<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252008000500013</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Herch Moysés Nussenzveig]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Abreu]]></surname>
<given-names><![CDATA[Alzira Alves de]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Velho]]></surname>
<given-names><![CDATA[Gilberto]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Davidovich]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luiz]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A03"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,FGV CPDOC ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,UFRJ Museu Nacional ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A03">
<institution><![CDATA[,UFRJ  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<volume>60</volume>
<numero>spe1</numero>
<fpage>74</fpage>
<lpage>88</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252008000500013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252008000500013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252008000500013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60nspe1/entrev.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size=5><b>HERCH MOYS&Eacute;S NUSSENZVEIG</b></font></P>     <p align="center"><font size="3"><b><i>por Alzira Alves de Abreu, Gilberto Velho    e Luiz Davidovich</i></b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Herch Moys&eacute;s Nussenzveig, f&iacute;sico graduado pela    Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e p&oacute;s-graduado pelas universidades    de Birmingham (Inglaterra), de Zurique (Su&iacute;&ccedil;a), de Utrecht e de    Eindhoven (Holanda), participou dos grandes debates da f&iacute;sica ao longo    da segunda metade do s&eacute;culo XX no Brasil e no mundo.</font></P>     <p><font size="3">Al&eacute;m de sua produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica,    na qual alcan&ccedil;ou resultados relevantes no &acirc;mbito da f&iacute;sica    te&oacute;rica, teve papel importante tamb&eacute;m nas lutas que envolveram    a democratiza&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento da sociedade brasileira,    como o combate &agrave; ditadura militar, a defesa de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas    consistentes na &aacute;rea da ci&ecirc;ncia e tecnologia, a defesa do uso da    energia nuclear para fins pac&iacute;ficos. </font></P>     <p><font size="3">Tendo sido professor das universidades de Nova York e de Rochester    e do Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados de Princeton, entre outras institui&ccedil;&otilde;es,    trabalhou e conviveu com muitos dos grandes nomes da f&iacute;sica contempor&acirc;nea    mundial, como Robert Oppenheimer e Rudolf Peierls. </font></P>     <p><font size="3">De volta ao Brasil, criou o Departamento de F&iacute;sica Matem&aacute;tica    da USP, bem como o Laborat&oacute;rio de Pin&ccedil;as &Oacute;ticas da Universidade    Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sendo o ensino um de seus interesses, realizou    diversas a&ccedil;&otilde;es e elaborou v&aacute;rios projetos visando &agrave;    melhoria da qualidade dos cursos de f&iacute;sica no Brasil. </font></P>     <p><font size="3">Atualmente &eacute; professor em&eacute;rito da UFRJ e pesquisador    em&eacute;rito do Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas (CBPF). Dentre    os diversos pr&ecirc;mios, t&iacute;tulos e homenagens que recebeu ao longo    de sua carreira, destacam-se o Pr&ecirc;mio Max Born, conferido pela Optical    Society of America em 1986, e a C&aacute;tedra Moys&eacute;s Nussenzveig de    Mec&acirc;nica Estat&iacute;stica, institu&iacute;da pela Universidade de Tel    Aviv em 1993.  </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Professor Moys&eacute;s Nussenzveig, gostar&iacute;amos de    come&ccedil;ar esta entrevista com os seus dados pessoais — tais como data e    local de nascimento e quem s&atilde;o seus pais.</b>    <br>   Tenho duas datas de nascimento: a data oficial &eacute; 16 de janeiro de 1933,    mas os meus pais, por alguma raz&atilde;o, registraram-me com quase seis meses    de atraso. Estou para fazer 75 anos.    <br>   Nasci em S&atilde;o Paulo, tenho dois irm&atilde;os, dos quais o do meio, Victor,    teve o sobrenome registrado de modo diferente. Em vez de "v", foi    grafado com "w" — Nussenzweig —, que &eacute; o correto, ali&aacute;s,    porque em alem&atilde;o seria com "w". Mas pode-se sempre alegar que    atualmente n&atilde;o h&aacute; "w" em portugu&ecirc;s. Portanto,    somos tr&ecirc;s irm&atilde;os e os sobrenomes s&atilde;o um pouco diferentes.    O do mais velho, Israel, &eacute; o mesmo que o meu.    <br>   Meus pais: o meu pai se chamava Michel e minha m&atilde;e, Regina, que s&atilde;o    os nomes que constaram na documenta&ccedil;&atilde;o brasileira. No entanto,    eles vieram da Pol&ocirc;nia e, por isso, t&ecirc;m um nome mais arrevesado,    de origem mais polonesa e judaica.</font></P>     <p><font size="3"><b>Eles vieram para o Brasil quando?</b>    <br>   No in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1920.</font></P>     <p><font size="3"><b>Como foram as circunst&acirc;ncias dessa vinda?</b>    <br>   Foi uma &eacute;poca j&aacute; de grande migra&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o    judaica da Pol&ocirc;nia, porque estava havendo pogroms. Na Pol&ocirc;nia isso    come&ccedil;ou cedo. Parte da migra&ccedil;&atilde;o foi para os Estados Unidos    — na Am&eacute;rica do Norte —, parte para a Am&eacute;rica do Sul — Argentina,    Brasil. </font></P>     <p><font size="3"><b>Por que vieram para o Brasil?</b>    <br>   Na &eacute;poca o Brasil era, n&atilde;o sei se o foi at&eacute; mil novecentos    e vinte e poucos, mas antes disso, na &eacute;poca em que Friburgo foi colonizada,    era a lenda do Eldorado. Visitando-se aquele museu em Nova Friburgo, percebe-se    que os su&iacute;&ccedil;os estavam na mis&eacute;ria e, para eles, o Brasil    era um para&iacute;so.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Muitos foram para a Argentina, muitos para os Estados Unidos.</b>    <br>   Sim, mas o Brasil era tamb&eacute;m um grande p&oacute;lo atrativo.</font></P>     <p><font size="3"><b>Tinham parentes aqui, amigos?</b>    <br>   Eu acho que da fam&iacute;lia, que eu saiba, eles foram os primeiros a chegar.    Depois houve, sim, primos e outros…</font></P>     <p><font size="3"><b>Uma das raz&otilde;es para sairem da Pol&ocirc;nia foi a    onda de anti-semitismo?</b>    <br>   Foi, sem d&uacute;vida, a principal raz&atilde;o. E, de fato, havia uma fam&iacute;lia    bastante extensa na Pol&ocirc;nia e quase toda ela foi para campos de concentra&ccedil;&atilde;o,    n&atilde;o sobrou quase ningu&eacute;m. Isso me afetou bastante.</font></P>     <p><font size="3"><b>Qual era a profiss&atilde;o do seu pai?</b>    <br>   O meu pai, quando chegou aqui, se tornou mascate e vendia principalmente roupas    a presta&ccedil;&atilde;o. Ele levava amostras, &agrave;s vezes carregando um    saco, a hist&oacute;ria enfim de grande parte daquela popula&ccedil;&atilde;o    judaica do Bom Retiro, que foi onde eles se estabeleceram. Eu nasci l&aacute;,    embora em uma casa diferente da de meu irm&atilde;o, mas na mesma regi&atilde;o    do Bom Retiro. Ent&atilde;o ele fazia isso, caminhava percursos imensos pelas    ruas de bairros como Santana, Tucuruvi, na &eacute;poca considerados distantes    do Bom Retiro. As pessoas faziam encomendas usando um sistema de que me lembro    at&eacute; hoje: meu pai fazia um cart&atilde;o em que registrava o que a pessoa    tinha comprado e as presta&ccedil;&otilde;es que ia pagando. Na realidade, n&atilde;o    era muito diferente de hoje, s&oacute; que isso era para comprar uma roupa,    coisas desse tipo, muitas vezes fabricadas l&aacute; nas f&aacute;bricas do    pr&oacute;prio Bom Retiro, que na &eacute;poca era quase exclusivamente judaico.    </font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor cresceu nesse bairro?</b>    <br>   Eu cresci nesse bairro. A nossa casa ficava na rua Prates, n&uacute;mero 712.    At&eacute; hoje n&oacute;s compramos &agrave;s vezes, para a P&aacute;scoa,    uma caixa de matzes que &eacute; fabricada na rua Prates, n&uacute;mero quatrocentos    e qualquer coisa, que deve ficar a umas duas ou tr&ecirc;s quadras de onde a    minha fam&iacute;lia morava quando eu nasci.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   A casa era de meia parede com a sinagoga. E os meus pais eram, digamos, de cumprir    rituais mas n&atilde;o eram devotos. Meu pai, nas festas judaicas mais importantes,    ia &agrave; sinagoga, e acho que houve &eacute;pocas em que a gente jejuava    durante o <I>Yom Kipur</I>. E eu fiz o <I>bar-mitzvah</I>, que era essencialmente    ter de decorar uma por&ccedil;&atilde;o de coisas em hebraico, que eu n&atilde;o    entendia absolutamente, com a tradu&ccedil;&atilde;o em i&iacute;diche. Meus    pais falavam bastante o i&iacute;diche, ent&atilde;o acabei aprendendo e falava    muito pouquinho, mas sempre me deu confus&atilde;o. Depois eu passaria a confundi-lo    com o alem&atilde;o e o holand&ecirc;s… </font></P>     <p><font size="3"><b>Mas em casa voc&ecirc;s falavam portugu&ecirc;s?</b>    <br>   Eu falava portugu&ecirc;s, com meus pais tamb&eacute;m. Mas de vez em quando    eles, entre eles ou com um parente, falavam em i&iacute;diche. </font></P>     <p><font size="3"><b>No Brasil voc&ecirc;s tiveram alguma experi&ecirc;ncia de    anti-semitismo?</b>    <br>   Nada que fosse marcante, mas &eacute; poss&iacute;vel que tenha ocorrido uma    vez ou outra. </font></P>     <p><font size="3"><b>Durante o Estado Novo?</b>    <br>   N&atilde;o. Com Micheline<sup>2</sup> foi outra hist&oacute;ria,    porque ela veio durante a guerra, refugiada da Fran&ccedil;a, no &uacute;ltimo    navio que atravessou o Atl&acirc;ntico. Ficou seis meses perto de Dakar, creio,    e quase n&atilde;o a deixaram desembarcar. S&oacute; n&atilde;o foi repatriada    porque a m&atilde;e dela era j&aacute; brasileira, tinha fam&iacute;lia aqui,    e acho que um despachante, que por engano ficou preso no navio, conseguiu se    comunicar com o pessoal em terra. S&oacute; por isso ela conseguiu ficar no    Brasil. </font></P>     <p><font size="3"><b>Como foi a sua educa&ccedil;&atilde;o? Que tipo de escola    freq&uuml;entou, p&uacute;blica ou privada?