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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>POR QUE VALORIZAR PATRIM&Ocirc;NIOS CULTURAIS IND&Iacute;GENAS?</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Dominique Tilkin Gallois</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5>E</font>m todos os continentes, os povos ind&iacute;genas    continuam sofrendo intensa discrimina&ccedil;&atilde;o, com impactos agravados    quando se encontram em situa&ccedil;&atilde;o de minorias, &eacute;tnicas e    ling&uuml;&iacute;sticas. O pr&oacute;prio desconhecimento a respeito da diversidade    desses povos, que representam hoje cerca de 350 milh&otilde;es de pessoas, 4%    da popula&ccedil;&atilde;o mundial, acentua ainda mais esse quadro. Nas Am&eacute;ricas,    s&atilde;o 50 milh&otilde;es, vivendo situa&ccedil;&otilde;es muito diversas    em cada pa&iacute;s. No Brasil, o censo realizado pelo IBGE em 2000 surpreendeu,    quando mais de 700 mil pessoas se declararam "ind&iacute;genas", abrangendo    um numeroso contingente ind&iacute;gena que vive em centros urbanos. Mas a maior    parte da popula&ccedil;&atilde;o brasileira considera que os &iacute;ndios ainda    est&atilde;o "em vias de desaparecimento" e delega ao Estado a responsabilidade    de seu destino. Um destino que se costuma taxar de incerto, recomendando&#45;se    ora sua "integra&ccedil;&atilde;o", ora sua "preserva&ccedil;&atilde;o".</font></p>     <p><font size="3">O fato &eacute; que os &iacute;ndios sa&iacute;ram do isolamento,    integrados como est&atilde;o aos sistemas sociais, econ&ocirc;micos e pol&iacute;ticos,    em &acirc;mbito regional ou nacional. Uma integra&ccedil;&atilde;o que se realiza    por meio de rela&ccedil;&otilde;es profundamente desiguais, &agrave;s vezes    no limite da exclus&atilde;o. Enquanto minorias, os povos ind&iacute;genas se    v&ecirc;em for&ccedil;ados a negociar constantemente seus interesses diferenciados    com as mais diversas inst&acirc;ncias de poder, locais, nacionais e internacionais.    Nesses contextos, aprenderam a gerir tanto suas especificidades culturais quanto    seu posicionamento face &agrave;s exig&ecirc;ncias do desenvolvimento. &Eacute;    por este motivo que se costuma afirmar que os povos ind&iacute;genas lutam "a    favor" e "contra" o desenvolvimento. A favor, quando reivindicam acesso aos    servi&ccedil;os b&aacute;sicos de educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de. Contra,    quando reivindicam garantias territoriais e procuram explicitar e defender suas    diferen&ccedil;as culturais. Mas &eacute; tamb&eacute;m internamente a suas    comunidades que ocorrem tens&otilde;es decorrentes da insidiosa discrimina&ccedil;&atilde;o    a que s&atilde;o submetidos. </font></p>     <p><font size="3"><b>COMO PROTEGER BENS IMATERIAIS IND&Iacute;GENAS?</b> Centenas    de projetos de valoriza&ccedil;&atilde;o cultural est&atilde;o em curso dentro    e fora das aldeias. Estrat&eacute;gias est&atilde;o sendo testadas, com a colabora&ccedil;&atilde;o    de programas supranacionais e de &oacute;rg&atilde;os nacionais, universidades,    organiza&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas, organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o&#45;governamentais,    formando um painel ainda fr&aacute;gil de experimentos, muitas vezes contradit&oacute;rios.    As dificuldades remetem, sobretudo, &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es disponibilizadas    para a prote&ccedil;&atilde;o dos patrim&ocirc;nios imateriais ind&iacute;genas,    que flutuam em acordo com os contextos pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos.    