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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>SER IND&Iacute;GENA NO BRASIL CONTEMPOR&Acirc;NEO: NOVOS    RUMOS PARA UM VELHO DILEMA</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Clarice Novaes da Mota </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b> Os anos 1970 no Brasil abrangeram,    entre outros, processos de buscas pol&iacute;ticas por liberdade de express&atilde;o,    marcados por movimentos contra&#45;hegem&ocirc;nicos de dissidentes da ditadura    militar. Inspirados, em parte, pelo movimento cat&oacute;lico da Teologia da    Liberta&ccedil;&atilde;o, como tamb&eacute;m pelas a&ccedil;&otilde;es do Conselho    Mission&aacute;rio Indigenista (Cimi), algumas comunidades ind&iacute;genas    do Nordeste lutaram por seus direitos a terra e identidade, voltando a pelo    menos parte de seus territ&oacute;rios. Ainda hoje trabalham pela manuten&ccedil;&atilde;o    de uma identidade que lhes havia sido subtra&iacute;da durante o processo colonizat&oacute;rio.    Entre trabalhos anteriores (1), descrevi a trajet&oacute;ria de dois desses    grupos: os Kariri&#45;Xoc&oacute; de Alagoas e os Xoc&oacute; de Sergipe. V&aacute;rios    outros autores tamb&eacute;m registraram esse constante processo de "reinven&ccedil;&atilde;o    da tradi&ccedil;&atilde;o" e "etnog&ecirc;nese", como ficou conhecido na literatura    antropol&oacute;gica. (2;3).</font></p>     <p><font size="3">Mais recentemente, Silo&eacute; Amorim (4) registrou, em imagens    e em literatura, esse mesmo processo vivido por v&aacute;rias comunidades do    interior do estado de Alagoas a partir de 1998, abordando a constru&ccedil;&atilde;o    da auto&#45;identidade dos ind&iacute;genas Tumbalal&aacute;, Kalank&oacute;, Cat&oacute;kinn    e K&oacute;iupank&aacute;, que ficaram conhecidos como "&iacute;ndios ressurgidos".    Temos, portanto, j&aacute; registrado todo um processo de busca pelo que se    considera o elemento principal para a retomada da terra e dos direitos subseq&uuml;entes:    a chamada cultura ancestral, por conseguinte, a auto&#45;imagem identit&aacute;ria.</font></p>     <p><font size="3">Tais grupos ind&iacute;genas t&ecirc;m enfrentado v&aacute;rios    obst&aacute;culos e problemas, de origem socioecon&ocirc;mica, mas que s&atilde;o    interdependentes de elementos pr&oacute;prios do imagin&aacute;rio social brasileiro,    a fatores de origem simb&oacute;lica, que, no entanto, s&atilde;o primordiais    para a legitima&ccedil;&atilde;o das comunidades. Id&eacute;ias pr&eacute;&#45;concebidas    sobre autenticidade, cultura original e legitimidade formam a base de consider&aacute;veis    desses problemas vividos por comunidades que foram for&ccedil;adas a abrir m&atilde;o,    entre outras coisas, de sua l&iacute;ngua ancestral. E esta &eacute; apenas    a base de uma avalanche de sinais identit&aacute;rios perdidos. N&atilde;o consigo    esquecer a tristeza expressada por uma velha mulher Xoc&oacute;, da ilha de    S&atilde;o Pedro em Sergipe, ao declarar&#45;me que "cultura aqui n&atilde;o    tem mais nenhuma". Com isto, ela ponderava sobre a necessidade de se apresentar    quem sabe algum tra&ccedil;o de uma fugaz "cultura ind&iacute;gena" que    pudesse lhes autorizar a se declararem como "&iacute;ndios".