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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>AS FORMA&Ccedil;&Otilde;ES SOCIORRELIGIOSAS DA AMAZ&Ocirc;NIA    IND&Iacute;GENA E SUAS TRANSFORMA&Ccedil;&Otilde;ES HIST&Oacute;RICAS</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Robin M. Wright</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5>A</font>s pesquisas antropol&oacute;gicas recentes    sobre as vidas sociais e religiosas dos povos ind&iacute;genas das Terras Baixas    sul&#45;americanas ressaltam, por um lado, a import&acirc;ncia das dimens&otilde;es    est&eacute;tica e emocional, ambas intimamente vinculadas aos saberes e valores    morais, nos quais h&aacute; um ideal expl&iacute;cito de "convivialidade    harmoniosa", ou seja, um esfor&ccedil;o ponderado de promover uma &eacute;tica    de compartilhamento e generosidade com os parentes. Este ideal, por outro lado,    implica em uma luta constante, uma "s&iacute;ndrome de S&iacute;sifo",    em que cada esfor&ccedil;o de estabelecer o ideal de harmonia esbarra em for&ccedil;as    que impedem sua realiza&ccedil;&atilde;o &#150; tais como a feiti&ccedil;aria, a    viol&ecirc;ncia f&iacute;sica ou simb&oacute;lica, e outras formas de conflito.    Portanto, temos de fato dois modelos propostos para compreender as vidas sociais    e religiosas das sociedades ind&iacute;genas amaz&ocirc;nicas: um seria a chamada    "economia moral de intimidade", em que as sociedades procuram estabelecer    a convivialidade harmoniosa entre grupos de parentes consang&uuml;&iacute;neos    &#150; restringindo, por exemplo, os abusos de poder; o outro modelo seria a "economia    simb&oacute;lica de alteridade", que enfatiza a categoria social de afinidade    como fonte potencial de conflito e como uma for&ccedil;a atuante em processos    sociais e religiosos, concentrando as an&aacute;lises em processos de troca    simb&oacute;lica tais como guerra e canibalismo, preda&ccedil;&atilde;o, ca&ccedil;a,    xamanismo, e ritos funer&aacute;rios. </font></p>     <p><font size="3">Essas tend&ecirc;ncias n&atilde;o s&atilde;o necessariamente    exclusivas, e um expoente da primeira escola encontrou ambos os idiomas sociorreligiosos,    diferencialmente definidos em termos morais, em um &uacute;nico grupo: os Amuesha,    da Amaz&ocirc;nia peruana ao leste, sobre os quais Fernando Santos Granero escreveu    uma monografia importante, com o t&iacute;tulo "El poder del amor".</font></p>     <p><font size="3">Ao mesmo tempo, o material etnogr&aacute;fico da Amaz&ocirc;nia    mostra como as condi&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas, em alguma medida,    moldam a dial&eacute;tica entre a "viol&ecirc;ncia predat&oacute;ria" e    a "convivialidade harmoniosa" nos grupos. O ciclo distintivo das esta&ccedil;&otilde;es    alternantes de seca e chuva se mostra importante para uma alterna&ccedil;&atilde;o    entre formas de socialidade: a "dispers&atilde;o" durante a esta&ccedil;&atilde;o    seca por um lado (uma esp&eacute;cie de "atomiza&ccedil;&atilde;o" social,    ou movimento centr&iacute;fugo, quando pequenos grupos aut&ocirc;nomos permanecem    fora da aldeia principal para ca&ccedil;ar, colher, pescar e plantar ro&ccedil;as),    e, por outro, a "concentra&ccedil;&atilde;o", ou movimento centr&iacute;peto    durante a esta&ccedil;&atilde;o chuvosa (quando a comunidade inteira est&aacute;    reunida na aldeia, com o t&eacute;rmino do plantio das ro&ccedil;as novas e    a colheita nas ro&ccedil;as do ano anterior). Ambas situa&ccedil;&otilde;es    ecol&oacute;gicas b&aacute;sicas propiciam n&atilde;o somente atividades econ&ocirc;micas    diferentes, mas rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e atividades rituais    distintas. Em princ&iacute;pio, os per&iacute;odos de dispers&atilde;o enfatizam    a viol&ecirc;ncia predat&oacute;ria, enquanto os