Assim, a adequa&ccedil;&atilde;o das medidas de prote&ccedil;&atilde;o envolve,    sempre, complexas negocia&ccedil;&otilde;es. </font></p>     <p><font size="3">Como se sabe, os procedimentos de "conserva&ccedil;&atilde;o"    habitualmente utilizados para a prote&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio material    n&atilde;o s&atilde;o adequados &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio    imaterial, que exige um conjunto muito mais complexo de procedimentos. A pr&aacute;tica    do "tombamento", que visa garantir a integridade f&iacute;sica e as caracter&iacute;sticas    originais de um monumento hist&oacute;rico ou de uma obra art&iacute;stica,    n&atilde;o se aplica aos conhecimentos e manifesta&ccedil;&otilde;es culturais    intang&iacute;veis, cujo valor reside justamente na capacidade de transforma&ccedil;&atilde;o    dos saberes e modos de fazer. Neste caso, ao inv&eacute;s do tombamento, s&atilde;o    recomendadas medidas de "salvaguarda". Em acordo com as defini&ccedil;&otilde;es    oficiais difundidas pela Unesco (1), entende&#45;se por "salvaguarda" as a&ccedil;&otilde;es    que procuram assegurar a viabilidade e durabilidade do patrim&ocirc;nio cultural    imaterial, incluindo sua identifica&ccedil;&atilde;o, documenta&ccedil;&atilde;o,    investiga&ccedil;&atilde;o, preserva&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de sua prote&ccedil;&atilde;o,    promo&ccedil;&atilde;o, valoriza&ccedil;&atilde;o, transmiss&atilde;o &#150;    efetuada atrav&eacute;s do ensino formal e n&atilde;o formal &#150; e a revitaliza&ccedil;&atilde;o    desse patrim&ocirc;nio em seus diferentes aspectos.</font></p>     <p><font size="3">Tanto a identifica&ccedil;&atilde;o &#150; ou seja, a sele&ccedil;&atilde;o    e o invent&aacute;rio de elementos culturais relevantes para um registro ou    para uma a&ccedil;&atilde;o de difus&atilde;o &#150; como as medidas adotadas    para sua prote&ccedil;&atilde;o e sua valoriza&ccedil;&atilde;o, colocam imediatamente    em pauta uma s&eacute;rie de desafios que consideramos interessante resumir,    mesmo que brevemente, citando dificuldades de tr&ecirc;s ordens: quem s&atilde;o    os agentes respons&aacute;veis pelo invent&aacute;rio dessas tradi&ccedil;&otilde;es    culturais? Quem tem o poder de escolher entre uma ou outra tradi&ccedil;&atilde;o,    entre uma ou outra comunidade? O que se pretende preservar numa tradi&ccedil;&atilde;o:    as produ&ccedil;&otilde;es, o registro dessas produ&ccedil;&otilde;es ou seus    meios de express&atilde;o? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>QUEM SE RESPONSABILIZA POR UM INVENT&Aacute;RIO?</b> Priorizar    a ampla difus&atilde;o ou enfatizar a capacita&ccedil;&atilde;o local &eacute;    uma diferen&ccedil;a sens&iacute;vel, na discuss&atilde;o desses programas e    na realiza&ccedil;&atilde;o de invent&aacute;rios de tradi&ccedil;&otilde;es    e manifesta&ccedil;&otilde;es culturais. Quem assume a responsabilidade de um    invent&aacute;rio cultural? Especialistas acad&ecirc;micos ou as pr&oacute;prias    comunidades?</font></p>     <p><font size="3">Os primeiros programas de salvaguarda de tradi&ccedil;&otilde;es    ind&iacute;genas apoiados pela Unesco, no in&iacute;cio desta d&eacute;cada,    revelam uma varia&ccedil;&atilde;o no peso dado &agrave;s a&ccedil;&otilde;es    de sensibiliza&ccedil;&atilde;o e divulga&ccedil;&atilde;o, em detrimento de    atividades de capacita&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria. Muito recentemente,    vem se dando maior import&acirc;ncia &agrave;s a&ccedil;&otilde;es educativas,    para promover n&atilde;o apenas o bem cultural imaterial, mas seus detentores.    Acentua&#45;se o interesse em promover tanto os l&iacute;deres como os jovens    dessas comunidades, quando est&atilde;o interessados em fortalecer sua cultura.    