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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60nspe1/divers.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b>NOTAS SOBRE UTOPIA</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Marilena Chau&iacute;</b></i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>I</b></font></P>     <p><font size="3">A utopia nasce como um g&ecirc;nero liter&aacute;rio — &eacute;    a narrativa sobre uma sociedade perfeita e feliz — e um discurso pol&iacute;tico    — &eacute; a exposi&ccedil;&atilde;o sobre a cidade justa.</font></P>     <p><font size="3">H&aacute; pelo menos tr&ecirc;s aspectos curiosos no uso dessa    palavra. </font></P>     <p><font size="3">O primeiro &eacute; que foi inventada no s&eacute;culo XVI por    Thomas More — <I>Utopia</I> &eacute; o t&iacute;tulo de uma obra escrita por    esse fil&oacute;sofo —, por&eacute;m passou a ser empregada para designar narrativas    e discursos muito anteriores, como, por exemplo, a cidade ideal na <I>Rep&uacute;blica</I>    de Plat&atilde;o, ou o projeto arquitet&ocirc;nico da cidade perfeita tra&ccedil;ada    pelo ge&ocirc;metra e astr&ocirc;nomo grego Hipodamos de Mileto, que, aplicando    a geometria e a astronomia ao plano urban&iacute;stico, concebeu a cidade de    acordo com a harmonia c&oacute;smica, ou ainda a descri&ccedil;&atilde;o da    Idade de Ouro nos poemas dos latinos Virg&iacute;lio e Ov&iacute;dio.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O segundo diz respeito ao sentido dessa palavra. Em grego, <I>t&oacute;pos</I>    significa lugar e o prefixo "u" tende a ser empregado com significado    negativo, de modo que <I>utopia</I> significa "n&atilde;o lugar" ou    "lugar nenhum". Ali&aacute;s, numa carta a Erasmo, Thomas More, inventor    da palavra, enfatiza que a emprega no sentido negativo ou do "lugar nenhum".    Ali&aacute;s, &eacute; not&oacute;ria a presen&ccedil;a de palavras negativas    nessa obra de More, isto &eacute;, de palavras que se iniciam pelo prefixo grego    "a", que tamb&eacute;m possui sentido negativo: a capital da ilha    de Utopia &eacute; Amaurote, a n&atilde;o-vis&iacute;vel, situada &agrave;s    margens do rio Anhydria, sem &aacute;gua, seus habitantes s&atilde;o os Alaopolitas,    sem cidade, governados por Ademos, pr&iacute;ncipe sem povo, e seus vizinhos    s&atilde;o os Achorianos, homens sem terra. O significado negativo da palavra    utopia indica o tra&ccedil;o definidor do discurso ut&oacute;pico, qual seja,    o n&atilde;o-lugar &eacute; o que nada tem em comum com o lugar em que vivemos,    a descoberta do absolutamente outro, o encontro com a alteridade absoluta. No    entanto, um outro prefixo grego, "eu", &eacute; usado para dar um    sentido afirmativo ou positivo a uma palavra, indicando nobreza, justeza, bondade,    abund&acirc;ncia. Assim, por exemplo, referindo-se &agrave; finalidade da pol&iacute;tica,    Arist&oacute;teles usa <I>eu zon</I> para significar viver feliz ou bem-viver.    O sentido positivo pode ser observado em in&uacute;meras palavras, como <I>eubos&iacute;a</I>,    a boa pastagem ou a pastagem abundante; <I>eug&eacute;neia</I>, nobreza de origem;    <I>eudaimon&iacute;a</I>, felicidade, prosperidade; <I>eun&oacute;esis</I>,    benevol&ecirc;ncia; <I>euprax&iacute;a, </I>boa conduta, a&ccedil;&atilde;o    reta<I>.</I> Assim, o sentido positivo veio naturalmente acrescentar-se ao sentido    negativo, de maneira que <I>utopia</I> significa, simultaneamente, lugar nenhum    e lugar feliz, <I>eut&oacute;pos</I>. Ou seja, o absolutamente outro &eacute;    perfeito.</font></P>     <p><font size="3">O terceiro aspecto curioso, que, ali&aacute;s, nos concerne    diretamente, refere-se &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o, hoje corriqueira, sobre    o decl&iacute;nio ou o fim da utopia, decorrente do fracasso das revolu&ccedil;&otilde;es    socialistas, do refluxo do movimento oper&aacute;rio mundial e do descr&eacute;dito    que pesa sobre o marxismo. Isso &eacute; curioso porque, como sabemos, Marx    criticou as utopias e Engels escreveu uma pequena obra intitulada <I>Socialismo    ut&oacute;pico e socialismo cient&iacute;fico</I>, na qual comparava e opunha    duas concep&ccedil;&otilde;es do socialismo e, como Marx, recusava o socialismo    ut&oacute;pico. Assim, &eacute; curioso que essa cr&iacute;tica seja esquecida    e que o marxismo seja interpretado como utopia.</font></P>     <p><font size="3">Todavia, talvez esses tr&ecirc;s aspectos sejam curiosos apenas    em apar&ecirc;ncia e sob eles se encontrem raz&otilde;es que os expliquem. Ou    melhor, &eacute; poss&iacute;vel que a pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o    do que seja a utopia implique os tr&ecirc;s aspectos mencionados.