</font></p>     <p><font size="3">Exatamente qual &eacute; a natureza da identidade ind&iacute;gena    no Brasil nos dias de hoje? A pergunta &eacute; feita n&atilde;o para questionar    a chamada autenticidade das comunidades ind&iacute;genas atuais. O objetivo    n&atilde;o &eacute; analisar os crit&eacute;rios de inclus&atilde;o e exclus&atilde;o    que legitimam o processo de delimita&ccedil;&atilde;o das fronteiras identit&aacute;rias    para os povos ind&iacute;genas, mas refletir sobre alguns temas do processo    atual, sobre o que tem havido tanto de adequado como de nefasto para a vida    das comunidades ind&iacute;genas em todo o Brasil, especialmente aquelas que    ressurgiram a partir de sua luta e se auto&#45;declararam ind&iacute;genas.    Ou ainda mais, &eacute; entender a forma como o "resgate cultural ind&iacute;gena"    est&aacute; levando o ind&iacute;gena para fora de sua aldeia, em sentido contr&aacute;rio    do movimento anterior de estar dentro da aldeia. O que nos chama mais aten&ccedil;&atilde;o    para esses processos de defini&ccedil;&atilde;o da identidade ind&iacute;gena    tem sido a atual inclus&atilde;o dos mesmos na sociedade brasileira de uma forma    bastante diferente do que acontecia antigamente, quando "ser &iacute;ndio"    era visto como algo negativo, e se lhes atribu&iacute;a as piores qualidades    poss&iacute;veis. A inclus&atilde;o atual tem se dado atrav&eacute;s da busca    de um ser m&iacute;tico tradicional, com atributos bastante positivos, relacionados    ao imagin&aacute;rio social sobre seres quase sobre&#45;humanos, que sabiam    como preservar o meio&#45;ambiente natural, eram s&aacute;bios e poderosos em    suas cren&ccedil;as xam&acirc;nicas. Esta imagem de um "&iacute;ndio aut&ecirc;ntico"    tem sido divulgada principalmente por uma parcela da sociedade brasileira n&atilde;o&#45;ind&iacute;gena,    correspondendo ao desenvolvimento de um movimento alternativo conhecido como    o <I>new age</I>. Essa vis&atilde;o aproxima&#45;se muito da vis&atilde;o do    "bom selvagem" preconizada por &#91;Jean&#45;Jacques&#93; Rousseau.</font></p>     <p><font size="3"><b>EXCLUS&Atilde;O <i>VERSUS</i> INCLUS&Atilde;O</b> Temos visto    e compreendido que quando uma comunidade se organiza em torno de seus antigos    costumes ou mesmo costumes reinventados (5) e se reconhecem como ind&iacute;gena,    h&aacute; necessidade de separa&ccedil;&atilde;o, tanto territorial como cultural,    ou seja, de re&#45;agrupamento em um territ&oacute;rio definido como ind&iacute;gena,    para que possam apropriar&#45;se de terra, objetos, labores, tradi&ccedil;&otilde;es    e objetivos. Trata&#45;se de um movimento na dire&ccedil;&atilde;o de um suposto    resgate da antiga forma de ser, das tradi&ccedil;&otilde;es reconhecidas como    tribais e, portanto, "aut&ecirc;nticas", mas que orientam e suportam    uma nova <I>raison d'&ecirc;tre</I>, ou um novo agrupamento autorizado pelas    leis nacionais como sendo ind&iacute;gena. Registra&#45;se tamb&eacute;m uma necessidade    de valida&ccedil;&atilde;o e, portanto, de conex&atilde;o com a sociedade nacional,    pois as lutas n&atilde;o podem ser travadas solitariamente. Formam&#45;se redes    de apoio, de solidariedade, nas quais n&atilde;o s&oacute; se valoriza a chamada    cultura tradicional ind&iacute;gena, mas tamb&eacute;m se busca um tipo de apropria&ccedil;&atilde;o    dessa mesma cultura fora dos limites das novas aldeias. Tal apropria&ccedil;&atilde;o    se vale de uma autenticidade meramente suposta e superimposta a um corpus de    conhecimento e viver nativo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Percebe&#45;se um movimento para fora dos limites f&iacute;sicos    e culturais da aldeia, ao mesmo tempo em que tal