per&iacute;odos de concentra&ccedil;&atilde;o,    a convivialidade harmoniosa. Paradoxalmente, o inverso pode tamb&eacute;m ser    verdadeiro: a convivialidade intensa (ou movimentos centr&iacute;petos) pode    produzir situa&ccedil;&otilde;es conflituosas ou celebrar a viol&ecirc;ncia    predat&oacute;ria (rituais de guerra), enquanto a dispers&atilde;o em grupos    aut&ocirc;nomos pode, temporariamente, suspender os regimes restritivos de parentesco    e celebrar a convivialidade harmoniosa com categorias de "outra" gente    (tais como os afins). De todo modo, interessa entender como essas duas formas    de socialidade/religiosidade se articulam com as atividades ecol&oacute;gicas,    e tamb&eacute;m com a hist&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="3">Ora, todas as sociedades amaz&ocirc;nicas, devemos reconhecer,    t&ecirc;m sofrido transforma&ccedil;&otilde;es t&atilde;o severas, muitas vezes    catastr&oacute;ficas, desde pelo menos o come&ccedil;o do regime colonial (epidemias,    colapso demogr&aacute;fico, atrocidades), que &eacute; dif&iacute;cil imaginar    como poderiam n&atilde;o ter deixado marcas profundas e estruturais nos processos    cosmol&oacute;gicos e sociorreligiosos dos povos ind&iacute;genas. Assim, o    que se chama "rela&ccedil;&otilde;es de preda&ccedil;&atilde;o" entre os    humanos e o mundo natural, bem como entre grupos humanos, deve ser pensado em    rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima com as realidades hist&oacute;ricas de viol&ecirc;ncia    colonial e as suas estruturas sociais.</font></p>     <p><font size="3">Ent&atilde;o, como podemos compreender a dial&eacute;tica de    harmonia interna e preda&ccedil;&atilde;o externa, a dispers&atilde;o e a concentra&ccedil;&atilde;o,    levando em considera&ccedil;&atilde;o as transforma&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas    e ecol&oacute;gicas? Sugiro que incluamos ambas dial&eacute;ticas em um &uacute;nico    modelo constitu&iacute;do pela oposi&ccedil;&atilde;o complementar entre duas    forma&ccedil;&otilde;es sociorreligiosas: uma que podemos chamar de <B>particularista</B>;    e a outra, <B>universalista</B>. Quero esclarecer que estou utilizando estes    termos de modo diferente do que foi utilizado desde Max Weber, pois estou argumentando    que ambas as forma&ccedil;&otilde;es sejam inerentes &agrave;s sociedades amaz&ocirc;nicas,    sendo que ambas podem ser discernidas em suas articula&ccedil;&otilde;es com    circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas e ecol&oacute;gicas externas. Isto &eacute;,    essas forma&ccedil;&otilde;es s&atilde;o generativas de, e influenciadas por,    din&acirc;micas hist&oacute;ricas; as circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas    podem intensificar &#150; ou exacerbar &#150; uma ou outra forma&ccedil;&atilde;o. Ambas,    necessariamente, envolvem as rela&ccedil;&otilde;es entre os humanos e a natureza,    tal como s&atilde;o definidos pelas cosmologias ind&iacute;genas. Examinemos    cada uma dessas forma&ccedil;&otilde;es mais de perto. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>AS FORMA&Ccedil;&Otilde;ES SOCIORRELIGIOSAS PARTICULARISTAS</b>    As forma&ccedil;&otilde;es sociorreligiosas particularistas s&atilde;o marcadas,    no n&iacute;vel social, pela &ecirc;nfase nos la&ccedil;os locais de parentesco,    conflitos com grupos de afins ou considerados "n&atilde;o&#45;parentes",    e na media&ccedil;&atilde;o com os recursos espirituais e naturais atrav&eacute;s    de especialistas religiosos. Do mesmo modo, no n&iacute;vel religioso, as cosmologias    das sociedades agr&iacute;colas tradicionais da floresta tropical s&atilde;o    marcadas pela viol&ecirc;ncia (ritual) <I>geradora&#45;de&#45;vida</I>. A id&eacute;ia&#45;chave    nessas cosmologias &eacute; a centralidade da morte e da regenera&ccedil;&atilde;o,    em atos violentos, por exemplo, no motivo comum da divindade ou ser primordial    morto e desmembrado, cujo corpo &eacute; a fonte de importantes plantas cultivadas.    