<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252008000400018</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Toré e jurema: emblemas indígenas no nordeste do Brasil]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Grünewald]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rodrigo de Azeredo]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Campina Grande Unidade Acadêmica de Ciências Sociais Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<volume>60</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>43</fpage>
<lpage>45</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252008000400018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252008000400018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252008000400018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>TOR&Eacute; E JUREMA: EMBLEMAS IND&Iacute;GENAS NO NORDESTE    DO BRASIL</b> </font></p>     <p><font size="3"><b>Rodrigo de Azeredo Gr&uuml;newald</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5>T</font>or&eacute; e jurema s&atilde;o os dois    principais &iacute;cones da indianidade nordestina. S&atilde;o elementos culturais    que, embora n&atilde;o exclusivos das sociedades ind&iacute;genas, codificam    a autoctonia dos &iacute;ndios da regi&atilde;o Nordeste do Brasil. O tor&eacute;    &eacute; uma tradi&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena de dif&iacute;cil demonstra&ccedil;&atilde;o    substantiva por conta da varia&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica e das diversas    formas de suas realiza&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas entre as sociedades    ind&iacute;genas e fora delas (1). Trata&#45;se, a princ&iacute;pio, de uma dan&ccedil;a    ritual que consagra o grupo &eacute;tnico. N&atilde;o se pode, al&eacute;m disso,    precisar uma origem do termo e at&eacute; do ritual do tor&eacute; pela aus&ecirc;ncia    de narrativas coloniais a seu respeito. O tor&eacute; ganha visibilidade (e    a relev&acirc;ncia atual) a partir de um processo social que se inicia na primeira    metade do s&eacute;culo XX. Hoje, o tor&eacute; est&aacute; inclusive totalmente    incorporado ao movimento ind&iacute;gena no Nordeste como forma de express&atilde;o    pol&iacute;tica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/a18img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A jurema, por seu turno, pode ser uma planta, uma bebida e uma    entidade. De fato h&aacute; uma s&eacute;rie de esp&eacute;cies bot&acirc;nicas    referidas como jurema. A <I>Mimosa tenuiflora</I> (Willd). Poir &eacute; uma    das que mais chamam a aten&ccedil;&atilde;o pela alta concentra&ccedil;&atilde;o    de N&#45;N&#45;dimetiltriptamina (DMT) que apresenta. Isto &eacute;, uma subst&acirc;ncia    capaz de promover intensas altera&ccedil;&otilde;es de consci&ecirc;ncia e percep&ccedil;&atilde;o.    Das cascas das ra&iacute;zes dessas plantas s&atilde;o elaboradas beberagens    usadas ritualmente por grande n&uacute;mero de sociedades ind&iacute;genas no    Nordeste. Os grupos ind&iacute;genas que n&atilde;o usam essa bebida fazem refer&ecirc;ncia    constante &agrave; planta como dotada de for&ccedil;as m&aacute;gicas ou c&oacute;smicas    que s&atilde;o cultuadas ou, pelo menos, reconhecidas enquanto portadoras de    influ&ecirc;ncias oriundas das matas nativas. H&aacute;, por fim, a id&eacute;ia    de que jurema &eacute; uma entidade, uma personifica&ccedil;&atilde;o espiritual    das citadas for&ccedil;as das florestas brasileiras. Este &uacute;ltimo sentido    &eacute; mais pr&oacute;prio &agrave;s religi&otilde;es afro&#45;amer&iacute;ndias    (ou afro&#45;brasileiras), que substitu&iacute;ram a planta bebida por uma representa&ccedil;&atilde;o    de for&ccedil;as nativas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Jurema e tor&eacute; s&atilde;o, portanto, elementos sagrados    e, apesar de sua difus&atilde;o ritual ou simb&oacute;lica em contextos n&atilde;o&#45;ind&iacute;genas,    eles s&atilde;o sempre marcadores nativos que indicam, afirmam e delimitam a    presen&ccedil;a (inclusive espiritual) ind&iacute;gena na sociedade brasileira.    