Efetivamente, participar n&atilde;o significa "assistir" ao processo de valoriza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">A participa&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria na prote&ccedil;&atilde;o    e promo&ccedil;&atilde;o de tradi&ccedil;&otilde;es culturais constitui atualmente    o eixo central do conceito de salvaguarda. A igualdade de acesso aos procedimentos    de preserva&ccedil;&atilde;o, sua descentraliza&ccedil;&atilde;o e sua adapta&ccedil;&atilde;o    din&acirc;mica &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es locais sendo determinantes    para o sucesso dessas pol&iacute;ticas (2). E h&aacute; experi&ecirc;ncias interessantes    nesse sentido, no Brasil. Programas desenvolvidos por organiza&ccedil;&otilde;es    n&atilde;o&#45;governamentais junto aos &iacute;ndios do Acre, Amap&aacute;,    Amazonas, Tocantins, Parque Ind&iacute;gena do Xingu, investem na capacita&ccedil;&atilde;o,    permitindo que membros dessas comunidades ocupem um lugar de destaque nas atividades    de registro de suas pr&oacute;prias tradi&ccedil;&otilde;es. </font></p>     <p><font size="3">Essas a&ccedil;&otilde;es de valoriza&ccedil;&atilde;o de saberes    e de pr&aacute;ticas culturais tradicionais se ap&oacute;iam, necessariamente,    na escrita e em outras t&eacute;cnicas de registro. Engajam novos agentes de    transmiss&atilde;o, como os indiv&iacute;duos mais jovens das pr&oacute;prias    comunidades, interessados no dom&iacute;nio dessas novas tecnologias. E &eacute;    por esse motivo que devemos considerar que qualquer invent&aacute;rio do patrim&ocirc;nio    cultural imaterial sempre abarca tanto aspectos "novos" quanto "tradicionais".    Essa &eacute; mais uma raz&atilde;o para valorizar esse patrim&ocirc;nio, que    definitivamente n&atilde;o se define como um recept&aacute;culo de experi&ecirc;ncias    do passado, mas como um espa&ccedil;o para a intera&ccedil;&atilde;o e o di&aacute;logo    entre culturas. </font></p>     <p><font size="3">Se a capacita&ccedil;&atilde;o &eacute;, sem d&uacute;vida,    indispens&aacute;vel para que membros de uma comunidade fa&ccedil;am registros    de seu patrim&ocirc;nio imaterial, essa forma&ccedil;&atilde;o precisa se adequar    &agrave;s demandas locais, que podem estar voltadas para as mais diferentes    ou surpreendentes media&ccedil;&otilde;es. Tal adequa&ccedil;&atilde;o depende    de estrat&eacute;gias mais pol&iacute;ticas do que t&eacute;cnicas, fazendo    com que a ades&atilde;o inicial possa se converter num engajamento duradouro    da comunidade &#150; ou de boa parte dos seus membros &#150; na implementa&ccedil;&atilde;o    de todas as etapas do processo de registro e de valoriza&ccedil;&atilde;o. Por    este motivo, em acordo com as recomenda&ccedil;&otilde;es de especialistas que    assessoram a Unesco, a participa&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria n&atilde;o    se limita ao acompanhamento ativo das a&ccedil;&otilde;es, mas &agrave; autoria    expl&iacute;cita, na sele&ccedil;&atilde;o, no registro e na documenta&ccedil;&atilde;o    dos elementos culturais que se pretende salvaguardar. Os crit&eacute;rios para    julgar a "autenticidade" de uma manifesta&ccedil;&atilde;o ou express&atilde;o    cultural s&oacute; podem ser definidos no seu contexto local de uso, ou seja,    depende das interpreta&ccedil;&otilde;es dos pr&oacute;prios ind&iacute;genas.</font></p>     <p><font size="3">A participa&ccedil;&atilde;o da comunidade n&atilde;o se limita,    portanto, a aprender novas t&eacute;cnicas de documenta&ccedil;&atilde;o. Trata&#45;se    de um investimento que mobiliza todos os aspectos de uma cultura, desde os modos    de percep&ccedil;&atilde;o, interpreta&ccedil;&atilde;o, constru&ccedil;&atilde;o    e uso. Pois o registro n&atilde;o &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o isolada, nem    suficiente e seus procedimentos devem ser constantemente negociados para atender    demandas renovadas que surgem ao longo das sucessivas etapas de um plano de    salvaguarda. Um processo sempre muito demorado, al&eacute;m de complexo, em    fun&ccedil;&atilde;o das tens&otilde;es pol&iacute;ticas que podem surgir, tanto    no seio de uma comunidade, como nas suas rela&ccedil;&otilde;es com a sociedade    mais ampla. </font></p>     <p><font size="3"><b>PARA QUEM DOCUMENTAR TRADI&Ccedil;&Otilde;ES CULTURAIS?