Esse ato de morte e desmembramento &eacute; periodicamente reencenado em rituais.    Tal ideologia, com a sua viol&ecirc;ncia expl&iacute;cita e impl&iacute;cita,    explica rituais como a ca&ccedil;a&#45;de&#45;cabe&ccedil;as e o canibalismo, mas tamb&eacute;m    a pesca, a ca&ccedil;a, e o plantio &#150; todos reitera&ccedil;&otilde;es do ato    primordial de matar. Traduzindo essas id&eacute;ias para a teoria etnol&oacute;gica    contempor&acirc;nea, esperar&#45;se&#45;ia que o idioma da viol&ecirc;ncia fosse proeminente,    embora evidentemente n&atilde;o excluindo a convivialidade harmoniosa. </font></p>     <p><font size="3">Para ilustrar as forma&ccedil;&otilde;es sociorreligiosas particularistas,    vou me referir a dois casos de povos amaz&ocirc;nicos cujos contatos com a sociedade    n&atilde;o&#45;ind&iacute;gena foram relativamente recentes e/ou limitados: os Wauja,    do Parque Ind&iacute;gena do Xingu, no Brasil Central, e os Enawene&#45;Nawe, do    alto rio Juruena, a sudoeste do Xingu. Trata&#45;se de grupos relativamente pequenos    (de cerca de 300 pessoas) e de l&iacute;ngua aruak. </font></p>     <p><font size="3">Entre os Wauja, a preda&ccedil;&atilde;o ocorre entre os esp&iacute;ritos    primordiais, chamados <I>yerupoho</I> &#150; seres <B>antropomorfos</B> e <B>zoomorfos</B>    &#150; e os humanos, e entre os humanos e animais. Os Wauja falam em seus mitos de    uma preda&ccedil;&atilde;o primordial desses esp&iacute;ritos nos humanos, que    foram for&ccedil;ados a viver dentro de cupinzeiros. Essa situa&ccedil;&atilde;o    se reverteu quando o Sol vestiu uma m&aacute;scara e for&ccedil;ou os esp&iacute;ritos    <I>yerupoho</I> a assumir uma exist&ecirc;ncia velada na natureza; naquele momento    os <I>yerupoho</I> fabricaram milhares de m&aacute;scaras para se esconderem    do Sol. No entanto, dizem que os <I>yerupoho</I> hoje ainda t&ecirc;m uma enorme    curiosidade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vida humana, desejam conviver    com os humanos, transformar os humanos em suas pr&oacute;prias imagens, incorpor&aacute;&#45;los    a sua sociedade, animaliz&aacute;&#45;los. H&aacute; perigo nessa rela&ccedil;&atilde;o,    pois podem roubar as almas humanas, e os <I>yerupoho</I> mais perigosos e monstruosos    podem canibaliz&aacute;&#45;las. Ao roubarem as almas humanas, provocam a doen&ccedil;a,    embora, diz&#45;se, n&atilde;o fa&ccedil;am isso intencionalmente e ajudem na cura    dos doentes. Os humanos, por outro lado, t&ecirc;m todo interesse em domesticar    esses esp&iacute;ritos, pois a doen&ccedil;a para os Wauja significa um desequil&iacute;brio    nos desejos da alma, e &eacute; isso que atrai os <I>yerupoho</I>, fazendo com    que eles queiram levar embora as almas dos humanos. Ao domesticar seres <I>yerupoho</I>,    os humanos podem posteriormente utilizar o seu poder para prevenir futuros ataques    de outros <I>yerupoho</I>. Portanto, os humanos chamam os esp&iacute;ritos <I>yerupoho</I>,    na forma de m&aacute;scaras gigantescas (algumas com tr&ecirc;s metros de di&acirc;metro)    e aerofones (flautas e clarinetes), celebrando a sua presen&ccedil;a entre os    humanos, para assim restabelecer o equil&iacute;brio &#150; pela cura &#150; entre o doente    e o social. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/a16img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Os Enawene&#45;Nawe, por sua vez, dizem que habitam a camada    intermedi&aacute;ria do cosmos, entre os mundos dos esp&iacute;ritos ancestrais    e celestes (a quem chamam de "av&oacute;s") &#150; imortais, belos, generosos,    brincalh&otilde;es, saud&aacute;veis, numa aldeia arquitetonicamente perfeita    cercada por um mundo natural de plenitude, onde tudo cresce e floresce sem a    necessidade de ser cultivado &#150; e os esp&iacute;ritos subterr&acirc;neos    &#150; feios, perversos, insaci&aacute;veis, implac&aacute;veis, sovinas, associais.    