp&otilde;em:    <br>     Art. 1º Fica institu&iacute;do o Grupo de Trabalho      Interministerial encarregado de apresentar estudos sobre a viabilidade de      utiliza&ccedil;&atilde;o de &oacute;leo vegetal – biodiesel como fonte alternativa      de energia, propondo, caso necess&aacute;rio, as a&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias      para o uso do biodiesel.    <br>     Art. 4º O Grupo de Trabalho, no prazo de noventa dias, a contar da data de      designa&ccedil;&atilde;o de seus membros, elaborar&aacute; e encaminhar&aacute;      para aprecia&ccedil;&atilde;o da C&acirc;mara de Pol&iacute;ticas de Infra-Estrutura,      do Conselho de Governo, relat&oacute;rio t&eacute;cnico sobre a viabilidade      de utiliza&ccedil;&atilde;o de &oacute;leo vegetal – biodiesel como fonte      alternativa de energia, e, caso necess&aacute;rio, as recomenda&ccedil;&otilde;es      relativas &agrave;s a&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para o uso do biodiesel</i>      (23).</font></p>   </blockquote>     <p><font size="3">E prossegue:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="3"><i>Com base nesses dispositivos e nos entendimentos havidos      na primeira reuni&atilde;o do GTI, realizada em 8 de agosto de 2003, o objetivo-s&iacute;ntese      dos trabalhos, consubstanciado neste Relat&oacute;rio T&eacute;cnico, &eacute;      apresentar elementos de convic&ccedil;&atilde;o sobre a viabilidade da produ&ccedil;&atilde;o      e uso do biodiesel, no Brasil, como fonte de energia alternativa e renov&aacute;vel      complementar ou substituta ao diesel de origem f&oacute;ssil, levando em conta      os conhecimentos, dados e informa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis sobre      a mat&eacute;ria quanto &agrave;s vantagens, desvantagens, custos e benef&iacute;cios</i>      (24).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Dado o objetivo do mesmo, &eacute; f&aacute;cil verificar que    se trata de um instrumento t&eacute;cnico de pol&iacute;tica p&uacute;blica.    N&atilde;o qualquer instrumento, mas um estudo avaliado por 11 minist&eacute;rios    integrados sob a coordena&ccedil;&atilde;o da Casa Civil, consubstanciando 12    &oacute;rg&atilde;os do governo federal ligados diretamente ao presidente da    Rep&uacute;blica (25). Instrumento central, portanto, de uma pol&iacute;tica    p&uacute;blica que sintetiza parte n&atilde;o pequena de um projeto pol&iacute;tico    bastante espec&iacute;fico. E a hip&oacute;tese aqui levantada &eacute; que    essa pol&iacute;tica p&uacute;blica espec&iacute;fica na &aacute;rea energ&eacute;tica,    mais que exemplifica, revela a estrutura econ&ocirc;mica – e inevitavelmente    de classes – a qual o governo atual reproduz. Na seq&uuml;&ecirc;ncia    &eacute; citado o maior experimento e programa de biodiesel do mundo que &eacute;    o da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia (UE) (26). O que pode levar a acordos bilaterais    de com&eacute;rcio externo com a UE. </font></p>     <p><font size="3"> Posteriormente situa-se no Relat&oacute;rio a metodologia empregada    como sendo aquela que pode proporcionar uma amplitude maior para a avalia&ccedil;&atilde;o    do programa:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Dada a complexidade do assunto, buscou-se seguir metodologia      que proporcionasse, simultaneamente, o exame do maior conjunto poss&iacute;vel      de dados, informa&ccedil;&otilde;es e opini&otilde;es oriundas de estudos      e conhecimentos existentes sobre o biodiesel e a utiliza&ccedil;&atilde;o      desses resultados para a constru&ccedil;&atilde;o de um quadro de refer&ecirc;ncia      relevante para o encaminhamento dos trabalhos e a consecu&ccedil;&atilde;o      de seu objetivo-s&iacute;ntese</i> (27).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A partir daqui as quest&otilde;es ficam bem mais interessantes    no sentido de se fazer uma an&aacute;lise mais cr&iacute;tica e ao mesmo tempo    mostrar que o "maior conjunto poss&iacute;vel de dados, informa&ccedil;&otilde;es    e opini&otilde;es" n&atilde;o constitui uma totalidade anal&iacute;tica.    