</font></P>     <p><font size="3">Bronislaw Baczko prop&otilde;e a seguinte defini&ccedil;&atilde;o    de utopia:</font></P>     <blockquote>        <p><font size="3">representa&ccedil;&atilde;o imaginada de uma sociedade que      se op&otilde;e &agrave; existente a) pela organiza&ccedil;&atilde;o outra      da sociedade tomada como um todo; b) pela alteridade das institui&ccedil;&otilde;es      e das rela&ccedil;&otilde;es que comp&otilde;em a sociedade como um todo;      c) pelos modos outros segundo os quais o cotidiano &eacute; vivido. Essa representa&ccedil;&atilde;o,      menos ou mais elaborada nos detalhes, pode ser encarada como uma das possibilidades      da sociedade real e leva &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o positiva ou negativa      desta sociedade (Baczko, 1978, p. 405). </font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Em outras palavras, a utopia, ao afirmar a perfei&ccedil;&atilde;o    do que &eacute; outro, prop&otilde;e uma ruptura com a totalidade da sociedade    existente (outra organiza&ccedil;&atilde;o, outras institui&ccedil;&otilde;es,    outras rela&ccedil;&otilde;es, outro cotidiano). Em certos casos, a sociedade    imaginada pode ser vista como nega&ccedil;&atilde;o completa da realmente existente    — como &eacute; o caso mais freq&uuml;ente das utopias —, mas em outros, como    vis&atilde;o de uma sociedade futura a partir da supress&atilde;o dos elementos    negativos da sociedade existente (opress&atilde;o, explora&ccedil;&atilde;o,    domina&ccedil;&atilde;o, desigualdade, injusti&ccedil;a) e do desenvolvimento    de seus elementos positivos (conhecimentos cient&iacute;ficos e t&eacute;cnicos,    artes) numa dire&ccedil;&atilde;o inteiramente nova — como foi o caso, por exemplo,    das utopias francesas do s&eacute;culo XVIII, anteriores e posteriores &agrave;    Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa. Neste segundo caso, compreende-se que utopia    possa significar <I>eut&oacute;pos</I> e que o socialismo, por surgir de uma    revolu&ccedil;&atilde;o integral, pudesse ter sido visto por muitos como utopia,    apesar de Marx e Engels.</font></P>     <p><font size="3">O fundamental, por&eacute;m, &eacute; que em qualquer desses    sentidos — ruptura completa, desenvolvimento do que h&aacute; de melhor numa    sociedade existente — s&oacute; pode haver utopia quando se considera poss&iacute;vel    uma sociedade totalmente nova e cuja diferen&ccedil;a a faz ser absolutamente    outra.</font></P>     <p><font size="3"><b>II</b></font></P>     <p><font size="3">Antes de examinarmos a g&ecirc;nese das utopias, a partir da    Renascen&ccedil;a, e as cr&iacute;ticas &agrave;s concep&ccedil;&otilde;es ut&oacute;picas    feitas a partir do s&eacute;culo XIX, consideremos brevemente as principais    caracter&iacute;sticas da utopia. Em sua busca da alteridade perfeita, a utopia:</font></P> <ol>       ]]></body>
<body><![CDATA[<li><font size="3">&Eacute; normativa, isto &eacute;, prop&otilde;e um mundo      tal como deve ser, em oposi&ccedil;&atilde;o ao mundo de fato existente.</font></li>       <li><font size="3"> &Eacute; sempre totalizante e cr&iacute;tica do existente,      ou seja, s&oacute; h&aacute; utopia quando h&aacute; a representa&ccedil;&atilde;o      de uma outra sociedade que negue ponto por ponto a sociedade existente, isto      &eacute;, institui&ccedil;&otilde;es, valores c&iacute;vicos, &eacute;ticos,      est&eacute;ticos e cognitivos, forma do poder, forma da propriedade, leis,      permiss&otilde;es e proibi&ccedil;&otilde;es, forma da religi&atilde;o, forma      da fam&iacute;lia e das rela&ccedil;&otilde;es pessoais entre adultos, entre      estes e as crian&ccedil;as, os idosos etc. A utopia &eacute; cria&ccedil;&atilde;o      de um mundo completo.</font></li>       <li><font size="3"> &Eacute; a vis&atilde;o do presente sob o modo da ang&uacute;stia,      da crise, da injusti&ccedil;a, do mal, da corrup&ccedil;&atilde;o e da rapina,      do pauperismo e da fome, da for&ccedil;a dos privil&eacute;gios e das car&ecirc;ncias,      ou seja, o presente &eacute; percebido como viol&ecirc;ncia.</font></li>       <li><font size="3"> &Eacute; radical, buscando a liberdade e a felicidade individual      e p&uacute;blica, gra&ccedil;as &agrave; reconcilia&ccedil;&atilde;o entre      homem e natureza, indiv&iacute;duo e sociedade, sociedade e Estado, cultura      e humanidade, e &agrave; restaura&ccedil;&atilde;o de valores esquecidos ou      descurados como a justi&ccedil;a, a fraternidade e a igualdade.</font></li>       <li><font size="3"> &Eacute; uma maneira peculiar da imagina&ccedil;&atilde;o      social, que busca combinar o irrealismo, ou a cren&ccedil;a na total transpar&ecirc;ncia      do social, e o realismo, por meio da apresenta&ccedil;&atilde;o dos m&iacute;nimos      detalhes da nova sociedade. A transpar&ecirc;ncia &eacute; considerada o princ&iacute;pio      fundamental da nova sociedade, que n&atilde;o oculta nem dissimula nenhum      de seus mecanismos e nenhuma de suas opera&ccedil;&otilde;es. Os detalhes,      por seu turno, servem para dar concreticidade &agrave; nova sociedade imaginada      e cada detalhe exprime o todo e o simboliza. Dessa maneira, as institui&ccedil;&otilde;es      s&atilde;o signos do novo, do todo e da interioriza&ccedil;&atilde;o coletiva      da boa sociedade.