Nos rituais das religi&otilde;es brasileiras onde existem tor&eacute;s, estes    s&atilde;o sempre um espa&ccedil;o ind&iacute;gena. Do mesmo modo com rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; jurema. Claro que existem outras entidades e outros espa&ccedil;os    ind&iacute;genas nessas religi&otilde;es, mas o importante aqui &eacute; que    eles s&atilde;o tradi&ccedil;&otilde;es e s&iacute;mbolos que s&atilde;o atualizados    pelos pr&oacute;prios grupos ind&iacute;genas. Examinemos ent&atilde;o esse    amplo contexto.</font></p>     <p><font size="3"><b>OS &Iacute;NDIOS DO NORDESTE </b>Nordeste etnol&oacute;gico    pode ser referido com uma &aacute;rea de coloniza&ccedil;&atilde;o antiga do    Brasil. Logo no s&eacute;culo XVI, a monocultura canavieira se desenvolveu no    litoral da regi&atilde;o e, em seguida, registra&#45;se a introdu&ccedil;&atilde;o    e o desenvolvimento da cria&ccedil;&atilde;o de gado no interior. Aliadas ao    sistema de doa&ccedil;&atilde;o de sesmarias, essas experi&ecirc;ncias colonizadoras    tiveram, como principal objetivo, a ocupa&ccedil;&atilde;o efetiva da terra.    Para tanto, entre o rio S&atilde;o Francisco at&eacute; a Serra do Ibiapaba    (CE), estabeleceu&#45;se, no in&iacute;cio do s&eacute;culo XVII, as "guerras    justas" contra os "&iacute;ndios de corso", isto &eacute;, aqueles que assaltavam    fazendas de gado, engenhos de a&ccedil;&uacute;car e outras unidades de produ&ccedil;&atilde;o    (pp.30&#45;31; 2).</font></p>     <p><font size="3">J&aacute; entre a segunda metade do s&eacute;culo XVII e a primeira    do XVIII, registra&#45;se o estabelecimento das miss&otilde;es religiosas que    buscavam incorporar os ind&iacute;genas ao Estado colonial portugu&ecirc;s.    Seus aldeamentos, de fato, se propunham n&atilde;o apenas &agrave; convers&atilde;o    do "gentio" ao cristianismo, mas &agrave; assimila&ccedil;&atilde;o dessa    gente &agrave;s unidades coloniais e seu modo de vida &#150; inclusive atrav&eacute;s    de farta miscigena&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m, ainda no s&eacute;culo XVIII    as miss&otilde;es jesu&iacute;tas foram extintas e foi criado (e tamb&eacute;m    extinto) o Diret&oacute;rio dos &Iacute;ndios, que igualmente visava &agrave;    integra&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndios &agrave; sociedade colonial. A partir    da extin&ccedil;&atilde;o deste, a regi&atilde;o ficou entregue a criadores    de gado e agricultores que procuraram consolidar suas posses sobre as terras.    Apesar da a&ccedil;&atilde;o de algumas miss&otilde;es franciscanas ainda no    in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, as "guerras ind&iacute;genas" prolongaram&#45;se    &#150; mesmo que modesta, mas eficazmente &#150; durante o per&iacute;odo colonial.    Tanto que "ao final do s&eacute;culo XIX j&aacute; n&atilde;o se falava    mais em povos e culturas ind&iacute;genas no Nordeste" (p.24; 3).</font></p>     <p><font size="3">Na passagem do s&eacute;culo XIX para o XX, as id&eacute;ias    de "progresso" e de "civiliza&ccedil;&atilde;o" forneceram a t&ocirc;nica    para a a&ccedil;&atilde;o indigenista. Em 1910, foi fundado o Servi&ccedil;o    de Prote&ccedil;&atilde;o ao &Iacute;ndio (SPI) marcado ideologicamente pelas    "id&eacute;ias dos postos de atra&ccedil;&atilde;o e dos postos de pacifica&ccedil;&atilde;o    para se colocar os &iacute;ndios em contato com o civilizado" (4). No Nordeste,    a a&ccedil;&atilde;o protecionista se desenvolveu a partir da segunda d&eacute;cada    do s&eacute;culo XX, intensificando&#45;se entre os anos 1930 e 1950 de forma    a promover uma recupera&ccedil;&atilde;o de parte dos territ&oacute;rios ind&iacute;genas    na regi&atilde;o atrav&eacute;s do reconhecimento de etnias aut&oacute;ctones.    Semelhantes processos de "territorializa&ccedil;&atilde;o" (3) continuam    vigorosos nos dias atuais em quase todos os estados nordestinos e s&atilde;o    levados a efeito a partir de movimentos de emerg&ecirc;ncias &eacute;tnicas    (etnog&ecirc;neses) elaborados por popula&ccedil;&otilde;es nativas que reivindicam    da atual ag&ecirc;ncia indigenista &#150; a Funda&ccedil;&atilde;o Nacional    do &Iacute;ndio (Funai) &#150; o reconhecimento de seu status ind&iacute;gena    e a conseq&uuml;ente demarca&ccedil;&atilde;o dos territ&oacute;rios ind&iacute;genas.    Se na d&eacute;cada de 1930, tr&ecirc;s ou quatro povos ind&iacute;genas eram    reconhecidos no Nordeste, o n&uacute;mero atual dos grupos reconhecidos e/ou    solicitando reconhecimento chega aos cinq&uuml;enta.