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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n1/tendenc.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size=5><b>A miss&atilde;o de divulgar ci&ecirc;ncia    no brasil</b></font></P>     <p align="center"><font size="3"><i><b>Alicia Ivanissevich</b></i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><font size=5><b>C</b></font>omo nossos jovens compreendem    o mundo? Que tipo de conhecimento cient&iacute;fico guardam do que lhes &eacute;    ensinado na escola? S&atilde;o eles capazes de alcan&ccedil;ar uma forma&ccedil;&atilde;o    cr&iacute;tica que lhes permita enfrentar os problemas do dia&#45;a&#45;dia e transformar    a realidade? A primeira resposta que vem &agrave; mente n&atilde;o &eacute;    das mais felizes: nossos estudantes saem da escola despreparados para a vida    real. O desalento se agrava quando nos confrontamos com os dados dispon&iacute;veis.    Nas &uacute;ltimas avalia&ccedil;&otilde;es nacionais e internacionais para    disciplinas cient&iacute;ficas, como a Prova Brasil, o Enem &#91;Exame Nacional    do Ensino M&eacute;dio&#93; e o Pisa &#91;Programa Internacional de Avalia&ccedil;&atilde;o    de Estudantes&#93;, os brasileiros alcan&ccedil;aram notas baixas e est&atilde;o    entre os &uacute;ltimos colocados no <I>ranking </I>dos pa&iacute;ses estudados.    </font></P>     <p><font size="3">Mas onde estariam os focos do mau desempenho brasileiro? O primeiro    deles, certamente, encontra&#45;se na forma&ccedil;&atilde;o docente, muitas vezes    superficial e, sobretudo, desvinculada das ci&ecirc;ncias a serem trabalhadas    com os alunos. Como em outros pa&iacute;ses, h&aacute; uma cis&atilde;o entre    teoria e pr&aacute;tica. O professor tem dificuldades em tornar interessante    e motivador o estudo das ci&ecirc;ncias para os alunos. Os curr&iacute;culos    s&atilde;o compartimentados entre as diversas ci&ecirc;ncias, e h&aacute; dificuldade    em se estabelecer a interdisciplinaridade t&atilde;o necess&aacute;ria ao s&eacute;culo    XXI. Os laborat&oacute;rios de ci&ecirc;ncias, os computadores e as bibliotecas    s&atilde;o recursos ainda escassos em nossas escolas, sobretudo no ensino fundamental.    Como aprender ci&ecirc;ncias apenas com um quadro e giz, olhando a nuca dos    colegas e ouvindo a voz do professor? </font></P>     <p><font size="3"><B>QUEST&Atilde;O DO ENSINO </b>A lista de problemas da nossa    educa&ccedil;&atilde;o &eacute; extensa e o diagn&oacute;stico not&oacute;rio.    A forma&ccedil;&atilde;o inicial dos professores &eacute; insuficiente e deficiente,    e a forma&ccedil;&atilde;o permanente quase inexiste. Os sal&aacute;rios nesse    setor s&atilde;o baixos e o material did&aacute;tico &eacute; insatisfat&oacute;rio.    H&aacute; defici&ecirc;ncias de aprendizagem em todas as esferas: nas escolas    p&uacute;blicas e privadas. Nosso n&iacute;vel de analfabetismo funcional &eacute;    elevado, e os investimentos na &aacute;rea educacional n&atilde;o s&atilde;o    priorit&aacute;rios. Faltam professores qualificados em todas as &aacute;reas,    com especial d&eacute;ficit nas disciplinas cient&iacute;ficas. </font></P>     <p><font size="3">Infelizmente, esse sistema de ensino &#150; que n&atilde;o oferece    ao aluno o conhecimento e a cr&iacute;tica indispens&aacute;veis para formar    seu pr&oacute;prio pensamento e enfrentar com &ecirc;xito os problemas futuros    &#150; ainda prevalece no pa&iacute;s. Continuamos formando professores que assistem,    passivos, &agrave;s aulas, e que provavelmente reproduzir&atilde;o essa grotesca    vers&atilde;o de educa&ccedil;&atilde;o com seus alunos. Isso na era das telecomunica&ccedil;&otilde;es,    com redes de inform&aacute;tica amplamente disseminadas. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Sabemos que a ci&ecirc;ncia e a tecnologia s&atilde;o ferramentas    cada vez mais indispens&aacute;veis nas tarefas cotidianas. Os instrumentos,    processos e pr&aacute;ticas que utilizamos na sociedade moderna &#150; tarefas como    atender ao telefone, usar o computador, sacar dinheiro com cart&atilde;o magn&eacute;tico    ou ouvir o progn&oacute;stico do tempo pelo r&aacute;dio &#150; baseiam&#45;se em teorias    e conceitos cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos. Entretanto, grande parte    da popula&ccedil;&atilde;o brasileira n&atilde;o sabe apreciar o alcance desse    conhecimento. Parte bastante representativa