</font></li>       <li><font size="3"> &Eacute; um discurso cujas fronteiras s&atilde;o m&oacute;veis,      ou seja, a utopia pode ser liter&aacute;ria, arquitet&ocirc;nica, religiosa,      pol&iacute;tica. Eis por que se pode falar em pol&iacute;tica ut&oacute;pica,      arte ut&oacute;pica, ci&ecirc;ncia ut&oacute;pica, filosofia ut&oacute;pica,      religi&atilde;o ut&oacute;pica. O fundamental, por&eacute;m, &eacute; que      esse discurso n&atilde;o &eacute; um programa de a&ccedil;&atilde;o, mas um      exerc&iacute;cio de imagina&ccedil;&atilde;o. Em outras palavras, o utopista      &eacute; um revolucion&aacute;rio ou um reformador consciente do car&aacute;ter      prematuro e extempor&acirc;neo de suas id&eacute;ias que, por isso, n&atilde;o      podem ser postas como um programa. Como escreve Claude Gilbert Dubois, o discurso      ut&oacute;pico permanece no plano potencial e hipot&eacute;tico, referido      "a um poss&iacute;vel que n&atilde;o traz consigo mesmo for&ccedil;osamente      a certeza de sua realiza&ccedil;&atilde;o". No entanto, o discurso ut&oacute;pico      pode inspirar a&ccedil;&otilde;es ou uma <I>utopia praticada</I>, que assume      o risco da hist&oacute;ria, mas com a finalidade de alcan&ccedil;ar o fim      da hist&oacute;ria ou do tempo e atingir a perenidade. </font></li>     </ol>     <p><font size="3"><b>III</b></font></P>     <p><font size="3">Recordemos, brevemente, as condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas    que fizeram esse g&ecirc;nero de discurso surgir durante a Renascen&ccedil;a,    portanto, entre os s&eacute;culos XV e XVI.</font></P>     <p><font size="3">Como j&aacute; observamos, o termo utopia passou a ser empregado    para referir-se a obras anteriores &agrave; <I>Utopia</I> de Thomas More. De    fato, sob o impacto da obra de More, foram chamadas ut&oacute;picas obras como    a <I>Rep&uacute;blica</I> de Plat&atilde;o, a <I>Eneida</I> de Virg&iacute;lio,    os poemas de Ov&iacute;dio sobre a Idade de Ouro, o relato b&iacute;blico do    Para&iacute;so Terrestre e, particularmente, a esperan&ccedil;a milenarista    ou o simbolismo prof&eacute;tico medieval do abade franciscano Joaquim di Fori,    que interpretara a hist&oacute;ria segundo a imagem de tr&ecirc;s eras ou idades,    a terceira e &uacute;ltima das quais seria um tempo de sabedoria, sem escravos    nem senhores, regida pelo amor e pela amizade, pelo esp&iacute;rito e pela liberdade.    No entanto, ainda que todas essas obras pudessem de alguma maneira inspirar    Thomas More, o sentido preciso do voc&aacute;bulo utopia pertence &agrave; Renascen&ccedil;a.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Destaquemos alguns aspectos do pensamento renascentista que    estar&atilde;o presentes na <I>Utopia</I> de More. Antes de mais nada o humanismo,    ou seja, distanciando-se do teocentrismo medieval, a Renascen&ccedil;a d&aacute;    ao homem o lugar central. Desenvolve a id&eacute;ia de que o homem &eacute;    dotado de capacidade e for&ccedil;a n&atilde;o s&oacute; para conhecer a realidade,    mas sobretudo para transform&aacute;-la, id&eacute;ia que transparece num ad&aacute;gio    que ser&aacute; celebrizado por Francis Bacon: "o homem &eacute; o arquiteto    da Fortuna", ou seja, o homem &eacute; senhor de sua sorte ou de seu destino.    O humanismo exalta a raz&atilde;o humana, a l&oacute;gica e a experi&ecirc;ncia    no plano do conhecimento, e a vontade no plano da a&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;,    o poder para dominar, controlar e governar os apetites e as paix&otilde;es.    O homem &eacute;, pois, capaz de guiar-se a si mesmo, desde que, por meio da    raz&atilde;o e da vontade, estabele&ccedil;a normas de conduta e c&oacute;digos    para todos os aspectos da vida pr&aacute;tica. Essa id&eacute;ia da racionalidade    e do poder da vontade conduz a duas outras id&eacute;ias, essenciais para o    surgimento das utopias: a de que os homens valem por si mesmos, independentemente    de privil&eacute;gios de nascimento e sangue, de maneira que a oposi&ccedil;&atilde;o    entre ricos e pobres &eacute; injusta e fonte das revoltas que destroem os Estados;    e a de que &eacute; poss&iacute;vel organizar um Estado sereno, feliz, glorioso    e perfeito, fundado na eq&uuml;idade e dirigido por um verdadeiro pr&iacute;ncipe.    