</b>    <br>   Eu s&oacute; fiz escola p&uacute;blica a vida inteira. Comecei num grupo escolar    que acho que era bastante bom e que existe at&eacute; hoje. Era chamado Grupo    Escolar Prudente de Moraes e ficava na avenida Tiradentes, perto da Pinacoteca    de S&atilde;o Paulo. Acho que, quando fui para o grupo escolar, eu j&aacute;    sabia ler.    <br>   Do grupo escolar em diante eu era o tal "primeiro da classe", sempre,    e a hist&oacute;ria com isso &eacute; que o meu pai, para toda a freguesia dele,    levava o meu boletim para mostrar as notas que eu tirava.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Um conhecido que se casou com uma prima nos contou isso muitos anos mais tarde:    morava tamb&eacute;m no Bom Retiro e tinha muita raiva de mim, porque ele era    bom aluno mas, quando levava o boletim, apanhava do pai, pois ele o comparava    com o boletim que meu pai levava.</font></P>     <p><font size="3"><b>Quer dizer, tirava 9,5 e o pai perguntava o porqu&ecirc;.</b>    <br>   Ele me detestara e eu nunca soubera. Depois ficamos bons amigos.</font></P>     <p><font size="3"><b>E o curso secund&aacute;rio, o senhor o fez onde? E que tipo    de escola era?</b>    <br>   Mas, antes, uma coisa que foi muito importante, que vem do curso prim&aacute;rio    ainda, foi a Biblioteca Infantil Municipal — ali&aacute;s, eu sou rato de livraria    e biblioteca desde a mais tenra idade. Assim, uma das lembran&ccedil;as muito    agrad&aacute;veis que tenho &eacute; a de ir ao Jardim da Luz, um jardim muito    bonito na &eacute;poca — hoje em dia at&eacute; que n&atilde;o est&aacute; t&atilde;o    mal, j&aacute; recuperaram um pouco —, aonde vinha uma vez por semana uma caminhonete    da Biblioteca Municipal, que era a biblioteca ambulante ou circulante, e pod&iacute;amos    tomar os livros emprestados e devolv&ecirc;-los em uma ou duas semanas.    <br>   Victor, que j&aacute; era mais velho, era um dos fregueses das obras de Humberto    de Campos, que eram supostamente mais picantes, n&atilde;o &eacute;? Mas eu    me lembro de muitos livros agrad&aacute;veis que li l&aacute;. E foi muito importante,    para n&oacute;s dois certamente, tanto para o Victor como para mim, a Biblioteca    Infantil Municipal. Acho que depois ela mudou de endere&ccedil;o, da rua Major    Sert&oacute;rio para a General Jardim. Era uma biblioteca excepcionalmente boa.    </font></P>     <p><font size="3"><b>Al&eacute;m do Humberto de Campos, que mais o senhor lia?</b>    <br>   Eu li coisas muito fora da idade, quer dizer, eu j&aacute; tinha lido obras    de Dostoievski antes de entrar no gin&aacute;sio. Certamente eu n&atilde;o estava    realmente apreciando o suficiente, mas eu tinha lido um bocado de literatura,    e Monteiro Lobato com um enorme entusiasmo, Julio Verne, as coisas normais,    toda cole&ccedil;&atilde;o do Julio Verne. E Tarzan, essas coisas.</font></P>     <p><font size="3"><b>Terramarear?</b>    <br>   A Terramarear toda… O Monteiro Lobato fez edi&ccedil;&otilde;es espetaculares,    livros ideais para crian&ccedil;as daquela &eacute;poca, que hoje talvez j&aacute;    n&atilde;o se ache mais com tanta facilidade.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>J&aacute; tinha acesso ent&atilde;o a uma literatura mais    cl&aacute;ssica, mais consagrada, como esse exemplo do Dostoievski?</b>    <br>   Pois &eacute;. Um dos pr&ecirc;mios que ganhei no grupo escolar, e at&eacute;    comentei isso com &Acirc;ngelo Machado, foi um livro maravilhoso, que tenho    ainda, do Rudolf von Ihering, que se chama <I>As f&eacute;rias no Pontal</I>.    &Eacute; a hist&oacute;ria de um garoto que tira f&eacute;rias numa fazenda,    e o livro descreve as plantas, os bichos que ele ia conhecendo. Fiquei encantado.    Mencionei-o ent&atilde;o durante uma palestra do &Acirc;ngelo, que havia falado    de livros antecessores dele, de divulga&ccedil;&atilde;o da natureza, e ele    disse algo como: "Ah, eu citei esse livro quando tomei posse na Academia".    Ele tamb&eacute;m &eacute; um grande admirador.</font></P>     <p><font size="3"><b>Nessa &eacute;poca o senhor j&aacute; tinha uma fantasia    sobre o que gostaria de fazer, como profiss&atilde;o. Quando &eacute; que isso    come&ccedil;ou?</b>    <br>   Mas deixe-me falar um pouco mais da Biblioteca Infantil, pois foi muito importante,    e Monteiro Lobato tamb&eacute;m. Bem, havia uma cole&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica    de livros, e o Monteiro Lobato ia l&aacute; de vez em quando. A diretora, que    se chamava Lenira Fraccarolli, publicava um jornalzinho chamado <I>A Voz da    Inf&acirc;ncia</I>, semanal, ou talvez quinzenal. E Victor e eu publicamos ali    — na &eacute;poca eu tinha entre nove e dez anos e ele entre treze e catorze    —, em co-autoria, um livro em folhetim, um epis&oacute;dio em cada n&uacute;mero    do jornal, que era uma imita&ccedil;&atilde;o barata do Monteiro Lobato. Chamava-se    "Uma viagem atrav&eacute;s da arte": come&ccedil;ava com a arte da pr&eacute;-hist&oacute;ria,    depois a arte na Gr&eacute;cia, em Roma, dos incas… </font></P>     <p><font size="3"><b>O Monteiro Lobato foi um autor importante para o senhor?</b>    <br>   Muito. </font></P>     <p><font size="3"><b>E o Julio Verne?</b>    <br>   Sim, o Julio Verne, sem d&uacute;vida. Essa &eacute; a parte que complementou,    digamos, o grupo escolar e tamb&eacute;m o Gin&aacute;sio do Estado, que foi    a escola secund&aacute;ria que fiz.</font></P>     <p><font size="3"><b>Qual era, o Caetano de Campos?</b>    <br>   N&atilde;o, o Caetano de Campos era a escola normal, na Pra&ccedil;a da Rep&uacute;blica.    Esse era o Gin&aacute;sio do Estado, correspondente em S&atilde;o Paulo ao Pedro    II do Rio de Janeiro. E era um gin&aacute;sio fant&aacute;stico! Acho que, em    rela&ccedil;&atilde;o &agrave;queles <I>lyce&eacute;s</I> famosos de Paris,    ele n&atilde;o devia grande coisa a eles. Tinha um exame de admiss&atilde;o    que era muito dif&iacute;cil.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Mas, antes ainda da admiss&atilde;o, uma das coisas que a gente fazia em casa    era dar aulas particulares, para complementar a renda. Lembro-me que j&aacute;    no gin&aacute;sio dei aulas de latim para uma pessoa, cujo nome j&aacute; n&atilde;o    me lembro, que precisava fazer vestibular onde ca&iacute;a latim, para direito,    e entrou na faculdade.    <br>   Do gin&aacute;sio, como eu dizia, o exame de admiss&atilde;o era dific&iacute;limo.    Lembro-me de que uma das pessoas que me examinaram, e que seria depois muito    importante na minha forma&ccedil;&atilde;o e na minha carreira, foi o C&acirc;ndido    Gon&ccedil;alves Gomide, professor de matem&aacute;tica. Eu depois o tive como    professor j&aacute; no curso colegial, segundo ciclo, que na &eacute;poca se    chamava cient&iacute;fico.    <br>   S&oacute; para dar uma id&eacute;ia de como era o Gin&aacute;sio do Estado,    os professores eram catedr&aacute;ticos, faziam concurso, e Gomide tinha feito    concurso na Escola Polit&eacute;cnica e passado. Mas optou pelo Gin&aacute;sio    do Estado, porque gostava mais de ensinar naquele n&iacute;vel.    <br>   O professor de hist&oacute;ria, de forte personalidade, era Odilon de Ara&uacute;jo    Grellet. Ele depois acabou fazendo concurso e foi ser professor de hist&oacute;ria    do direito romano, ou algo assim, na Faculdade de Direito.    <br>   O professor de latim era muito simp&aacute;tico e fantasticamente bom professor.    T&iacute;nhamos latim desde a primeira s&eacute;rie. Ele era Jos&eacute; Cretella    Junior, talvez tenham ouvido falar dele. E aprendi o suficiente para ler textos    em latim.    <br>   Tamb&eacute;m o franc&ecirc;s que aprendi no Gin&aacute;sio do Estado foi praticamente    suficiente para falar, escrever e ler corretamente, desde o final do ginasial.</font></P>     <p><font size="3"><b>Naquela &eacute;poca n&atilde;o havia a Alian&ccedil;a Francesa?    O franc&ecirc;s era somente o do col&eacute;gio, da escola?</b>    <br>   N&atilde;o, eu fui tamb&eacute;m aprender literatura na Alian&ccedil;a Francesa    e fiz tanto ela como a Cultura Inglesa. </font></P>     <p><font size="3"><b>Depois do gin&aacute;sio?</b>    <br>   Isso foi j&aacute; no colegial, e &eacute; importante para voc&ecirc;s entenderem    como eu fui parar na Fran&ccedil;a: justamente por causa de um curso de literatura    francesa na Alian&ccedil;a, que me entusiasmou muito. Na &eacute;poca eu tamb&eacute;m    tinha um grande interesse por cinema, que persiste at&eacute; hoje.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Assim, o seu curso prim&aacute;rio, que hoje em dia se chama    curso b&aacute;sico, e o curso m&eacute;dio foram de &oacute;tima qualidade?</b>    <br>   Excelente qualidade, sim. </font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor fez o cient&iacute;fico?</b>    <br>   O Gin&aacute;sio do Estado ficava no parque Dom Pedro II, ou l&aacute; perto,    e o segundo ciclo foi mudado para a rua S&atilde;o Joaquim, j&aacute; em outro    bairro, passando a chamar-se Col&eacute;gio Estadual Presidente Roosevelt. Foi    l&aacute; que eu fiz o segundo ciclo.    <br>   L&aacute; tive o Gomide como professor de matem&aacute;tica e isso foi fant&aacute;stico    para mim. Ele me influenciou muit&iacute;ssimo. Era o professor distra&iacute;do,    proverbial, que andava com a roupa toda desalinhada, a gravata nas costas. Apagava    o quadro-negro com a manga e quase chorava se havia um erro em alguma dedu&ccedil;&atilde;o    que estava fazendo. E andava pela rua matutando f&oacute;rmulas, era esse tipo    de pessoa. Eu realmente me apaixonei.    <br>   N&atilde;o creio que ele tenha feito pesquisa em matem&aacute;tica, mas ele    escreveu um livro, e deu-me um exemplar com dedicat&oacute;ria, chamado <I>Li&ccedil;&otilde;es    de &aacute;lgebra</I>, que &eacute; muito bom. No primeiro ano do segundo ciclo,    ele come&ccedil;ava a dar o curso de aritm&eacute;tica com os postulados de    Peano, que &eacute; a maneira fundamental de dar, como voc&ecirc; poderia dar    hoje na universidade — ou talvez hoje j&aacute; n&atilde;o se possa faz&ecirc;-lo    desse modo…    <br>   A &uacute;ltima tentativa de fazer a matem&aacute;tica segundo esse sistema    foi de Bertrand Russel, junto com o Whitehead, na obra chamada <I>Principia    Mathematica</I>, como a do Newton. S&atilde;o tr&ecirc;s volumes, da Cambridge    University Press. Em sua autobiografia, Russel conta que, quando saiu a edi&ccedil;&atilde;o,    de tiragem bastante pequena, alugaram uma carro&ccedil;a para levar os livros,    que eram pesad&iacute;ssimos e volumos&iacute;ssimos. Eu suspeito que ningu&eacute;m    deve ter ultrapassado em muito a metade do volume 1, porque &eacute; todo em    l&oacute;gica simb&oacute;lica. E a id&eacute;ia era de que a matem&aacute;tica    seria toda deduzida a partir daqueles postulados do Peano, com l&oacute;gica    impec&aacute;vel e inatac&aacute;vel. Isso acabou quando G&ouml;del demonstrou,    em seu teorema, que todo sistema l&oacute;gico baseado em postulados cont&eacute;m    proposi&ccedil;&otilde;es verdadeiras, mas que n&atilde;o podem ser demonstradas    com aqueles postulados, o que foi uma mudan&ccedil;a radical na hist&oacute;ria    da matem&aacute;tica.</font></P>     <p><font size="3"><b>Mas havia a divis&atilde;o entre o cient&iacute;fico e o    cl&aacute;ssico: o senhor havia optado por fazer o curso cient&iacute;fico?</b>    <br>   Sim, o cient&iacute;fico e a matem&aacute;tica me atra&iacute;ram enormemente.    Mas eu tinha tamb&eacute;m muito interesse pela literatura.</font></P>     <p><font size="3"><b>Mas havia de fato essa op&ccedil;&atilde;o? Havia o cl&aacute;ssico?</b>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Sim, havia o curso cient&iacute;fico e o cl&aacute;ssico. </font></P>     <p><font size="3"><b>Ent&atilde;o, j&aacute; no gin&aacute;sio, mesmo antes desse    professor, o senhor estava interessado em f&iacute;sica e em matem&aacute;tica?</b>    <br>   Mas eu tinha tamb&eacute;m paix&atilde;o por cinema e comecei a freq&uuml;entar    o Centro de Estudos Cinematogr&aacute;ficos do Museu de Arte de S&atilde;o Paulo.    </font></P>     <p><font size="3"><b>Com o Paulo Em&iacute;lio Sales Gomes?</b>    <br>   N&atilde;o, com um italiano chamado Paolo Giolli. N&oacute;s organizamos um    festival de cinema que pode perfeitamente ter sido o primeiro festival de cinema    feito no Brasil.</font></P>     <p><font size="3"><b>Em que ano?</b>    <br>   Em 1950. Vejam que lindos filmes: <I>Le corbeau e Quai des orf&egrave;vres</I>,    do Clouzot, <I>Monsieur Verdoux</I>, um do Harold Lloyd.    <br>   Havia um filme que era minha paix&atilde;o, <I>Brief Encounter</I>, do David    Lean, baseado numa pe&ccedil;a do Noel Coward. Quando eu fui para Paris — e    vamos chegar l&aacute; —, freq&uuml;entei o Cin&eacute;-Club Universitaire e    dei l&aacute; uma palestra, seguida de debate, na proje&ccedil;&atilde;o desse    filme.    <br>   E agora, finalmente, a hist&oacute;ria de como acabei indo para a Fran&ccedil;a.    Tem a ver com tudo isso que contei h&aacute; pouco: na Alian&ccedil;a Francesa,    fiz um curso de literatura e ganhei pr&ecirc;mios anuais que eles promoviam.    Era um curso de tr&ecirc;s ou quatro anos e, no &uacute;ltimo ano, eles conseguiram    uma bolsa do governo franc&ecirc;s, que estava ent&atilde;o em concurso. O concurso    era fazer uma reda&ccedil;&atilde;o sobre, se me lembro bem, o legado cultural    da Fran&ccedil;a, ou a import&acirc;ncia cultural da Fran&ccedil;a. Eu ganhei,    e o pr&ecirc;mio era uma viagem e bolsa de um ano em qualquer lugar da Fran&ccedil;a    que se quisesse, em qualquer &aacute;rea.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor escolheu ent&atilde;o a matem&aacute;tica?</b>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Eu fiquei muito na d&uacute;vida entre ir para o Idhec, o Institute des Hautes    &Eacute;tudes Cin&eacute;matographiques, em Paris, para seguir a carreira de    cinema, e entre a matem&aacute;tica. E fui ent&atilde;o consultar pessoas, fui    ao Departamento de Matem&aacute;tica, na Faculdade de Filosofia, e conversei    inclusive com o Andr&eacute; Delsarte, um dos professores da escola Bourbaki.    Ali&aacute;s, a matem&aacute;tica da USP teve como visitantes alguns dos maiores    matem&aacute;ticos do mundo da escola Bourbaki, inclusive o grande Andr&eacute;    Weil, o Laurent Schwartz, entre outros. Ele me recomendou ir para Nancy, onde    a escola Bourbaki era o forte.    <br>   Entre as duas coisas, acabei optando por matem&aacute;tica, mas n&atilde;o em    Nancy, e sim na Sorbonne. E foi assim que fui parar em Paris, para fazer l&aacute;    o primeiro ano do curso.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor estudava em uma escola p&uacute;blica, mas a Alian&ccedil;a    Francesa e a Cultura Inglesa eram pagas. Isso j&aacute; era um produto do trabalho    de voc&ecirc;s ou era o apoio ainda da fam&iacute;lia?</b>    <br>   Como eu disse, n&oacute;s d&aacute;vamos aulas particulares e isso ajudava.    O meu pai trabalhava durissimamente para conseguir manter tudo, e o Israel tamb&eacute;m    dava aulas. Logo que se formou na Faculdade de Medicina ele abriu um consult&oacute;rio,    inicialmente l&aacute; em casa.</font></P>     <p><font size="3"><b>Seu irm&atilde;o mais velho &eacute; m&eacute;dico?</b>    <br>   Sim, tem oito anos de diferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o a mim. Lembro-me    quando ele comprou o primeiro carro, um Morris Oxford, e levou-nos a passear    de carro. Era ent&atilde;o uma fonte de renda, mas &eacute; poss&iacute;vel    que eu tivesse bolsa tamb&eacute;m l&aacute; na Alian&ccedil;a ou na Cultura,    n&atilde;o me lembro.</font></P>     <p><font size="3"><b>Mas, de qualquer forma, sua fam&iacute;lia valorizava isso    e apoiava?</b>    <br>   Muit&iacute;ssimo. O meu pai, com a hist&oacute;ria de fazer propaganda para    os seus clientes… </font></P>     <p><font size="3"><b>Do boletim. </b>    <br>   E a minha m&atilde;e acompanhava muito o que a gente fazia, procurava ajudar    nos trabalhos.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Todos os filhos fizeram curso superior?</b>    <br>   Os tr&ecirc;s, sim. Col&eacute;gio e gin&aacute;sio do Estado, e o Israel fez    ainda o pr&eacute;-universit&aacute;rio. Victor e Israel foram para a Faculdade    de Medicina, a tradicional felicidade da m&atilde;e judaica de ter filho m&eacute;dico.    S&oacute; que o Israel realmente foi at&eacute; o fim, optou por cl&iacute;nica    e sua especialidade, at&eacute; hoje, &eacute; nefrologia. Ele est&aacute; com    83 anos e ainda trabalha no Hospital das Cl&iacute;nicas, onde d&aacute; consultas.    <br>   O Victor n&atilde;o, pois logo entrou em intera&ccedil;&atilde;o com o Samuel    Pessoa, em parasitologia, parte por influ&ecirc;ncia disso, parte pela Ruth,    que era austr&iacute;aca mas que veio fazer o curso de medicina aqui no Brasil,    mudando-se com o pai para S&atilde;o Paulo. Como ele conta, eles queriam descobrir    a cura do c&acirc;ncer e acabaram, com isso, investigando a parasitologia. Logo    de sa&iacute;da fizeram uma descoberta interessante, importante at&eacute; hoje,    que &eacute; um m&eacute;todo de esterilizar o sangue para evitar que a doen&ccedil;a    de Chagas seja transmitida por transfus&otilde;es. Descobriram um m&eacute;todo    simpl&iacute;ssimo de fazer isso, que &eacute; colorir o sangue com violeta    de genciana, um anti-s&eacute;ptico. Deixa o sangue azul, mas resolve o problema.    At&eacute; hoje esse m&eacute;todo &eacute; empregado, inclusive na &Aacute;frica    e em outras regi&otilde;es.    <br>   Eles tomaram esse rumo, e o outro rumo, evidentemente, foi o do PCB, o Partido    Comunista, em que tanto Israel como Victor eram realmente ativos na &eacute;poca.    </font></P>     <p><font size="3"><b>Isso foi em que &eacute;poca? Na d&eacute;cada de 1940?</b>    <br>   Sim, da segunda metade dos anos 1940 at&eacute; quando fui para Paris.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor foi para a Fran&ccedil;a em 1951?</b>    <br>   Sim, fui para a Fran&ccedil;a com 17 anos, creio. Foi a primeira vez, com exce&ccedil;&atilde;o    de Po&ccedil;os de Caldas, que eu sa&iacute; do estado de S&atilde;o Paulo.    <br>   Meus pais estavam preocupad&iacute;ssimos, imaginem, ir para aquele antro de    perdi&ccedil;&atilde;o que era Paris sem jamais quase ter sa&iacute;do de casa.    Viajei num barco chamado Lavoisier, que s&oacute; tinha primeira classe e terceira,    e acabei indo de primeira classe — viagem tamb&eacute;m inclu&iacute;da no pr&ecirc;mio    da Alian&ccedil;a Francesa.    <br>   Minha bolsa dava para viver na Cit&eacute; Universitaire, e meus pais me mandavam    algo quase do valor da bolsa, com grande sacrif&iacute;cio, todo m&ecirc;s.    Consegui ent&atilde;o um lugar na Cit&eacute; Universitaire, que na &eacute;poca    ainda n&atilde;o tinha o pavilh&atilde;o do Brasil. Os estudantes brasileiros    iam freq&uuml;entemente para a Fondation des &Eacute;tats Unis, onde eu fui    morar.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Foi muito interessante, porque fiz um curso que se chamava <I>math&eacute;­matiques    g&eacute;n&eacute;rales</I>, na Sorbonne, muito bom, coordenado por um grande    algebrista. Esse curso me impressionou bastante, era muito pr&aacute;tico tamb&eacute;m,    aprendia-se o que era fundamental, calcular de verdade, com muitos problemas    e exerc&iacute;cios.    <br>   As aulas, naqueles grandes anfiteatros da Sorbonne, deviam ter oitocentos alunos.    Quem chegava um pouquinho mais tarde sentava-se l&aacute; no fundo e mal enxergava    o quadro-negro, quanto mais o que o professor escrevia no quadro.    <br>   Dei um duro danado para passar e, quando passei, mandei um telegrama para os    meus pais dizendo que eu tinha passado no escrito e, finalmente, tamb&eacute;m    no exame oral. Ent&atilde;o, tive esse diploma da Sorbonne.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor passou quanto tempo na Fran&ccedil;a?</b>    <br>   Um ano.</font></P>     <p><font size="3"><b>Esse curso que fez era de um ano?</b>    <br>   Era um curso de um ano e j&aacute; dava um diploma, um curso geral de matem&aacute;tica    que introduzia as coisas mais importantes realmente, do ponto de vista pr&aacute;tico.    </font></P>     <p><font size="3"><b>E era s&oacute; para estrangeiros ou tamb&eacute;m para franceses?</b>    <br>   Era um &uacute;nico curso, n&atilde;o havia diferen&ccedil;a nenhuma entre franceses    e n&atilde;o franceses.    <br>   Nessa &eacute;poca na Sorbonne conheci os brasileiros que estavam ent&atilde;o    em Paris. Partilh&aacute;vamos os quartos na Funda&ccedil;&atilde;o dos Estados    Unidos, dois em cada quarto, e o meu colega de quarto era um escritor pernambucano    chamado Gast&atilde;o de Holanda, que estava l&aacute; fazendo o curso de literatura.    Ele era amigo do C&iacute;cero Dias, que estava na embaixada, e uma vez sa&iacute;mos    com ele, que nos levou para jantar &agrave; beira do Sena, um jantar inesquec&iacute;vel.    Mas no geral com&iacute;amos na Cit&eacute; Universitaire, com aqueles <I>tickets</I>.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Havia a Jeunesses Musicales de France, concertos com entrada barata; cinema.    Convivi ent&atilde;o com diversas pessoas: um cen&oacute;grafo chamado Nilson    Pena, que foi bastante conhecido aqui em teatro; a Maria Fernanda, filha da    Cec&iacute;lia Meireles, que estava fazendo um curso. Primeiro ela fez um curso    no grupo do Laurence Olivier, em Londres, e depois com o Marcel Marceau, em    m&iacute;mica.</font></P>     <p><font size="3"><b>Era um grupo ecl&eacute;tico.</b>    <br>   Sim, conhec&iacute;amos esse grupo todo que estava ent&atilde;o em Paris, uma    &eacute;poca inesquec&iacute;vel. E eu mandava cartas o tempo todo aos meus    pais, contando das hist&oacute;rias a eles. Depois meu irm&atilde;o me contava    da preocupa&ccedil;&atilde;o que tinham de eu conviver com artistas, nesse meio    de corrup&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute;? Onde isso ia levar?    <br>   Quando voltei para o Brasil, encontrei Ernesto Hamburger, de quem j&aacute;    tinha sido colega desde o gin&aacute;sio e o colegial. Estud&aacute;vamos freq&uuml;entemente    juntos. O Hamburger &eacute; de uma fam&iacute;lia alem&atilde;, judaica, o    pai era juiz.</font></P>     <p><font size="3"><b>Eram colegas no col&eacute;gio?</b>    <br>   J&aacute; no gin&aacute;sio. A m&atilde;e dele mantinha um lar para crian&ccedil;as    judaicas que era uma obra importante em S&atilde;o Paulo. Ele tinha resolvido    fazer f&iacute;sica e, quando eu voltei, ele j&aacute; estava ent&atilde;o no    segundo ano do curso de f&iacute;sica da Faculdade de Filosofia. E, realmente,    a matem&aacute;tica da USP naquela &eacute;poca certamente n&atilde;o era das    melhores, mas a f&iacute;sica n&atilde;o, a f&iacute;sica j&aacute; tinha fama.    E eu resolvi fazer f&iacute;sica tamb&eacute;m. Fui "p&aacute;ra-quedista",    entrei sem vestibular. Reconheceram o meu curso da Sorbonne e inclusive me dispensaram    de alguns cursos que j&aacute; tinha feito l&aacute;. Pulei direto para o segundo    ano, e foi a &eacute;poca em que estava sendo constru&iacute;do o acelerador    Van de Graaff. Ali&aacute;s, a hist&oacute;ria da f&iacute;sica no Brasil tem    muito a ver com esses aceleradores que come&ccedil;aram na USP.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor foi para a USP quando?</b>    <br>   Mil, novecentos e cinq&uuml;enta e dois. Eu j&aacute; entrei no segundo ano    de f&iacute;sica.</font></P>     <p><font size="3"><b>Havia professores franceses na &aacute;rea de f&iacute;sica?</b>    <br>   Quem estava l&aacute; — e at&eacute; me lembro de o ter consultado, ainda antes    de ir para a Fran&ccedil;a, j&aacute; tamb&eacute;m para saber como era a f&iacute;sica    —, era o Jean Meyer, cujo nome de fato &eacute; Hans Albert Meyer. Ele recomendou-me    que n&atilde;o fizesse f&iacute;sica, se eu me lembro bem.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Quando comecei o curso, havia os dois aceleradores rivais: o Betatron, do Marcelo    Damy de Souza Santos, e o Van de Graaff, que estava em seu in&iacute;cio. O    Betatron foi doado para a USP pelo seu inventor, Donald Kerst.    <br>   Nessa &eacute;poca, acompanhei a constru&ccedil;&atilde;o da Cidade Universit&aacute;ria,    que era ent&atilde;o essencialmente um lama&ccedil;al. Existia o Instituto de    Eletrot&eacute;cnica, aquela caixa fechada, sem janelas at&eacute; hoje — o    Jos&eacute; Goldemberg atualmente est&aacute; trabalhando l&aacute; —, o Betatron,    o Van de Graaff e praticamente mais nada. O ipt acho que tamb&eacute;m j&aacute;    l&aacute; estava.    <br>   Deve ter havido alguma negociata fant&aacute;stica entre o governo do Estado    e a empresa construtora, j&aacute; na &eacute;poca, que fazia a terraplanagem.    Porque ao que se assistiu, durante anos, foram aquelas lagartas imensas fazendo    transfer&ecirc;ncia de montanhas de terra de um lado da Cidade Universit&aacute;ria    para outro. E, quando terminavam, pegavam a montanha daquele lado e levavam    novamente para o outro lado. O n&uacute;mero de vezes que isso aconteceu, n&atilde;o?    Deviam estar cobrando uma fortuna para a constru&ccedil;&atilde;o da Cidade    Universit&aacute;ria.    <br>   Voltando ao Betatron, o Marcelo Damy tinha sido formado pelo Gleb Wataghin,    evidentemente. Havia tamb&eacute;m a influ&ecirc;ncia do Ugo Camerini e outras    pessoas que estavam l&aacute;, mas ele foi disc&iacute;pulo do Wataghin. Durante    a guerra, foi proibido a Wataghin o acesso ao laborat&oacute;rio, porque ele    era de um pa&iacute;s do Eixo. E o laborat&oacute;rio n&atilde;o tinha nem acelerador,    levou algum tempo at&eacute; que fosse instalado. Mas j&aacute; havia um soldado    da For&ccedil;a P&uacute;blica na porta!    <br>   Havia s&eacute;rias desaven&ccedil;as entre o Damy e o Oscar Sala, que era o    construtor do Van de Graaff, que, em vez de conseguir a doa&ccedil;&atilde;o,    como Damy havia conseguido, resolveu construir o acelerador. Esse acelerador    era pressurizado e existe at&eacute; hoje: um tanque imenso, como um vag&atilde;o    de estrada de ferro, todo de a&ccedil;o. Ele foi testado — porque tinha de ag&uuml;entar    alta press&atilde;o de nitrog&ecirc;nio — com &aacute;gua! Obviamente, enferrujou.    <br>   Minha primeira tarefa como aprendiz de f&iacute;sico experimental foi entrar    com um macac&atilde;o, uma lanterna no capacete, como a dos mineiros, e uma    lixa rotat&oacute;ria, dessas com escova, para lixar o tanque Van der Graaff    dias a fio. Eu ficava completamente coberto de ferrugem, dos p&eacute;s &agrave;    cabe&ccedil;a. Foi a minha inicia&ccedil;&atilde;o na f&iacute;sica experimental.    </font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor foi diretamente da matem&aacute;tica para a f&iacute;sica    experimental?</b>    <br>   Sim.</font></P>     <p><font size="3"><b>N&atilde;o &eacute; uma trajet&oacute;ria muito linear.</b>    <br>   Mas eu tinha um enorme interesse pela f&iacute;sica te&oacute;rica tamb&eacute;m.    O que aconteceu &eacute; que tive a sorte de ter como professor de f&iacute;sica    te&oacute;rica o David Bohm, um f&iacute;sico norte-americano muito importante,    v&iacute;tima do macarthismo, que foi aluno de Oppenheimer, na Calif&oacute;rnia.    Ele n&atilde;o chegou a trabalhar em Los Alamos, mas as quest&otilde;es mais    graves que puseram ao Oppenheimer quando ele foi interrogado no processo sobre    a revoga&ccedil;&atilde;o de seu acesso a informa&ccedil;&otilde;es secretas    foram perguntas sobre o David Bohm. Eu tenho a transcri&ccedil;&atilde;o toda    do interrogat&oacute;rio do Oppenheimer, est&aacute; cheio de perguntas que    sempre voltam ao David Bohm. Em particular, o Bohm foi expulso de Princeton.    Uma vergonha, porque na Universidade de Rochester houve um caso desses, de um    professor que se negou a depor, e foi mantido. O reitor foi uma pessoa que,    embora depois amigo do Nixon, respeitou a liberdade de opini&atilde;o. E Princeton,    n&atilde;o, demitiu o Bohm. Ele conseguiu um emprego em S&atilde;o Paulo, com    uma recomenda&ccedil;&atilde;o do Oppenheimer para o Mario Schenberg.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>O Einstein escreveu uma carta tamb&eacute;m.</b>    <br>   O Einstein tamb&eacute;m. O Oppenheimer a toda hora era questionado por permitir    que o David Bohm freq&uuml;entasse Los Alamos, e depois acusaram Bohm de ser    chefe de uma c&eacute;lula comunista em Los Alamos.</font></P>     <p><font size="3"><b>Ele foi acusado de ser membro do Partido Comunista.</b>    <br>   E foi questionado por ter dado uma carta de recomenda&ccedil;&atilde;o para    o Bohm, para trabalhar com aquele conhecido comunista, Mario Schenberg.    <br>   Bohm foi meu professor primeiramente de f&iacute;sica te&oacute;rica e depois    de mec&acirc;nica qu&acirc;ntica. Ele foi o pai de uma nova vers&atilde;o da    teoria qu&acirc;ntica, que ele chamava teoria causal. E, ao mesmo tempo, escreveu    um livro muito ortodoxo de teoria qu&acirc;ntica. T&atilde;o ortodoxo, acho,    que ele acabou se convencendo, quando o escreveu, de que aquilo n&atilde;o era    bem assim. Mas foi um professor extraordin&aacute;rio e aprendi enormemente    com ele. Mas tamb&eacute;m curios&iacute;ssimo, porque adotava um livro mas    afirmava que n&atilde;o dev&iacute;amos ler certos trechos mais filos&oacute;ficos,    dizendo: "O que ele diz a&iacute; est&aacute; errado". "Ele"    era ele pr&oacute;prio!</font></P>     <p><font size="3"><b>Ele tinha que idade, mais ou menos, nessa &eacute;poca?</b>    <br>   Devia estar l&aacute; pelos 35, quarenta anos. </font></P>     <p><font size="3"><b>Esse curso do David Bohm, o senhor o fez no terceiro ano    da universidade?</b>    <br>   N&atilde;o, no quarto ano. No terceiro ano tive com ele o curso de f&iacute;sica    te&oacute;rica.    <br>   Eu tive v&aacute;rios cursos com o Mario Schenberg, por tr&ecirc;s ou quatro    anos seguidos. Era um professor tamb&eacute;m curios&iacute;ssimo. Ele dava    aula essencialmente sobre os t&oacute;picos nos quais estava interessado, sobre    os quais fazia pesquisa, num n&iacute;vel muito acima da m&eacute;dia dos alunos.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Voltando &agrave; sua forma&ccedil;&atilde;o, tiveram influ&ecirc;ncia    sobre o senhor os livros de divulga&ccedil;&atilde;o de f&iacute;sica, por exemplo,    o do Einstein e Infeld, do George Gamow? Como foi essa rela&ccedil;&atilde;o?</b>    <br>   Eu li muito tudo isso, inclusive o do Louis de Broglie. Quando cheguei a Paris,    descobri que haveria uma confer&ecirc;ncia dele, acho que na Sorbonne. Levei    ent&atilde;o um dos livros dele e pedi-lhe um aut&oacute;grafo. Esse livro deve    estar em algum lugar da minha biblioteca na UFRJ. Portanto, foram livros que    me influenciaram muito, sem d&uacute;vida nenhuma.