S&atilde;o, t&atilde;o somente, opini&otilde;es levantadas dentro de uma perspectiva    j&aacute; esbo&ccedil;ada por um determinado projeto pol&iacute;tico. &Eacute;    neste sentido, ent&atilde;o, que o Relat&oacute;rio consta da participa&ccedil;&atilde;o    de tantos &oacute;rg&atilde;os do governo federal, ou seja, para colocar o m&aacute;ximo    de "informa&ccedil;&otilde;es e opini&otilde;es". Estas &eacute;    que constituem suas finalidades dentro da metodologia. Esta, por sua vez, n&atilde;o    &eacute; t&atilde;o somente metodologia de trabalho, refletindo tamb&eacute;m    os interesses estruturais da economia:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Nesse sentido, optou-se por seguir duas rotas simult&acirc;neas      e complementares. Na primeira, foi realizado um ciclo de audi&ecirc;ncias      com representantes de entidades p&uacute;blicas e privadas que desenvolvem      estudos, pesquisas, testes e produ&ccedil;&atilde;o de biodiesel, dos produtores      rurais, das ind&uacute;strias automotiva, de &oacute;leos vegetais e sucroalcooleira,      da Ag&ecirc;ncia Nacional do Petr&oacute;leo e da Petrobras. Foram colhidos,      tamb&eacute;m, depoimentos de parlamentares envolvidos com o assunto, e de      especialistas vinculados &agrave;s entidades convidadas. Todas as audi&ecirc;ncias      foram realizadas na Casa Civil da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, com      a presen&ccedil;a de representantes titulares ou suplentes dos doze &oacute;rg&atilde;os      integrantes do GTI</i> (28).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Dir-se-ia mais interessante pelo que consta das entidades envolvidas.    Mais problem&aacute;tico sem d&uacute;vida uma vez que se n&atilde;o pode perceber    a&iacute; representa&ccedil;&otilde;es sociais mais amplas. Claro que o motivo    disso &eacute; duplo: a fraqueza organizacional hist&oacute;rica dos &oacute;rg&atilde;os    da sociedade civil, incluindo partidos pol&iacute;ticos, e o pr&oacute;prio    projeto do biodiesel como pol&iacute;tica p&uacute;blica de vi&eacute;s energ&eacute;tico    com objetivos amplos de reprodu&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Ainda neste sentido &eacute; poss&iacute;vel verificar o que    o Relat&oacute;rio cita como &oacute;rg&atilde;os de experi&ecirc;ncia acumulada    e que j&aacute; possuem o biodiesel em sua agenda:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Em n&iacute;vel de pesquisa e desenvolvimento, o biodiesel      j&aacute; integra a agenda de importantes entidades p&uacute;blicas e privadas,      como os Minist&eacute;rios da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia e de Minas e Energia,      institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa, a Ag&ecirc;ncia Nacional de Petr&oacute;leo,      a Embrapa e a Petrobras, al&eacute;m de iniciativas promovidas por diversos      Estados da Federa&ccedil;&atilde;o e por entidades como a Tecnologias Bioenerg&eacute;ticas      Ltda. (Tecbio), a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira da Ind&uacute;stria      de &Oacute;leos Vegetais (Abiove) e a Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional      da Agricultura (CNA), dentre outras.    <br>     A Coordena&ccedil;&atilde;o dos Programas de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o      de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - COPPE/UFRJ, em parceria      com o Instituto Virtual Internacional de Mudan&ccedil;as Globais - IVIG, desenvolve      um projeto de extra&ccedil;&atilde;o de biodiesel de &oacute;leo usado de      frituras, que vem sendo testado desde 2001 em um furg&atilde;o, com B100 (100%      biodiesel), com &oacute;timo resultado (300 mil km rodados sem defeitos),      embora ainda n&atilde;o homologado</i> (29).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Nada referente, portanto, a movimentos sociais ou formas de    organiza&ccedil;&atilde;o social que possam ter maior controle social sobre    a produ&ccedil;&atilde;o e a riqueza proporcionada pelo mesmo. Al&eacute;m disso,    ou seja, o controle social dessa riqueza por parte da sociedade, tamb&eacute;m    o controle ambiental. Nesses dois itens o Relat&oacute;rio se torna mais que    cristalino em suas coloca&ccedil;&otilde;es. Assim ser&aacute; necess&aacute;rio    especificar um de cada vez. Organiza&ccedil;&atilde;o do texto e tamb&eacute;m    da prova da hip&oacute;tese que aqui se vem tra&ccedil;ando constitui a inten&ccedil;&atilde;o.    