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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n3/prosa.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">ALEXANDRE BONAFIM</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>O FILHO DE MARIA</b></font></P>     <p><font size="3">Tinha os olhos azuis, intensamente tristes. Os cabelos brancos    e um sorriso sem dentes. Era louca e todas as outras crian&ccedil;as, assim    como eu, tinham medo dela. Lavadeira, sempre carregava uma sacola repleta de    fotografias. No fundo de sua loucura, havia qualquer coisa de m&aacute;gico.    Um lirismo de humanidade reluzia no absurdo de sua aliena&ccedil;&atilde;o.    Era uma crian&ccedil;a tamb&eacute;m, menina perdida no interior da loucura.    </font></P>     <p><font size="3">De todos os seus comportamentos estranhos, tais como gritar    pelas ruas, andar com roupas imundas (justo ela, a mulher que lavava as roupas    dos outros), dentre outros tiques e manias, o ato de carregar sempre uma sacola    repleta de fotografias, causava-me encantamento e atra&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Certa vez, minha m&atilde;e adoeceu e precisou de algu&eacute;m    que a ajudasse com os afazeres dom&eacute;sticos. Ent&atilde;o Maria, a louca,    passou a freq&uuml;entar a nossa casa, a lavar as roupas de toda a minha fam&iacute;lia.    No bairro pobre, quase nenhuma dona de casa tinha uma m&aacute;quina de lavar.    As mulheres todas, assim como minha m&atilde;e, tinham de suar para trazer todos    limpos e bem vestidos. Eu gostava de ver as m&atilde;os das lavadeiras lutando    contra a pedra dos tanques, pelejando contra a imundice do mundo. Muitas cantavam    e o canto enchia as casas de uma alegria viva.</font></P>     <p><font size="3">Eu ficava atr&aacute;s das portas, na soleira das paredes, observando-a    de longe. Maria esfregava as roupas com estranho carinho. Apascentava a f&uacute;ria    dos tecidos, a impaci&ecirc;ncia de costuras, a alegria de bot&otilde;es coloridos,    de golas amarfanhadas. De todas as lavadeiras, era a &uacute;nica que n&atilde;o    cantava. Nunca ouvira diz&ecirc;-la uma palavra sequer. Comunicava-se por grunhidos    e gestos. Ao inv&eacute;s de cantar, contentava-se em ter, ao lado das pernas,    a sacola com as fotografias.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Hoje, fico a imaginar que a imagem no papel era-lhe uma mem&oacute;ria    a trasbordar para al&eacute;m do corpo. Todos os seus parentes mortos permaneciam    ali, vivos, naquela sacola suja. A eternidade acompanhava Maria em todas as    casas. Os rostos de seus amados estampados nos pap&eacute;is amarelecidos eram    o seu alimento, sua respira&ccedil;&atilde;o, sua f&eacute;. Um dia, estava    eu atr&aacute;s da porta a bisbilhotar o trabalho de Maria, quando aconteceu:    Maria olhou com olhos medonhos, para a frincha da porta. Parecia um fantasma    de olhos vesgos. Eu engoli meu medo com um tremor gelado. Maria sabia que estava    sendo observada. Talvez ela me batesse, talvez ela at&eacute; me matasse. Num    rompante, ela puxou a porta que dava para a varandinha e, com a cara amarela,    se p&ocirc;s &agrave; minha frente, gigante medonho e desgrenhado. Quanto tempo    durou esse &aacute;timo? Talvez todo o tempo de minha inf&acirc;ncia. Ent&atilde;o,    repentinamente, Maria come&ccedil;ou a sorrir, um sorriso t&atilde;o triste,    t&atilde;o doce, que me causou mais receio ainda. Com os dedos descarnados,    pegou minha m&atilde;o. Em meu p&acirc;nico, em meu fasc&iacute;nio pelo desconhecido,    deixei-me levar. Me puxou at&eacute; a varandinha e me abriu a sua sacola. De    l&aacute;, tirou uma fotografia precisa e me estendeu. No papel, um menino com    gravata e chap&eacute;u sorria. A fotografia era velha e o sorriso do menino    estava quase apagado. O rosto do menino era t&atilde;o parecido com o meu… Aquela    face de papel tinha os contornos do meu pr&oacute;prio semblante. A crian&ccedil;a    era, na verdade, eu mesmo; era o meu ser muito antes do meu nascimento. Era    minha exist&ecirc;ncia embrion&aacute;ria, em estado placent&aacute;rio. Desesperado,    joguei a foto na sacola e sa&iacute; correndo em busca de minha m&atilde;e.    Mas qual outra m&atilde;e teria, agora, al&eacute;m de Maria?</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Alexandre Bonafim</b> &eacute; natural de Belo Horizonte,    atualmente mora em Franca, interior de S&atilde;o Paulo. &Eacute; mestre em    literatura brasileira pela Unesp, de Araraquara, com a disserta&ccedil;&atilde;o.    "A gra&ccedil;a po&eacute;tica do instante: poesia e mem&oacute;ria na    obra de Rubem Braga". Atualmente, &eacute; doutorando pela USP e estuda    os aspectos do sagrado na obra de Dora Ferreira da Silva e de Sophia Mello Breyner    Andresen. &Eacute; poeta, contista, cr&iacute;tico liter&aacute;rio. Publicou    os seguintes livros de poemas: </i>Biografia do deserto<i> e </i>A outra margem    do tempo<i>.</i></font></P>      ]]></body>
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