movimento reflete a busca da    identidade ind&iacute;gena por dois grupos sociais: a pr&oacute;pria comunidade    ind&iacute;gena e alguns setores urbanos de classe m&eacute;dia e alta. Grupos    que se contradizem, portanto, ao passo que tamb&eacute;m se encontram em um    espa&ccedil;o rec&eacute;m&#45;constru&iacute;do de necessidades de auto&#45;afirma&ccedil;&atilde;o    interdependentes, onde a antiga exclus&atilde;o se traduz em inclus&atilde;o,    mesmo que a custa de inven&ccedil;&otilde;es e ressignifica&ccedil;&otilde;es    das tradi&ccedil;&otilde;es perdidas.</font></p>     <p><font size="3">H&aacute; v&aacute;rias contribui&ccedil;&otilde;es para o entendimento    do que significa a "tradi&ccedil;&atilde;o tribal" para um povo que se    re&#45;organiza como descendentes ind&iacute;genas. As tradi&ccedil;&otilde;es    geralmente t&ecirc;m sido representadas por um saudosismo dos "velhos tempos"    adicionado &agrave; necessidade real de demonstrar a validade de suas experi&ecirc;ncias    e seu modo de vida atual como sendo "leg&iacute;timo". Acima de tudo, sobrevive    ainda o mito do "&iacute;ndio leg&iacute;timo" sem o qual n&atilde;o h&aacute;    auto&#45;afirma&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel. Assim, as comunidades rec&eacute;m    re&#45;constitu&iacute;das vivem a busca e a valida&ccedil;&atilde;o de uma    cultural tradicional como verdadeiro capital cultural, que lhes h&aacute; de    valer na hora de provar aos &oacute;rg&atilde;os oficiais que t&ecirc;m direito    &agrave; terra e a apoios institucionais.</font></p>     <p><font size="3">Esses movimentos de reivindica&ccedil;&atilde;o    por parte de comunidades que se declaravam ind&iacute;genas foram calcados em    transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e culturais dos anos 1970, que    inclu&iacute;ram desenterrar ra&iacute;zes culturais at&eacute; ent&atilde;o    t&atilde;o ocultas como suas verdadeiras hist&oacute;rias, como tamb&eacute;m    poder come&ccedil;ar a celebrar heran&ccedil;as culturais diversas, incluindo    as dos descendentes de africanos no Brasil.</font></p>     <p><font size="3"><b>CULTURA DE CONSUMO E A REINVEN&Ccedil;&Atilde;O</b> Durante    o processo de coloniza&ccedil;&atilde;o, descendentes ind&iacute;genas eram    impulsionados a negar sua descend&ecirc;ncia e incluir&#45;se na sociedade em    geral. No s&eacute;culo XX j&aacute; os descendentes de ind&iacute;genas, tradicionalmente    oprimidos, mas que buscam o reconhecimento da sociedade nacional, come&ccedil;aram    a afirmar&#45;se como "&iacute;ndios" e a demandar seus direitos &agrave; terra    e &agrave; identidade. Para tanto, t&ecirc;m tido que demonstrar conhecimentos    sobre suas tradi&ccedil;&otilde;es. </font></p>     <p><font size="3">Em trabalho recente, a historiadora Marilyn Halter faz algumas    considera&ccedil;&otilde;es interessantes sobre o processo de resgate da identidade    cultural que ela coloca como sendo "o marketing da etnicidade". Sobre    o caminho trilhado na busca dessa identidade, ela considera, em primeiro lugar    que: </font></p>     <blockquote>       <p><font size="3"><i>"Tais iniciativas geralmente pol&iacute;ticas eram      adornadas por transforma&ccedil;&otilde;es culturais monumentais que inclu&iacute;am      o resgate de ra&iacute;zes enterradas e ocultas pela hist&oacute;ria assim      como a celebra&ccedil;&atilde;o de heran&ccedil;a distintiva", portanto,      "Ap&oacute;s d&eacute;cadas em que a assimila&ccedil;&atilde;o era o      modelo