</font></P>     <p><font size="3"><b>E o senhor os leu quando, no gin&aacute;sio?</b>    <br>   Mais para o colegial, provavelmente. E tamb&eacute;m livros sobre relatividade,    teoria qu&acirc;ntica, o Eddington, j&aacute; os havia lido tamb&eacute;m antes    de ir para a Fran&ccedil;a. S&oacute; li besteiras do Eddington, ali&aacute;s.    Mas ele escrevia muito bem.</font></P>     <p><font size="3"><b>Bom, chegamos aos professores.</b>    <br>   Professores que devem ter influenciado nas suas escolhas, digamos assim. O senhor    referiu-se ao Bohm, ao Schenberg.    <br>   O Bohm certamente &eacute; uma influ&ecirc;ncia muito importante. E o que aconteceu    foi que, enquanto isso, eu estava trabalhando no Van de Graaff. Fiz muito trabalho    bra&ccedil;al de f&iacute;sica experimental. Constru&iacute; circuitos eletr&ocirc;nicos,    sistemas de alto v&aacute;cuo — planejar, montar etc. E tive um excelente professor    de eletr&ocirc;nica, por exemplo, um norte-americano que estava participando    da constru&ccedil;&atilde;o do Van de Graaff, e um outro excelente professor    de t&eacute;cnicas de alto v&aacute;cuo, tamb&eacute;m norte-americano. Mas    eu estava me interessando mais pela f&iacute;sica te&oacute;rica, quando o Guido    Beck chegou para substituir exatamente o David Bohm, que nessa &eacute;poca    foi para, primeiramente, Israel.    <br>   N&atilde;o sei exatamente os detalhes, mas o Bohm, quando chegou ao Rio pela    primeira vez, chamaram-no &agrave; embaixada (na &eacute;poca era embaixada),    pediram-lhe o passaporte e retiveram-no, dizendo que s&oacute; o devolveriam    nos Estados Unidos. Ent&atilde;o, quando da sua ida para Israel, ele se naturalizou    brasileiro, para poder ter um passaporte. Acabou indo para Londres, onde o visitei    anos mais tarde, e se naturalizou tamb&eacute;m ingl&ecirc;s. Mas, muitos anos    depois disso tudo, a m&atilde;e dele agonizando, ele quis ir para os Estados    Unidos com passaporte ingl&ecirc;s e foi-lhe negado o visto, e isso bem depois    do MacCarthy.    <br>   Mas eu estava falando sobre o Beck. Guido Beck foi sucessor de Bohm durante    um per&iacute;odo de, acho, dois anos, que ele passou como visitante.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor ent&atilde;o j&aacute; tinha terminado o curso universit&aacute;rio,    porque fez o quarto ano com o David Bohm.</b>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Sim. N&atilde;o existia p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, mas havia cursos    de especializa&ccedil;&atilde;o. Eu fiz dois ou tr&ecirc;s, n&atilde;o me lembro    mais, um deles com o pr&oacute;prio Mario Schenberg, ali&aacute;s, mec&acirc;nica    dos fluidos. Aconteceu que o Beck, quando chegou, perguntou ao Schenberg se    ele podia recomendar algum estudante, porque ele tinha um problema interessante    para dar. O Schenberg me recomendou e ent&atilde;o eu comecei a trabalhar com    o Beck. E me apaixonei pela f&iacute;sica te&oacute;rica.    <br>   O Beck para mim foi, de longe, a pessoa que teve a maior influ&ecirc;ncia. Realmente    ele foi o "vov&ocirc;" dos nossos filhos, que sempre o chamaram de    "vov&ocirc; Beck". A Marlise Meyer, certa vez em que a encontramos,    disse-nos: "Ah, voc&ecirc;s que s&atilde;o os pais daquelas crian&ccedil;as    que o Beck vive mostrando o retrato na carteira dele?". Ele era vov&ocirc;    at&eacute; nisso. Ent&atilde;o foi uma liga&ccedil;&atilde;o sentimental e cient&iacute;fica    muito forte.    <br>   O tema da tese, e n&atilde;o quero entrar em detalhes de f&iacute;sica, foi    um problema que eu acho interessant&iacute;ssimo e com o qual passei a trabalhar    em tempo integral, deixando completamente de lado a parte experimental do acelerador.</font></P>     <p><font size="3"><b>Foi a tese de qu&ecirc;?</b>    <br>   Foi minha tese de doutorado. Na &eacute;poca, s&oacute; na USP existia doutorado.</font></P>     <p><font size="3"><b>E foi um problema de eletromagnetismo?</b>    <br>   Foi um problema na &aacute;rea de eletromagnetismo, cujo interesse principal    era ser um problema n&atilde;o perturbativo, que tinha de ter uma solu&ccedil;&atilde;o    aproximada e n&atilde;o uma solu&ccedil;&atilde;o exata. Solu&ccedil;&atilde;o    exata n&atilde;o havia e n&atilde;o h&aacute; at&eacute; hoje. Eu descobri uma    maneira de obter uma solu&ccedil;&atilde;o extremamente boa, n&atilde;o perturbativa.    Foi nessa &eacute;poca que vim para o Rio. O que aconteceu foi isto: o Beck    veio de S&atilde;o Paulo para o Rio de Janeiro.</font></P>     <p><font size="3"><b>Para o CBPF?</b>    <br>   Sim, e eu vim de l&aacute; tamb&eacute;m, embora eu j&aacute; tivesse sido nomeado    assistente. Fui assistente ainda antes do doutorado e defendi a tese em 1957.    <br>   Essa tese, eu a defendi duas vezes, de fato: uma vez na prova oficial, que foi    com o Schenberg, o Beck e outras pessoas na banca, e depois eu tive de defend&ecirc;-la    de novo perante o Richard Feynman (que era visitante constante aqui no Rio),    e o Beck fez com que eu repassasse aquilo tudo, ele me interrogando. Foi uma    defesa dupla.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>A sa&iacute;da de S&atilde;o Paulo para o Rio de Janeiro    foi ent&atilde;o em 1957?</b>    <br>   N&atilde;o, foi antes, 1956, creio.</font></P>     <p><font size="3"><b>Mas o senhor foi professor assistente de f&iacute;sica da    USP de 1956 a 1960.</b>    <br>   Mas eu estava de licen&ccedil;a, e dando cursos na Faculdade Nacional de Filosofia,    no CBPF. Eu dei o curso de f&iacute;sica te&oacute;rica durante dois ou tr&ecirc;s    anos, antes de ir para o exterior. Tive alunos como Jorge Andr&eacute; Swieca,    aluno naquele &eacute;poca brilhant&iacute;ssimo, um dos maiores f&iacute;sicos    do mundo que n&oacute;s tivemos no Brasil.    <br>   E ent&atilde;o fui fazer um p&oacute;s-doutorado. E a minha tese de doutorado,    o Beck a mandou para duas pessoas no exterior: uma delas foi o Wolfgang Pauli,    grande f&iacute;sico, tamb&eacute;m austr&iacute;aco, que colocou-me uma dedicat&oacute;ria    dizendo: "N&atilde;o &eacute; porque voc&ecirc; &eacute; o Pauli, mas porque    trabalhou num problema parecido". E, de fato, um dos trabalhos que ele    fez tinha tudo a ver com isso. E outro exemplar ele mandou para o Max Born,    que estava em Edimburgo. Esse trabalho acabou sendo publicado na <I>Philosophical    Transactions of the Royal Society</I>.    <br>   Da&iacute; minha id&eacute;ia de fazer um p&oacute;s-doutorado, e boa parte    desse curso, fi-lo com uma bolsa da Capes. Nunca vou esquecer quando o Beck    contou para o An&iacute;sio Teixeira que eu o tinha terminado — e devo ter sido    um dos primeiros bolsistas da Capes em f&iacute;sica —, e o An&iacute;sio Teixeira,    muito admirado, disse ao Beck: "Mas esse trabalho &eacute; um trabalho    original, ningu&eacute;m nunca fez isso antes!". &Eacute; curioso a id&eacute;ia    da gente sobre o An&iacute;sio, pois, pelo menos em ci&ecirc;ncia, ele achava    que era uma coisa fant&aacute;stica ter um trabalho que era realmente original.    <br>   Voltando &agrave; hist&oacute;ria da tese, eu tinha ficado muito interessado    num assunto que se chama causalidade, que tem algo a ver com o conceito, inclusive    intuitivo, de causalidade e as conex&otilde;es que isso tem com a f&iacute;sica,    envolvendo uma matem&aacute;tica muito bonita, pela qual eu tinha ficado apaixonado    desde a &eacute;poca daquele curso da Sorbonne.    <br>   Ent&atilde;o comecei a p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o indo para Eindhoven,    porque o problema era de uma &aacute;rea da f&iacute;sica chamada teoria da    difra&ccedil;&atilde;o e um dos grandes peritos trabalhava em Eindhoven, cuja    Universidade T&eacute;cnica estava come&ccedil;ando. Eu recebi uma bolsa do    CNPq. N&atilde;o existia bolsa de p&oacute;s-doutorado, era uma bolsa de algo    entre 150 e duzentos d&oacute;lares por m&ecirc;s. &Eacute; verdade que o d&oacute;lar,    na &eacute;poca, era mais valioso, mas era o tipo da bolsa que, comparada ao    que os estudantes de doutorado t&ecirc;m hoje em dia…    <br>   Passei uns dois ou tr&ecirc;s meses em Eindhoven e ent&atilde;o pedi para ser    liberado, pois estava muito mais interessado nesse problema de causalidade e    havia um outro f&iacute;sico holand&ecirc;s, chamado Van Kampen, em Utrecht,    que tinha feito uns trabalhos bel&iacute;ssimos sobre isso. Assim, somente depois    de dois ou tr&ecirc;s meses que passei l&aacute;, fui trabalhar em Utrecht.    <br>   A forma&ccedil;&atilde;o com o Van Kampen foi muito importante. Era um centro    de f&iacute;sica te&oacute;rica extremamente bom na &eacute;poca, onde, al&eacute;m    do Van Kampen, havia outro grande f&iacute;sico te&oacute;rico, Van Hove, que    dava um curso muito bonito, em holand&ecirc;s. Um dos colegas que tive l&aacute;,    que era norte-americano e n&atilde;o entendia muito o holand&ecirc;s, usava    as minhas notas, porque o professor falava em holand&ecirc;s e eu escrevia em    ingl&ecirc;s. Eu confundia bastante o holand&ecirc;s com o alem&atilde;o ou    o i&iacute;diche, mas dava para entender.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Passei praticamente um ano em Utrecht e fiz v&aacute;rios trabalhos l&aacute;.    Continuei indo para a Universidade de Birmingham, que era o grande centro de    f&iacute;sica te&oacute;rica da Europa, um dos maiores do mundo, onde estava    o Rudolf Peierls, o grande f&iacute;sico te&oacute;rico, uma personalidade absolutamente    extraordin&aacute;ria. Ele foi realmente o primeiro a calcular que, para construir    uma bomba at&ocirc;mica, bastaria uma quantidade muito pequena de material,    o que ningu&eacute;m fazia id&eacute;ia. Teve ent&atilde;o um papel central    em Los Alamos, tendo ido para l&aacute; depois, e foi tamb&eacute;m professor    do Klaus Fuchs, o que tamb&eacute;m acabou tendo um efeito sobre a pr&oacute;pria    carreira do Peierls.    <br>   Tive uma grande admira&ccedil;&atilde;o pelo Peierls, porque ele dirigia um    departamento extraordin&aacute;rio. Era na &eacute;poca, sem d&uacute;vida,    o melhor da Europa, com uma efici&ecirc;ncia incr&iacute;vel. Se tinha cinq&uuml;enta    ou sessenta pessoas trabalhando l&aacute;, ele sabia o que cada uma estava fazendo    — nunca vi uma pessoa como o Peierls. E era um lugar com instala&ccedil;&otilde;es    paup&eacute;rrimas, ainda barrac&otilde;es da &eacute;poca da guerra, mais uma    vez mostrando que n&atilde;o &eacute; a instala&ccedil;&atilde;o que conta.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor foi tamb&eacute;m a Zurique nesse per&iacute;odo?</b>    <br>   Sim, foi o Peierls quem me deu a recomenda&ccedil;&atilde;o, e l&aacute; interagi    com Res Jost. Foi uma &eacute;poca muito importante para a minha forma&ccedil;&atilde;o,    essa s&eacute;rie de trabalhos.    <br>   Voltei ent&atilde;o ao Brasil nessa &eacute;poca, de volta ao CBPF. O Beck insistiu    para que eu me candidatasse &agrave; livre-doc&ecirc;ncia na Universidade do    Brasil, e o trabalho que fiz com o Peierls, eu o usei como tese de livre-doc&ecirc;ncia    e apresentei-o na Faculdade de Filosofia.    <br>   A partir da&iacute; come&ccedil;ou uma competi&ccedil;&atilde;o entre mim e    o Leopoldo Nachbin, porque ele tinha entregado uma tese de titular e eu, a de    livre-doc&ecirc;ncia. O concurso foi sendo adiado, durante anos e anos, e a    gente competiu, quem seria o &uacute;ltimo a sobrar. Eu ganhei, pois ele acabou    fazendo e eu nunca fiz a livre-doc&ecirc;ncia. Numa &eacute;poca o Eremildo    Viana era o diretor da Faculdade, e o Beck foi reclamar porque ele n&atilde;o    nomeava uma banca, estando eu inscrito h&aacute; tanto tempo. E o Eremildo respondeu:    "Professor, eu estou trabalhando nisso". E o Beck disse a ele: "&Oacute;timo,    muito obrigado, professor Eremildo. Mas diga-me uma coisa: est&aacute; trabalhando    a favor ou contra?". O Beck era impag&aacute;vel.    <br>   O fato &eacute; que eu nunca fiz esse concurso de livre-doc&ecirc;ncia… Como    j&aacute; expliquei, eu dava cursos no CBPF e cheguei a ser nomeado na Faculdade    de Filosofia, porque esses cursos eram todos informais. Eles reconheciam como    curso da Faculdade, mas eu fui nomeado e, durante alguns meses, fui especialista    tempor&aacute;rio — e coloquei isso no meu curr&iacute;culo. Alguns anos depois    eu fiquei sabendo o que era um especialista tempor&aacute;rio: era a pessoa    que recebia por folha especial! Ent&atilde;o um dos meus t&iacute;tulos &eacute;    especialista tempor&aacute;rio. </font></P>     <p><font size="3"><b>No Museu Nacional tamb&eacute;m havia isso nessa &eacute;poca.</b>    <br>   Sim. Mas foi o &uacute;nico cargo realmente p&uacute;blico que eu exerci (se    &eacute; que era cargo), por algum tempo, antes de eu ir para os Estados Unidos.    <br>   A&iacute; foi a trag&eacute;dia do CBPF, era j&aacute; o governo Goulart, a    moeda tinha ido embora… A verba do CBPF tinha de ser votada todos os anos pelo    Congresso, era uma dota&ccedil;&atilde;o. Come&ccedil;ou ent&atilde;o aquela    infla&ccedil;&atilde;o galopante, a verba foi caindo e, como resultado, o sal&aacute;rio    de um titular passou a ser inferior a cem d&oacute;lares.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Bem, foi na volta dessa viagem do p&oacute;s-doutorado que eu conheci Micheline.    Ela trabalhava no CBPF, no laborat&oacute;rio do Jacques Danon, era assistente    e chegou a ser primeira assistente. O nosso casamento foi extremamente festejado,    porque ocorreu exatamente ao mesmo tempo que o jogo final da Copa do Mundo.    </font></P>     <p><font size="3"><b>Em 1962?</b>    <br>   Sim. Os convidados todos estavam de r&aacute;dio trans&iacute;stor, e o rabino    teve de interromper a cerim&ocirc;nia. S&oacute; conseguiu nos casar no intervalo    entre o primeiro e segundo tempo. </font></P>     <p><font size="3"><b>Brasil e Tchecoslov&aacute;quia, 3 a 1.</b>    <br>   Sim, n&oacute;s est&aacute;vamos num suspense tremendo para saber qual seria    o resultado. Podia ser um enterro ou uma festa. O Brasil venceu e a cidade inteira    estava festejando…    <br>   N&oacute;s fomos morar num apartamento aqui em Copacabana mesmo, na Ronald Carvalho,    durante um ano, e sobrava cada vez mais m&ecirc;s do que sal&aacute;rio. Micheline    com o sal&aacute;rio de primeira assistente e eu com sal&aacute;rio de professor    titular, pag&aacute;vamos o aluguel e sobrava pouco para a comida.    <br>   Assim, n&atilde;o dava mais para ficar no CBPF, e o Beck nos aconselhou a ir    para o exterior. Eu escrevi para a Universidade de Nova York, que tinha um departamento    onde a &aacute;rea em que eu estava trabalhando era muito valorizada, o Instituto    Courant de Ci&ecirc;ncias Matem&aacute;ticas, e eles me convidaram a ir para    l&aacute; como professor visitante.    <br>   A nossa filha mais velha, a Helena, tinha nascido e estava com cerca de tr&ecirc;s    meses de idade quando fomos, em setembro de 1963. Tivemos de lev&aacute;-la    &agrave; embaixada norte-americana para jurar que ela n&atilde;o pretendia assassinar    o presidente dos Estados Unidos! Um m&ecirc;s ou dois depois de chegarmos houve    o assassinato do Kennedy.    <br>   Est&aacute;vamos muito ligados ao Brasil e acompanh&aacute;vamos o que vinha    acontecendo, a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica se agravando. Foi a &eacute;poca    em que foi criada a Universidade de Bras&iacute;lia, e o Darcy Ribeiro tinha    convencido pessoas como o Salmeron e outros para irem para Bras&iacute;lia.    Ele queria que praticamente todo o CBPF fosse para l&aacute;. O Beck era contr&aacute;rio,    pois achava que aquilo era uma imprud&ecirc;ncia, e foi para a Argentina. O    Salmeron era o coordenador dos institutos e, em janeiro ou fevereiro de 1964,    passou por Nova York e convidou-nos para voltar, para a Universidade de Bras&iacute;lia.    Ele nos levou para jantar e come&ccedil;ou a contar das maravilhas da Universidade    de Bras&iacute;lia. O Darcy era o reitor e acho que tamb&eacute;m era chefe    da Casa Civil. Micheline perguntou ao Salmeron: "Mas, Roberto, n&oacute;s    estamos lendo sobre essa instabilidade e agita&ccedil;&atilde;o militar: ser&aacute;    que esse governo resiste?" E o Salmeron: "Eu conversei com o Darcy    logo antes de vir para c&aacute;", isso em fevereiro de 1964, "e ele    disse que o governo est&aacute; s&oacute;lido como uma rocha". E o resultado    foi que resolvemos aceitar o convite.    <br>   Eu tinha sido convidado a permanecer na New York University, mas est&aacute;vamos    mesmo querendo voltar. Eu tinha dois anos previstos de estada nos Estados Unidos    e resolvi passar o segundo ano num lugar diferente: a id&eacute;ia foi ir para    o Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados em Princeton. Eu escrevi uma carta ao    Oppenheimer, que respondeu quase que imediatamente. Era fora da &eacute;poca    e tudo, mas ele aceitou. Isso foi no in&iacute;cio de mar&ccedil;o de 1964.    Eu tinha l&aacute; um colega argentino, Alberto Sirlin, e eu gozava com ele    pelos golpes na Argentina. Dizia: "O Ex&eacute;rcito brasileiro &eacute;    democr&aacute;tico, no Brasil isso n&atilde;o acontece".    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Chegou evidentemente o 31 de mar&ccedil;o, e no 1º de abril eu me escondi de    Sirlin, n&atilde;o &eacute;? Mas a id&eacute;ia era de que a gente voltasse    logo para o Brasil, assim que terminasse o ano de estada em Princeton.    <br>   Tivemos bastante contato com o Oppenheimer, em rela&ccedil;&atilde;o com a situa&ccedil;&atilde;o    do Brasil, tamb&eacute;m porque ele se dizia preocupado. Eu j&aacute; o havia    conhecido antes disso, era uma personalidade muito curiosa.</font></P>     <p><font size="3"><b>Fale um pouco mais sobre o Oppenheimer.</b>    <br>   O Oppenheimer era na &eacute;poca o diretor do instituto e n&oacute;s mor&aacute;vamos    no nº 105, Einstein Brive. E no 107 morava o Samuel MacDowell, outro professor    do CBPF, tamb&eacute;m titular, que foi junto com a gente. Tinha ido um pouco    antes, at&eacute;.    <br>   O Oppenheimer veio jantar l&aacute; em casa, conosco e com o Samuel, preocupado    porque iria conversar com o embaixador do Brasil na &eacute;poca. N&atilde;o    me lembro dos detalhes, mas ele queria falar sobre os excessos que j&aacute;    estavam come&ccedil;ando a acontecer com os cientistas. Ent&atilde;o nos perguntava    a respeito disso e t&iacute;nhamos tamb&eacute;m conversas sobre a situa&ccedil;&atilde;o    dos Estados Unidos, pois tinha havido a invas&atilde;o, j&aacute; no governo    do Lyndon Johnson, em 1965, da Rep&uacute;blica Dominicana. E o Oppenheimer    dizia: "N&atilde;o, de fato, &eacute; uma coisa que eu acho n&atilde;o    deveria talvez ter acontecido, mas o presidente dos Estados Unidos conhece coisas    que a gente n&atilde;o conhece". Ent&atilde;o veja, depois de tudo que    tinha acontecido com ele, ele tinha aquela f&eacute; do norte-americano, de    que o presidente toma as decis&otilde;es porque est&aacute; melhor informado…    E, ao lado disso, ele nos consultava: "Eu ganhei a Gr&atilde;-Cruz do Cruzeiro    do Sul", ou algo assim, "ser&aacute; que no encontro com o embaixador    eu devo botar na lapela?". Era uma personalidade muito curiosa, muito mesmo.    Ele morreria pouco mais de um ano depois.    <br>   Entretanto, terminei um trabalho que teve muito sucesso, o Oppenheimer ficou    encantado e dei um semin&aacute;rio em que estavam o Chen Ning Yang, o Arthur    Wightman…    <br>   Bem, mas houve aquela onda de persegui&ccedil;&otilde;es e havia toda aquela    hist&oacute;ria j&aacute; sobre a fuga dos c&eacute;rebros. Ent&atilde;o foi    organizada uma reuni&atilde;o na embaixada do Brasil, para a qual foram convidados    os cientistas brasileiros que estavam nos Estados Unidos. O convite foi feito    pelo diplomata S&eacute;rgio Corr&ecirc;a da Costa e a reuni&atilde;o foi em    Washington, quando ele nos disse que todo pesquisador, voltando ao Brasil, teria    isen&ccedil;&atilde;o de impostos para importar um autom&oacute;vel dos Estados    Unidos. Eu fiz ent&atilde;o uma esp&eacute;cie de discurso, dizendo a ele que    n&atilde;o era isso que realmente significava para um cientista ter condi&ccedil;&otilde;es    de trabalhar, ou seja, que condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e de pesquisa    para um cientista n&atilde;o era ter um autom&oacute;vel importado, mas sim    ambiente de trabalho e de liberdade de express&atilde;o e pesquisa, incompat&iacute;veis    com o que estava acontecendo j&aacute; na &eacute;poca, de que est&aacute;vamos    bastante a par. (Ali&aacute;s, houve uma &eacute;poca em que existia o famoso    "visto de cientista", que era provavelmente usado por pessoal militar    que ia fazer curso de ingl&ecirc;s nos Estados Unidos. Quando essas pessoas    voltavam, com o visto de cientista, traziam um autom&oacute;vel.) Os anais dessa    confer&ecirc;ncia, foi prometido pelo Itamaraty que seriam publicados. Eu cheguei    a corrigir provas mas, evidentemente, nunca foi publicada coisa nenhuma.    <br>   Na altura de Princeton, as persegui&ccedil;&otilde;es eram in&uacute;meras e    chegamos &agrave; conclus&atilde;o de que n&atilde;o dava para voltar ao Brasil    nessas condi&ccedil;&otilde;es. Eu acho que j&aacute; tinha acontecido a invas&atilde;o    da Universidade de Bras&iacute;lia, a demiss&atilde;o de todo seu corpo docente,    com exce&ccedil;&atilde;o do Leopoldo Nachbin, que ficou na matem&aacute;tica…</font></P>     <p><font size="3"><b>Foi em 1966?</b>    <br>   Logo antes: foi a &eacute;poca em que est&aacute;vamos para sair de Princeton,    quando recebi um convite para a Universidade de Rochester. Isto tem a ver com    a hist&oacute;ria anterior, porque o Emil Wolf, que me convidou, migrou da Universidade    de Edimburgo para a Universidade de Rochester e me contou que, quando ele estava    para embarcar no navio, o Max Born, que era o orientador dele, com o qual ele    escreveu um tratado famoso de &oacute;tica, deu a ele a minha tese, que tinha    recebido do Guido Beck. Ele a leu ao viajar para os Estados Unidos, gostou muito    e fez quest&atilde;o de me levar para Rochester. Com a situa&ccedil;&atilde;o    de persegui&ccedil;&atilde;o que j&aacute; existia, aceitamos, tamb&eacute;m    com a id&eacute;ia de que era uma coisa tempor&aacute;ria. Mas, chegando a Rochester,    comecei a procurar mobilizar a comunidade cient&iacute;fica norte-americana    para tentar interceder junto ao governo brasileiro e proteger os cientistas    que estavam sendo perseguidos.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Naquela &eacute;poca havia jornais norte-americanos que davam as not&iacute;cias    verdadeiras do Brasil, que ningu&eacute;m aqui no Brasil recebia, ou pelo menos    nenhum jornal publicava. Comecei ent&atilde;o a organizar um arquivo de not&iacute;cias    do Brasil, que acabamos trazendo para o Brasil bem depois de voltarmos, porque    achamos que seria perigoso ter esse arquivo. Um dos jornais que mais trazia    not&iacute;cias era o Baltimore Sun, e assim sab&iacute;amos de casos que aqui    ningu&eacute;m conhecia.    <br>   Acabei escrevendo um artigo para a revista <I>Science</I> sobre a persegui&ccedil;&atilde;o    aos cientistas no Brasil, que eles aceitaram publicar. N&atilde;o s&oacute;    no Brasil, mas na Argentina tamb&eacute;m, porque tamb&eacute;m tinha havido    demiss&atilde;o em massa l&aacute;. Esse artigo chama-se "Migra&ccedil;&atilde;o    dos cientistas a partir da Am&eacute;rica Latina".    <br>   Havia no Brasil tamb&eacute;m tentativas de reuni&otilde;es, incluindo pessoas    que estavam fora, chamadas Simp&oacute;sio de F&iacute;sica Te&oacute;rica e    realizadas por, principalmente, Erasmo Ferreira. Viemos a duas ou tr&ecirc;s    dessas ocasi&otilde;es. Eu procurava trazer recortes e coisas comigo, para mostrar    para o pessoal. Numa dessas ocasi&otilde;es quase que apanharam o que eu estava    trazendo: fui abordado na esta&ccedil;&atilde;o rodovi&aacute;ria de S&atilde;o    Paulo, queriam que eu abrisse uma pasta para ver o que tinha dentro, se tinha    alguma mercadoria sem nota fiscal. No fim eu expliquei que eu tinha roupa de    baixo, coisas desse tipo, que eu n&atilde;o costumava ter nota fiscal dessas    coisas. Mas, se tivessem aberto a pasta, eu estaria em apuros.    <br>   Eu consegui me comunicar com v&aacute;rios cientistas da Academia de Ci&ecirc;ncias    dos Estados Unidos, tenho ainda cartas deles em arquivo, como John Wheeler e    os pr&ecirc;mios Nobel Chen Ning Yang e Murray Gell-Mann, por exemplo. Eles    me puseram em contato com outros aos quais eu transmitia not&iacute;cias sobre    a persegui&ccedil;&atilde;o aos cientistas. Um que tentou fazer alguma coisa    foi o Chen Ning Yang, que eu havia conhecido j&aacute; em Princeton e que fez    uma viagem para acompanhar o Nelson Rockefeller, na &eacute;poca governador    de Nova York, ao Brasil. Eu enviei a ele a documenta&ccedil;&atilde;o e ele    me escreveu dizendo que o Rockefeller tinha manifestado preocupa&ccedil;&atilde;o    ao se encontrar com o Costa e Silva, ainda o presidente, creio. Puseram panos    quentes na hist&oacute;ria, mas o Rockefeller deu sim o recado.</font></P>     <p><font size="3"><b>Foi interessante, por ocasi&atilde;o dessa visita do Rockefeller,    que v&aacute;rios professores foram presos exatamente por causa da visita.</b>    <br>   Pois &eacute;, ele estava assessorado pelo Yang, a quem eu mandava essas not&iacute;cias.    Quem fazia algo parecido na Europa era o Salmeron.    <br>   Eu tenho certeza de que na &eacute;poca devia haver um dossi&ecirc; a meu respeito,    pois sa&iacute;ram algumas not&iacute;cias.</font></P>     <p><font size="3"><b>O senhor chegou a sofrer alguma repres&aacute;lia por essas    atividades?</b>    <br>   N&atilde;o, nunca. Mas n&atilde;o sei se existe a lei aqui de tornar acess&iacute;vel    o arquivo a seu respeito.</font></P>     <p><font size="3"><b>Sim, agora &eacute; poss&iacute;vel.</b>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Eu n&atilde;o tive muita curiosidade, mas deve haver um arquivo grande. O n&uacute;mero    de telegramas de pr&ecirc;mios Nobel que foram mandados nessa &eacute;poca para    a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica aqui foi grande e ainda tenho c&oacute;pia    de alguns deles.    <br>   Um que passou por Nova York e que nos veio visitar foi o Marcio Moreira Alves,    pois na &eacute;poca j&aacute; sabia que eu estava procurando fazer alguma coisa.    <br>   Mas esse arquivo, n&oacute;s o t&iacute;nhamos guardado nos Estados Unidos e    s&oacute; anos depois de voltar &eacute; que realmente o trouxemos. Eu ainda    tenho alguma coisa aqui, muitos documentos.</font></P>     <p><font size="3"><b>E seu per&iacute;odo em Rochester?</b>    <br>   Passamos dez anos l&aacute; e, durante os primeiros anos, ainda como visitante,    com a id&eacute;ia a todo tempo de voltar ao Brasil.    <br>   Em 1968 veio o convite do Impa. Isso porque Elon Lima, um dos sobreviventes    do "holocausto de Bras&iacute;lia", era pesquisador do Impa. Ele tinha    ido a Nova York e n&oacute;s nos conhecemos l&aacute;; depois ele apareceu como    visitante em Rochester e ficou hospedado na nossa casa durante v&aacute;rios    meses.    <br>   Quando ele voltou ao Brasil, acabou vindo um convite do Impa para que eu voltasse,    para ser o "A" do Impa, porque o Instituto era de Matem&aacute;tica    Pura e Aplicada mas n&atilde;o tinha matem&aacute;tica aplicada. Eu ent&atilde;o    aceitei o convite, pois est&aacute;vamos querendo voltar. Veio o Maur&iacute;cio    Peixoto para Rochester, para formalizar o convite, mas, no dia em que ele chegou,    de manh&atilde; bem cedo, chegou um telegrama via Western Union do Ernesto Hamburger,    como presidente em exerc&iacute;cio da Sociedade Brasileira de F&iacute;sica,    me comunicando que Leite Lopes, Schenberg, Tiomno, todos esses tinham sido aposentados    pelo Ato Institucional nº 5. Eu fui receber o Maur&iacute;cio Peixoto no aeroporto    de Rochester, mostrei-lhe o telegrama e disse-lhe: "Olha, Maur&iacute;cio,    nessas condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o vai dar para aceitar o convite do    Impa". Assim, resolvemos que &iacute;amos ficar por bem mais tempo nos    Estados Unidos do que t&iacute;nhamos planejado.    <br>   O estado de Nova York nessa altura quis trazer cientistas de peso para l&aacute;    e criou duas c&aacute;tedras: a c&aacute;tedra Albert Schweitzer e a c&aacute;tedra    Albert Einstein. Uma das c&aacute;tedras, a Albert Einstein, foi dada para o    Yang, em Stonybrook; e a outra para o Elliot Montroll, em Rochester. E o Montroll    me convidou para ficar no que se chamava Instituto de Estudos Fundamentais,    associado com a f&iacute;sica e tamb&eacute;m com essa c&aacute;tedra. Veio    ent&atilde;o o Ato Complementar do AI-5 e o Decreto….</font></P>     <p><font size="3"><b>Quatro, sete, sete.</b>    <br>   Sim, mas acho que antes disso veio aquele Ato Complementar que proibia institui&ccedil;&otilde;es    subvencionadas pelo governo de ter aposentados como contratados. O CBPF, que    era nessa altura comandado pelo almirante Otac&iacute;lio Cunha, resolveu cumprir    aquele Ato Institucional e demitiu o &#91;Jayme&#93; Tiomno, o &#91;Jos&eacute;&#93; Leite Lopes,    a Elisa Frota Pessoa. N&oacute;s, at&eacute; essa &eacute;poca, est&aacute;vamos    de licen&ccedil;a do CBPF, pois nunca t&iacute;nhamos pensado em ficar nos Estados    Unidos.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Ent&atilde;o Micheline, que era assistente, eu, o MacDowell e o Fernando Souza    Barros mandamos uma carta de demiss&atilde;o ao Otac&iacute;lio Cunha, que nos    respondeu dizendo que j&aacute; t&iacute;nhamos sido demitidos h&aacute; muito    tempo. O que era completamente mentira, pois t&iacute;nhamos estado no Brasil    e fui convidado para uma reuni&atilde;o no Centro T&eacute;cnico-Cient&iacute;fico    do CBPF nessa &eacute;poca em que ele disse que j&aacute; est&aacute;vamos demitidos    h&aacute; muito tempo. </font></P>     <p><font size="3"><b>Quando o senhor voltou para S&atilde;o Paulo?</b>    <br>   Em 1975, quando j&aacute; est&aacute;vamos h&aacute; doze anos nos Estados Unidos,    come&ccedil;ou a dar a impress&atilde;o de que ia haver uma redemocratiza&ccedil;&atilde;o.    O fato &eacute; que nessa altura o Goldemberg era o diretor do Instituto de    F&iacute;sica da USP e me convidou a fazer um concurso para professor titular,    o que aceitei.    <br>   Chegamos a S&atilde;o Paulo e o que eu tinha estabelecido com o Goldemberg &eacute;    que uma das condi&ccedil;&otilde;es era criar no Instituto de F&iacute;sica    da USP um Departamento de F&iacute;sica Te&oacute;rica. Comecei dando um curso    de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o e, em um semestre, percebi que o curso    mais importante que eu tinha de dar l&aacute; n&atilde;o era esse, mas na gradua&ccedil;&atilde;o.    