</b>    As a&ccedil;&otilde;es de documenta&ccedil;&atilde;o de tradi&ccedil;&otilde;es    culturais ocupam um lugar predominante nos programas de salvaguarda. Mas levantam    uma s&eacute;rie de questionamentos. No caso do patrim&ocirc;nio imaterial,    qual a fun&ccedil;&atilde;o da documenta&ccedil;&atilde;o? &Eacute; um fim,    ou &eacute; um meio? </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/a15img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Essas indaga&ccedil;&otilde;es alimentam a maior parte das cr&iacute;ticas    feitas por antrop&oacute;logos e ling&uuml;istas a muitos planos de salvaguarda    de tradi&ccedil;&otilde;es orais ind&iacute;genas. Como explica Aurore Monod    Becquelin (3), "&eacute; mais f&aacute;cil armazenar <I>gigas</I> de arquivos    do que preservar o uso de uma l&iacute;ngua, uma atitude que exige esfor&ccedil;os    pol&iacute;ticos, financeiros, humanos muito mais elevados; se as tradi&ccedil;&otilde;es    orais fossem apenas um ato de conserva&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o bastaria    recolher, registrar, transcrever, eventualmente traduzir, documentar para salvar    &#150; na tela mundial da internet ou nos museus e universidades &#150; tudo    que se pode ainda salvar deste naufr&aacute;gio". </font></p>     <p><font size="3">Mas muitos estudiosos do patrim&ocirc;nio imaterial ind&iacute;gena    defendem a necessidade e mesmo a urg&ecirc;ncia de sua documenta&ccedil;&atilde;o,    apresentando outra indaga&ccedil;&atilde;o: o conhecimento tradicional &eacute;    mais bem preservado quando mantido sob segredo, ou reservado para uso exclusivamente    local? Ou ele se fortalece quando &eacute; mostrado, explicado, traduzido e    defendido com a ativa participa&ccedil;&atilde;o de seus detentores nas a&ccedil;&otilde;es    de difus&atilde;o? O n&uacute;mero crescente de publica&ccedil;&otilde;es, de    exposi&ccedil;&otilde;es, de <I>websites</I>, etc, criados ou mantidos por ind&iacute;genas    revela seu interesse na apropria&ccedil;&atilde;o de novas m&iacute;dias para    expressar suas particularidades culturais. De acordo com Kurin (4), defender    sua cultura consiste em perceber que "se o mundo no qual estou vivendo se ampliou,    ainda tenho meu pr&oacute;prio lugar nesse mundo". Os invent&aacute;rios, nessa    perspectiva, abrem espa&ccedil;o &agrave;s culturas ind&iacute;genas no mapa    das culturas do mundo. Mas, por si s&oacute;, n&atilde;o garantem nem a sobreviv&ecirc;ncia    nem a continuidade de uma pr&aacute;tica cultural.</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, a difus&atilde;o ampliada de saberes e de costumes    diferenciados n&atilde;o se faz sem riscos. At&eacute; recentemente, no Brasil,    o apoio fornecido por institui&ccedil;&otilde;es privadas ou p&uacute;blicas    ao chamado "resgate cultural" centrava&#45;se na produ&ccedil;&atilde;o de discos,    document&aacute;rios, calend&aacute;rios, artesanato, performances, configurados    para o entretenimento de um p&uacute;blico urbano, com algum retorno financeiro    para os participantes ind&iacute;genas. A visibilidade dos realizadores nem    sempre repercute internamente na valoriza&ccedil;&atilde;o dos saberes tradicionais.    Como se sabe, o que se resgata para um p&uacute;blico externo &eacute;, necessariamente,    muito diferente do que se planeja valorizar "em casa". </font></p>     <p><font size="3">Como alertava Goody (5), "toda altera&ccedil;&atilde;o no sistema    de comunica&ccedil;&atilde;o humana tem necessariamente repercuss&otilde;es    no conte&uacute;do transmitido". Mesmo antes de ser difundido, o pr&oacute;prio    registro, a inscri&ccedil;&atilde;o de uma tradi&ccedil;&atilde;o em uma nova    m&iacute;dia, fora do seu contexto de uso, trar&aacute; altera&ccedil;&otilde;es    significativas. &Eacute; indispens&aacute;vel levar em conta as repercuss&otilde;es    de que nos fala Goody, para controlar os procedimentos de registro e documenta&ccedil;&atilde;o    e avaliar seus impactos na din&acirc;mica pr&oacute;pria da transmiss&atilde;o    de saberes e pr&aacute;ticas tradicionais. Os registros e sua inser&ccedil;&atilde;o    em invent&aacute;rios constituem de fato "mem&oacute;rias adicionais", ou "artificiais",    que podem auxiliar aos prop&oacute;sitos de fortalecimento cultural de comunidades    ind&iacute;genas. Mas, sozinhos, n&atilde;o constituem uma salvaguarda do patrim&ocirc;nio    imaterial.