da sociedade est&aacute; composta    por grande n&uacute;mero do que poder&iacute;amos chamar de "analfabetos    cient&iacute;ficos", que, por n&atilde;o compreenderem o impacto dos avan&ccedil;os    cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos em suas vidas, n&atilde;o conseguem    opinar ou tomar decis&otilde;es sobre os rumos que devem tomar as pesquisas    que eles mesmos ajudam a manter com o pagamento de impostos. </font></P>     <p><font size="3">Para contar com a participa&ccedil;&atilde;o efetiva da sociedade    na tomada de decis&otilde;es de impacto social, assim como na proje&ccedil;&atilde;o    de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, parece clara a necessidade de manter a    popula&ccedil;&atilde;o bem informada. Nesse sentido, os jornalistas cient&iacute;ficos,    assim como os pesquisadores, t&ecirc;m um importante papel a cumprir. Por meio    da divulga&ccedil;&atilde;o precisa e respons&aacute;vel dos avan&ccedil;os    t&eacute;cnico&#45;cient&iacute;ficos e dos impactos que eles possam ter sobre as    pessoas, esses profissionais podem contribuir de forma decisiva para a constru&ccedil;&atilde;o    de uma consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica da sociedade brasileira. </font></P>     <p><font size="3"><B>MISS&Atilde;O REDOBRADA</b> Como instrumento de inclus&atilde;o    social da popula&ccedil;&atilde;o, a populariza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia    deve atingir todas as camadas e faixas et&aacute;rias da sociedade. No Brasil,    essa &eacute; uma tarefa &aacute;rdua, uma vez que nosso ensino fundamental    &eacute; deficiente e a dist&acirc;ncia entre a comunidade cient&iacute;fica    e a popula&ccedil;&atilde;o &eacute; enorme. N&atilde;o temos tradi&ccedil;&atilde;o    de leitura. Faltam professores capacitados para ensinar ci&ecirc;ncia nas escolas.    S&atilde;o poucos os cientistas que valorizam e reservam um tempo para divulgar    suas pesquisas. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o v&ecirc;em    a ci&ecirc;ncia e a educa&ccedil;&atilde;o como temas lucrativos, destinando&#45;lhes,    por essa raz&atilde;o, pouco espa&ccedil;o. O que pode ser feito ent&atilde;o?</font></P>     <p><font size="3">Temos que come&ccedil;ar do in&iacute;cio. Isso significa investir    na forma&ccedil;&atilde;o de nossas crian&ccedil;as desde muito cedo. As habilidades    cognitivas desenvolvidas na primeira inf&acirc;ncia s&atilde;o essenciais para    que o aluno consiga acompanhar os conhecimentos mais complexos que lhe ser&atilde;o    apresentados mais tarde. Estudos mostram que, quando isso n&atilde;o ocorre,    a probabilidade de se compensar essa defici&ecirc;ncia por meio de investimentos    em n&iacute;veis mais avan&ccedil;ados de escolaridade &eacute; muito baixa.    </font></P>     <p><font size="3">&Eacute; preciso, portanto, encontrar instrumentos que ajudem    a desenvolver desde muito cedo o potencial criativo das crian&ccedil;as, seja    na educa&ccedil;&atilde;o formal, seja atrav&eacute;s de recursos paradid&aacute;ticos.    A crian&ccedil;a deve poder explorar e experimentar o mundo sem medo e deve    ser apresentada &agrave;s diferentes &aacute;reas do conhecimento de forma l&uacute;dica.    Ao estimular, j&aacute; nos primeiros anos de vida, a imagina&ccedil;&atilde;o    da crian&ccedil;a, apresentando&#45;lhe conte&uacute;dos cient&iacute;ficos de forma    agrad&aacute;vel, despertando sua curiosidade e incentivando&#45;a a pensar sobre    o que leva um objeto ou processo a ser do modo que &eacute;, ela poder&aacute;    formar seus pr&oacute;prios valores, refletir de forma cr&iacute;tica sobre    aquilo que se lhe apresenta e definir com discernimento seus interesses futuros.</font></P>     <p><font size="3"><B>O PAPEL DO JORNALISTA CIENT&Iacute;FICO </b>Mas de que forma    jornalistas e pesquisadores podem contribuir para promover esse aprendizado,    para melhorar a educa&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncia &#150; t&atilde;o prec&aacute;ria    &#150; no Brasil? </font></P>     <p><font size="3">A m&iacute;dia tem um papel fundamental: o de manter a popula&ccedil;&atilde;o    informada para que ela possa questionar, duvidar e formar suas pr&oacute;prias    opini&otilde;es a respeito dos temas veiculados. Os jornalistas especializados    em ci&ecirc;ncia podem buscar meios &#150; sejam blogs, suplementos, publica&ccedil;&otilde;es,    programas de r&aacute;dio e TV &#150; que