</font></p>     <p><font size="3"><b>CULTURA IND&Iacute;GENA NO NORDESTE</b> Falar de cultura,    de uma maneira geral, para todos esses povos &#150; tanto dos que guardam continuidade    hist&oacute;rica com o per&iacute;odo colonial quanto dos de surgimento recente    &#150; parece uma tarefa quase imposs&iacute;vel se pensarmos em termos substantivos,    ou seja, na enumera&ccedil;&atilde;o dos modos de vida e dos aspectos simb&oacute;licos    e pr&aacute;ticos dessas popula&ccedil;&otilde;es. Ao contr&aacute;rio do que    se percebia nas primeiras sete d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, isto &eacute;,    que as culturas tipicamente ind&iacute;genas do Nordeste estavam cedendo lugar    a uma cultura regional e que tais popula&ccedil;&otilde;es tendiam &agrave;    assimila&ccedil;&atilde;o ou &agrave; integra&ccedil;&atilde;o plena &agrave;    vida (sociocultural) brasileira, o que se assinala atualmente &eacute; um conjunto    de processos de revigoramento das culturas espec&iacute;ficas desses povos.    Culturas estas que ficaram mais evidentes nas etnografias ind&iacute;genas nordestinas    a partir dos anos 1980 por conta de sua relev&acirc;ncia para os processos pol&iacute;ticos    de afirma&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica dessas comunidades. Dentre toda a diversidade    sociocultural encontrada em tais processos, achar uma unidade (um ponto de converg&ecirc;ncia)    na conforma&ccedil;&atilde;o/composi&ccedil;&atilde;o cultural desses grupos    talvez seja uma maneira de sintetizar o n&uacute;cleo cultural que caracteriza    a indianidade na regi&atilde;o Nordeste do Brasil. Para tanto, vale retomar    a hist&oacute;ria do per&iacute;odo recente de contato dos nativos com as ag&ecirc;ncias    governamentais incumbidas de atestar suas indianidades e promover a cria&ccedil;&atilde;o    dos territ&oacute;rios ind&iacute;genas brasileiros.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/a18img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Se a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 considera como ind&iacute;gena    as sociedades que "por suas categorias e circuitos de intera&ccedil;&atilde;o    distinguem&#45;se da sociedade nacional" e cujos membros se concebem como "descendentes    de popula&ccedil;&atilde;o de origem pr&eacute;&#45;colombiana" (p.177; 5),    esses par&acirc;metros definidores da indianidade s&atilde;o fruto de um processo    interno de autodefini&ccedil;&atilde;o (<I>idem</I>) e, conseq&uuml;entemente,    o reconhecimento dessas comunidades deve operar com um processo cognoscitivo    que penetra nas malhas costuradas por um grupo social que <I>se funda como ind&iacute;gena</I>.    Contudo, n&atilde;o era essa a interpreta&ccedil;&atilde;o que o antigo SPI    tinha para o reconhecimento dos ind&iacute;genas numa regi&atilde;o onde a acultura&ccedil;&atilde;o    e a mistura haviam criado as figuras do "caboclo" ou do "remanescente    ind&iacute;gena". Baseado no exemplo dos Fulni&#45;&ocirc;, que, na contram&atilde;o    da assimila&ccedil;&atilde;o, sustentavam a l&iacute;ngua nativa e um per&iacute;odo    de reclus&atilde;o ritual (ouricuri), onde dan&ccedil;avam um "tor&eacute;    verdadeiro", o inspetor do SPI no Nordeste passou a requerer, na primeira metade    do s&eacute;culo XX, a exibi&ccedil;&atilde;o da dan&ccedil;a do tor&eacute;    para se atestar a indianidade dos &iacute;ndios no Nordeste (6). Esta pr&aacute;tica    cultural passou, assim, a circular ideologicamente como sinal diacr&iacute;tico    dessa ampla indianidade e, at&eacute; hoje, &eacute; ensinada de grupos reconhecidos    a grupos que pleiteiam reconhecimento ind&iacute;gena em todo o Nordeste. Mesmo    grupos que apresentavam outras manifesta&ccedil;&otilde;es culturais (outras    dan&ccedil;as) incorporam o tor&eacute; (ou a ret&oacute;rica do tor&eacute;)    como padr&atilde;o de etnicidade.