Em contraste com os esp&iacute;ritos ancestrais, os que habitam o subterr&acirc;neo    s&atilde;o considerados n&atilde;o&#45;parentes, "outros" grupos (como    os afins), que provocam doen&ccedil;a e morte entre os humanos. Estes esp&iacute;ritos    subterr&acirc;neos, chamados <I>yakayriti</I>, s&atilde;o "donos" ou pelo    menos intermedi&aacute;rios entre os humanos e quase todos os recursos encontrados    na natureza. J&aacute; que controlam os recursos naturais, os Enawene&#45;Nawe    dependem desses esp&iacute;ritos para a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos    e, portanto, a reprodu&ccedil;&atilde;o da vida social. Por outro lado, se os    Enawene&#45;Nawe n&atilde;o alimentam esses esp&iacute;ritos, eles ficam t&atilde;o    furiosos que s&atilde;o capazes de matar todos com doen&ccedil;a. A mitologia    Enawene&#45;Nawe est&aacute; repleta de cat&aacute;strofes produzidas no passado    por esses esp&iacute;ritos. Assim, a sua rela&ccedil;&atilde;o com os humanos    &eacute; de preda&ccedil;&atilde;o &#150; uns diriam de extors&atilde;o &#150;,    em que eles, como os <I>yerupoho</I> entre os Wauja, controlam a produ&ccedil;&atilde;o    ritual e social. Os Enawene&#45;Nawe, como os Wauja, t&ecirc;m uma vida ritual    extremamente elaborada, que envolve um conjunto complexo de aerofones/flautas    representando os v&aacute;rios cl&atilde;s. Estas sempre s&atilde;o tocadas    durante os rituais <I>Y&atilde;kwa</I>, que duram sete meses. Uma rela&ccedil;&atilde;o    de reciprocidade &eacute; estabelecida com os <I>yakayriti</I> durante os <I>y&atilde;kwa</I>:    os esp&iacute;ritos fornecem quantidades abundantes de peixe moqueado para os    Enawene&#45;Nawe, enquanto estes retribuem com sal vegetal e outros alimentos    (como mingau). Como os esp&iacute;ritos <I>yerupoho</I> dos Wauja, os <I>yakayriti</I>    s&atilde;o domesticados durante os rituais (sobre o assunto, ver o filme de    Virginia Valad&atilde;o, <I>Banquete dos esp&iacute;ritos</I>, 1985). </font></p>     <p><font size="3">Em contraste com os Wauja e os Enawene&#45;Nawe, tanto os Apurin&atilde;    do alto rio Purus (com popula&ccedil;&atilde;o de aproximadamente 2400 indiv&iacute;duos)    quanto os Baniwa do noroeste amaz&ocirc;nico (com popula&ccedil;&atilde;o de    cerca de 4 mil pessoas em mais de cem aldeias s&oacute; no Brasil) &#150; que fazem    parte de um dos maiores conjuntos de povos de l&iacute;ngua aruak no continente    &#150; t&ecirc;m experienciado hist&oacute;rias de contato relativamente longas e    brutais: os Apurin&atilde;, desde pelo menos a metade do s&eacute;culo XIX,    especialmente durante ambos os ciclos de borracha, e os Baniwa, desde a metade    do s&eacute;culo XVIII, per&iacute;odo de escravid&atilde;o ind&iacute;gena,    at&eacute; o segundo ciclo de borracha. Como se poderia esperar, tais contatos    traum&aacute;ticos deixaram marcas nas cosmologias Apurin&atilde; e Baniwa.    Podemos dizer que &#150; e esse &eacute; o ponto importante &#150;, em ambos os casos,    as caracter&iacute;sticas peculiares das forma&ccedil;&otilde;es sociorreligiosas    particularistas foram exacerbadas/intensificadas atrav&eacute;s de suas articula&ccedil;&otilde;es    com as circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas. De qual maneira?