Porque a gradua&ccedil;&atilde;o tinha ficado profundamente alterada pela cria&ccedil;&atilde;o    do instituto, o que foi um efeito da UnB, de criar institutos e, com isso, os    departamentos passaram a ter outras responsabilidades.    <br>   O Departamento de F&iacute;sica, que anteriormente formava uma d&uacute;zia    de estudantes por ano na gradua&ccedil;&atilde;o, passou a ter de dar curso    para milhares de alunos, da engenharia e muitas outras &aacute;reas. Isso criou    um ensino de massa e foi uma influ&ecirc;ncia nefasta, porque pessoas que tinham    sido pesquisadores passaram a se dedicar quase integralmente ao ensino, o que    prejudicou tremendamente sua carreira de pesquisa.    <br>   Sobre a cria&ccedil;&atilde;o do departamento, este passou a ser Departamento    de F&iacute;sica Matem&aacute;tica porque n&atilde;o aceitaram o nome F&iacute;sica    Te&oacute;rica. Na primeira reuni&atilde;o de Congrega&ccedil;&atilde;o de que    eu participei, fui apresentado pelo Goldemberg e estava presente a representante    dos alunos, que disse imediatamente que ia apresentar uma mo&ccedil;&atilde;o    de desconfian&ccedil;a contra mim.</font></P>     <p><font size="3"><b>Por qu&ecirc;?</b>    <br>   Porque eu estava vindo daquele grande pa&iacute;s do Norte e, assim, por defini&ccedil;&atilde;o    j&aacute; era uma pessoa suspeita. Essa foi a minha recep&ccedil;&atilde;o na    USP.    <br>   O departamento custou para ser criado porque teve forte oposi&ccedil;&atilde;o.    <br>   Um professor titular, na reuni&atilde;o da Congrega&ccedil;&atilde;o, disse    que o departamento, tal como eu havia proposto, com aquela lista de pessoas,    era inaceit&aacute;vel porque era bom demais, o que destoava com o resto do    instituto. Ent&atilde;o era preciso mediocrizar o departamento, colocando pessoas    mais fracas.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Nesses termos?</b>    <br>   Sim, deve constar em ata. N&atilde;o sei se ele usou o termo "mediocrizar",    mas foi essencialmente essa a id&eacute;ia.</font></P>     <p><font size="3"><b>A id&eacute;ia talvez de equilibrar os departamentos?</b>    <br>   O fato &eacute; que o departamento foi criado, vai completar trinta anos em    outubro. </font></P>     <p><font size="3"><b>E foi j&aacute; criado com o nome de F&iacute;sica Matem&aacute;tica?</b>    <br>   Sim, porque o nome de F&iacute;sica Te&oacute;rica s&oacute; podia ser usado    para um departamento de que participasse o Mario Schenberg, que j&aacute; tinha    sido aposentado.    <br>   Bem, a&iacute; vem a hist&oacute;ria sobre a anistia, alguns anos mais tarde,    e a SBPC participou desse movimento com uma mo&ccedil;&atilde;o pedindo a anistia    dos professores que tinham sido aposentados. N&oacute;s a levamos num v&ocirc;o    para Bras&iacute;lia, durante o qual fizemos muitas corre&ccedil;&otilde;es.    O fato &eacute; que chegamos na hora do almo&ccedil;o em Bras&iacute;lia e tive    de datilografar novamente toda a mo&ccedil;&atilde;o e tirar c&oacute;pias dela,    e s&oacute; havia um lugar que tinha m&aacute;quina xerox e estava aberto naquele    hor&aacute;rio, que era o SNI. As c&oacute;pias foram feitas ent&atilde;o na    sala do SNI! S&atilde;o coisas da hist&oacute;ria, muito engra&ccedil;adas.    <br>   Entregamos essa mo&ccedil;&atilde;o ao ministro da Justi&ccedil;a da &eacute;poca,    que a recebeu muito bem. Disse que ficava muito contente, porque conhecia pessoalmente    o Schenberg, que era uma pessoa muito importante.    <br>   Antes disso, sobre a cria&ccedil;&atilde;o do Departamento de F&iacute;sica    Matem&aacute;tica, esqueci-me de citar que convidei o Rudolf Peierls, que estava    em Oxford, para sua inaugura&ccedil;&atilde;o. Ele veio com a esposa, uma pessoa    interessant&iacute;ssima, uma russa encantadora.    <br>   Enfim, o departamento foi inaugurado. Poucos meses depois chegou a &eacute;poca    da sucess&atilde;o do Goldemberg como diretor do instituto, e os nomes dos titulares,    segundo o regimento, tinham de ser mandados para a reitoria na lista de candidatos.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Um belo dia eu chego ao instituto e me dizem: "Olha, voc&ecirc; &eacute;    o diretor. Saiu no <I>Di&aacute;rio Oficial</I> de hoje". O reitor me nomeara    sem qualquer consulta.</font></P>     <p><font size="3"><b>Quem era o reitor?</b>    <br>   Waldir Muniz Oliva, um matem&aacute;tico. Eu ent&atilde;o mandei imediatamente    uma carta para ele, dizendo: "Muito obrigado, mas eu acabei de criar um    departamento, me elegeram como chefe e tenho muito carinho por ele, quero ficar    aqui. N&atilde;o aceito".    <br>   A resposta dele foi um ultimato ao instituto: ou eu aceitava ou ele iria nomear    um interventor. O diretor seria uma pessoa de fora do instituto. Evidentemente    o pessoal me pressionou em lugar de pressionar o reitor e, no final, n&atilde;o    tive outro recurso: tornei-me diretor do Instituto de F&iacute;sica. Fiquei    nesse cargo durante quase os quatro anos do mandato. N&atilde;o vou entrar muito    em detalhes sobre tudo que aconteceu l&aacute; no Instituto, mas algumas coisas    devo contar.    <br>   No dia do assassinato do Vladimir Herzog, a Cidade Universit&aacute;ria foi    cercada e nenhum autom&oacute;vel podia entrar. Lembro-me de que, naquele dia,    fui de bicicleta para l&aacute;, e os milicos que estavam de guarda n&atilde;o    tinham nenhuma ordem sobre bicicletas, ent&atilde;o deixaram-me entrar. Foi    assim que entrei no Instituto.    <br>   Como diretor, uma das crises que tive que enfrentar foi, por o instituto ser    considerado um antro de subvers&atilde;o, haver um plano de algum setor, do    SNI talvez, de invadi-lo e destruir seus arquivos para justificar uma interven&ccedil;&atilde;o    federal. Porque, sendo esses arquivos de responsabilidade do MEC, se fossem    destru&iacute;dos, isso podia justificar uma interven&ccedil;&atilde;o militar.    Tive ent&atilde;o de ir, juntamente com Micheline, v&aacute;rias noites seguidas    ao instituto, trancando todas as salas, os arquivos, para proteg&ecirc;-los    contra esse tipo de coisa. </font></P>     <p><font size="3"><b>E ent&atilde;o o senhor foi para a PUC do Rio de Janeiro?</b>    <br>   Sim, onde o Centro T&eacute;cnico-Cient&iacute;fico, com o apoio institucional    da Finep, na &eacute;poca, mantinha um centro muito importante porque j&aacute;    tinha adotado o ensino em termos de ciclo b&aacute;sico. Os professores davam    aula em conjunto para f&iacute;sicos, qu&iacute;micos, matem&aacute;ticos, engenheiros    e s&oacute; depois de dois anos se fazia uma op&ccedil;&atilde;o.    <br>   Ao chegar ao Rio, come&ccedil;ou a hist&oacute;ria da famosa iniciativa Rosenberg–Moura    Castro de "racionaliza&ccedil;&atilde;o" das entidades de apoio &agrave;    pesquisa: Finep, CNPq e Capes.    <br>   Mas, antes, eu fora presidente da Sociedade Brasileira de F&iacute;sica, que    incluiu o Luiz Davidovich como secret&aacute;rio geral, muito importante para    a organiza&ccedil;&atilde;o de reuni&otilde;es t&oacute;picas mas tamb&eacute;m    do ponto de vista mais amplo da pol&iacute;tica. Nessa &eacute;poca, quando    terminou a ditadura na Argentina, foi organizada a I Reuni&atilde;o da Asociaci&oacute;n    F&iacute;sica Argentina e convidaram-me, como presidente da Sociedade Brasileira    de F&iacute;sica, a participar. Foi nessa reuni&atilde;o que pela primeira vez    eles entraram em detalhes sobre o Programa Nuclear Argentino, que transcorria    em grande parte no Centro At&ocirc;mico de Bariloche. V&aacute;rios dados foram    divulgados sobre isso.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   O presidente da AFA era um colega de Bariloche e n&oacute;s voltamos juntos    de avi&atilde;o, de C&oacute;rdoba ou La Plata, j&aacute; n&atilde;o me lembro,    para Buenos Aires. Fui sentado ao lado dele e propus-lhe um manifesto conjunto    da Sociedade Brasileira de F&iacute;sica e da Asociaci&oacute;n F&iacute;sica    Argentina condenando qualquer participa&ccedil;&atilde;o de f&iacute;sicos brasileiros    ou argentinos em programas militares de armamentos e, evidentemente, programas    at&ocirc;micos; propus tamb&eacute;m que procur&aacute;ssemos abrir os programas    militares nessa &aacute;rea entre argentinos e brasileiros. Esse manifesto seria    de fato depois publicado.    <br>   Nomeei uma comiss&atilde;o que inclu&iacute;a o Fernando de Souza Barros, o    Luiz Pinguelli, acho que tamb&eacute;m o Sergio Rezende. Eles fizeram um levantamento,    foram inclusive ao ITA, e finalmente prepararam um documento para a Sociedade    Brasileira de F&iacute;sica, que foi apresentado numa reuni&atilde;o anual.    Depois do qu&ecirc;, foi proibida a visita de f&iacute;sicos a qualquer uma    dessas institui&ccedil;&otilde;es. Mas uma das conseq&uuml;&ecirc;ncias disso    foi que meu sucessor na presid&ecirc;ncia da SBF, Fernando Souza Barros, junto    com o Luiz Pinguelli, acabaram fazendo aquela descoberta do po&ccedil;o da Serra    do Cachimbo. Tudo isso levaria, finalmente, a um acordo Brasil — Argentina que    funciona at&eacute; hoje.    <br>   Por essa atua&ccedil;&atilde;o a Sociedade Brasileira de F&iacute;sica ganhou    um pr&ecirc;mio internacional, e Joseph Rotblat, Pr&ecirc;mio Nobel da paz,    tamb&eacute;m comentou sobre isso, afirmando que havia sido uma coisa importante.    E essa Zona Desmilitarizada Nuclear Brasil — Argentina continua sendo important&iacute;ssima    at&eacute; hoje.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i>A entrevista do prof. Moys&eacute;s Nussensweig &eacute;    uma fonte importante para a recupera&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria da    ci&ecirc;ncia no Brasil. Poder&iacute;amos prosseguir com ele para completar    o quadro aqui tra&ccedil;ado. Esperamos continuar nossa conversa em nova entrevista.</i></font></P>     <p><font size="3"><I>Entrevista concedida a </i><b>Alzira Alves de Abreu</b><I>    (CPDOC/FGV), </I><b>Gilberto Velho</b><I> (Museu Nacional/UFRJ) e </I><b>Luiz    Davidovich</b><I> (UFRJ) em 1 de junho de 2007.</i></font></P>      ]]></body>
</article>