Al&eacute;m disso, as viagens mar&iacute;timas e a descoberta de novas terras    e novos povos iriam inspirar a fantasia da sociedade perfeita de homens igualit&aacute;rios    vivendo em plena harmonia com a natureza, tanto assim que a Utopia de More inaugura    uma narrativa em que a descri&ccedil;&atilde;o da cidade ideal &eacute; feita    por um viajante, que navegou por mares nunca dantes navegados. A cidade ideal    tende a ser colocada numa ilha cuja localiza&ccedil;&atilde;o permanece desconhecida    e &agrave; qual o viajante chega por acaso, em geral em decorr&ecirc;ncia de    um naufr&aacute;gio. Em outras palavras, as utopias tendem a ser viagens imagin&aacute;rias    a ilhas desconhecidas, nas quais os humanos exercitam plenamente suas capacidades    benfazejas.</font></P>     <p><font size="3">O humanismo pol&iacute;tico renascentista possui duas vertentes    principais: a republicana e a monarquista. Os republicanos afirmam que o valor    pol&iacute;tico fundamental n&atilde;o se encontra nas qualidades pessoais do    governante e sim na liberdade. Se esta &eacute; o valor pol&iacute;tico supremo,    que riscos podem amea&ccedil;&aacute;-la? Aqueles trazidos pela desigualdade.    A liberdade s&oacute; pode ser conservada por meio da igualdade, isto &eacute;,    da justi&ccedil;a. Os monarquistas afirmam que o valor pol&iacute;tico fundamental    &eacute; a paz. Que riscos podem amea&ccedil;&aacute;-la? A exist&ecirc;ncia    de fac&ccedil;&otilde;es, que acendem conflitos e rebeli&otilde;es. A paz s&oacute;    pode ser conservada por meio da ordem, isto &eacute;, da lei. Essas duas vertentes    do pensamento pol&iacute;tico ser&atilde;o reunidas na <I>Utopia</I> de More.    </font></P>     <p><font size="3">Vivendo numa Gr&atilde;-Bretanha sacudida pelos tumultos da    Reforma protestante e da Contra-Reforma cat&oacute;lica, das lutas pol&iacute;ticas    e religiosas de fac&ccedil;&otilde;es que se digladiam no Parlamento e em campos    de batalha, no per&iacute;odo do surgimento da monarquia absoluta dos Tudors,    ou de Henrique viii, que prefere a adula&ccedil;&atilde;o, a corrup&ccedil;&atilde;o    e a mentira em vez da prud&ecirc;ncia e da verdade, Thomas More inventa uma    sociedade ideal, na qual reinam a liberdade e a igualdade, a paz e a ordem,    a justi&ccedil;a e a lei. Como &eacute; isso poss&iacute;vel? Pela supress&atilde;o    da causa da desigualdade, isto &eacute;, a propriedade privada da terra com    seus privil&eacute;gios; e pela supress&atilde;o da causa das fac&ccedil;&otilde;es    e dos conflitos, isto &eacute;, o Estado como inst&acirc;ncia separada da sociedade    e as igrejas, portadoras da intoler&acirc;ncia religiosa. Em <I>Utopia</I>,    vigora a democracia direta, fundada na vontade coletiva guiada por homens virtuosos,    e reina a toler&acirc;ncia religiosa. Opondo-se &agrave; pobreza e &agrave;    injusti&ccedil;a, &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o e &agrave; desordem, &agrave;    adula&ccedil;&atilde;o e &agrave; mentira, o livro de More volta-se para a dignidade    do trabalho e a cr&iacute;tica da ociosidade, prop&otilde;e o planejamento da    produ&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e a distribui&ccedil;&atilde;o igualit&aacute;ria    dos bens, imagina a organiza&ccedil;&atilde;o do tempo livre como momento n&atilde;o    apenas de lazer e entretenimento, mas de dedica&ccedil;&atilde;o &agrave; ci&ecirc;ncia    e &agrave;s artes, para que os homens possam viver segundo a raz&atilde;o e    em harmonia com a natureza. </font></P>     <p><font size="3">N&atilde;o vamos aqui examinar o livro de More, mas assinalar    um conjunto de aspectos que passaram a operar como modelo para obras e discursos    ut&oacute;picos.</font></P> <ol>       <li><font size="3"> A utopia &eacute; busca da cidade feliz ou justa, cujo fundamento      se encontra na excel&ecirc;ncia da legisla&ccedil;&atilde;o, ou na lei, e      na pedagogia ou na educa&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os segundo a justeza      e excel&ecirc;ncia da lei.</font></li>       <li><font size="3"> A utopia busca a estabilidade social e pol&iacute;tica,      ou a estabilidade institucional, conseguida porque a funda&ccedil;&atilde;o      pol&iacute;tica &eacute; obra de um legislador excelente, que legisla para      um povo novo, ainda n&atilde;o corrompido socialmente.</font></li>       <li><font size="3"> A utopia instaura a identifica&ccedil;&atilde;o de cada      indiv&iacute;duo com a lei ou com o Estado, ou seja, o consenso perfeito,      a unanimidade das vontades dirigidas para um mesmo fim, de maneira que n&atilde;o      h&aacute; conflitos nem sedi&ccedil;&otilde;es.</font></li>       <li><font size="3"> A cidade ideal exerce uma vigil&acirc;ncia permanente sobre      todos os seus membros: o Conselho Dirigente costuma ocupar um pal&aacute;cio      de vidro ou de cristal, de onde cada habitante possa ser visto, ficando sempre      exposto ao olhar de todos.