principal para a incorpora&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es      diversas, o pluralismo cultural emergiu para tomar seu lugar como o paradigma      reinante"(6)</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3"> Mas, ap&oacute;s d&eacute;cadas em que a assimila&ccedil;&atilde;o    de ex&#45;escravos e de nativos era considerada o modelo para a incorpora&ccedil;&atilde;o    dessas diversas popula&ccedil;&otilde;es, ainda que dentro de um quadro hier&aacute;rquico    no qual continuavam constituindo as classes subalternas, um pluralismo cultural,    impulsionado tamb&eacute;m por movimentos de afirma&ccedil;&atilde;o &eacute;tnico&#45;raciais,    emergiu dando lugar a um outro paradigma sociopol&iacute;tico no qual as tradi&ccedil;&otilde;es    e as etnias nativas eram celebradas como tais. O que antes era visto negativamente    tornou&#45;se um valor. Na p&oacute;s&#45;modernidade esses movimentos tendem    a ser engolfados em um modelo do que poder&iacute;amos chamar de mercantilismo    cultural, numa "nova era capitalista" (7) onde bens culturais, da chamada    tradi&ccedil;&atilde;o ancestral de um povo, tornam&#45;se mercadorias, servindo    aos prop&oacute;sitos tanto das classes dominantes como dos pr&oacute;prios    ind&iacute;genas. </font></p>     <p><font size="3"><b>"TRADI&Ccedil;&Atilde;O": CAPITAL CULTURAL E SOCIAL</b>    Entendemos que os atuais movimentos alternativos conhecidos como "nova    era" fazem parte de uma contra&#45;cultura esposada por pessoas em geral inconformadas    com os modelos da sociedade contempor&acirc;nea, mas que continuam, por for&ccedil;a    do pr&oacute;prio processo capitalista, ligadas a um complexo urbano consumista.    Parece contradit&oacute;rio, mas se percebe que a contracultura fabrica e consome    capital cultural, al&eacute;m do econ&ocirc;mico. Os &iacute;ndios da p&oacute;s&#45;modernidade    s&atilde;o atra&iacute;dos por tais grupos alternativos, onde encontram plena    aceita&ccedil;&atilde;o de seus conhecimentos, que constituem um verdadeiro    capital cultural, capital de honra, do qual podem passar a subsistir j&aacute;    que s&atilde;o trocados como mercadorias. Parece&#45;nos, ent&atilde;o, que    "ser &iacute;ndio" tornou&#45;se uma tarefa lucrativa, um caminho profissional    no qual os &iacute;ndios das aldeias passam n&atilde;o s&oacute; a ensinar suas    t&eacute;cnicas e pr&aacute;ticas rituais fora de seu ambiente, como a formar    os chamados xam&atilde;s. Pode&#45;se pensar esse movimento como uma desconstru&ccedil;&atilde;o    cultural em termos do que os ind&iacute;genas ressurgidos imaginavam ser seu    pr&oacute;prio destino dentro das aldeias. Encontraram uma forma de reconstruir    &#150; desconstruindo, transformando &#150; suas bases culturais antigas, enquanto    vivem &agrave; custa de suas novas performances e of&iacute;cios dentro dos    par&acirc;metros da nova era capitalista.</font></p>     <p><font size="3">Este mesmo movimento em busca de um "&iacute;ndio aut&ecirc;ntico"    e sua cultura por parte da sociedade nacional n&atilde;o &eacute; novidade,    em termos de outros pa&iacute;ses, pois o mesmo vem acontecendo nos Estados&#45;Unidos,    onde seu New Age Movement tem tratado de abranger pr&aacute;ticas xam&acirc;nicas,    incluindo as poderosas subst&acirc;ncias psicod&eacute;licas dos nativos norte&#45;americanos.    