se voltem para a popula&ccedil;&atilde;o    infantil e que ajudem a estimular a curiosidade pela ci&ecirc;ncia desde muito    cedo. </font></P>     <p><font size="3">Para fazer um bom trabalho, o jornalista de ci&ecirc;ncia deve    procurar construir uma reportagem equilibrada, em que diversas vozes sejam ouvidas,    e que n&atilde;o induza o leitor, ouvinte ou telespectador a fazer dedu&ccedil;&otilde;es    precipitadas. O importante &eacute; saber ponderar dados, resultados e argumentos    ao lado de medos, desconfian&ccedil;as e incertezas. A d&uacute;vida deve estar    presente, mesmo em reportagens para crian&ccedil;as, porque o mundo do conhecimento    se constr&oacute;i com questionamentos.</font></P>     <p><font size="3">O bom jornalista deve ser capaz de aproximar mundos distantes,    como a comunidade cient&iacute;fica e a sociedade. Tem que saber diferenciar    <I>fatos</I> de <I>promessas, resultados</I> de <I>fraudes, estrelas</I>    de <I>estrelismos</I>. E deve buscar sempre o equil&iacute;brio entre o alarmismo    exagerado e o encantamento com as maravilhas da t&eacute;cnica.</font></P>     <p><font size="3"><B>A MISS&Atilde;O DOS CIENTISTAS </b>&Eacute; tamb&eacute;m    miss&atilde;o dos pesquisadores popularizar a ci&ecirc;ncia. &Eacute; com a    divulga&ccedil;&atilde;o de seus trabalhos que os cientistas prestam contas    &agrave; sociedade. Mostrando a produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento feita    no pa&iacute;s, a comunidade cient&iacute;fica se aproxima da popula&ccedil;&atilde;o,    que passa ent&atilde;o a entender o verdadeiro valor de investir em pesquisa.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Ao falar sobre seu trabalho, o cientista pode derrubar o muro    da superespecializa&ccedil;&atilde;o, que torna os resultados de pesquisa de    um especialista cada vez mais incompreens&iacute;veis para colegas de outras    &aacute;reas. Al&eacute;m disso, bons artigos e programas de divulga&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica podem ser fontes complementares para professores do ensino    fundamental, m&eacute;dio e universit&aacute;rio. Sem contar a possibilidade    de se despertar voca&ccedil;&otilde;es para carreiras cient&iacute;ficas e tecnol&oacute;gicas.    </font></P>     <p><font size="3">A socializa&ccedil;&atilde;o do saber produzido no pa&iacute;s    deve ser considerada, portanto, uma <I>miss&atilde;o</I> para o cientista. </font></P>     <p><font size="3"><B>MUITO POR FAZER</b> Apesar das dificuldades que todos os    profissionais envolvidos na divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica enfrentam    num pa&iacute;s com as dimens&otilde;es e a diversidade cultural do Brasil,    considero que muito tem sido feito nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. H&aacute;    25 anos, a <I>Ci&ecirc;ncia Hoje</I> era a &uacute;nica revista de divulga&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica do pa&iacute;s e eram poucos os colunistas, como Jos&eacute;    Reis, que se dedicavam a popularizar o conhecimento cient&iacute;fico. Havia    um ou outro programa de r&aacute;dio e TV e ainda n&atilde;o existiam editorias    de ci&ecirc;ncia especializadas em jornais e revistas. Hoje, h&aacute; em torno    de cinco publica&ccedil;&otilde;es dedicadas &agrave; &aacute;rea, temos bons    programas de r&aacute;dio e televis&atilde;o, h&aacute; dezenas de<I> blogs</I>    e <I>sites</I> voltados para o tema, e excelentes profissionais trabalhando    nas principais reda&ccedil;&otilde;es do pa&iacute;s. Al&eacute;m disso, existem    museus e espa&ccedil;os culturais que tentam atrair o p&uacute;blico infanto&#45;juvenil    e adulto para o mundo do conhecimento cient&iacute;fico.</font></P>     <p><font size="3">Se bem h&aacute; muito por fazer, muito j&aacute; foi feito    e temos motivos para comemorar. O importante &eacute; ampliarmos, cada vez mais,    nosso alcance, e criarmos novos espa&ccedil;os de divulga&ccedil;&atilde;o para    crian&ccedil;as, de modo que possamos concretizar nossa miss&atilde;o de popularizar    a ci&ecirc;ncia em todo o pa&iacute;s. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I><b>Alicia Ivanissevich</b> &eacute; editora executiva da    revista </i>Ci&ecirc;ncia Hoje<I> e vencedora do Pr&ecirc;mio Jos&eacute; Reis    de Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica (2008).</i></font></P>      ]]></body>
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