</font></li>       <li><font size="3"> A cidade ideal &eacute; coletivista: desaparece a fam&iacute;lia      como n&uacute;cleo social e os casamentos est&atilde;o submetidos a regras      sociais destinadas a manter o amor e a sexualidade sob controle; desaparecem      a propriedade privada e o dinheiro, cada um recebendo segundo suas necessidades      e capacidades, de maneira que est&atilde;o eliminadas a desigualdade e a competi&ccedil;&atilde;o.      A felicidade &eacute; sempre coletiva, cada um oferecendo-se como espelho      para todos os outros.</font></li>       <li><font size="3"> A cidade ideal &eacute; insular, isto &eacute;, uma ilha      isolada de todo o restante do mundo e cuja localiza&ccedil;&atilde;o permanece      secreta de modo a mant&ecirc;-la protegida de ataques, invas&otilde;es e m&aacute;s      influ&ecirc;ncias. Al&eacute;m de isolada e ilocalizada (donde u-topia), a      cidade ideal &eacute; geom&eacute;trica e arquitetonicamente planejada, ou      seja, &eacute; produto de um urbanismo racional deliberado, que organiza o      espa&ccedil;o segundo exig&ecirc;ncias sociais, pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas.      O urbanismo geom&eacute;trico significa que a raz&atilde;o humana domina a      desordem da mat&eacute;ria e os caprichos da natureza e da hist&oacute;ria.      Escreve Raymond Trousson:</font></li>     ]]></body>
<body><![CDATA[</ol>     <blockquote>        <blockquote>          <p><font size="3">a cidade &eacute; o espelho e a medida do homem &#91;…&#93;        o espa&ccedil;o fechado &eacute; a imagem da perfei&ccedil;&atilde;o realizada        &#91;…&#93; A figura geom&eacute;trica fixa as formas e delimita sem equ&iacute;vocos        um mundo &agrave; parte, pois a cidade ut&oacute;pica dobra-se sobre si        mesma, sem contato com o exterior para evitar a corrup&ccedil;&atilde;o        &#91;…&#93;. Nada &eacute; ca&oacute;tico ou deixado ao acaso, mas tudo        &eacute; regrado e previsto, pois o urbanismo e a arquitetura est&atilde;o        encarregados de refletir o estado moral da cidade (Trousson, 2004, p. 42).</font></p>   </blockquote> </blockquote> <ol start="7">       <li><font size="3"> O lugar do poder &eacute; claramente demarcado, tanto pela      localiza&ccedil;&atilde;o central quanto pelas caracter&iacute;sticas dos      edif&iacute;cios, que se distinguem das habita&ccedil;&otilde;es. Estas tendem      a ser homog&ecirc;nas e simples, enquanto a sede do poder civil tende a ser      grandiosa e portentosa.</font></li>       <li><font size="3"> A cidade ideal &eacute; bela e esplendorosa, arborizada,      florida, ampla, clara, limpa, com edif&iacute;cios p&uacute;blicos de m&aacute;rmore,      rubi, safira, ouro e prata, enquanto as habita&ccedil;&otilde;es particulares      s&atilde;o simples, funcionais, limpas, arejadas e cercadas de jardins.</font></li>       <li><font size="3"> Embora a educa&ccedil;&atilde;o, a ci&ecirc;ncia e as artes      sejam estimadas e estimuladas, a tend&ecirc;ncia &eacute; evitar — seguindo      Plat&atilde;o — obras escritas. Em lugar de livros e bibliotecas, h&aacute;      reuni&otilde;es, conversas, debates, trocas de opini&otilde;es e de id&eacute;ias.      Ou seja, evita-se o isolamento da escrita e da leitura e seu individualismo      em proveito do grupo e da coletividade.</font></li>     </ol>     <p><font size="3">H&aacute;, ainda, um &uacute;ltimo tra&ccedil;o da utopia que    n&atilde;o prov&eacute;m da obra de More, mas da de um outro ingl&ecirc;s, Francis    Bacon, que, no in&iacute;cio do s&eacute;culo XVII, escreveu a <I>Nova Atl&acirc;ntida.</I>    Como em More, a Nova Atl&acirc;ntida situa-se numa ilha cuja localiza&ccedil;&atilde;o    permanece secreta e foi alcan&ccedil;ada pelo narrador em decorr&ecirc;ncia    de um naufr&aacute;gio. Por que <I>nova</I> Atl&acirc;ntida? Como se sabe, no    di&aacute;logo <I>Cr&iacute;tias</I>, Plat&atilde;o narra o mito da Atl&acirc;ntida    para op&ocirc;-la &agrave;s virtudes da Atenas antiga, cujas qualidades aristocr&aacute;ticas,    guerreiras e frugais o fil&oacute;sofo julga destru&iacute;das pela democracia,    com seu igualitarismo e opul&ecirc;ncia. Atl&acirc;ntida, na narrativa plat&ocirc;nica,    &eacute; a cidade injusta e passional, fundada por um deus (Poseidon) caprichoso    e tumultoso, governada por reis, filhos bastardos do deus com as mortais, governantes    arbitr&aacute;rios cuja vontade &eacute; lei. Arquitet&ocirc;nica e politicamente,    Atl&acirc;ntida &eacute; uma cidade oriental e mais precisamente persa, pois    os gregos n&atilde;o podem esquecer as amea&ccedil;as, guerras e invas&otilde;es    dos persas, que destru&iacute;ram suas cidades e amea&ccedil;am outras. Atl&acirc;ntida    &eacute; cidade &iacute;mpia e tir&acirc;nica, que mereceu o castigo de Zeus,    que a fez submergir no oceano. Em contrapartida, a <I>nova</I> Atl&acirc;ntida    de Francis Bacon &eacute; uma sociedade harm&ocirc;nica, feliz e pr&oacute;spera,    na qual a principal virtude &eacute; o conhecimento e sua aplica&ccedil;&atilde;o    para superar as limita&ccedil;&otilde;es da condi&ccedil;&atilde;o