</font></p>     <p><font size="3">&Eacute; verdade que outros elementos rituais, como o ouricuri    ou os prai&aacute;s, s&atilde;o igualmente importantes (e emblem&aacute;ticas)    manifesta&ccedil;&otilde;es culturais ind&iacute;genas. Reesink (7) tentou um    esbo&ccedil;o para marcar a presen&ccedil;a/distribui&ccedil;&atilde;o desses    tr&ecirc;s rituais ind&iacute;genas que marcariam a indianidade nordestina,    apontando o caminho do sagrado para estabelec&ecirc;&#45;los. Embora alguns grupos    se distingam pela posse desses dois &uacute;ltimos rituais, eles tamb&eacute;m    apresentam tor&eacute;s, que podem ser desempenhados emblematicamente em situa&ccedil;&otilde;es    pol&iacute;ticas ou de contatos culturais variados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Um ponto, portanto, que se torna logo evidente na configura&ccedil;&atilde;o    cultural emblem&aacute;tica dos &iacute;ndios do Nordeste &eacute; a posse de    um s&iacute;mbolo comum, o compartilhar de uma ideologia expressa ritualmente    que, embora com conte&uacute;dos e formatos alterados entre muitas dessas comunidades,    &eacute; recorrente ao informar (e constituir) a indianidade nordestina.</font></p>     <p><font size="3">O tor&eacute;, dessa forma, vem promovendo o referencial da    autoctonia nordestina e vale ser apreendido de forma processual porque &eacute;    justamente a sua din&acirc;mica dentro dos e entre os grupos &eacute;tnicos    que vem ordenando a vida ind&iacute;gena no Nordeste (p.29; 1).</font></p>     <p><font size="3">Assim, n&atilde;o apenas a cl&aacute;ssica no&ccedil;&atilde;o    de "fronteiras &eacute;tnicas" (8) &eacute; importante para a delimita&ccedil;&atilde;o    desses grupos ind&iacute;genas, mas, em termos culturais, deve&#45;se ressaltar    a evidente dinamicidade espacial e temporal da cultura, uma vez que as formas    culturais encontradas nessas fronteiras n&atilde;o est&atilde;o enclausuradas,    mas em fluxo que as faz moldar novos e remoldar antigos grupos ind&iacute;genas    na regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">De forma semelhante, podemos considerar a jurema. Muitos dos    ind&iacute;genas nordestinos foram aldeados por mission&aacute;rios ou simplesmente    aculturados e at&eacute; assimilados. Assim, deixaram seus rituais antigos por    um per&iacute;odo, deixando igualmente de beber a jurema. Esta, por conta do    sincretismo de elementos entre sistemas de cren&ccedil;as brasileiros, acaba    ganhando um novo status: o de um s&iacute;mbolo (uma representa&ccedil;&atilde;o)    para o plano espiritual, das matas nativas brasileiras e de sua gente aut&oacute;ctone.</font></p>     <p><font size="3">Quando os tor&eacute;s foram resgatados ou criados entre os    grupos ind&iacute;genas do Nordeste, a bebida da jurema voltou a se fazer presente    em muitos desses grupos. Se v&aacute;rios deles, entretanto, n&atilde;o bebem    dessa bebida, exaltam, em suas can&ccedil;&otilde;es, invoca&ccedil;&otilde;es    etc, a jurema (s&iacute;mbolo) como alicerce de sua autoctonia (<I>cf.</I> 9).</font></p>     <p><font size="3">Assim, esses dois elementos culturais sagrados s&atilde;o fundamentos    da indianidade nordestina, pois s&atilde;o gerais aos grupos. Certo que de maneiras    variadas, mas encontram&#45;se presentes em todos eles e s&atilde;o emblemas do    ser &iacute;ndio, pois entendidos pelos ind&iacute;genas como o que os sacraliza    enquanto etnias nordestinas. Claro que muitos outros elementos de cultura poderiam    ser lembrados como comuns aos &iacute;ndios nordestinos, tais como alguns aspectos    de suas rela&ccedil;&otilde;es produtivas com a natureza. Mas tais elementos    n&atilde;o s&atilde;o genericamente apontados como fundamentos de suas etnicidades,    sacralizadas nos mist&eacute;rios da jurema e dos tor&eacute;s.</font></p>     <p><font size="3">Haveria ainda que se considerar aspectos culturais impostos    aos &iacute;ndios pelas ag&ecirc;ncias indigenistas em termos de sua organiza&ccedil;&atilde;o    social e pol&iacute;tica. O "regime tutelar" (10) estabeleceu um modo de    ser caracter&iacute;stico para todos os grupos ind&iacute;genas assistidos pela    ag&ecirc;ncia indigenista que, em termos administrativos, caracteriza uma indianidade    imposta pelo Estado. Esse modo de ser caracter&iacute;stico dos ind&iacute;genas    sob administra&ccedil;&atilde;o tutelar, contudo, n&atilde;o &eacute; referido    pelos &iacute;ndios como emblemas que os torna &iacute;ndios, mas como um aparato    necess&aacute;rio decorrente do fato de ser &iacute;ndio no Brasil.