</font></p>     <p><font size="3"><b>COMO REGISTRAR A ORIGEM E A TRANSFORMA&Ccedil;&Atilde;O DAS    TRADI&Ccedil;&Otilde;ES?</b> "A mem&oacute;ria em jogo na tradi&ccedil;&atilde;o    oral n&atilde;o &eacute; apenas conserva&ccedil;&atilde;o. Ela &eacute; tratamento    da percep&ccedil;&atilde;o, tens&atilde;o entre perenidade e flexibilidade,    utens&iacute;lio para a constru&ccedil;&atilde;o, produto de um <I>ethos</I>.    Ela n&atilde;o &eacute; um saco de antiguidades, mas segue a hist&oacute;ria    coletiva e as intencionalidades". Becquelin (3) aponta, aqui, para um aspecto    essencial nas tradi&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas, que possuem sua pr&oacute;pria    hist&oacute;ria e est&atilde;o diretamente relacionadas a experi&ecirc;ncias    de intera&ccedil;&atilde;o social. S&atilde;o menos um testemunho do passado    de uma determinada comunidade, do que o testemunho da hist&oacute;ria das trocas    que essa comunidade manteve com outras.</font></p>     <p><font size="3">Isso nos traz de volta &agrave; quest&atilde;o da "origem" dos    elementos culturais, que interessa abordar a partir das concep&ccedil;&otilde;es    ind&iacute;genas. Os povos ind&iacute;genas da Amaz&ocirc;nia consideram que    a maior parte de seus itens culturais foram adquiridos "de fora", concebendo    sua cultura como o resultado de apropria&ccedil;&otilde;es, de empr&eacute;stimos.    E &eacute; por terem sido apropriados de "outros", que esses elementos s&atilde;o    valorizados. Esse ponto de visa torna muito mais complexo o ato do registro,    que n&atilde;o poder&aacute; se restringir &agrave; descri&ccedil;&atilde;o    pura e simples de um saber, ou de uma t&eacute;cnica, mas das interpreta&ccedil;&otilde;es    que a comunidade possui a respeito da origem dessa pr&aacute;tica e do modo    com foi transmitida e dinamicamente transformada at&eacute; a atual gera&ccedil;&atilde;o.    Essa &eacute; a abordagem adotada pelos antrop&oacute;logos, cujos estudos focam    menos tra&ccedil;os e itens culturais que as rela&ccedil;&otilde;es sociais    mediadas por esses itens culturais. Bens imateriais, como os bens materiais,    circulam, sendo objeto de troca, de barganha, de lutas. S&atilde;o essas as    rela&ccedil;&otilde;es que agregam valor aos itens culturais. Por isso, tanto    a origem como as formas de apropria&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o    de um elemento cultural, quando este passa de um lugar ao outro, devem ser cuidadosamente    registradas. </font></p>     <p><font size="3"><b>COMO DOCUMENTAR TRADI&Ccedil;&Otilde;ES VIVAS?</b> Nos debates    entre os especialistas que a Unesco costuma convocar para discutir estrat&eacute;gias    de prote&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio cultural imaterial, volta&#45;se    freq&uuml;entemente &agrave; mesma pergunta: a quais tradi&ccedil;&otilde;es    dar prioridade? &Agrave;s mais amea&ccedil;adas ou &agrave;s mais din&acirc;micas?</font></p>     <p><font size="3">Se um invent&aacute;rio de tradi&ccedil;&otilde;es culturais    deve ser constru&iacute;do caso a caso, em acordo com interesses das comunidades,    caber&aacute; a elas definir crit&eacute;rios para o registro. Al&eacute;m disso,    se consideramos as altera&ccedil;&otilde;es que o trabalho de registro pressup&otilde;e,    essa escolha &#150; entre tradi&ccedil;&otilde;es mais ou menos "vivas" &#150;    deixar&aacute; de fazer sentido. </font></p>     <p><font size="3">Um invent&aacute;rio de tradi&ccedil;&otilde;es culturais remete    diretamente a quest&otilde;es metodol&oacute;gicas relacionadas &agrave; produ&ccedil;&atilde;o    de conhecimento. Entre essas quest&otilde;es, uma das mais interessantes &eacute;    a rela&ccedil;&atilde;o entre conhecimento e pr&aacute;tica. Outra, diz respeito    &agrave; varia&ccedil;&atilde;o