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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n4/a25img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4"><b>RESENHA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>U<SMALL>MA POSTURA INSURGENTE PARA NOVO DESENVOLVIMENTO URBANO</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I>Fob&oacute;pole, o medo generalizado e a militariza&ccedil;&atilde;o    da quest&atilde;o urbana</i> &eacute; o mais recente livro do ge&oacute;grafo    Marcelo Lopes de Souza, coordenador do N&uacute;cleo de Pesquisas sobre Desenvolvimento    S&oacute;cio&#45;Espacial, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de    outros livros como <I>O desafio metropolitano </I>(ganhador do Pr&ecirc;mio    Jabuti, em 2001), <I>Murar a cidade</I> (2002), <I>ABC do desenvolvimento urbano</I>    (2003), <I>Planejamento urbano e ativismos sociais </I>(2004), e <I>A    pris&atilde;o e a &aacute;gora</I> (2006), o autor aborda em profundidade a    quest&atilde;o do medo nas cidades e encara de forma inteligente e destemida    muitos dos v&aacute;rios temas que se relacionam diretamente com isso. O livro,    portanto, n&atilde;o se resume a uma &aacute;rea do saber, ou a uma abordagem    unilateral do tema, como &eacute; t&atilde;o comum, mas transita por diferentes    &aacute;reas, revelando nesse deslocamento constante uma posi&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica ousada e inovadora.</font></p>     <p><font size="3">Medo &eacute; um tema que tem merecido aten&ccedil;&atilde;o    redobrada nos &uacute;ltimos anos e tem sido mote de v&aacute;rias obras. Dentre    elas, destaca&#45;se o tamb&eacute;m recente <I>Medo l&iacute;quido</I> (2008),    do soci&oacute;logo Zygmunt Bauman (publicado originalmente em 2006) e a interessant&iacute;ssima    colet&acirc;nea de textos <I>Ensaios sobre o medo</I> (2007), organizada pelo    fil&oacute;sofo Adauto Novaes. Diante dessa produ&ccedil;&atilde;o, o trabalho    de Marcelo Lopes de Souza tem um car&aacute;ter mais direto e ancorado na realidade    brasileira, ao mesmo tempo em que situa a quest&atilde;o num espectro mais amplo    dos fen&ocirc;menos mundiais. De fato, n&atilde;o &eacute; o caso aqui de contrapor    em termos de qualidade essa produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, toda ela    fundamental para aqueles que se interessam pelo tema. Mas t&atilde;o somente    notar que, enquanto Bauman traz dicas singulares num tom mais ensa&iacute;stico,    e Novaes re&uacute;ne, em sua maior parte, abordagens filos&oacute;ficas do    tema, Souza apresenta um trabalho que remete muito mais ao cotidiano vivido    em cidades como S&atilde;o Paulo e Rio de Janeiro, e tem, portanto, um vi&eacute;s    mais emp&iacute;rico.</font></p>     <p><font size="3">O autor observa o medo e a percep&ccedil;&atilde;o    de risco nas cidades como algo que deve ser visto al&eacute;m dos usos que s&atilde;o    feitos dessa sensa&ccedil;&atilde;o, ou al&eacute;m de algo que &eacute; manipulado    em prol de interesses econ&ocirc;micos. N&atilde;o que isso esteja ausente do    quadro atual, mas Souza encara medo e risco como realidade presente no dia&#45;a&#45;dia    das cidades, ressaltando que mesmo que quest&otilde;es como viol&ecirc;ncia    e inseguran&ccedil;a sejam preocupa&ccedil;&otilde;es que ocorrem em diferentes    &eacute;pocas e lugares, nem sempre o medo foi fator decisivo para modificar    comportamentos, condicionar e estruturar as rela&ccedil;&otilde;es sociais e    a organiza&ccedil;&atilde;o espacial, como ocorre na atualidade. Trata&#45;se de    pensar, por conseguinte, em como a problem&aacute;tica da (in)seguran&ccedil;a    p&uacute;blica tornou&#45;se fator de (re)estrutura&ccedil;&atilde;o do vida e do    espa&ccedil;o urbanos.</font></p>     <p><font size="3"><b>FALTA DI&Aacute;LOGO</b> Entre seguran&ccedil;a p&uacute;blica    e pesquisa urbana, planejamento ou gest&atilde;o da cidade, e pol&iacute;tica    de seguran&ccedil;a, Souza sinaliza uma lacuna e, portanto, a necessidade de    um di&aacute;logo imprescind&iacute;vel, n&atilde;o apenas para vislumbrar os    problemas com maior acuidade, mas tamb&eacute;m para pensar em avan&ccedil;os.    