Suas estrat&eacute;gias de produ&ccedil;&atilde;o e consumo de rituais considerados    nativos t&ecirc;m influenciado inclusive essa mesma conduta no Brasil, quando    "xam&atilde;s" formados nos Estados&#45;Unidos v&ecirc;m participar de "viv&ecirc;ncias"    brasileiras. Alguns desses xam&atilde;s n&atilde;o s&atilde;o originariamente    de nenhuma tribo nativa, mas descendem de um movimento de forma&ccedil;&atilde;o    xam&acirc;nica, produzido e desenvolvido por n&atilde;o&#45;ind&iacute;genas,    nos centros urbanos daquele pa&iacute;s, e que seguem, entre outros, os ensinamentos    do antrop&oacute;logo Michael Harner, autor do manual sobre o "caminho do xam&atilde;"(8).    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Marilyn Halter observa que podemos simplesmente declarar que    "a mercantiliza&ccedil;&atilde;o cultural &eacute; inerente ao sistema capitalista,    um resultado inevit&aacute;vel do funcionamento do mercado" (p.12; 8). A mesma    autora considera, mais adiante em sua tese, que "o consumismo simultaneamente    desagrega e promove uma comunidade &eacute;tnica, podendo mostrar&#45;se tanto    subversivo como hegem&ocirc;nico".(p.14; 8). Entende&#45;se por isso que as    comunidades ind&iacute;genas tanto t&ecirc;m a ganhar como a perder com a mercantiliza&ccedil;&atilde;o    de sua cultura e saber, pois &eacute; poss&iacute;vel que as for&ccedil;as consumistas    possam tanto desestruturar o plano original da comunidade, com seus significados    intr&iacute;nsecos, como tamb&eacute;m enaltecer e refor&ccedil;ar a identidade.    Na verdade, esses s&atilde;o acontecimentos paralelos, via de regra focalizados    em alguns poucos membros da comunidade, que servem como propagadores de sua    cultura e que se beneficiam quase que individualmente dos resultados monet&aacute;rios,    sem que deixem de afetar a comunidade como um todo, tanto para melhor como para    pior.</font></p>     <p><font size="3">Em relat&oacute;rio de viagem a comunidades ind&iacute;genas    do Nordeste, entre eles os Kariri&#45;Xoc&oacute; de Alagoas, Estev&atilde;o    Martins Palitot e Marcos Alexandre dos Santos Albuquerque (9) fazem um interessante    relato sobre o "mercado cultural" naquela aldeia. Segundo eles:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="3"><i>"A venda bem como a produ&ccedil;&atilde;o de artesanato      e outras modalidades art&iacute;sticas que d&atilde;o conta da produ&ccedil;&atilde;o      cultural ind&iacute;gena foram indicadas como um outro grande meio de restituir      ao &iacute;ndio uma qualidade de vida significativa. (...).</i></font></p>       <p><font size="3"><i>A produ&ccedil;&atilde;o artesanal tamb&eacute;m &eacute;      enriquecida com a possibilidade de venda destes materiais nas in&uacute;meras      viagens que membros Kariri&#45;Xoc&oacute; fazem &agrave;s cidades de S&atilde;o      Paulo, Rio de Janeiro e Bras&iacute;lia, como outras tamb&eacute;m. Nestes      lugares, al&eacute;m de expor sua produ&ccedil;&atilde;o artesanal, o grupo      se apresenta em representa&ccedil;&otilde;es de seus rituais. Talvez motivo      de algum conflito, a apresenta&ccedil;&atilde;o de rituais para curiosos nas      grandes capitais, &#91;sic&#93; investe o grupo de prest&iacute;gio, estima, bem como      serve de ganho econ&ocirc;mico para aqueles que fazem estas viagens (...).</i></font></p>       <p><font size="3"><i>O Instituto Txhidjio de cultura e desenvolvimento Kariri&#45;Xoc&oacute;      &eacute; um destes projetos na aldeia que tem como interesse preservar este      'mercado' cultural que vem aos poucos se desenvolvendo"(...).