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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/brasil.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/a03img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">E<small>SCRAVOS DA CANA</small></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v60n4/line_bk.gif"></p>     <p><font size="4"><b>Esfor&ccedil;o f&iacute;sico excessivo busca aumento de renda</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">S&atilde;o seis da manh&atilde;.    Hora de dar a &uacute;ltima conferida no velho "pod&atilde;o de guerra",    de 600g, que n&atilde;o est&aacute; nas melhores condi&ccedil;&otilde;es, mas    n&atilde;o impedir&aacute; a produtividade dos campe&otilde;es. O "atleta"    entra em campo e j&aacute; agarra o primeiro feixe com cinco a dez varas de    cana. Em seguida as puxa, flexiona a coluna para cortar o feixe rente ao solo    &#150; como gosta o patr&atilde;o &#150;, traz o tronco de volta para cortar as "ponteiras"    no alto da cana, joga&#45;as em montes e avan&ccedil;a eito adentro. Nesse momento    o rel&oacute;gio crava em 5,6 segundos. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A prova n&atilde;o &eacute; de    velocidade, mas de resist&ecirc;ncia. &Agrave;s 16h, hor&aacute;rio previsto    para os cortadores de cana terminarem a jornada, os n&uacute;meros alcan&ccedil;ar&atilde;o    a impressionante marca de 3792 golpes de fac&atilde;o desferidos, 3994 flex&otilde;es    de coluna e 11,5 ton de cana cortadas. O esfor&ccedil;o &eacute; recompensado    por R$ 38. Por&eacute;m, n&atilde;o haver&aacute; comemora&ccedil;&atilde;o,    apenas recupera&ccedil;&atilde;o. Amanh&atilde; ser&aacute; mais um dia de trabalho.</font></p>     <p><font size="3">Esse esfor&ccedil;o f&iacute;sico    &eacute; a realidade di&aacute;ria de 335 mil cortadores de cana no Brasil.    Os n&uacute;meros s&atilde;o frutos de uma pesquisa ergon&ocirc;mica sobre o    corte manual de cana&#45;de&#45;a&ccedil;&uacute;car no interior do estado de S&atilde;o    Paulo. Os resultados do estudo da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep)    concluem que a condi&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica desses cortadores se assemelha    a de maratonistas. "Os m&uacute;sculos desse profissional s&atilde;o franzinos,    mas sua resist&ecirc;ncia &eacute; elevada; seus problemas de sa&uacute;de tamb&eacute;m    s&atilde;o os mesmos a que est&atilde;o sujeitos atletas de alto desempenho",    afirma Erivelton Fontana de Laat, coordenador da pesquisa.</font></p>     <p><font size="3">Esses problemas v&atilde;o muito al&eacute;m das les&otilde;es    por repeti&ccedil;&atilde;o de movimentos. O principal fator de risco, de acordo    com a pesquisa realizada em 2007, &eacute; a sobrecarga na atividade cardiorrespirat&oacute;ria    do trabalhador. Ao analisar aspectos como a freq&uuml;&ecirc;ncia card&iacute;aca    em repouso, m&eacute;dia e m&aacute;xima, idade e produ&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria    (em toneladas), Laat descobriu que seis dos dez trabalhadores analisados ultrapassaram    o limite cardiorrespirat&oacute;rio toler&aacute;vel &agrave; sa&uacute;de,    alguns chegaram a picos de 200 batimentos por minuto.</font></p>     <p><font size="3">Outras evid&ecirc;ncias respaldam    dados de explora&ccedil;&atilde;o e mortes de canavieiros em expediente. De    2004 para c&aacute;, por exemplo, a Pastoral do Migrante de Guariba (SP) relacionou    20 mortes, principalmente, por parada cardiorrespirat&oacute;ria. N&uacute;meros    do INSS mostram que 30 mil funcion&aacute;rios de usinas de cana foram afastados    por per&iacute;odo inferior a 15 dias, entre 1999 e 2005. Os afastamentos permanentes    somaram 450.</font></p>     <p><font size="3"><b>O CORTADOR ESTRANGEIRO</b> Em 1985, um trabalhador cortava    5 toneladas di&aacute;rias de cana. Hoje, ele corta 9,3. Muitos fatores contribu&iacute;ram    para esse aumento de produ&ccedil;&atilde;o radical, mas segundo o economista    da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFScar) Francisco Jos&eacute;    da Costa Alves, o novo perfil social e demogr&aacute;fico desse cortador &eacute;    uma das causas.</font></p>     <p><font size="3">A partir de 2000, migrantes do    Maranh&atilde;o e do Piau&iacute; se juntaram &agrave; legi&atilde;o de cortadores    naturais do estado de S&atilde;o Paulo, do Vale do Jequitinhonha (MG) e do Nordeste.    Naquele ano, o relat&oacute;rio de atividades da Pastoral do Migrante estimou    em 100 o n&uacute;mero de migrantes desses dois estados para os canaviais paulistas,    chegando a 6 mil em 2006.