das tradi&ccedil;&otilde;es, no seio de uma    mesma comunidade cultural. </font></p>     <p><font size="3">A inscri&ccedil;&atilde;o de uma tradi&ccedil;&atilde;o &#150;    seja em forma escrita ou em formato audiovisual &#150; representa uma nova forma    de comunica&ccedil;&atilde;o, constituindo&#45;se em mais uma "vers&atilde;o"    da tradi&ccedil;&atilde;o que se est&aacute; registrando. O que essa nova "vers&atilde;o"    da tradi&ccedil;&atilde;o, devidamente descrita, documentada e aparentemente    "salva" num invent&aacute;rio, apresenta como vantagens? Quais s&atilde;o os    benef&iacute;cios para uma comunidade engajada no invent&aacute;rio de suas    pr&oacute;prias tradi&ccedil;&otilde;es?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Quer nos parecer que o processo de invent&aacute;rio do patrim&ocirc;nio    cultural imaterial pode trazer muitos ganhos para uma comunidade, desde que    ela esteja interessada no fortalecimento de sua cultura e identidade. N&atilde;o    s&atilde;o ganhos imediatos, nem muito vis&iacute;veis, mas ganhos intelectuais,    propriamente intang&iacute;veis. De fato, tanto o esfor&ccedil;o de reflex&atilde;o    exigido por um invent&aacute;rio como os resultados alcan&ccedil;ados, podem    contribuir para a consolida&ccedil;&atilde;o de formas pr&oacute;prias de conceber    e construir o conhecimento. &Eacute; nesse contexto que ind&iacute;genas engajados    em processos de documenta&ccedil;&atilde;o poder&atilde;o destacar as id&eacute;ias,    l&oacute;gicas, teorias que est&atilde;o por tr&aacute;s dos conhecimentos documentados.    Eles estar&atilde;o, por essa via, contribuindo &agrave; discuss&atilde;o te&oacute;rica    do conhecimento ind&iacute;gena, construindo explica&ccedil;&otilde;es a respeito    desses saberes, revelando classifica&ccedil;&otilde;es e l&oacute;gicas culturais    das mais relevantes para a qualidade dos invent&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="3">Se admitirmos que nessas experi&ecirc;ncias se deva registrar    e documentar n&atilde;o s&oacute; os "produtos acabados", mas os jeitos de conhecer,    os estilos pr&oacute;prios usados para explicar uma tradi&ccedil;&atilde;o,    as formas de transmiss&atilde;o e valida&ccedil;&atilde;o desses saberes, os    membros da comunidade que estiverem participando de um invent&aacute;rio estar&atilde;o    capacitados a refletir, de modo muito mais eficaz, sobre os mecanismos de produ&ccedil;&atilde;o    e transforma&ccedil;&atilde;o do saber. E, por conseguinte, se sentir&atilde;o    habilitados a efetuar compara&ccedil;&otilde;es, no tempo e no espa&ccedil;o,    avaliando com maior propriedade as amea&ccedil;as que podem pairar sobre suas    tradi&ccedil;&otilde;es culturais.</font></p>     <p><font size="3">Mas a elevada carga de preconceitos que ainda rodeia os saberes    ind&iacute;genas exige cautela, nos procedimentos e processos de reconhecimento    dos patrim&ocirc;nios desses povos, que s&oacute; fazem sentido quando se levam    em considera&ccedil;&atilde;o os contextos particulares. Muitos grupos ind&iacute;genas    op&otilde;em&#45;se ao registro de seus conhecimentos, por temer a difus&atilde;o    inadequada de seus conte&uacute;dos. Ali&aacute;s, um primeiro passo, sem d&uacute;vida    indispens&aacute;vel, deveria propiciar aos &iacute;ndios a possibilidade de    avaliar criticamente invent&aacute;rios de que j&aacute; se disp&otilde;e a    respeito de suas "tradi&ccedil;&otilde;es", especialmente quando os registros    foram t&atilde;o incipientes que n&atilde;o documentaram o contexto espec&iacute;fico    em que os saberes e pr&aacute;ticas s&atilde;o utilizados.