</font></p>     <p><font size="3">Os mitos cosmog&ocirc;nicos Apurin&atilde; come&ccedil;am com    uma destrui&ccedil;&atilde;o catacl&iacute;smica do mundo, seguido por uma seq&uuml;&ecirc;ncia    de epis&oacute;dios envolvendo seres monstruosos contra os quais o her&oacute;i    <I>Tsura</I> busca se vingar. A vingan&ccedil;a assim &eacute; um tema proeminente    em sua cosmogonia. E os Apurin&atilde; s&atilde;o hoje conhecidos por outros    povos, e querem ser assim conhecidos, por seu <I>ethos</I> guerreiro; em sua    hist&oacute;ria de contato, quando n&atilde;o estavam lutando contra os brancos,    faziam guerras entre si, e o principal motivo para as guerras era vingan&ccedil;a,    por meio de ciclos aparentemente intermin&aacute;veis de retribui&ccedil;&atilde;o    entre fam&iacute;lias. Assim, havia a preda&ccedil;&atilde;o na rela&ccedil;&atilde;o    com os brancos e entre os grupos Apurin&atilde;. Podemos dizer que as circunst&acirc;ncias    hist&oacute;ricas externas, acopladas ao <I>ethos</I> guerreiro dos Apurin&atilde;    e como este &eacute; definido nos mitos, intensificaram a preda&ccedil;&atilde;o    interna ao extremo. Os Apurin&atilde; tamb&eacute;m contam hist&oacute;rias    de grandes migra&ccedil;&otilde;es no passado distante, quando seus ancestrais    sa&iacute;ram de um lugar de origem ao sul e migraram para um lugar onde n&atilde;o    existia a morte, ao norte. Somente um grupo conseguiu alcan&ccedil;ar essa "terra    sagrada", enquanto a maioria dos Apurin&atilde; resolveu ficar no meio    do caminho, numa terra que eles conhecem hoje como a "terra onde ocorre    muitas mortes". </font></p>     <p><font size="3">Voltemos agora a nossa aten&ccedil;&atilde;o para o caso dos    Baniwa da fronteira entre Brasil,Venezuela e Col&ocirc;mbia, entre os quais    e sobre os quais tenho pesquisado desde 1976. Aqui podemos ver com mais clareza    um modelo dial&eacute;tico de forma&ccedil;&otilde;es sociorreligiosas "particularistas"    e "universalistas". Primeiro, o princ&iacute;pio b&aacute;sico da organiza&ccedil;&atilde;o    social Baniwa &eacute; a divis&atilde;o em fratrias (unidade social composta    de um conjunto de comunidades que reivindicam a descend&ecirc;ncia de um grupo    agn&aacute;tico &#150; de irm&atilde;os &#150; em comum, que idealmente compartilham    o mesmo territ&oacute;rio, e possuem um patrim&ocirc;nio ancestral que o distingue    de outras unidades semelhantes), cada uma das quais consistindo num grupo de    sibs (unidade social composta de um conjunto de comunidades locais que reivindicam    o mesmo nome coletivo, a descend&ecirc;ncia de um ancestral em comum, e um territ&oacute;rio    ancestral). Os mitos de cria&ccedil;&atilde;o definem quem esses grupos s&atilde;o    e as suas rela&ccedil;&otilde;es sociais e rituais. Os sibs s&atilde;o localizados    em uma s&eacute;rie de comunidades locais. A tomada de decis&otilde;es pol&iacute;ticas    e as atividades rituais tradicionais acontecem entre as comunidades ou, no m&aacute;ximo,    entre um grupo de comunidades inter&#45;relacionadas do mesmo sib que moram    pr&oacute;ximas umas &agrave;s outras. As rela&ccedil;&otilde;es com outros    sibs &#150; particularmente aquelas com quem h&aacute; alian&ccedil;as e casamentos    &#150; tipicamente s&atilde;o marcadas por ambival&ecirc;ncia: por um lado,    a solidariedade para os afins nos momentos de necessidade; por outro, a trai&ccedil;&atilde;o    (mortes por feiti&ccedil;aria), a competi&ccedil;&atilde;o em torno de recursos    naturais e outros conflitos. Tradicionalmente, tal ambival&ecirc;ncia poderia,    em princ&iacute;pio, ser superada ou pelo menos gerenciada durante as festas    de dan&ccedil;a, quando os sibs de fratrias diferentes bebiam e dan&ccedil;avam    juntos. As figuras&#45;chave nessa forma&ccedil;&atilde;o particularista eram    mediadores, tais como os <I>maliiri</I> (geralmente chamados na Amaz&ocirc;nia    de "paj&eacute;s", respons&aacute;veis pela cura das pessoas). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nessa forma&ccedil;&atilde;o particularista, certos elementos    foram intensificados at&eacute; um ponto cr&iacute;tico, como resultado das    articula&ccedil;&otilde;es com as circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas. Durante    o segundo ciclo da borracha, marcado por conflitos violentos entre os Baniwa    e os "patr&otilde;es", a feiti&ccedil;aria aumentou desmesuradamente, provocando    uma crise interna grave que os mediadores tradicionais n&atilde;o conseguiam    controlar. Como os Apurin&atilde;, a preda&ccedil;&atilde;o interna se intensificou    como resultado de processos externos. Uma hist&oacute;ria oral que gravei em    julho de 2001 mostra essa tens&atilde;o claramente. A narrativa conta sobre    as lutas ao longo de gera&ccedil;&otilde;es entre os profetas Baniwa e os bruxos    (indiv&iacute;duos que praticam envenenamento) e feiticeiros (indiv&iacute;duos    que praticam sopros fatais). A preocupa&ccedil;&atilde;o central dos profetas    n&atilde;o era como lidar com a viol&ecirc;ncia do <I>homem branco</I>; os profetas    sempre o venciam. A preocupa&ccedil;&atilde;o central era como erradicar a feiti&ccedil;aria    e a bruxaria, isto &eacute;, o "mal" dentro da sociedade Baniwa. </font></p>     <p><font size="3">A tradi&ccedil;&atilde;o prof&eacute;tica entre os Baniwa data    de, pelo menos, a metade do s&eacute;culo XIX e foi precursora do movimento    em massa de convers&atilde;o ao cristianismo evang&eacute;lico na d&eacute;cada    de 1950, com o qual veio a competir. Tanto os movimentos prof&eacute;ticos quanto    evang&eacute;licos t&ecirc;m as mesmas ra&iacute;zes na luta contra a feiti&ccedil;aria    e a bruxaria; ambos tinham objetivos semelhantes de implantar uma utopia social    livre da feiti&ccedil;aria. Uma utopia concreta colocada &agrave; prova atrav&eacute;s    da pr&aacute;xis hist&oacute;rica. </font></p>     <p><font size="3"><b>AS FORMA&Ccedil;&Otilde;ES SOCIORRELIGIOSAS UNIVERSALISTAS</b> A segunda forma&ccedil;&atilde;o sociorreligiosa, que chamo "universalista",    &eacute; caracterizada pelos seguintes elementos: primeiro, a identidade pol&iacute;tica    e religiosa &eacute; constru&iacute;da sobre dist&acirc;ncias sociogeogr&aacute;ficas    maiores e envolve conceitos universais de identidade (tais como o "os da    nossa l&iacute;ngua", "o povo Baniwa"). Esses conceitos substituem    a afilia&ccedil;&atilde;o em grupos de parentes locais. Segundo, autoridades    religiosas e pol&iacute;ticas supralocais (tais como sacerdotes, pastores, profetas,    conselhos de federa&ccedil;&otilde;es, organiza&ccedil;&otilde;es pan&#45;ind&iacute;genas)    procuram forjar uma efetiva integra&ccedil;&atilde;o de unidades sociais, pol&iacute;ticas    e religiosas extensas. Terceiro, o acesso a recursos espirituais e materiais    se torna imediato, substituindo a media&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica    das forma&ccedil;&otilde;es particularistas.</font></p>     <p><font size="3">No n&iacute;vel religioso, as forma&ccedil;&otilde;es sociorreligiosas    traduzem os tr&ecirc;s elementos mencionados das seguintes maneiras concretas:    primeiro, atrav&eacute;s de fun&ccedil;&otilde;es sacerdotais que t&ecirc;m    a ver com o gerenciamento dos mortos e os ancestrais. Um exemplo disso seria    os conjuntos muito longos de c&acirc;nticos chamados <I>kalidzamai</I> que os    especialistas Baniwa devem entoar durante os ritos de inicia&ccedil;&atilde;o,    em que eles "viajam", em seus pensamentos, a todos os lugares ancestrais    conhecidos da terra para sacralizar esses lugares com a m&uacute;sica de cria&ccedil;&atilde;o    e impedir os mortos de fazerem qualquer mal aos rec&eacute;m&#45;iniciados. Diferentemente    dos <I>maliiri</I>, que s&atilde;o considerados predadores&#45;jaguares, a fun&ccedil;&atilde;o    essencial dos rezadores Baniwa &eacute; que sabem a litania inteira de lugares    associados aos ancestrais. Atrav&eacute;s desse conhecimento can&ocirc;nico,    os rezadores criam um conceito universal de identidade Baniwa. Ao mesmo tempo    em que gerenciam os mortos, eles criam as condi&ccedil;&otilde;es pelas quais    a sociedade se reproduz. Assim, o seu poder transcende os poderes mais restritos    dos predadores&#45;jaguares <I>maliiri</I>.