humana. Dirigida    por s&aacute;bios, tem em seu centro a Casa de Salom&atilde;o, um grande laborat&oacute;rio    dedicado &agrave;s investiga&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas e &agrave;s    pesquisas tecnol&oacute;gicas, pois somente o avan&ccedil;o dos conhecimentos    assegura bem-estar e felicidade &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. Seus cidad&atilde;os    s&atilde;o cientistas; nela vigora a toler&acirc;ncia religiosa, embora a religi&atilde;o    n&atilde;o tenha grande import&acirc;ncia, pois, segundo o narrador, a sociedade    cientificamente organizada j&aacute; existia quando a ela, misteriosamente,    chegaram os Evangelhos, ou seja, a verdade revelada e a f&eacute; vieram depois    da ci&ecirc;ncia e s&atilde;o menos importantes do que esta, pois prud&ecirc;ncia,    justi&ccedil;a, toler&acirc;ncia, benevol&ecirc;ncia, sobriedade e prosperidade    s&atilde;o virtudes c&iacute;vicas e n&atilde;o religiosas, nascidas do conhecimento    e n&atilde;o da f&eacute;. A educa&ccedil;&atilde;o do jovem cientista visa    prepar&aacute;-lo n&atilde;o para igualar-se a seu mestre e sim para super&aacute;-lo,    pois a <I>Nova Atl&acirc;ntida</I> &eacute; a utopia do progresso da ci&ecirc;ncia.    A tecnologia &eacute;, a um s&oacute; tempo, fonte do progresso da ci&ecirc;ncia    — gra&ccedil;as &agrave; inven&ccedil;&atilde;o de instrumentos cada vez mais    precisos — e efeito do progresso cient&iacute;fico — o avan&ccedil;o dos conhecimentos    inventa novas t&eacute;cnicas. Pesquisas em todos os campos do saber t&ecirc;m    como finalidade prolongar a vida, manter a juventude e retardar o envelhecimento,    curar doen&ccedil;as tidas como incur&aacute;veis, transformar o metabolismo,    a estatura e a fisionomia, aumentar a capacidade cerebral, alargar os esp&iacute;ritos,    criar novas esp&eacute;cies vivas e inorg&acirc;nicas, produzir alimentos novos,    produzir novos fios duradouros para o vestu&aacute;rio, aumentar os prazeres    dos sentidos e, se poss&iacute;vel, impedir a morte.</font></P>     <p><font size="3">Se em <I>Utopia </I>&eacute; a pol&iacute;tica o elemento decisivo    — isto &eacute;, a figura do legislador e do governante justo que guia a democracia    direta —, com a <I>Nova Atl&acirc;ntida</I>, o racionalismo e o experimentalismo    cient&iacute;ficos passam a integrar o discurso ut&oacute;pico, articulando    intrinsecamente a cidade ideal e a ci&ecirc;ncia —, isto &eacute;, o progresso    do saber &eacute; o elemento decisivo e determina as obras ut&oacute;picas posteriores.    Assim, a partir do s&eacute;culo XVIII e sobretudo do s&eacute;culo XIX, na    cidade ut&oacute;pica, as m&aacute;quinas far&atilde;o todo trabalho, deixando    aos homens o tempo para cultivar o esp&iacute;rito e o corpo; a natureza estar&aacute;    completamente domada, submetida ao homem, que n&atilde;o mais se v&ecirc; desarmado    diante dela; as doen&ccedil;as estar&atilde;o vencidas e a morte deixa de ser    um enigma doloroso; sofrimentos e terrores, crueldades e acasos estar&atilde;o    completamente ausentes. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&Eacute; essa dimens&atilde;o da utopia que dar&aacute; origem    a um novo g&ecirc;nero liter&aacute;rio, a <I>fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</I>,    cuja primeira manifesta&ccedil;&atilde;o, no s&eacute;culo XIX, encontra-se    na obra de J&uacute;lio Verne.</font></P>     <P><font size="3"><b>IV</b></font></P>     <p><font size="3">Esse conjunto de aspectos, brevemente apresentado, indica que,    entre os s&eacute;culos XVI e XVIII, a utopia &eacute; um jogo intelectual no    qual o poss&iacute;vel &eacute; imagin&aacute;rio, combinando a nostalgia de    um mundo perfeito perdido e a imagina&ccedil;&atilde;o de um mundo novo institu&iacute;do    pela raz&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">Em contrapartida, quando passamos ao s&eacute;culo XIX, a utopia    deixa de ser um jogo intelectual para tornar-se um projeto pol&iacute;tico,    no qual o poss&iacute;vel est&aacute; inscrito na hist&oacute;ria. Esta deixa    de ser a narrativa de grandes feitos e de acontecimentos contingentes para ser    concebida como ci&ecirc;ncia do encadeamento causal necess&aacute;rio dos fatos    e das institui&ccedil;&otilde;es humanas. Agora, a utopia &eacute; deduzida    de teorias sociais e cient&iacute;ficas, sua chegada &eacute; tida como inevit&aacute;vel    porque a marcha da hist&oacute;ria e o conhecimento de suas leis universais    garantem que ela se realizar&aacute;. Deixa de ser obra liter&aacute;ria para    tornar-se pr&aacute;tica organizada, passando a ser encarada pelos poderes vigentes    como perigo real e a ser censurada como loucura.