</font></p>     <p><font size="3">Ou seja, a documenta&ccedil;&atilde;o apresenta um s&eacute;rio    risco de descontextualizar um bem imaterial. Como sabemos, &eacute; o contexto    que garante sentido de uma tradi&ccedil;&atilde;o: um contexto de uso sempre    acoplado a formas espec&iacute;ficas de atualiza&ccedil;&atilde;o, sem as quais    essa mesma tradi&ccedil;&atilde;o se torna um bem inerte, sem valor para seus    usu&aacute;rios. Manter um registro de elementos que j&aacute; deixaram de fazer    sentido para seus criadores n&atilde;o &eacute;, decididamente, o que os grupos    ind&iacute;genas parecem estar esperando de todo o conjunto de recomenda&ccedil;&otilde;es    e de programas voltados &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o de suas culturas.    Ou, ao contr&aacute;rio, estar&atilde;o eles liberando fragmentos de uma tradi&ccedil;&atilde;o    abordada como "passado", disponibilizando tais fragmentos &agrave; febre corrente    de registros? Dessa forma, possivelmente, estar&atilde;o preservando para si    a responsabilidade de transformar, no seu pr&oacute;prio ritmo, o que selecionarem    como "sua tradi&ccedil;&atilde;o" para o futuro?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Dominique Tilkin Gallois</b> &eacute; docente do Departamento    de Antropologia da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e coordenadora do    N&uacute;cleo de Hist&oacute;ria Ind&iacute;gena e do Indigenismo (NHII/USP).    Pesquisa e assessora programas de valoriza&ccedil;&atilde;o de patrim&ocirc;nios    culturais ind&iacute;genas no Amap&aacute; e norte do Par&aacute;.</i></font></p>     <p><font size="3">Este texto constitui uma vers&atilde;o atualizada da 3ª parte    da brochura "Povos ind&iacute;genas e patrim&ocirc;nio cultural imaterial" (Iep&eacute;,    S&atilde;o Paulo, 2006).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">1. Unesco &#150; Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es    Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura. Defini&ccedil;&otilde;es    acordadas em 2002 pela reuni&atilde;o internacional de especialistas convocados    pela Unesco. <i>In</i>: "Le patrimoine culturel immat&eacute;riel, internationale    de l'imaginaire", n.17, <i>Maison des Cultures du Monde</i>, pp.230&#45;236,    2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Unesco. Documento&#45;base da reuni&atilde;o "Novas abordagens    para a diversidade cultural: o papel das comunidades". Havana, fevereiro 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Becquelin, Aurore Monod. "La tradition orale n'est plus ce    qu'elle &eacute;tait". <i>Dossier Sciences Humaines,</i> vol. 159, 2005.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Kurin, R. "Immat&eacute;riel, mais bien r&eacute;el". <i>Le    Courrier de l'Unesco</i>, setembro 2001.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Goody, J. <i>A domestica&ccedil;&atilde;o do pensamento selvagem</i>,    Edi&ccedil;&otilde;es 70, Lisboa, 1997.</font> ]]></body><back>
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<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<collab>Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura</collab>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Definições acordadas em 2002 pela reunião internacional de especialistas convocados pela Unesco]]></article-title>
<source><![CDATA[Le patrimoine culturel immatériel, internationale de l'imaginaire]]></source>
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<label>2</label><nlm-citation citation-type="confpro">
<collab>Unesco</collab>
<source><![CDATA[Documento-base da reunião]]></source>
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<conf-name><![CDATA[ Novas abordagens para a diversidade cultural: o papel das comunidades]]></conf-name>
<conf-date>fevereiro 2006</conf-date>
<conf-loc>Havana </conf-loc>
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<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[La tradition orale n'est plus ce qu'elle était]]></article-title>
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<surname><![CDATA[Kurin]]></surname>
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<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Immatériel, mais bien réel]]></article-title>
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<year>1997</year>
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