</font></p>     <p><font size="3"><b>OS PAR&Acirc;METROS DA AUTOCONIA</b> Por fim, se a forma&ccedil;&atilde;o    etnol&oacute;gica do Nordeste se d&aacute; por entre descontinuidades hist&oacute;ricas,    com processos de desaparecimento e ressurgimento de grupos ind&iacute;genas    entre o per&iacute;odo colonial e os dias atuais, a afirma&ccedil;&atilde;o    contempor&acirc;nea das etnicidades na regi&atilde;o funda&#45;se (ou justifica&#45;se),    em termos culturais, a partir da rela&ccedil;&atilde;o emblem&aacute;tica que    tais popula&ccedil;&otilde;es alegam manter com a pr&aacute;tica do tor&eacute;    ou com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; representa&ccedil;&atilde;o da jurema.    Contra a ilus&atilde;o hist&oacute;rica da autoctonia, estabelece&#45;se a realidade    aut&oacute;ctone por meio da vincula&ccedil;&atilde;o a essas representa&ccedil;&otilde;es    sagradas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><B>Rodrigo de Azeredo Gr&uuml;newald</b> &eacute; professor    de antropologia do Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias    Sociais da Unidade Acad&ecirc;mica de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade    Federal de Campina Grande (UFCG).</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Gr&uuml;newald, R. de A. "As m&uacute;ltiplas incertezas    do tor&eacute;". In: Tor&eacute;: regime encantado do &iacute;ndio do Nordeste.    Recife: Massangana, 2005a.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Albuquerque, M. M. Pequena hist&oacute;ria da forma&ccedil;&atilde;o    social brasileira. Rio de Janeiro: Graal, 3ª edi&ccedil;&atilde;o, 1984.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Oliveira, J. P. "Uma etnologia dos '&iacute;ndios misturados':    situa&ccedil;&atilde;o colonial, territorizaliza&ccedil;&atilde;o e fluxos culturais".    In: A viagem da volta: etnicidade, pol&iacute;tica e reelabora&ccedil;&atilde;o    cultural no Nordeste ind&iacute;gena. Rio de Janeiro: Contra Capa, 1999.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Rondon, general C. M. S. "Hist&oacute;rico do problema    ind&iacute;gena no Brasil e debate de v&aacute;rias teses correlativas" In:    Oliveira, L.H. Colet&acirc;nia de leis, atos e memoriais referentes aos ind&iacute;genas    brasileiros compilados pelo oficial administrativo L. Humberto de Oliveira.    Minist&eacute;rio da Agricultura, Conselho Nacional de Prote&ccedil;&atilde;o    aos &Iacute;ndios. Publica&ccedil;&atilde;o n.94. Imprensa Nacional, Rio de    Janeiro, 1947.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Oliveira, J. P. "Os Caxix&oacute; do Cap&atilde;o Zezinho:    uma comunidade ind&iacute;gena distante das imagens da primitividade e do &iacute;ndio    gen&eacute;rico". In: Santos, A.F. &amp; Oliveira, J.P. Reconhecimento    &eacute;tnico em exame. Dois estudos sobre os Caxix&oacute;. Rio de Janeiro:    Contra Capa, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">6. Gr&uuml;newald, R. de A. "Etnog&ecirc;nese e 'regime    de &iacute;ndio' na Serra do Um&atilde;". In: Oliveira, J. P. (org.). A    viagem da volta. Etnicidade, pol&iacute;tica e reelabora&ccedil;&atilde;o cultural    no Nordeste ind&iacute;gena. Rio de Janeiro: Contra Capa, 1999.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">7. Reesink, E. "O segredo do sagrado: o tor&eacute; entre    os &iacute;ndios do Nordeste". In: Almeida, L. S.; Galindo, M.; Elias,    J.L. (Orgs.). &Iacute;ndios no Nordeste: temas e problemas. Vol. 2. Macei&oacute;:    Edufal, 2000.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Barth, F. "Introduction". In: Ethnic groups and    boundaries. London: George Allen and Unwin, 1969.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">9. Gr&uuml;newald. R de A. "Sujeitos da jurema e o resgate    da 'ci&ecirc;ncia do &iacute;ndio". In: Labate, B. &amp; Goulart, S. (Orgs.).    O uso ritual das plantas de poder. Campinas: Mercado de Letras, 2005b.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">10. Oliveira, J. P. O nosso governo: os Ticuna e o regime tutelar.    S&atilde;o Paulo: Marco Zero / CNPq, 1988.</font> ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Grünewald]]></surname>
<given-names><![CDATA[R. de A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As múltiplas incertezas do toré]]></article-title>
<source><![CDATA[Toré: regime encantado do índio do Nordeste]]></source>
<year>2005</year>