Ap&oacute;s enumerar esses aspectos ser&aacute; poss&iacute;vel presenciar a    mistifica&ccedil;&atilde;o de desenvolvimento por tr&aacute;s da pol&iacute;tica    p&uacute;blica energ&eacute;tica que &eacute; o biodiesel.</font></p>     <p><font size="3"> No campo social e de produ&ccedil;&atilde;o da riqueza algumas    passagens do Relat&oacute;rio s&atilde;o significativas. De in&iacute;cio &eacute;    poss&iacute;vel destacar:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Sob os pontos de vista social e regional, a produ&ccedil;&atilde;o      de biodiesel promove a inclus&atilde;o social pela gera&ccedil;&atilde;o de      emprego e renda, tendo em vista que, embora com rendimentos vari&aacute;veis,      o biodiesel pode ser obtido a partir de diversas mat&eacute;rias-primas de      origem vegetal e animal, dispon&iacute;veis ou pass&iacute;veis de produ&ccedil;&atilde;o      nas diferentes regi&otilde;es do Brasil. Isso tamb&eacute;m contribui para      a inclus&atilde;o social ao permitir o suprimento de energia el&eacute;trica      para comunidades isoladas ainda n&atilde;o atendidas, mediante o uso do biodiesel      em motores estacion&aacute;rios – o que tamb&eacute;m pode ser feito      com o emprego do &oacute;leo vegetal in natura em motores devidamente adaptados      a essa finalidade</i> (30).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3"> Ainda que o motivo colado seja interessante no caso do fornecimento    de energia el&eacute;trica para comunidades isoladas – e isso &eacute;    fundamental e necess&aacute;rio – nada se fala sobre a <i>qualidade</i>    desses empregos. Ainda que se fale mais adiante da agricultura familiar, nada    &eacute; dito das formas sociais de desenvolvimento socioecon&ocirc;mico. N&atilde;o    se induz em nenhum momento a pensar no n&iacute;vel de empregos no sentido da    melhoria da distribui&ccedil;&atilde;o de renda (31) e do controle monopol&iacute;stico    nacional e internacional dos biocombust&iacute;veis (32).</font></p>     <p><font size="3"> Neste sentido, existem na p&aacute;gina 9 do Relat&oacute;rio    considera&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas sobre a gera&ccedil;&atilde;o de    emprego e de renda em vista de investimentos da agricultura familiar no biodiesel.    Dispensa-se toda a cita&ccedil;&atilde;o, mas fica claro e evidente por n&atilde;o    estarem contidas no mesmo, em nenhum momento, considera&ccedil;&otilde;es no    que tange &agrave; reforma agr&aacute;ria, a possibilidade de aumento da concentra&ccedil;&atilde;o    fundi&aacute;ria com a entrada maci&ccedil;a de capitais monopolistas nacionais    e internacionais do agroneg&oacute;cio e da produ&ccedil;&atilde;o de oleaginosas    e, como conseq&uuml;&ecirc;ncia, a concentra&ccedil;&atilde;o e centraliza&ccedil;&atilde;o    do capital e dos rumos do pr&oacute;prio desenvolvimento. Em outro sentido,    n&atilde;o se considera o custo do monop&oacute;lio aqui produzido. Exp&otilde;e-se    a gera&ccedil;&atilde;o de renda e emprego sem a devida <i>din&acirc;mica</i>    da situa&ccedil;&atilde;o e o que se poderia gerar de controle social da riqueza    e do ambiente em situa&ccedil;&atilde;o de nenhum monop&oacute;lio (33).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> A an&aacute;lise aqui proposta tem por fim aduzir aos impactos    ambientais propostos no Relat&oacute;rio feito pelo GTI. E, j&aacute; de in&iacute;cio,    &eacute; de destacar que apenas dois momentos s&atilde;o citados de modo favor&aacute;vel:    redu&ccedil;&atilde;o de poluentes causadores do efeito estufa e a possibilidade    de utilizar &aacute;reas desmatadas para a produ&ccedil;&atilde;o de oleaginosas    e, com isso, incrementar o mercado de carbono por meio dos mecanismos de desenvolvimento    limpo (MDL, p. 13) Todo o item 5.3 do Relat&oacute;rio est&aacute; voltado para    as quest&otilde;es ambientais ("Aspectos Ambientais", pp. 11-12).    