</font></p>     <p><font size="3">Segundo, atrav&eacute;s da fun&ccedil;&atilde;o prof&eacute;tica,    cuja ess&ecirc;ncia &eacute; a tend&ecirc;ncia de instalar um regime religioso    de "transcend&ecirc;ncia mundana", tipicamente negando a realidade da morte    (ou "preda&ccedil;&atilde;o"). No meu livro <I>For those unborn</I> (1998),    enfatizei as dimens&otilde;es espirituais da escatologia prof&eacute;tica, em    oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s "explica&ccedil;&otilde;es" caracter&iacute;sticas    das ci&ecirc;ncias sociais de tais fen&ocirc;menos em termos pol&iacute;ticos,    econ&ocirc;micos ou militares. Mais recentemente, analisei os movimentos em    rela&ccedil;&atilde;o ao tipo de conflitos internos que aqui defini como <I>forma&ccedil;&otilde;es    sociorreligiosas particularistas</I>. Especificamente, conflitos que foram traduzidos    em acusa&ccedil;&otilde;es de bruxaria, revestidas de significados mitol&oacute;gicos    e exacerbadas por circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas. Nesses contextos,    as fun&ccedil;&otilde;es mediadoras de especialistas religiosos, os <I>maliiri</I>,    foram, podemos dizer, "aquecidas", isto &eacute;, expandidas, no sentido    de transcender as diferen&ccedil;as locais e as limita&ccedil;&otilde;es da    mortalidade e assim, os profetas ou "s&aacute;bios" t&ecirc;m surgido.    As narrativas ind&iacute;genas sobre esses movimentos, muitas vezes, colocam    as forma&ccedil;&otilde;es particularistas diretamente contra as forma&ccedil;&otilde;es    universalistas &#150; por&eacute;m, sem necessariamente chegar a uma solu&ccedil;&atilde;o    clara. Isto &eacute;, os profetas n&atilde;o resolvem necessariamente o problema    da bruxaria. Mas n&atilde;o &eacute; por isso que podemos concluir que os movimentos    prof&eacute;ticos (ou messi&acirc;nicos ou milenares) "fracassaram". Argumentar    assim, mais uma vez, ignora as lutas hist&oacute;ricas vibrantes das religi&otilde;es    ind&iacute;genas na busca de uma solu&ccedil;&atilde;o para os dilemas internos    colocados por suas ontologias e exacerbados por circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas.</font></p>     <p><font size="3">A terceira maneira de discernir as forma&ccedil;&otilde;es universalistas    &eacute; nos movimentos de convers&atilde;o ao protestantismo evang&eacute;lico    e ao pentecostalismo, com o seu cultismo "imediatista". De fato, h&aacute;    pouca pesquisa sobre a recep&ccedil;&atilde;o das formas evang&eacute;licas    do cristianismo entre as sociedades ind&iacute;genas da Amaz&ocirc;nia, e quase    nenhuma sobre seus impactos nas rela&ccedil;&otilde;es humano&#45;natureza. As obras    principais sobre a indigeniza&ccedil;&atilde;o do cristianismo por sociedades    ind&iacute;genas amaz&ocirc;nicas s&atilde;o os tr&ecirc;s volumes que organizei    com o t&iacute;tulo <I>Transformando os deuses</I> (vols. I e II, publicados    em 1999 e 2004; um terceiro volume, em ingl&ecirc;s, est&aacute; em fase de    organiza&ccedil;&atilde;o). </font></p>     <p><font size="3">O Volume II, em particular, com o subt&iacute;tulo <I>Igrejas    evang&eacute;licas, pentecostais e neopentecostais</I> entre os povos ind&iacute;genas    no Brasil, procura situar a expans&atilde;o das igrejas fundamentalistas entre    as comunidades ind&iacute;genas dentro de uma perspectiva mais ampla da expans&atilde;o    hist&oacute;rica do fundamentalismo crist&atilde;o. Para entender as transforma&ccedil;&otilde;es    nas sociedades ind&iacute;genas resultantes dos movimentos de convers&atilde;o,    propomos tr&ecirc;s hip&oacute;teses: em primeiro