<publisher-loc><![CDATA[Recife ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Massangana]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Albuquerque]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Pequena história da formação social brasileira]]></source>
<year>1984</year>
<edition>3</edition>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Graal]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uma etnologia dos 'índios misturados': situação colonial, territorizalização e fluxos culturais]]></article-title>
<source><![CDATA[A viagem da volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena]]></source>
<year>1999</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Contra Capa]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>4</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rondon]]></surname>
<given-names><![CDATA[C. M. S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Histórico do problema indígena no Brasil e debate de várias teses correlativas]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[L.H.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Coletânia de leis, atos e memoriais referentes aos indígenas brasileiros compilados pelo oficial administrativo L. Humberto de Oliveira]]></source>
<year>1947</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Ministério da Agricultura, Conselho Nacional de Proteção aos ÍndiosImprensa Nacional]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<label>5</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os Caxixó do Capão Zezinho: uma comunidade indígena distante das imagens da primitividade e do índio genérico]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Santos]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.F.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Reconhecimento étnico em exame: Dois estudos sobre os Caxixó]]></source>
<year>2003</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Contra Capa]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<label>6</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Grünewald]]></surname>
<given-names><![CDATA[R. de A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Etnogênese e 'regime de índio' na Serra do Umã]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A viagem da volta: Etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena]]></source>
<year>1999</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Contra Capa]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<label>7</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Reesink]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O segredo do sagrado: o toré entre os índios do Nordeste]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Almeida]]></surname>
<given-names><![CDATA[L. S.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Galindo]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Elias]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Índios no Nordeste: temas e problemas]]></source>
<year>2000</year>
<volume>2</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Maceió ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Edufal]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<label>8</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Barth]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Introduction]]></article-title>
<source><![CDATA[Ethnic groups and boundaries]]></source>
<year>1969</year>
<publisher-loc><![CDATA[London ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[George Allen and Unwin]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<label>9</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Grünewald]]></surname>
<given-names><![CDATA[R de A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sujeitos da jurema e o resgate da 'ciência do índio]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Labate]]></surname>
<given-names><![CDATA[B.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Goulart]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O uso ritual das plantas de poder]]></source>
<year>2005</year>
<publisher-loc><![CDATA[Campinas ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Mercado de Letras]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<label>10</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O nosso governo: os Ticuna e o regime tutelar]]></source>
<year>1988</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Marco ZeroCNPq]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