Mas ao longo do texto desenvolvem-se outras inser&ccedil;&otilde;es nesse sentido    tais como:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>O Brasil tamb&eacute;m det&eacute;m consider&aacute;vel      experi&ecirc;ncia acumulada na &aacute;rea do biodiesel, mas, ao contr&aacute;rio      de pa&iacute;ses considerados desenvolvidos, ela ainda se encontra em franco      descompasso com nossa capacidade produtiva de biomassa, pois dispomos de condi&ccedil;&otilde;es      de solo e clima privilegiados para a produ&ccedil;&atilde;o de diversas mat&eacute;rias-primas      suscet&iacute;veis de aproveitamento para fabrica&ccedil;&atilde;o de biodiesel.      Diante disso, a experi&ecirc;ncia nacional envolve diversas mat&eacute;rias-primas      (soja, mamona, amendoim, dend&ecirc;, baba&ccedil;u, etc) e v&aacute;rias      rotas tecnol&oacute;gicas (transesterifica&ccedil;&atilde;o met&iacute;lica      e et&iacute;lica e craqueamento t&eacute;rmico ou catal&iacute;tico, dentre      outras) </i>(34).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Neste caso n&atilde;o &eacute; o n&atilde;o dito ou ent&atilde;o    aquilo que se escondeu, mas o gen&eacute;rico, o muito abstrato que &eacute;    o revelador do texto e do programa adotado pelo governo federal como pol&iacute;tica    p&uacute;blica energ&eacute;tica e econ&ocirc;mica de desenvolvimento. O gen&eacute;rico,    o muito abstrato &eacute; uma armadilha conceitual: eleva-se a um alto patamar    de abstra&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m profundamente deslocado da realidade.    Nesta passagem do Relat&oacute;rio o abstrato est&aacute; dito na forma de condi&ccedil;&otilde;es    de "solo e clima privilegiados para a produ&ccedil;&atilde;o de diversas    mat&eacute;rias-primas suscet&iacute;veis de aproveitamento para fabrica&ccedil;&atilde;o    de biodiesel". N&atilde;o se percebe nenhuma indica&ccedil;&atilde;o de    medida de estudo de solos e condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"> Ainda outra passagem significativa junto a essa:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Dentre as quest&otilde;es ambientais, cabe destacar a significativa      diminui&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es de diversos poluentes, especialmente      os mon&oacute;xidos de carbono, hidrocarbonetos totais, material particulado      e enxofre. Al&eacute;m disso, o uso do biodiesel reduz sensivelmente a emiss&atilde;o      de gases causadores do efeito estufa. Embora haja ligeiro aumento na emiss&atilde;o      de &oacute;xido de nitrog&ecirc;nio – cujas conseq&uuml;&ecirc;ncias      sobre a qualidade do ar nas grandes metr&oacute;poles pode ser contornada      com a ado&ccedil;&atilde;o de medidas espec&iacute;ficas –, os efeitos      l&iacute;quidos sobre a redu&ccedil;&atilde;o global da press&atilde;o sobre      o meio ambiente s&atilde;o altamente favor&aacute;veis ao biodiesel, especialmente      quando se considera todo o ciclo de vida do produto, abrangendo desde a produ&ccedil;&atilde;o      das sementes, cultivo, colheita, transporte, armazenamento, processamento      e consumo.    <br>     Outro impacto positivo sobre o meio ambiente adv&eacute;m da possibilidade      de se cultivar algumas esp&eacute;cies oleaginosas, especialmente o dend&ecirc;,      em &aacute;reas degradadas da regi&atilde;o Norte do pa&iacute;s, onde existem      condi&ccedil;&otilde;es de solo e clima favor&aacute;veis a essa cultura.      A mamona e outras mat&eacute;rias-primas podem desempenhar id&ecirc;ntico      papel em outras regi&otilde;es, especialmente no Semi-&Aacute;rido nordestino.      Cabe registrar, tamb&eacute;m, que a possibilidade de produzir biodiesel com      res&iacute;duos gordurosos de frituras e esgoto tende a diminuir o despejo      de material graxo no meio ambiente.     <br>     Deve-se considerar, ainda, que o biodiesel sendo utilizado como aditivo ao      diesel de origem f&oacute;ssil melhora sua lubricidade. Al&eacute;m disso,      facilita o atendimento de compromissos firmados no &acirc;mbito da Conven&ccedil;&atilde;o      do Clima e pode proporcionar a obten&ccedil;&atilde;o de cr&eacute;ditos de      carbono, sob o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto,      desde que seu uso ou mistura ao diesel n&atilde;o seja compuls&oacute;rio</i>      (35).