</font></P>     <p><font size="3">Sob os efeitos da ci&ecirc;ncia e da t&eacute;cnica — isto &eacute;,    da segunda revolu&ccedil;&atilde;o industrial — e da id&eacute;ia de marcha    necess&aacute;ria da hist&oacute;ria como progresso, o discurso ut&oacute;pico    se torna realista e pragm&aacute;tico. H&aacute; uma positiviza&ccedil;&atilde;o    do imagin&aacute;rio ut&oacute;pico de maneira a diminuir a dist&acirc;ncia    entre a cidade imagin&aacute;ria e a real, entre a hist&oacute;ria desejada    e a vivida. Como escreve Baczko, h&aacute; uma cientifiza&ccedil;&atilde;o da    utopia, que se torna um projeto de reforma global como <I>ci&ecirc;ncia aplicada</I>,    e o futuro &eacute; arrastado para as fronteiras do presente, ou seja, a utopia    surge como possibilidade objetiva, inscrita na marcha progressiva da hist&oacute;ria.</font></P>     <p><font size="3">&Eacute; nesse novo contexto que se realiza a cr&iacute;tica    de Engels e Marx ao socialismo ut&oacute;pico. A utopia, dizem eles, &eacute;    um pressentimento ou uma prefigura&ccedil;&atilde;o de um saber sobre a sociedade    que o marxismo resgata no plano de uma ci&ecirc;ncia da hist&oacute;ria. Ou    seja, assim como da alquimia se passou &agrave; qu&iacute;mica e da astrologia    &agrave; astronomia, assim tamb&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel passar do    socialismo ut&oacute;pico ao socialismo cient&iacute;fico. O socialismo ut&oacute;pico    &eacute; uma sabedoria afetiva e parcial, express&atilde;o do imagin&aacute;rio    dos oprimidos. Em contrapartida, o socialismo cient&iacute;fico &eacute; o amadurecimento    racional do saber ut&oacute;pico dos dominados e o amadurecimento racional de    sua pr&aacute;tica pol&iacute;tica. Nesse sentido, o socialismo cient&iacute;fico    &eacute; a passagem do afetivo ao racional, do parcial ao totalizante, da antecipa&ccedil;&atilde;o    ou pressentimento &agrave; emancipa&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria.    Em outras palavras, o socialismo ut&oacute;pico ergue-se contra o sofrimento    dos humilhados e oprimidos, mas o socialismo cient&iacute;fico &eacute; o conhecimento    das causas materiais (econ&ocirc;micas e sociais) da humilha&ccedil;&atilde;o    e da opress&atilde;o, ou seja, o modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista,    fundado na luta de classes, que &eacute; determinada pela propriedade privada    dos meios sociais de produ&ccedil;&atilde;o — a revolu&ccedil;&atilde;o socialista    ser&aacute;, por isso mesmo, a passagem &agrave; propriedade social dos meios    sociais de produ&ccedil;&atilde;o, passagem que ser&aacute; a a&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica da classe economicamente explorada quando, por sua organiza&ccedil;&atilde;o,    conhecer-se a si mesma como classe.</font></P>     <p><font size="3">Como se observa, o marxismo resgata o sentido do socialismo    ut&oacute;pico assinalando sua parcialidade e sua pouca historicidade. Dessa    maneira, a cr&iacute;tica marxiana se distingue da cr&iacute;tica conservadora    (Comte, Durkheim, Sombart), para a qual a utopia &eacute; um miserabilismo nascido    do medo da proletariza&ccedil;&atilde;o, uma quimera e uma loucura por excesso    de imagina&ccedil;&atilde;o. Os conservadores absorvem a hist&oacute;ria na    natureza e afirmam que a utopia &eacute; antinatural, isto &eacute;, absurda:    desejar o fim da propriedade privada seria o mesmo que desejar a fonte da eterna    juventude, uma impossibilidade natural. Marx e Engels distinguem dois tipos    de propriedade: a propriedade privada dos bens necess&aacute;rios &agrave; vida    e &agrave; vida feliz, e a propriedade social dos meios sociais de produ&ccedil;&atilde;o.    Isto lhes permite distinguir dois tipos de utopia: aquela que permanece como    sombra da sociedade existente, oferecendo-se como doutrina, sistema, filosofia    e pedagogia para as massas — esse tipo de utopia &eacute; inaceit&aacute;vel    — e aquela que antecipa e prefigura a sociedade futura como sociedade nova que    nega a sociedade presente — &eacute; essa utopia que o socialismo cient&iacute;fico    assimila e transforma. Em outras palavras, o socialismo marxiano valoriza na    utopia seu car&aacute;ter antecipador de um saber concreto sobre o social e    seu car&aacute;ter prefigurador da sociedade nova. </font></P>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m sob esse aspecto, a posi&ccedil;&atilde;o de Marx    e Engels se distancia do cientificismo conservador. De fato, este parte de uma    indaga&ccedil;&atilde;o: s&atilde;o as utopias realiz&aacute;veis? Essa pergunta    pressup&otilde;e, em primeiro lugar, a identifica&ccedil;&atilde;o do poss&iacute;vel    com o prov&aacute;vel — isto &eacute;, nega a dimens&atilde;o criadora do poss&iacute;vel,    achatando-o numa probabilidade que seria cientificamente demonstr&aacute;vel;    conseq&uuml;entemente, em segundo, que a hist&oacute;ria abriga um &uacute;nico    poss&iacute;vel; e, em terceiro, que o utopista o conhece e possui a vis&atilde;o    completa do futuro. Dessa