Ali&aacute;s, &eacute; essa uma das raz&otilde;es que o pr&oacute;prio autor    destaca como importante motivadora para o livro. Para al&eacute;m dela, ele    argumenta como impulsionadora da obra a exist&ecirc;ncia de uma esp&eacute;cie    de tabu, a saber, a retic&ecirc;ncia da esquerda (ou nas palavras do pr&oacute;prio    autor, "do que sobrou da esquerda que mere&ccedil;a este nome") em    discutir seguran&ccedil;a p&uacute;blica, que deixa que a quest&atilde;o seja    abandonada &agrave; direita. Por fim, o autor tamb&eacute;m destaca como uma    raz&atilde;o importante e singular para o livro todas aquelas rea&ccedil;&otilde;es    (<I>nada construtivas</I>) de grande parcela da sociedade diante dos problemas    da seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Rea&ccedil;&otilde;es estas que para ele    misturam "preconceitos, temores justificados, assimetrias sociais, ressentimentos    e solu&ccedil;&otilde;es parciais, escapistas e prenhes de efeitos colaterais".</font></p>     <p><font size="3">Assim, tendo como eixo estruturador do trabalho o medo nas cidades,    e mais, uma &eacute;poca em que a cidade &eacute; dominada pelo medo, &eacute;    uma <I>fob&oacute;pole</I>, Souza desdobra a quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia    e da inseguran&ccedil;a trilhando, dentre outros rumos, o tema do tr&aacute;fico    de drogas e das favelas at&eacute; os condom&iacute;nios fechados, dos justiceiros    &agrave; seguran&ccedil;a privada, abordando o planejamento urbano centrado    no Estado, a hiperprecariza&ccedil;&atilde;o do mundo do trabalho e questionando,    de forma provocativa, as possibilidades e a&ccedil;&otilde;es dos movimentos    sociais numa era do medo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A postura bastante cr&iacute;tica e l&uacute;cida    do autor surge numa linguagem atraente e leve, envolvendo o leitor mesmo que    os conceitos e fissuras com os quais ele trabalhe ou aponte sejam complexos    e profundos. No que diz respeito aos conceitos, Souza &eacute; extremamente    cuidadoso, n&atilde;o abstendo&#45;se de comentar e analisar em v&aacute;rias passagens    do livro quest&otilde;es cl&aacute;ssicas e sinuosas como aquelas que procuram    definir espa&ccedil;o p&uacute;blico e privado, racionalidade e raz&atilde;o,    fragmenta&ccedil;&atilde;o das cidades. &Eacute; nesse tratamento cauteloso    que seu pensamento tamb&eacute;m se diferencia, apontando sua postura te&oacute;rica    e pol&iacute;tica. Em suma, o tratamento do autor sobre defini&ccedil;&otilde;es    de conceitos que geraram (e continuam gerando) in&uacute;meros debates intelectuais,    n&atilde;o se resume a refazer o caminho j&aacute; trilhado ou reprisar modelos    te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos a partir de novos dados emp&iacute;ricos,    mas ousa ampliar as discuss&otilde;es ao trazer uma tomada de posi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"><b>ALTERNATIVAS</b> Dentre outras coisas, para Marcelo Lopes    de Souza &eacute; necess&aacute;rio encarar e levar a s&eacute;rio as estrat&eacute;gias    alternativas (ou contraprojetos) dos movimentos sociais, entendendo&#45;as como    algo mais que uma gest&atilde;o ou um planejamento cr&iacute;ticos. De acordo    com o pr&oacute;prio autor, "naqueles casos em que se est&aacute; diante    de um estilo verdadeiramente horizontal e antiautorit&aacute;rio, o planejamento    e a gest&atilde;o insurgentes, que s&atilde;o uma modalidade radical do planejamento    e da gest&atilde;o cr&iacute;ticos, se apresentam efetivamente, como autoplanejamento    e autogest&atilde;o". Nesse sentido, a promo&ccedil;&atilde;o de    avan&ccedil;os, por exemplo, passa pela compreens&atilde;o da democracia como    autonomia coletiva e autogest&atilde;o, e, apenas nessa compreens&atilde;o mais    radical, seria poss&iacute;vel aproveitar de forma condicional e cautelosa os    canais e espa&ccedil;os participativos institucionais j&aacute; existentes.    S&atilde;o por rumos insurgentes como esse &#150; que, na opini&atilde;o do autor    corroboram para a cria&ccedil;&atilde;o de um projeto de autonomia &#150; que podemos    nos desviar deste cen&aacute;rio atual em que al&eacute;m da companhia constante    do medo e da vigil&acirc;ncia, t&ecirc;m&#45;se mais viol&ecirc;ncia como solu&ccedil;&atilde;o    para a viol&ecirc;ncia. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Marta Kanashiro</i></font></p>      ]]></body>
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