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">O significativo e que chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute;    novamente a recorr&ecirc;ncia ao j&aacute; citado uso dos cr&eacute;ditos de    carbono como Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) bem como falar de &aacute;reas    degradadas da regi&atilde;o norte e &aacute;reas do Nordeste. Nada de mais.    Usar &aacute;reas degradadas para o plantio &eacute; conveniente. Ainda que    nada seja dito sobre a inclus&atilde;o social por meio do acesso social a essas    terras degradadas, a coloca&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; t&atilde;o    problem&aacute;tica. Erra novamente (36) –, neste caso, – ao elevar    ao abstrato e n&atilde;o considerar que as &aacute;reas degradadas poderiam    ser reflorestadas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Neste &uacute;ltimo caso o abstrato do uso de &aacute;reas    degradadas se junta aos aspectos do solo anteriormente indicados e nenhuma inclus&atilde;o    no Relat&oacute;rio sobre a possibilidade de recuperar esses solos ao inv&eacute;s    de arriscar a continuidade da degrada&ccedil;&atilde;o. Neste sentido &eacute;    ainda mais problem&aacute;tico o projeto de lei (PL) que tramita no Congresso    sobre o uso de &aacute;reas de reserva legal para o plantio de oleaginosas (37).    Projeto colocado em pauta pela bancada ruralista e que o programa do biodiesel,    do ponto de vista deste modelo de desenvolvimento criticado aqui e que ele prop&otilde;e,    permite. </font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Segundo o C&oacute;digo Florestal brasileiro, &eacute;      considerada reserva legal, dentro de cada propriedade, uma &aacute;rea m&iacute;nima      determinada de vegeta&ccedil;&atilde;o nativa que cumpra a fun&ccedil;&atilde;o      ecol&oacute;gica de habitat para a biodiversidade e/ou fornecedora de servi&ccedil;os      ambientais como estoque de produtos florestais, prote&ccedil;&atilde;o do      solo e corpos d'&aacute;gua, controle de pragas e inc&ecirc;ndios e      capta&ccedil;&atilde;o de carbono da atmosfera, entre outros. A atual legisla&ccedil;&atilde;o      brasileira estabelece que a &aacute;rea de reserva legal deve ser de 80% na      Amaz&ocirc;nia, 35% na regi&atilde;o de cerrado que esteja nos estados da      Amaz&ocirc;nia Legal e 20% nas demais regi&otilde;es do pa&iacute;s.    <br>     O principal objetivo do PL 6424/05 &eacute; permitir que 30% das reservas      legais na Amaz&ocirc;nia possam ser recompostas com esp&eacute;cies ex&oacute;ticas      ao ecossistema amaz&ocirc;nico, incluindo as palm&aacute;ceas. Com isso, se      aprovado, o projeto permitir&aacute; o avan&ccedil;o do plantio em larga escala      de mat&eacute;ria-prima para a produ&ccedil;&atilde;o de biocombust&iacute;veis,      sobretudo o dend&ecirc;: "Vamos conversar com as ONGs, mas minha inten&ccedil;&atilde;o      &eacute; manter a id&eacute;ia b&aacute;sica do PL. Permitir atividade econ&ocirc;mica      em 30% das Reservas Legais &eacute; o &uacute;nico meio de manter preservados      os 50% restantes", afirma o deputado Jorge Khoury (DEM-BA), relator      do projeto na Comiss&atilde;o de Meio Ambiente</i> (38).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Desta maneira parece bastante claro o modelo de desenvolvimento    que se pretende com os biocombust&iacute;veis e, em nossa an&aacute;lise espec&iacute;fica,    do biodiesel. Sendo assim fica tamb&eacute;m muito evidente a estrutura econ&ocirc;mica    determinada que se mant&eacute;m e que se reproduz (39).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS E NOTAS</b></font></p>     <p><font size="3">1. Tema constante na atualidade mundial e na pauta governamental    quando se trata de quest&otilde;es ligadas &agrave; energia.</font></p>     <p><font size="3"> 2. Trata-se, na verdade, de um conjunto de determina&ccedil;&otilde;es    constituindo uma estrutura, mas que aqui se pode falar de uma como algo gen&eacute;rico    que n&atilde;o altera a an&aacute;lise.