maneira, o valor de uma utopia &eacute; medido por    um crit&eacute;rio n&atilde;o-ut&oacute;pico, qual seja, a previsibilidade cient&iacute;fica    e a unicidade do poss&iacute;vel. Ora, nenhuma utopia influenciou o curso da    hist&oacute;ria por seu realismo, mas, ao contr&aacute;rio, pela nega&ccedil;&atilde;o    radical das fronteiras do real institu&iacute;do e por oferecer aos agentes    sociais a vis&atilde;o de in&uacute;meros poss&iacute;veis. O utopista desloca    a fronteira daquilo que os contempor&acirc;neos julgam poss&iacute;vel. </font></P>     <p><font size="3">A cr&iacute;tica marxista &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o    conservadora aparece claramente em Marcuse, quando denuncia a redu&ccedil;&atilde;o    da utopia &agrave; mera ideologia, que sup&otilde;e que toda forma do mundo,    toda transforma&ccedil;&atilde;o do meio t&eacute;cnico e do meio natural &eacute;    uma probabilidade real que tem seu lugar, seu <I>t&oacute;pos</I> na hist&oacute;ria.    Ou seja, ao passar do <I>u-t&oacute;pos</I> ao <I>t&oacute;pos</I>, do n&atilde;o-lugar    a um lugar pre-fixado na hist&oacute;ria, a ideologia cientificista proclama    o fim das utopias. Nesse mesmo sentido, tamb&eacute;m se colocando numa perspectiva    marxista, Manheim, em <I>Ideologia e utopia</I>, distingue os dois termos. Utopia    &eacute; a nega&ccedil;&atilde;o do <I>t&oacute;pos</I> da classe dominante    ou uma vis&atilde;o global da sociedade que se op&otilde;e &agrave; da classe    dominante; &eacute; uma elabora&ccedil;&atilde;o da classe historicamente ascendente    e express&atilde;o de seus anseios profundos. Em contrapartida, ideologia &eacute;    o sistema global de representa&ccedil;&otilde;es e valores da classe dominante,    que deformam e mistificam a realidade social, imobilizando a consci&ecirc;ncia    de classe. Dessa maneira, a utopia n&atilde;o &eacute; propriamente um discurso,    mas um conjunto de pr&aacute;ticas e de movimentos sociais contestadores da    sociedade presente no seu todo.</font></P>     <P><font size="3"><b>V</b></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Seria preciso, como conclus&atilde;o, articular os principais    aspectos do discurso ut&oacute;pico (aqueles nove, que mencionei acima) e o    fen&ocirc;meno do totalitarismo. </font></P>     <p><font size="3">Essa articula&ccedil;&atilde;o foi feita na segunda metade do    s&eacute;culo XX em v&aacute;rios romances, como, por exemplo, <I>1984</I>,    de Orwell, <I>Admir&aacute;vel mundo novo</I>, de Huxley, <I>e Farenheit 541</I>,    de Bradbury. E reaparece, no in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, no primeiro    filme da trilogia <I>Matrix</I>. </font></P>     <p><font size="3">Referindo-se &agrave; articula&ccedil;&atilde;o entre os elementos    pr&oacute;prios do discurso e da narrativa ut&oacute;picos e o totalitarismo,    alguns autores falam em <I>distopia</I>, o <I>t&oacute;pos</I> dilacerado e    infeliz. As obras de distopia nos levam do sonho ao pesadelo.</font></P>     <p><font size="3">Mas isto &eacute; uma outra hist&oacute;ria que fica para uma    outra vez.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>Marilena Chau&iacute;</b> <I>&eacute; professora-titular    do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias    Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCH-USP).</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>NOTAS</b></font></P> <ol>       <li><font size="3">&Eacute; assim, por exemplo, que o messianismo judaico e      o milenarismo crist&atilde;o podem ser vistos como religiosidade ut&oacute;pica,      na medida em que ambos concebem um tempo de abund&acirc;ncia, paz e felicidade      terrenas para o povo de Deus; tempo biblicamente conhecido como o "tempo do      fim", revelado aos profetas Daniel e Isa&iacute;as e a Jo&atilde;o de Patmos,      autor do Apocalipse. No caso judaico, o tempo final ser&aacute; o da restaura&ccedil;&atilde;o      de Israel e do retorno da dispers&atilde;o &agrave; "terra prometida". No      caso crist&atilde;o, trata-se de um "reino de mil anos", que antecede a "segunda      volta de Cristo", a "batalha do Armagedon" — em que Cristo vence definitivamente      o dem&ocirc;nio —, o "ju&iacute;zo final" e a entrada na eternidade.</font></li>     ]]></body>
<body><![CDATA[</ol>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">BACZKO, Branislaw. 1978. <I>Lumi&egrave;res de l’utopie</I>.    Paris: Payot. </font><!-- ref --><p><font size="3">TROUSSON, Raymond. 2004. "La cit&eacute;, l’architecture    et les arts en Utopie". Morus. <I>Utopia e Renascimento</I>, n. 1.</font> ]]></body><back>
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<article-title xml:lang="fr"><![CDATA["La cité, l’architecture et les arts en Utopie"]]></article-title>
<source><![CDATA[Morus. Utopia e Renascimento]]></source>
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