</i></font></p>       <p><font size="3"><i>Este instituto atua relacionando a produ&ccedil;&atilde;o      material, artesanal e art&iacute;stica do grupo com um mercado externo. O      presidente do instituto e outros &iacute;ndios j&aacute; foram a S&atilde;o      Paulo e outras capitais apresentar seus rituais e vender artesanato"(p.9; 9).</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Aqui est&aacute; um claro exemplo de como uma cultura de consumo    contribui para a reinven&ccedil;&atilde;o da identidade, assim como o turismo    pode ter uma parcela significante de contribui&ccedil;&atilde;o para acelerar    a renova&ccedil;&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia &eacute;tnica. Mas o que    dizer sobre os n&atilde;o&#45;ind&iacute;genas que desejam "ser &iacute;ndio"    e pagam para isso? S&atilde;o ing&ecirc;nuos, por reificarem a vis&atilde;o    rom&acirc;ntica do "bom selvagem" ou amea&ccedil;adores, pela possibilidade    de apropriar&#45;se de bens culturais alheios? </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Clarice Novaes da Mota</b> &eacute; professora    adjunta de antropologia na Universidade Federal de Alagoas e vice&#45;coordenadora    do grupo de pesquisa do Laborat&oacute;rio de Movimentos &Eacute;tnicos, da    Universidade Federal de Campina Grande. Em 1980, foi pesquisadora do Museu do    &Iacute;ndio (RJ) e, em 2007, publicou o livro </i>Os filhos de Jurema na floresta    dos esp&iacute;ritos: ritual e cura em duas comunidades ind&iacute;genas do    Nordeste do Brasil<I>, pela Edufal.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Mota, Clarice Novaes da. Jurema's children    in the forest of spirits: ritual and healing among two Brazilian indigenous    groups. Intermediate Technologies Publications: London, England. 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Grunewald, R. A.Os &iacute;ndios do descobrimento:    tradi&ccedil;&atilde;o e turismo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2001.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Oliveira Filho, J. P. (Org.) A viagem da    volta: etnicidade, pol&iacute;tica e reelabora&ccedil;&atilde;o cultural no    nordeste ind&iacute;gena. 1a. Ed. Rio de Janeiro: Contra Capa, 1999.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Amorim, Silo&eacute; Soares de. &Iacute;ndios    ressurgidos: a constru&ccedil;&atilde;o da auto&#45;imagem, os Tumbalal&aacute;,    os Cat&oacute;kinn, os Kalank&oacute;, os Karuazu e os K&oacute;iupank&aacute;.    &#91;s.n.&#93;, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Hobsbawn, Eric. A inven&ccedil;&atilde;o    das tradi&ccedil;&otilde;es. S&atilde;o Paulo: Paz e Terra, p. 9&#45;23, 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">6. Halter, M. Shopping for identity. The marketing    of ethnicity. Kindle Edition: New York, 2000.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">7. Paiva, V. et al. "Percursos formativos na nova era capitalista:    do alternativo &agrave; busca da legitimidade profissional". Contemporaneidade    e Educa&ccedil;&atilde;o, Rio de Janeiro, v. 10, p. 113&#45;152, 2001.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Harner, Michael. The way of the shaman: a    guide to power and healing. Harper &amp; Row Publishers, New York, 1980.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">9. Albuquerque, Marcos Alexandre dos Santos e Palitot, Estev&atilde;o    Martins. "Indios do Nordeste (AL, PE e PB)". Relat&oacute;rio de viagem apresentado    ao Laced/MN/UFRJ, 2002.</font> ]]></body><back>
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