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3"> 3. Dreifuss, Ren&eacute;. <i>O jogo da direita</i>. Vozes,    Rio de Janeiro, 1989, p. 7.</font><p><font size="3"> 4. O "mito do ba&uacute;" aqui referido pelo autor    &eacute; men&ccedil;&atilde;o ao fato de que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio    um "ba&uacute; de segredos", documentos secretos mostrando artif&iacute;cios    escusos e suspeitos, atitudes pol&iacute;ticas pouco dignificantes &agrave;    luz do dia. Saber encontrar em jornais, peri&oacute;dicos, revistas, etc os    atos forjados nas inst&acirc;ncias pol&iacute;ticas oficiais e articul&aacute;-los    pode ser t&atilde;o eficiente quanto o "ba&uacute; de segredos".    Em mat&eacute;rias escritas pode-se entender como a c&eacute;lebre e popularizada    frase "ler as entrelinhas".</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 5. Marx, Karl. <i>O Capital</i>. Nova Cultural, S&atilde;o    Paulo, 2ª ed., posf&aacute;cio da 2ª edi&ccedil;&atilde;o Alem&atilde;,    p. 20, 1985.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 6. Jornal <i>Brasil de Fato</i>, 17 de outubro de 2007.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 7. Id., ibid. Ver tamb&eacute;m Laim&eacute;, Marc. "Les    partenariats public-priv&eacute; sont nuisibles et minent la d&eacute;mocratie".    In : <i>Le Monde Diplomatique</i>, 8 de setembro de 2007.</font><p><font size="3"> 8. Express&atilde;o proferida por Luiz In&aacute;cio Lula da    Silva, candidato &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica em discurso,    na campanha de 1989.</font></p>     <p><font size="3"> 9. Como escreve o jornalista Elio Gaspari, em sua coluna no    jornal <i>Folha de S. Paulo</i>, trata-se de "privataria".</font></p>     <p><font size="3"> 10. Nenhuma surpresa uma vez que as PPPs j&aacute; est&atilde;o    aprovadas h&aacute; tempos. Trata-se das chamadas parcerias p&uacute;blico privadas,    ou seja, nova forma de o Estado alavancar a atividade privada sob a justificativa    de que se faz necess&aacute;ria sua interven&ccedil;&atilde;o com o fim de obter    capitais necess&aacute;rios ao investimento em setores carentes.</font></p>     <p><font size="3"> 11. Um exemplo claro pode ser a pol&iacute;tica de juros altos    favorecendo o setor financeiro e o programa dos biocombust&iacute;veis, entre    outros.</font></p>     <p><font size="3"> 12. H&aacute; muito fora da pauta de reivindica&ccedil;&atilde;o    da ind&uacute;stria que vem concentrando seus ataques exclusivamente em um luta    encarni&ccedil;ada "de hienas" apenas na tributa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3"> 13. Perissinotto, R. M.. <i>Estado e capital cafeeiro em S&atilde;o    Paulo (1889-1930)</i>. Annablume, S&atilde;o Paulo, 2000, 1ª ed., 2v.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 14. A refer&ecirc;ncia aqui &eacute; ao pol&ecirc;mico personagem    do filme <i>Tropa de elite</i> do diretor Jos&eacute; Padilha, baseado no livro    <i>Elite da tropa</i> do antrop&oacute;logo Luiz Eduardo Soares e dois policiais,    Andr&eacute; Batista e Rodrigo Pimentel. O capit&atilde;o Nascimento age com    viol&ecirc;ncia diante do crime e assim mostraria como deve ser cuidada a quest&atilde;o    social, como "<i>caso de pol&iacute;cia</i>" na atribu&iacute;da    frase ao presidente Washington Lu&iacute;s (1926-30).</font><!-- ref --><p><font size="3"> 15. Enquanto se ideava e se escrevia este cap&iacute;tulo para    o livro <i>A energia, a pol&iacute;tica e o Brasil: conflitos e propostas no    s&eacute;culo XXI</i> um novo evento no setor de energia envolvendo o monop&oacute;lio    acontecia: a licita&ccedil;&atilde;o da hidroel&eacute;trica de Santo Ant&ocirc;nio    no rio Madeira (vencida pelo cons&oacute;rcio capitaneado pela Odebrecht). Al&eacute;m    da privatiza&ccedil;&atilde;o de recurso natural, cenas de choque da pol&iacute;cia    com manifestantes s&oacute; vistas no ent&atilde;o governo do PSDB voltaram    a aparecer.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 16. O aumento do consumo das fam&iacute;lias estimulado pelos    cr&eacute;ditos fez com que o PIB fosse "puxado" para cima (<i>Folha    de S. Paulo</i>, 10 de novembro de 2007).