lugar, que a convers&atilde;o    representa uma reforma moral e pol&iacute;tica em que os movimentos centr&iacute;fugos    das forma&ccedil;&otilde;es sociais ind&iacute;genas s&atilde;o acentuados pela    sua ades&atilde;o &agrave;s ideologias universalistas crist&atilde;s, muitas    vezes em detrimento dos movimentos centr&iacute;petos caracter&iacute;sticas    de forma&ccedil;&otilde;es sociais particularistas e localizadas, que enfatizam    a diferencia&ccedil;&atilde;o interna e o conflito. Em segundo lugar, a convers&atilde;o    ao cristianismo fundamentalista representa uma reforma do cotidiano em que certas    virtudes (a harmonia) s&atilde;o exaltadas enquanto pr&aacute;ticas como a retribui&ccedil;&atilde;o    por vingan&ccedil;a como maneira de resolver conflitos internos s&atilde;o renunciadas,    resultando em uma reformula&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia &eacute;tnica    e uma identidade consolidada na sociedade ind&iacute;gena em quest&atilde;o.    Isto, evidentemente, tem conseq&uuml;&ecirc;ncias para as representa&ccedil;&otilde;es    que as sociedades ind&iacute;genas constroem de si mesmas diante da sociedade    n&atilde;o&#45;ind&iacute;gena. Em terceiro lugar, um aspecto crucial dos movimentos    fundamentalistas &eacute; a sua capacidade de manter a lealdade (ades&atilde;o)    de seus fi&eacute;is e de transmitir a nova moralidade para as gera&ccedil;&otilde;es    futuras. Esses movimentos s&atilde;o capazes de se arraigarem entre uma comunidade    de fi&eacute;is e, nesse sentido, &eacute; poss&iacute;vel perguntar se eles    seriam transforma&ccedil;&otilde;es dos movimentos prof&eacute;ticos do passado,    bem como se estariam sujeitos a ciclos de maior ou menor entusiasmo. Essas quest&otilde;es    est&atilde;o no cerne dos doze estudos de caso apresentados no volume II, principalmente    de sociedades ind&iacute;genas n&atilde;o&#45;amaz&ocirc;nicas (Terena, Kaingang,    Kaiow&aacute;, entre outras).</font></p>     <p><font size="3">No caso dos Baniwa, duas tradi&ccedil;&otilde;es religiosas    distintas se desenvolveram como resultado dos movimentos prof&eacute;ticos desde    o s&eacute;culo XIX que mostra uma forte indigeniza&ccedil;&atilde;o do catolicismo,    ao lado de um "aquecimento" do xamanismo Baniwa, e o movimento evang&eacute;lico,    o qual em grande parte derivou&#45;se da tradi&ccedil;&atilde;o prof&eacute;tica    embora transformando&#45;a em maneiras fundamentais. Duas tradi&ccedil;&otilde;es    religiosas distintas surgiram da mesma fonte essencial e consolidaram&#45;se    atrav&eacute;s do tempo. </font></p>     <p><font size="3">Concluindo, espero ter mostrado como uma pesquisa hist&oacute;rica    e comparativa entre povos de uma fam&iacute;lia ling&uuml;&iacute;stica pode    revelar as diversas maneiras em que as "forma&ccedil;&otilde;es sociorreligiosas    particularistas e universalistas" desenvolveram&#45;se no contexto de profundas    transforma&ccedil;&otilde;es oriundas do contato com a sociedade n&atilde;o&#45;ind&iacute;gena.    E, assim, a nossa perspectiva te&oacute;rica busca dar conta da articula&ccedil;&atilde;o    entre a din&acirc;mica interna ind&iacute;gena dessas forma&ccedil;&otilde;es    e as maneiras em que as sociedades aruaques t&ecirc;m incorporado os eventos    das suas hist&oacute;rias.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><I><B>Robin M. Wright</b> &eacute; professor titular de etnologia    na Unicamp.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOTA</b></font></p>     <p><font size="3">1. Este trabalho foi originalmente apresentado como aula titular    para o grau de titular em etnologia no Departamento de Antropologia, Instituto    de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas    (Unicamp), setembro de 2005. Algumas revis&otilde;es foram feitas no original.</font></p>      ]]></body>
</article>