</font></p>     <p><font size="3">Alves acredita que a maior resist&ecirc;ncia    f&iacute;sica desses novos migrantes &eacute; um dos principais respons&aacute;veis    pelo forte incremento no n&uacute;mero de toneladas de cana cortadas. A soci&oacute;loga    da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, Maria Aparecida de    Moraes Silva, que h&aacute; 30 anos estuda o cotidiano dos b&oacute;ias&#45;frias,    fala que os migrantes s&atilde;o preferidos porque, em fun&ccedil;&atilde;o    da dist&acirc;ncia de suas fam&iacute;lias, suportam mais as imposi&ccedil;&otilde;es    do que os trabalhadores locais. "Se reclamarem, correm o risco de serem    despedidos. Isso implicaria em s&eacute;rios riscos para a sobreviv&ecirc;ncia    dele e de suas fam&iacute;lias", declara. Ela acrescenta que, ao final    da safra, os migrantes regressam aos seus locais de origem, desobrigando as    empresas de assumirem qualquer compromisso trabalhista na entressafra.</font></p>     <p><font size="3">O destaque do etanol no cen&aacute;rio internacional deve movimentar    R$ 40 bilh&otilde;es no setor sucroalcooleiro at&eacute; o fim de 2008. Infelizmente,    essa riqueza parece n&atilde;o causar melhorias na infra&#45;estrutura e nas condi&ccedil;&otilde;es    de trabalho. Pelo menos &eacute; isso que as fiscaliza&ccedil;&otilde;es do    Grupo Rural da Superintend&ecirc;ncia Regional do Trabalho e Emprego de S&atilde;o    Paulo (SRTE/SP) constataram. De acordo com o coordenador do grupo Roberto de    Martins Figueiredo "a precariedade do trabalho nas frentes de corte de    cana manual &eacute; caracterizada pela falta de fornecimento de &aacute;gua    pot&aacute;vel, abrigo para intemp&eacute;ries, sanit&aacute;rios, gest&atilde;o    de seguran&ccedil;a e de equipamentos de prote&ccedil;&atilde;o individual,    assim como da sua reposi&ccedil;&atilde;o".</font></p>     <p><font size="3"><b>SAL&Aacute;RIO POR PRODU&Ccedil;&Atilde;O</b> Para a grande    maioria dos pesquisadores e procuradores do Minist&eacute;rio P&uacute;blico,    a remunera&ccedil;&atilde;o por produ&ccedil;&atilde;o &eacute; o principal    motivo pelo qual os trabalhadores suportam condi&ccedil;&otilde;es t&atilde;o    duras de trabalho. O piso salarial da categoria &eacute; de aproximadamente    R$500, mas pode chegar a R$1200 ou at&eacute; R$1500 para os chamados campe&otilde;es.    Essa maneira perversa de pagamento por produ&ccedil;&atilde;o, afirma o economista    da UFSCcar, apenas estimula o trabalhador a passar dos limites f&iacute;sicos.    A solu&ccedil;&atilde;o, acredita, seria substituir a pr&aacute;tica pelo pagamento    fixo, com o controle da jornada de trabalho. Sindicatos de trabalhadores rurais    pedem a redu&ccedil;&atilde;o da carga semanal para 40 horas, com dois dias    de descanso. Cristina Gonzaga, pesquisadora da Fundacentro, funda&ccedil;&atilde;o    de pesquisas do Minist&eacute;rio do Trabalho, defende 30 horas, com cinco jornadas    de seis horas por semana. As usinas rejeitam todas as reivindica&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="3">Mas o Procurador do Trabalho    de Bauru (SP) Jos&eacute; Fernando Ruiz Maturana enfatiza que a quest&atilde;o    n&atilde;o &eacute; t&atilde;o simples. "Hoje os trabalhadores ganham pelo    que produzem, apesar dos problemas dessa pr&aacute;tica; amanh&atilde; mudamos    as regras e os usineiros v&ecirc;m nos agradecer por termos diminu&iacute;do    seus gastos com a folha de pagamentos dos funcion&aacute;rios". Ele tamb&eacute;m    lembra que os pr&oacute;prios trabalhadores s&atilde;o contr&aacute;rios &agrave;    mudan&ccedil;a na forma de remunera&ccedil;&atilde;o no corte da cana em fun&ccedil;&atilde;o    da diminui&ccedil;&atilde;o de seus rendimentos. J&aacute; o procurador do Trabalho    de Campo Grande (SP) Jonas Ratier Moreno aposta que os empres&aacute;rios ser&atilde;o    obrigados a rever seu posicionamento sobre a quest&atilde;o trabalhista quando    os mercados internacionais embargarem o etanol brasileiro em fun&ccedil;&atilde;o    da presen&ccedil;a de trabalho escravo ou explora&ccedil;&atilde;o na cadeia    produtiva. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Outra sa&iacute;da talvez seja    deixar as coisas como est&atilde;o e esperar pela t&atilde;o falada mecaniza&ccedil;&atilde;o    no corte de cana, que a partir de 2015 dever&aacute; cobrir 100% das planta&ccedil;&otilde;es    no estado de S&atilde;o Paulo. Quando isso ocorrer, a grande quest&atilde;o    ser&aacute; o destino de grande parte dos atuais trabalhadores rurais semi&#45;analfabetos.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Luiz Paulo Juttel</i></font></p>      ]]></body>
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