</font><!-- ref --><p><font size="3"> 17. "Lucro do Bradesco &eacute; o maior do setor financeiro    em 20 anos". In: <i>Valor Online</i>, 5 de novembro de 2007.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 18. "MST enfrenta desist&ecirc;ncias em Ribeir&atilde;o".    In: <i>Folha de S. Paulo</i>, 4 de novembro de 2007.</font><p><font size="3"> 19. Id., ibid.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 20. Artigos sobre biocombust&iacute;veis, suas fal&aacute;cias    como alternativa renov&aacute;vel e monop&oacute;lio podem ser encontrados no    s&iacute;tio <a href="http://www.resistir.info" target="_blank">www.resistir.info</a>.    Um outro recurso para contornar o "mito do ba&uacute;" que Dreifuss    faz refer&ecirc;ncia, a internet.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 21. &Eacute; poss&iacute;vel encontrar no s&iacute;tio do governo    federal toda a legisla&ccedil;&atilde;o sobre o biodiesel (<a href="http://www.biodiesel.gov.br/legislação.html" target="_blank">www.biodiesel.gov.br/legisla&ccedil;&atilde;o.html</a>).    A&iacute; temos leis, decretos, portarias, resolu&ccedil;&otilde;es que regulamentam    todo o programa. A lei espec&iacute;fica do biodiesel &eacute; de 13 de janeiro    de 2005, n&uacute;mero 11.097. Mais uma vez, basta articular as informa&ccedil;&otilde;es    e o "mito do ba&uacute;" n&atilde;o &eacute; t&atilde;o necess&aacute;rio    assim.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 22. Dispon&iacute;vel tamb&eacute;m em s&iacute;tio oficial:    <a href="http://www.planalto.gov.br/casacivil/site/static/relatoriofinal.pdf" target="_blank">www.planalto.gov.br/casacivil/site/static/relatoriofinal.pdf</a>.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 23. <i>Relat&oacute;rio Final do Grupo de Trabalho Interministerial    Encarregado de Apresentar Estudos sobre a Viabilidade de Utiliza&ccedil;&atilde;o    de &Oacute;leo Vegetal – Biodiesel como Fonte Alternativa de Energia</i>,    p. 2, dispon&iacute;vel no s&iacute;tio referido na nota anterior. Doravante    citado apenas como Relat&oacute;rio.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 24. Relat&oacute;rio, p. 3.</font><p><font size="3"> 25. No Relat&oacute;rio, p. 2, s&atilde;o listados os &oacute;rg&atilde;o    do executivo central: Casa Civil da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica (coordenador);    Minist&eacute;rio dos Transportes (MT); Minist&eacute;rio da Agricultura, Pecu&aacute;ria    e Abastecimento (Mapa); Minist&eacute;rio do Desenvolvimento, Ind&uacute;stria    e Com&eacute;rcio Exterior (MDIC); Minist&eacute;rio de Minas e Energia (MME);    Minist&eacute;rio da Fazenda (MF); Minist&eacute;rio do Planejamento, Or&ccedil;amento    e Gest&atilde;o (MP); Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (MCT);    Minist&eacute;rio do Meio Ambiente (MMA); Minist&eacute;rio do Desenvolvimento    Agr&aacute;rio (MDA); Minist&eacute;rio da Integra&ccedil;&atilde;o Nacional    (MI); Minist&eacute;rio das Cidades (MCidades).</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 26. "Cabe registrar, inicialmente, que a Comunidade Europ&eacute;ia    implantando, atualmente, a maior experi&ecirc;ncia internacional na produ&ccedil;&atilde;o    e uso de combust&iacute;veis renov&aacute;veis, considera biocombust&iacute;vel    o combust&iacute;vel l&iacute;quido ou gasoso para transportes produzido a partir    da biomassa. Entende como biomassa a fra&ccedil;&atilde;o biodegrad&aacute;vel    de produtos e res&iacute;duos provenientes da agricultura (incluindo subst&acirc;ncias    vegetais e animais), da silvicultura e das ind&uacute;strias conexas, bem como    a fra&ccedil;&atilde;o biodegrad&aacute;vel dos res&iacute;duos industriais    e urbanos. S&atilde;o classificados como biocombust&iacute;veis o biodiesel,    o biog&aacute;s e o biometanol, dentre outros. Considera como biodiesel o &eacute;ster    met&iacute;lico produzido a partir de &oacute;leos vegetais ou animais, com    qualidade de combust&iacute;vel para motores diesel, para utiliza&ccedil;&atilde;o    como biocombust&iacute;vel. Admite ainda a exist&ecirc;ncia de outros combust&iacute;veis    renov&aacute;veis, entendidos como os combust&iacute;veis renov&aacute;veis    que n&atilde;o sejam biocombust&iacute;veis, obtidos a partir de fontes de energia    renov&aacute;veis tal como se encontram definidas na Diretiva 2001/77/CE, utilizados    para efeitos de transporte", Relat&oacute;rio, p. 3.</font><p><font size="3"> 27. Id. Ibid.</font></p>     <p><font size="3"> 28. Id. Ibid.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 29. Relat&oacute;rio, p. 5.</font><p><font size="3"> 30. Id., p. 6.</font></p>     <p><font size="3"> 31. Ainda que isso seja medida social t&atilde;o somente nos    limites do capital.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 32. Aqui se tencionou alargar o escopo mesmo para pensar no    trabalhador da cana-de-a&ccedil;&uacute;car que ganha cerca de R$2,50 por tonelada    cortada e na crescente participa&ccedil;&atilde;o estrangeira nesse neg&oacute;cio.    Ainda sobre a concentra&ccedil;&atilde;o de capital e a estrutura de monop&oacute;lio    do mercado nos agrocombust&iacute;veis ou biocombust&iacute;veis conv&eacute;m    citar: "Em agosto do ano passado, grupos e investidores estrangeiros detinham    5,7% de toda a cana processada no Brasil para produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car    e &aacute;lcool. Um ano depois, o capital internacional passou a deter 12% do    setor, o que corresponde a mais de 51 milh&otilde;es de toneladas de cana (…).    Para o professor da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR), C&eacute;sar    Sanson, esta situa&ccedil;&atilde;o &eacute; provocada pela pol&iacute;tica    do governo federal de incentivar a produ&ccedil;&atilde;o de agrocombust&iacute;veis    e &eacute; muito preocupante". (<i>Radioag&ecirc;ncia – Not&iacute;cias    do Planalto</i>, 25 de setembro de 2007 - <a href="http://www.radioagencianp.com.br" target="_blank">www.radioagencianp.com.br</a>)</font><p><font size="3"> 33. Ali&aacute;s, todo o item 4 do <i>Relat&oacute;rio</i>    ("Potencialidades e Desafios da Produ&ccedil;&atilde;o e Uso do Biodiesel    no Brasil") e 5 ("Benef&iacute;cios, Custos da Produ&ccedil;&atilde;o    e Uso de Biodiesel no Brasil") &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de 5.3 que    fala do impacto ambiental que ser&aacute; visto &agrave; seguir, tratam exaustivamente    dos n&uacute;meros dos benef&iacute;cios econ&ocirc;micos e sociais sem mencionar    nenhuma das quest&otilde;es aqui levantadas e cr&iacute;ticas. O que se deduz    &eacute; a evid&ecirc;ncia cada vez mais clara de um projeto econ&ocirc;mico    e pol&iacute;tico dentro das estruturas econ&ocirc;micas e reprodutivas vigentes    e – em uma "pura ingenuidade" – de um capitalismo control&aacute;vel    pelas for&ccedil;as do Estado, como se o Estado pairasse sobre a sociedade.    N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel aprofundar neste momento as rela&ccedil;&otilde;es    entre Estado e capital, mas o texto que se desenvolve fornece alguns elementos    para isso.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 34. Relat&oacute;rio, p. 5.</font><!-- ref --><p><font size="3"> 35. Relat&oacute;rio, p. 7.</font><p><font size="3"> 36. Neste caso, erro nunca &eacute; uma ingenuidade, mas uma    concep&ccedil;&atilde;o de desenvolvimento econ&ocirc;mico com privil&eacute;gio    de determinada estrutura econ&ocirc;mica.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 37. Trata-se do projeto de lei (PL) 6.424/05 que tramita na    C&acirc;mara e prev&ecirc; o plantio de at&eacute; 30% de esp&eacute;cies ex&oacute;ticas    em &aacute;reas de reserva florestal da Amaz&ocirc;nia ("PL que altera    C&oacute;digo Florestal avan&ccedil;a no Congresso". In: <i>Carta Maior</i>,    22 de outubro de 2007).</font><p><font size="3"> 38. Id., ibid.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 39. Este artigo &eacute; uma adapta&ccedil;&atilde;o de um    outro a ser publicado no livro de Jos&eacute; Alexandre Hage (org.) <i>A energia,    a pol&iacute;tica e o Brasil: conflitos e propostas no s&eacute;culo XXI</i>,    Editora Juru&aacute;, Curitiba/PR, pp. 283-99, 2008. </font>  ]]></body><back>
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